O cometa Valdiram



Valdiram decidiu contra o Flu em 2006 (Foto: Jorge William/O Globo)

Uma meia pedalada com a perna esquerda, um tapa rápido com a direita e a ultrapassagem sobre o marcador, estático, que esperava um domínio simples no meio-campo e um toque de lado. A verdade é que ninguém esperava o drible e a velocidade no primeiro movimento daquele desconhecido e misterioso camisa 7 que chegou ao Vasco sem poder dar entrevistas e sem saber escrever mais que o próprio nome num papel.

Era a partida de número 500 de Romário com a camisa cruz-maltina – contando a base -, a primeira de Valdiram em São Januário ao lado do seu ídolo – o seu segundo jogo-oficial pelo clube. O adversário era a Portuguesa da Ilha, na estreia da Taça Rio 2006.

As sociais do clube explodiam a cada lance inesperado do atacante, num misto de espanto, riso e incredulidade. Ninguém entendia de onde havia surgido aquele jogador pouco ortodoxo, de nome diferente e postura rebelde. Parecia surgir ali uma pedra bruta a ser lapidada pelo clube. Não apenas como jogador, mas como pessoa.

Valdiram era inquieto dentro e fora de campo.

Aos 9 anos, perdeu a mãe. Antes disso, já havia sido deixado pelo pai junto com os dois irmãos. Foi criado então pelo tio na pequena Canhotinho, no interior de Pernambuco, cidade com pouco mais de 20 mil habitantes, metade do público que o aplaudiria no Maracanã após marcar um gol contra o Fluminense, colocando o Vasco pela primeira vez na história em uma final da Copa do Brasil.

Com 17 anos ganhou a primeira chance em São Paulo, na base do Mirassol, e acabou tendo o seu primeiro problema com a polícia, sendo acusado de agredir uma namorada. Foi acusado também de tentativa de estupro, em 2003, em Maceió, quando defendeu o CRB, e em 2004, em Portugal, quando desperdiçou sua única chance na Europa – jogou no Belenenses.

“- Sei que quando estou embriagado perco a noção de muitas coisas e o autocontrole.”, disse o atacante em 2003, em entrevista ao O Jornal, de Maceió.

Tão rápido quanto suas arrancadas, foi o auge da carreira de Valdiram.

Xodó da torcida no início do ano, Valdiram passou a ser a quarta opção de um ataque que tinha Jean, Faioli e Fábio Júnior – Romário e Edílson já haviam saído. Antes, foi barrado da decisão da Copa do Brasil por indisciplina, dando lugar a Valdir Papel, que seria expulso aos 17 minutos contra o Flamengo.

Valdiram perderia espaço não pela forma diferente como conduzia a bola, mas pela maneira errada como vinha conduzindo a própria vida.

Onze meses depois de surgir como um cometa no ataque vascaíno, marcando 14 gols em 32 jogos, o jogador faria sua última partida com a camisa do Vasco, entrando no 2º tempo do duelo com o Nova Iguaçu, pelo Campeonato Carioca 2007, substituindo Conca.

Valdiram se orgulhava de ter sido o ‘Valdiram do Vasco, artilheiro da Copa do Brasil’. Sonhou até o último dia com a chance impossível de retornar ao clube, mas acabou vencido pelos próprios pesadelos.

Valdiram conhecia seus demônios. Só não sabia como driblá-los.

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