O artilheiro e a bola



Tiago Reis voltou a marcar após mais de um ano (Foto: Mauro Pimentel/AFP)

A relação do artilheiro com a bola é diferente de qualquer outra no futebol. Ao contrário dos outros jogadores, ele – e só ele – pratica uma espécie de desapego com a redonda. Eu explico.

O goleiro a agarra. O lateral a conduz. Os zagueiros a roubam. Os meias, esses sim um pouco mais desprendidos, a fazem girar, mas sempre a querem por perto. Mas o goleador não, com ele é diferente.

O artilheiro – e falo daqueles natos, que conhecem o caminho das redes desde jovens – se desprende da bola na primeira chance que tem. Tudo o que ele quer é uma oportunidade de chutá-la o mais forte possível, o mais rápido possível. E não é por uma questão de insegurança, de incapacidade de mantê-la por mais tempo. Não é isso. É por saber que precisa definir rápido.

É ele o último elo entre a aflição da incerteza e a explosão do gol. Pra ele, quanto mais rápido for esse gatilho, melhor. Quanto menos toques, mais eficiente. Ter a bola não faz parte de sua luxúria.

E a bola, por sua vez, parece gostar dessa relação. Vaidosa, escolhe seus favoritos.

Veja o caso desse Vasco 1×0 Caracas.

Na ausência de Germán Cano, Ribamar foi a opção do técnico Sá Pinto. Um atacante que, como sabemos – e comprovam os números -, mantém uma relação instável com as redes – apesar do belo gol contra o Corinthians na semana passada. Uma relação aberta, por assim dizer, onde tudo pode acontecer – inclusive nada.

Foi dele a melhor chance do 1º tempo, cabeceando por cima o ótimo cruzamento de Leo Gil. Ribamar subiu livre, como sonha todo atacante. Eu prefiro imaginar que o gol foi rejeitado pela própria bola. Pois somente uma teimosia dela em não entrar seria capaz de justificar tal erro.

Faltou o tal do capricho. E, pra bola, isso é imperdoável.

Talles Magno também teve a sua chance num dos 13 cruzamentos tentados pelo Vasco só no 1º tempo, mas ela seguiu firme na sua intenção de não entrar. Um propósito que, aliás, não é de hoje. Nem mesmo Cano, que sempre manteve uma ótima relação com ela, uma casamento sólido até então, vivia seus melhores dias – são sete jogos sem beijá-la.

O possível rancor da bola com o time vascaíno ficou ainda mais nítido quando se recusou a entrar no seu instante mais previsível: o pênalti. A forma como saiu dos pés de Carlinhos já deixava clara a sua insatisfação. Parada, assentada na cal, conseguiu a façanha de sair mascada, pressionada contra o solo, facilitando a defesa de Beycker Velázquez, um goleiro de 1,78m.

Incrédulo, Sá Pinto olhou para o escasso banco de reservas e colocou em campo Parede e Ygor Catatau. Poucos minutos depois, sem quase tocar na bola, Catatau foi expulso. Expulso, eu diria, até pela bola, que vinha ali fazendo a sua seleção natural como se fosse dona única da noite.

Ela parecia ter vida própria, principalmente ao se aproximar do gol. Dos 26 cruzamentos tentados pelo Vasco, apenas quatro tiveram a direção certa. E nenhum deles saiu corretamente dos pés de Cayo Tenório e Henrique, os laterais responsáveis por esse levantamento.

Só poderia ser um problema com a bola. Faltava alguém capaz de restaurar essa relação entre a ela e o gol. Faltava Tiago Reis.

Escrevi lá no começo que o artilheiro e a bola possuem uma relação diferente, certo?! E como toda relação, existe a saudade quando se distanciam.

Tiago não entrava em campo desde 8 de março, no 0 a 0 com o Volta Redonda pelo Carioca. Seu último gol em jogo-oficial fazia ainda mais tempo: 7 de junho do ano passado. Exatamente na vitória por 2 a 1 sobre o Internacional, em São Januário, que encerrou uma sequência de sete partidas sem vitórias em 2019. Duelo que marcou ainda a primeira vitória de Vanderlei Luxemburgo no comando da equipe, assim como essa quarta-feira ficaria registrada pelo primeiro triunfo de Sá Pinto no Vasco.

Reis, que é desses artilheiros que definem tudo num toque só, precisou de apenas uma chance para fazer o que nenhum outro atacante do Vasco tem conseguido: o gol. Um único gesto, um posicionamento correto, uma conclusão com tranquilidade, e a noite vascaína, que caminhava para mais um fim frustrante, mudou o seu desfecho.

A bola, antes avessa a tudo, dessa vez percorreu de pé em pé em busca de seu artilheiro. De Parede para Andrey, de Andrey – o melhor em campo – para Parede e dele para Tiago só escorar. Quem vê a simplicidade e fluência do lance, talvez nem imagine o quanto o Vasco lutou para domar a redonda antes de colocá-la para descansar.

Talvez a bola sentisse tanta saudade de Tiago quanto ele dela. Uma saudade que só não era maior que a do vascaíno pela vitória.



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