O gol sem imagem



Ríos fez o gol do Vasco no empate com o Santos (foto: Marco Galvão/Fotoarena)

Poucas coisas são tão emocionantes no futebol quanto um grito de gol vindo do rádio. Às vezes, nem o ao vivo.

Isso porque o rádio tem um mistério natural. Ele requer uma atenção extra do ouvinte. Do contrário, comemora-se o gol adversário. E isso, meus amigos, é uma das piores traições de um torcedor. Ainda que seja sem querer. Vibrar com um gol contra si é um suicídio futebolístico, uma heresia arquibalda. A vergonha, neste caso, surge até sob a sombra da solidão.

O rádio te obriga a ser atento, enquanto que a televisão, e até mesmo a arquibancada, dependendo da partida, te permitem a abstração. Basta ver – ou melhor, ouvir – que qualquer bola no meio-campo, pra quem somente ouve, é um grande ataque em potencial. Já na tv, o mesmo lance, é hora de ir ao banheiro.

Esta noite, ocorreu mais um jogo que não vi, como tem sido comum às quintas. Em outros casos, a contragosto, me rendi ao insosso e estéril VT. Desta vez, nem isso. Fiz melhor: me entreguei a exitante narração que emerge do dial.

Entrei no carro e já rolava o início do 2º tempo. O placar marcava 1 a 0 para o Santos e nada no tom das vozes do narrador e dos comentaristas mostrava que algo poderia mudar para os cariocas. Na verdade, demorei alguns segundos para decifrar ser era realmente futebol ou a Voz do Brasil, devido a entonação fúnebre da narrativa.

E convenhamos amigos, quando até o rádio abre mão da emoção, é sinal que o desamor venceu a batalha. A verdade é a seguinte: um radialista sem paixão é um João Kléber sem paradinha sensacionalista. Ou até pior!

Para completar, um ouvinte, com o otimismo de um moribundo, entrou ao vivo para afirmar que o Vasco, se continuasse daquela forma, cairia. Ora, se o jogo estava ruim até pra quem não estava vendo, apenas ouvindo, imaginei logo que poupava ali, naquele momento, meus olhos de uma possível miopia. E decidi também aliviar os ouvidos, por garantia.

Rodei por algumas rádios e não encontrei nada além de religião, sofrência e política. Ora, se era pra ouvir sobre milagre, sofrimento e enganação, ficava eu mesmo com o Vasco, que reunia toda a programação numa só estação. E olha que nem me refiro à primavera.

Voltei ao jogo, mas confesso que minha atenção estava mais na pizza que viajava comigo no carona do que no duelo em si. Por vezes, achei até que o narrador já pensava mais no Uber que o levaria de volta para a casa do que no confronto.

Aumentei um pouco o volume quando ouvi que Giovanni Augusto entrara em campo. Tem sido algo raro, portanto, requer atenção.

Giovanni é como aquele jovem ator que desponta na novela, é conhecido, querido por muitos, mas só aparece na aula vez ou outra e nem sempre com as melhores notas. Decide jogos em um lance, mas precisa de dez para que isso ocorra.

Num dado momento, em meio à gritaria que por vezes se torna o rádio, eu só conseguia distinguir o nome de Pikachu. Chovia forte em Petrópolis, o barulho da água no capô me obrigava a subir o som, que automaticamente fazia minha filha chorar mais alto e minha esposa pedir, dois tons acima, para eu diminuir. Um ciclo sem fim.

Depois entendi que Giovanni havia dado mais um de seus passes primorosos para o rápido Pikachu, que tocou por cima do ciclópico Vanderlei. Um onipresente Robson Bambu, porém, faria o papel de trave, e impediria o empate cruzmaltino.

Para narradores, comentaristas, curiosos, transeuntes, franciscanos e, claro, pra mim, que deixava minha imaginação nas mãos do primeiro, era a bola única do Vasco. A chance solitária que surge apenas em ano bissexto. O lamento na transmissão era nítido. Um sobe som e todos ouviríamos as lágrimas de desilusão e incredulidade tocarem o chão numa sinfonia única.

Segui para casa sem grande expectativa sobre o fim do jogo. Mantive o foco na pizza.

Fui recebido por um grande portão de madeira que teima em ser fechado em dias de chuva. Um último obstáculo entre eu e a tv. Diante do desanimo radiofônico, desci tranquilo do carro, caminhei até o cadeado, me abriguei da chuva e comecei a procurar a chave certa. Foi quando a magia do rádio se fez.

Ouvi um zumbido incomum, mas conhecido. Ainda que abafado pelas portas e janelas fechadas do carro, a constância do som, num misto de estouro de boiada em campo aberto e mantra de ganesha, deixava claro que bola e rede haviam se abraçado e deitado sob a noite fria.

Restava saber de quem era.

A caminhada entre o portão e o carro trazia uma mistura de esperança e de pessimismo. Ao mesmo tempo que queria saber o resultado, a dúvida era o melhor sentimento até então. Algo comparado a conferir ao jogo da Loteria. A chance é baixa, mas a simples possibilidade já faz daquele momento especial.

Ao final do grito de gol, a pausa dramática de João Kléber, e o complemento: “É do Vasco!! Ríos, de cabeça, completando lindo cruzamento de Pikachu!!”.

Era no Pacaembu, mas só me vinha em mente Sorato no Morumbi. Outra vantagem do rádio: é possível matar saudades do passado (re)vivendo o presente.

Criei o gol em minha cabeça antes mesmo que o repórter de campo desse a sua versão. Na dúvida, fiquei com a minha: Andrés, um conhecido dosador de vontade, na iminência de deixar o gramado, dá sua última corrida para a área, acompanhado de Marrony, o herói contra o Bahia, que puxa a marcação. Yago, agora lateral, vê a movimentação e, com a precisão de Zé Maria, coloca na cabeça de Ríos, que se contorce no céu, ajeita o corpo num rápido movimento e empurra para as redes: 1 a 1.

Nada disso foi narrado, e nem precisava. A subjetividade do rádio é o que o torna especial.

O gol, solto, dá para ver e rever em um dispositivo qualquer, com a frieza de um enxadrista norueguês. Agora, a paixão transmitida pelo rádio é única. Como um grito de gol recém-expelido, não tem volta e nem cópia.

Youtube: Canal do Garone
Twitter: @BlogDoGarone
Facebook: /BlogDoGarone
Instagram:@BlogDoGarone



MaisRecentes

Ex-Barcelona é uma das novidades do time sub-20 do Vasco



Continue Lendo

De volta ao Vasco, Martin Silva se aproxima de recorde pelo clube



Continue Lendo

Vasco prorroga os contratos de dois jogadores do sub-20



Continue Lendo