O golaço de falta



Benítez marcou um belo gol contra o Palmeiras (Foto: Gustavo Gizzi/Photo Premium)

“Não existe golaço de falta”.

A afirmação, obviamente equivocada, é do meu amigo Fernando Martinho, jornalista, editor da Corner – onde lancei meu segundo livro. Uma alegação que, não só considero falsa, como penso exatamente o oposto: todo gol de falta é golaço.

O de Benítez, nesta terça-feira, contra o Palmeiras, é mais uma prova disso.

Veja bem, a cobrança de falta direta é um dos momentos mais previsíveis do futebol. Um dos que menos permite improvisações ou mudanças bruscas. Fica atrás apenas da cobrança de pênalti.

Até um lateral, por mais simples que pareça, tem suas variáveis – inclusive para o erro, como foi no que resultou o gol palmeirense. A batida direta, não.

É o árbitro quem define a posição da bola. É o goleiro adversário quem arma a barreira. E, pasmem, a cobrança ainda vem após um apito! Ou seja, é anunciado para todos em alto e bom som que está vindo o chute. Existe maior previsibilidade que essa? Não há.

A cobrança de falta nasceu para dar errado. Tudo é milimetricamente calculado para que o cobrador falhe. Até deitar atrás da barreira já fazem. É a barreira da barreira.

Em casos extremos, como aconteceu com Marcelinho Carioca diversas vezes nos anos 90 e início de 2000, um defensor ficava grudado na trave, abaixo do ângulo, para de alguma maneira proteger seu gol. Era quase constrangedor que não conseguisse alcançar a bola, tal qual uma criança tentando estourar, sem sucesso, o balão de doces no seu aniversário.

E é daí que nasce o golaço: da dificuldade.

Ora, se todos sabem quando, quem e onde será cobrada a falta, a desvantagem é imensa. Só o talento é capaz de superar todos estes fatores negativos. E se há qualidade incontestável num gol, é exatamente onde ele ganha ares de golaço.

Voltemos ao Allianz Parque.

Quando Cano sofreu falta de Felipe Mello, apenas dois jogadores do Vasco se posicionaram para a batida: Yago Pikachu e Benítez. No entanto, apesar da boa fase vivida pelo camisa 22, todos sabiam que a bola seria do argentino, que minutos antes já havia encontrado a cabeça de Léo Matos, que marcou, mas estava impedido.

O lateral/ponta/meia jamais marcou um gol de falta pelo Cruz-Maltino em cinco anos de casa. Não seria naquela noite.

Quando o Palmeiras posicionou seus dez jogadores na entrada da área, sendo cinco na barreira protegendo o canto direito do goleiro Jaílson, estava claro que haviam poucas opções Um time inteiro posicionado para evitar o gol, do goleiro ao ponta esquerda. Só havia uma alternativa: a perfeição.

Girando como uma dançarina de tango, a bola saiu dos pés de Benítez e passou entre o 3º e o 4º homem da barreira palmeirense. Num primeiro olhar, parecia viajar para o meio do gol. E é aí que está a beleza do lance.

A perfeição da batida não está simplesmente no ponto da rede que ela toca ou na posição em que supera o goleiro, mas em toda a sua trajetória. Mudar de direção é a única chance que ela tem de surpreender.

A curva é o drible da falta.

A passada lateral desesperada de Jaílson confirmava o inevitável: nascia ali mais um golaço de falta.



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