O déjà vu vascaíno



Vasco foi derrotado por 2 a 0 pelo Botafogo (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

A troca de um treinador vem sempre acompanhada da expectativa em relação à mudança que ocorrerá no time. Já escrevi aqui num outro momento: para o torcedor, é como o réveillon, onde num simples giro no ponteiro do relógio tudo começa do zero, renovado – ou ao menos é essa a esperança.

Obviamente, não é simples assim – em ambos os casos.

E Lisca chegou ao Vasco com muito desse sentimento. Algo que só cresceu após a estreia vitoriosa sobre o Guarani e o bom desempenho contra o São Paulo, no Morumbi. Mas que não conseguiu ser repetido no clássico com o Botafogo. Aliás, nem se tentou.

Que um técnico precisa de tempo para dar sua cara ao time, ninguém duvida. Essa é uma das poucas certezas do futebol. Mas o que chamou a atenção no Nilton Santos, neste sábado, foi exatamente o fato do Vasco não passar nem perto de ter as feições habituais do seu atual treinador.

Foi um Vasco, na verdade, com todos os traços de Marcelo Cabo. Um caso claro de pedido de DNA.

Desde o início da temporada o Vasco tenta implementar o chamado jogo posicional. Num resumo simplista, a ideia parte do princípio de se ter mais posse de bola, toques desde o seu goleiro e posicionamentos predefinidos, trabalhando sempre amplitude e profundidade para abrir espaços na defesa adversária.

Um bom exemplo desse posicionamento são os pontas colados na linha lateral, como se bebessem água dos reservas o tempo todo, e Cano isolado à frente. Acontecia com Cabo antes, aconteceu com Lisca agora.

A consequência disso – e não é de hoje, claro – tem sido a falta de aproximação dos homens de frente, dificultando a saída de bola e facilitando os contra-ataques adversários. Além disso, gera um falso controle através da posse, já que a redonda não sai dos pés da linha defensiva. Muitas passes, poucas finalizações.

Contra o Glorioso, como vinha sendo comum nos primeiros jogos de Série B – e já escrevi sobre isso também -, Vanderlei trocou mais passes do que Cano – o triplo (18×6). Sintomático.

Veja bem, não existe uma forma certa de se jogar futebol. Falei sobre isso outro dia. Mas existe aquela que funciona melhor para cada time. E o jogo posicional, nesse elenco, na Série B, já deixou claro que não terá êxito. Não sem tempo e peças mais qualificadas. Duas coisas que o Vasco não tem – e nem terá.

E essa não é uma afirmação de agora, do Vasco de Lisca. É uma constatação da época de Cabo, feita pelo próprio Departamento de Futebol.

A filosofia já havia sido abandonada após a derrota para o Avaí, na 4ª rodada. E ainda que parte da torcida não gostasse da pouca posse, os resultados vieram após a mudança. Em oito jogos, venceu quatro, empatou com líder e vice-líder, e foi derrotado por Cruzeiro e Goiás em duelos onde teve Bruno Gomes expulso no 1º tempo. Um aproveitamento de G4 – 58,3%.

E nem dá pra dizer que é uma ideia de Lisca, já que seu América Mineiro não jogava dessa forma. Muito pelo contrário, era mais próximo do que foi o time na reta final do trabalho de Cabo, apesar da intensidade diferente – como no jogo com o Guarani. O que deixa claro que voltar ao jogo posicional não foi uma opção apenas do técnico. Não é a sua cara.

Como o próprio Lisca disse após o clássico: se continuar assim, não sobe.

Para Lisca, a inoperância da equipe dentro deste modelo de jogo pode ser uma novidade. Para Alexandre Pássaro e o Departamento de Futebol, não.

Trocar o treinador e manter a filosofia que fracassou recentemente, após 5 meses de trabalho, é o mesmo que mudar o cozinheiro, dar a ele os mesmos ingredientes, a mesma receita, pedir o mesmo prato e achar que vai comer algo diferente.



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