O clássico sem fim



Cano é o maior artilheiro estrangeiro do século no Vasco (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Costumo dizer que Flamengo x Vasco é um duelo que teve início em 1923, mas que nunca se ouviu o apito final. Desde que a bola rolou na Rua Paissandu, naquele 29 de abril, o Clássico dos Milhões é disputado diariamente pelas ruas de todo o Brasil, principalmente no Rio de Janeiro.

Além do campo, a padaria, o escritório, o colégio, o comércio e até o jantar em família recebe essa disputa nem sempre velada. Aliás, escancarada na maioria das vezes. É o que mantém o jogo sempre correndo, ainda que a bola pare após os 90 minutos. Vasco x Flamengo nunca acaba.

E como tudo que tem vida própria, que contém alma, ocasionalmente repete velhos hábitos. O clássico dessa quinta-feira foi um belo exemplar disso.

O Flamengo era o favorito óbvio. O Vasco, sem vencer o rival há 17 jogos, recém-rebaixado, em reformulação, era uma zebra quase sem listras. Um potro, talvez. Poucas coisas, no entanto, são tão frágeis quanto a certeza. Principalmente no futebol, onde a convicção tem a solidez de uma rede esgarçada pela bola a balançar.

Como já disse, o Clássico dos Milhões não tem um ponto final, apenas vírgulas. Ou seja, serve exatamente para marcar pausas. Como a da invencibilidade rubro-negra.

O gol de Léo Matos, abrindo o placar, foi o anúncio perfeito do que estava por vir. Era a certeza do imponderável. O Vasco, que tanto vinha sofrendo no jogo aéreo, enfim o usava ao seu favor. Foi como se Marcelo Cabo tivesse acertado na dose, transformando o veneno em remédio.

E com um detalhe: foi o único cruzamento certo do time na partida. Um de apenas cinco tentados. O Flamengo, cerceado pelas linhas baixas do Vasco, jogou 36 bolas para a área e não marcou nenhuma vez. A grande maioria terminou cortada por Ernando, Castán, Matos e Lucão, os obeliscos cruz-maltinos nesta noite de Maracanã.

Mas nem só do improvável venceria o Vasco. Como comentei antes, revisitar velhos momentos é uma particularidade do clássico sem fim. Aliás, é quase um traço de personalidade.

Na semana de aniversário de Roberto Dinamite, maior artilheiro da história do confronto, nada mais justo do que ver um camisa 10 brilhando em forma de homenagem. A 10 vascaína, é claro.

O primeiro ato foi de generosidade: o passe. Num único toque, de cima pra baixo, Morato fez a bola percorrer o espaço de três flamenguistas e encontrar a diagonal perfeita de Cano.

O argentino, com o talento que lhe é peculiar, primeiro escondeu a bola, como se preparasse um truque de mágica sob a capa. E antes que o público entendesse o que estava por vir, o artilheiro já havia girado e, sem deixar a bola cair, estufado as redes de Diego Alves.

Gesto rápido, mágica feita.

Àquela altura, a vitória por si só já era algo naturalmente fundamental. Pelo contexto, pelo momento e, claro, pela história. Mas faltava o toque que faria do clássico algo memorável. Um gesto a ser lembrado ao longo dos tempos. E quis o destino que fosse na lembrança de um outro 10: Edmundo.

A comemoração de Morato, com os braços erguidos, balançando de um lado para o outro, como o Animal em 97, foi o retrato indiscutível. A grande arte, no entanto, esteve no gol.

A letra que deixou Filipe Luís no chão foi a mesma que Edmundo usou para colocar Junior Baiano e Leandro Silva quase abraçados no histórico 4 a 1. A batida com a ‘perna ruim’, beijando antes a trave, como se desejasse boa noite a todos, não deixou dúvidas sobre a inspiração.

Num mês de homenagens a Barbosa, Dener, Edmundo, Roberto e aos Camisas Negras, o Vasco enfim reencontrou sua história também dentro de campo. E finalmente deu ao seu maior personagem, o seu torcedor, uma noite de alegria.



MaisRecentes

Só um milagre coloca o Vasco na Série A 2022



Continue Lendo

Cano passa Pikachu no ranking de artilheiros do Vasco neste século



Continue Lendo

O talentoso Riquelme



Continue Lendo