O efeito Daniel Amorim



Daniel Amorim marcou seu 1º gol pelo Vasco (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Por muitas vezes, nós, jornalistas esportivos, somos acusados de sermos engenheiros de obra pronta. Eu compreendo quem diz isso – parcialmente. Afinal, o trabalho não é de vidência, mas sim de análise. E só é possível analisar algo que já aconteceu, como um jogo de futebol, por exemplo.

Para algumas questões, no entanto, não são necessários mergulhos muito profundos.

Não é preciso curso superior, por exemplo, para dizer que Euller seria uma opção melhor do que Válber num time que tem espaços para atacar pelos lados, mas falta velocidade. Não é uma questão apenas de qualidade, mas, principalmente, de característica.

Da mesma forma, não é preciso ser clarividente para observar que o segundo time que mais cruza bolas num campeonato, mas que dificilmente leva perigo dessa maneira, precisa – pelo menos – aumentar a estatura da sua linha ofensiva.

Antônio Lopes, que nesse dia 12 completou 80 anos de idade, fez muito isso com Luiz Cláudio no fim dos anos 1990.

Marcelo Cabo também precisou fazer isso neste sábado.

A ideia de construção do Vasco continua muito pobre. Excessivamente dependente de jogadas quase sempre individuais pelos lados do campo – Léo Jabá na esquerda e Matos na direita. Jogadas essas que terminam, na maioria das vezes, em cruzamentos forçados.

O Cruz-Maltino tem uma média de 32 levantamentos por jogo nesse início de Série B. Quase todos buscando um solitário Cano, de 1,76m.

É quase como cavar faltas para Vanderlei bater.

No 1º tempo do duelo deste sábado, contra o Brasil de Pelotas, onde mais uma vez saiu perdendo após um erro na saída de bola – dessa vez de Galarza -, foram 22 cruzamentos e apenas seis certos (27,3%). Nenhum com perigo real.

De duas, uma: ou o Vasco acertava sua construção por dentro, para variar seu jogo e qualificar sua chegada, ou aceitava sua limitação e tentava ao menos ser eficiente no pouco que conseguia fazer – cruzar bolas. Em 15 minutos de intervalo, a segunda opção era a mais viável. Talvez a única.

A entrada de Daniel Amorim era o óbvio.

Apesar de Juninho ter melhorado a criação da equipe, dando opção de passe por dentro, fazendo algumas triangulações com Pec e Léo Matos, quase tudo seguia terminando em cruzamentos para a área. Sem sucesso.

A entrada de Amorim ocorreu apenas aos 70 minutos de bola voando. Doze minutos depois, o Vasco já vencia o jogo por 2 a 1, com dois gols de… jogada aérea!

Como disse antes, não é uma simples questão de qualidade, de ser melhor ou pior, mas de característica. Não fazia sentido cruzar tantas bolas pra área sem o único jogador especialista nesse tipo de lance em campo (falta para Vanderlei, certo?!).

O aproveitamento nos cruzamentos subiu para 43,8% na etapa final. Quase todos os certeiros após a entrada do jogador de 1,91m.

Você deve estar pensando agora: “Garone, mas o gol do Daniel foi com o pé. Quem fez de cabeça foi o Morato, que é baixinho”. Pois é, ironias da bola. Mas que também têm explicação.

Reparem na sequência de imagens do 2º gol vascaíno.


Daniel Amorim é marcado por três jogadores do Brasil desde o início do lance, enquanto que Cano é acompanhado de perto por Artur, o lateral-esquerdo que, na teoria, deveria bater com Morato. Quatro defensores nos dois centroavantes e uma liberdade de passarinho para o camisa 10 anotar o tento da virada, com seu 1,69m, sem sequer tirar os pés do chão.


Isso também é um efeito da entrada de Daniel Amorim.

O Brasil de Pelotas, antes tranquilo com sua dupla de zaga encaixotando Cano, passou a ter Daniel como principal preocupação. Tanto que Cláudio Tencati, o técnico, sacou seu meia central, Gabriel Terra, e colocou mais um zagueiro em campo, Heverton. E os três defensores estavam em Amorim, certos de que ele, e apenas ele, poderia completar a jogada.

Distrair o adversário é o básico da bola. Levá-lo para um lado e depois ir para o outro é o movimento original do drible, da finta. Gerar dúvidas, preocupações, é o que abre buracos em defesas fechadas. E foi exatamente isso que a entrada de Daniel Amorim proporcionou: dúvida. O suficiente para gerar espaço para a virada.

Para vencer o Brasil, o Vasco teve que aceitar suas limitações. Para vencer a Série B e/ou conseguir o acesso, porém, terá que superá-las. E ainda são muitas.




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