O indefensável



Martin Silva falhou no gol do Grêmio (Foto: Digue Cardoso/Agência Freelancer)

Um vascaíno consciente, antes de um duelo contra o Grêmio, em Porto Alegre, se mune de duas armas: um lenço, para estancar a sangria lacrimal que comumente lhe escorre dos olhos após o apito final, e uma garrafa de  vodka, para deturpar a memória. Sem vencer o Tricolor no Sul há 12 anos, nem um otimista apostaria dois litrões com o vizinho em um triunfo. A derrota cruz-maltina como visitante é tão tradicional quanto o chimarrão por aquelas bandas. A forma, entretanto, é que por vezes nos arranca a pequena alegria presente no empate fora de casa.

Não são mais necessários uniformes diferentes, como em outras épocas, para se distinguir os times de Vasco e Grêmio em campo. Basta jogar uma bola pra cima e ver quem a domina e quem a despacha. No primeiro chutão, identificará os cariocas. Quando ela repousar, verá um gremista de sua posse. Ainda assim, a equipe de São Januário foi capaz de largar na frente no marcador.

O tento vascaíno saiu numa Lei do Ex, tradicionalmente cretina, que se apresentou ainda mais pungente ao nascer não na conclusão, mas no preparo do gol. De Galhardo, ex-reserva de Fabrício, para Maxi López, ex-Grêmio, que devolveu para o meia com um indecoroso calcanhar por entre as pernas, como no tradicional passo de tango onde os membros se entrelaçam sem que embolem. Um golaço vascaíno poucas vezes visto nesta temporada.

A Lei do Ex, entretanto, é uma vigarista que bate dos dois lados. E da mesma maneira.

Se Maxi foi o responsável pelo preparo do gol vascaíno, Léo Moura, que vestiu a camisa do clube de São Januário no longínquo ano de 2002, foi o garçom no empate gremista. E com um lance cantado e anunciado há anos.

Me recordo bem de uma entrevista do lateral, em meados dos anos 2000, em que afirmava que Romário havia lhe ensinado a cruzar. A dica do Baixinho era simples: perto ou dentro da área, é levantamento no segundo pau; se for de longe, é no primeiro. Mais de uma década depois, a dica de Romário parece tatuada no pé direito de Léo, como uma prece a ser repetida pelo jogador em todas as manhãs. Uma espécie de mantra transformador, o seu elixir da juventude, que o faz ser decisivo e letal ainda aos 40 anos de idade. Sorte de Jael, que não perdoou nem bola e nem trave na hora de balançar as redes.

A rápida resposta gaúcha impediu o vascaíno de se acomodar no sofá com a tranquilidade que se aguarda de um domingo a tarde. O empate, entretanto, era mais do que se esperava do time. Quando a partida entrou nos acréscimos com o Grêmio tendo finalizado apenas outras três vezes além do gol, o ponto inesperado parecia certo e inabalável. Até que veio o indefensável.

Como disse no início, a derrota no Sul é uma tradição vascaína, uma herança. Ou até mesmo uma maldição, talvez iniciada na goleada cruz-maltina por 6 a 1 no primeiro duelo entre os clubes, em 1945. Lá em Grêmio, como diriam alguns. Atropelo comandado pelo uruguaio Berascochea, autor de um dos gols cariocas – Jair Rosa Pinto, Lelé, João Pinto, Chico e Hugo, contra, fizeram os outros; Ramón Castro, outro nascido no Uruguai, descontou. A maneira como aconteceu neste domingo, entretanto, foi dolorosa.

O gol nos acréscimos por si só é cruel e irônico como morrer engasgado com um amendoim durante a celebração de uma alta do hospital após um infarto. É uma morte que chega no momento em que deveria estar celebrando a vida. Porque é isso que um empate com o Grêmio fora de casa representaria para o Vasco: sobrevivência.

E não foi um acréscimo qualquer, foram sete longos minutos acrescidos pelo árbitro. E sete minutos, amigos, não é acréscimo, é prorrogação. Um novo jogo, eu diria, onde quem precisa mais cresce, e quem mais tem medo se apequena. Um destes minutos, inclusive, aumentados graças a Martin Silva, o personagem trágico da derrota. Mais um uruguaio do duelo.

O chute de Mateus Henrique era mais defensável que a titularidade de Maxi López. Um arremate desesperado, uma última flecha atirada para o alto em meio a reza para acertar o alvo. Uma bola que aos 20 do 1º tempo seria abraçada com a tranquilidade e a clareza de um budista, mas que aos 49 da etapa final se tornou o calvário de um já inconstante Martin. A falha de Silva foi tão indefensável quanto suas duas últimas temporadas cheias de altos, baixos e pouquíssimas críticas – como já detalhei no ano passado – e, principalmente, autocrítica.

Uma derrota em Porto Alegre está nos planos de qualquer visitante, é normal e previsível. Mas quando se tem a chance de evitá-la e a perde de maneira tão pueril, é indefensável. Assim como quem já defendeu e foi defendido várias vezes, e hoje já não tem mais defesa, nem em chute defensável.

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