O batismo de Evander



Evander marcou duas vezes contra o Concepción (Foto: Carlos Gregório Jr/Vasco)

Eu avisei na noite anterior: não se entra em uma disputa de Libertadores desprovido de fé. Não se acerta um tiro de meta sequer sem que se tenha, ainda que de forma tímida, um resquício de esperança.

Ora, e não há nada mais desesperançoso no futebol do que uma arquibancada cheia de buracos. Principalmente em uma competição continental. O Concepción começou a perder aí. Há de se fingir ao menos um pouco de dor em meio à peleja, há de se ter rostos raivosos cantando espremidos entre as grades. Não haviam.

Já disse outras vezes aqui: uma arquibancada vazia é um coração que não pulsa, é um órgão estéril. E a Libertadores, amigos, não perdoa estádios sem alma.

Evander também não. No dia de seu batismo na Libertadores, a camisa 10 pesou tanto no menino quanto uma hóstia sobre a língua. O uniforme branco, liso, deu ao garoto uma pureza enganosa. Evander é perigoso.

Com apenas dois minutos, pisou na área chilena leve como um garoto, sem amassar sequer um tufo de grama, sua velha amiga, mas decidido como um veterano. Entre o passe de Ríos para Wellington e o calcanhar de Paulinho, foram rápidos três segundos de explosão, o suficiente para 15 passadas rápidas e o tiro fatal. Letal. Num futebol nada letárgico do Vasco em seus primeiros minutos.

Ríos fora da área, Wellington infiltrando, Paulinho centralizando e Evander finalizando. A ciranda do primeiro gol vascaíno mostrou um time diferente das partidas anteriores, mais dinâmico e imprevisível. Os melhores 30 minutos do time em muito tempo. Coletivamente e individualmente.

Se não fosse pelo nome e o sotaque, seria possível afirmar que Desábato na verdade tratava-se de um metre dinamarquês e não um cabeça de área argentino, tamanha a elegância para distribuir o jogo – errou apenas três passes de 40 e acertou todas viradas de jogo (2) e o lançamento que tentou.

O camisa 5 fez desarmes tão limpos que seu short parecia clarear após cada carrinho. O cartão amarelo, dizem, foi só para garantir a nacionalidade.

A briga de Ríos, seu jogo físico – sua maior qualidade -, funcionou para Evander fazer o segundo, de longe. De perto, quase no fim do 1º tempo, o menino mandou por cima, talvez ainda sem acreditar nos dois que já havia marcado. E quando falta fé, ninguém acerta o pé.

Pikachu e Rildo, com gols na etapa final, formalizariam a goleada anunciada na primeira triangulação. Riascos ainda poderia ter se consagrado, se fosse mais Rildo e menos Duvier.

É bem verdade que a fragilidade do Universidad Concepción facilitou para a construção do placar, mas o simples fato do Vasco não complicar o fácil, é um alento ao seu torcedor. Acostumado a rezas longas e promessas intermináveis, o vascaíno pôde se sentar relaxado no sofá desde o início do jogo. Algo raro nos últimos anos, independente de adversário.

Se a América tinha saudades do Vasco ou, de certa forma, o havia esquecido, foi uma ótima noite de reencontros.

O menino cruz-maltino que jamais havia visto seu time brilhar em campos internacionais, agora sabe bem de onde vem parte do tal orgulho que seu pai sempre lhe conta. Aquele ’98’ tatuado no braço do seu tio já não é apenas um número, é a história. A mesma que ele sonha em ver repetida.

E que mal há em sonhar?



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