O cemitério de heróis



Rossi e Rodinei perderam seus pênaltis (Foto: Delmiro Junior/Photo Premium)

Confesso que eu já rabiscava aqui o último parágrafo da crônica quando Thiago Galhardo perdeu de forma displicente uma bola no meio-campo – assim como já havia ocorrido mais de uma vez contra o Bangu -, dando a posse ao Flamengo. A jogada se desenrolou pela lateral, nem o meia e nem Danilo Barcelos se mostraram muito dispostos a evitar o cruzamento de Bill. É como se baixasse no Vasco uma certeza de imortalidade nos minutos finais, abrindo mão da posse de bola, aguardando o apito final. Já havia sido assim contra o Bangu, só que a bola não entrou. Dessa vez, sim.

Um contra-ataque aos 47 minutos do 2º tempo, vencendo um clássico, não é desperdiçado sem que haja uma punição. Não é uma questão tática ou técnica, é uma orientação divina. Uma punição divina, melhor dizendo. Foi assim no ano passado, na final do Carioca contra o Botafogo – comandado por Valentim -, com Wagner errando na frente. Carli empatou na sequência e o Glorioso ficou com a taça nos pênaltis. Dessa vez, foi Arrascaeta quem marcou – após Raul não acompanhar o meia – e forçou as penalidades.

Cobranças alternadas que abrigam um grande cemitério de heróis.

E não há herói mais fragilizado neste momento do que aquele que perdeu esse status após o gol de empate adversário. Tiago Reis era esse protagonista. E até aos 47 da etapa final não precisava fazer mais nada para se deitar no fim da noite com a certeza de que o sonho ele já vivera, bastava apenas descansar.

Tiago está longe de ser um dos atacantes mais talentosos que vestiram a camisa vascaína, mas é eficiente. Não é um centroavante que leva perigo quando tem a bola dominada nos pés, muito pelo contrário. Sua periculosidade está na movimentação sem ela e na incrível capacidade de ser letal com o mais rápido toque.

Já disse aqui num outro momento: Tiago Reis não gosta da bola, ele é apaixonado pelo gol. E por isso o procura da maneira mais rápida e vertical possível. Foi assim que o centroavante fez 1 a 0 aos 10 minutos do 2º tempo, na previsibilidade do eficiente cruzamento de Danilo Barcelos, um arma quase solitária no atual cruzmaltino.

O 1 a 1 no fim, no entanto, colocou Tiago Reis a um pé do cemitério de heróis. Mesmo local por onde passaram Edmundo, Zico, Marcelinho Carioca, Baggio, Palermo e mais um incontável número de jogadores que deixaram um pedaço da sua mortalidade na marca da cal. Tiago também perdeu sua lasca.

O vilão, porém, não está nas cobranças ou nos cobradores, está em quem deixa uma vitória num jogo equilibrado, decisivo, se tornar uma roleta-russa. No caso do Vasco, a vilania está na desistência de jogar após sair na frente do placar, se limitando a puxar contra-ataques com um ataque limitado inclusive fisicamente.

Bruno César não consegue manter o ritmo em um jogo de alta intensidade por mais que 60 minutos. Muito menos tendo que carregar a bola por longas distâncias. Galhardo nem sempre entra com a atenção que as partidas pedem – e o clássico não é o primeiro exemplo. Sobram Rossi e Marrony, líderes de desarmes da equipe no clássico com três, que naturalmente sucumbem no fim após tanto se doarem.

O Vasco chegou a ter 92% de posse bola, segundo o Footstats, entre os 15 e os 25 minutos de partida. Nos cinco minutos de acréscimos, o Fla teve 66,1%. Aos 30 da segunda etapa, o rubro-negro chegou a ter 74%. Uma mudança de postura que já havia sido perigosa contra o Bangu e que se tornou letal contra o Flamengo.

Uma morte que já vinha sendo anunciada nos últimos jogos e que agora teve o seu sepultamento exatamente no cemitério de heróis.

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