No Vasco, a base decide até no profissional



Marrony marcou duas vezes na goleada (Foto: Marcelo Gonçalves/Photo Premium)

Me atrevo a dizer que não há placar mais clássico no Carioca que o 5 a 2. Dificilmente acontece um resultado desses no Brasileirão ou na Libertadores, mas no Estadual me parece tão comum quanto o 2 a 1. E tem uma explicação: o duelo entre grandes e pequenos, no início de temporada, é o famoso jogo dos sete erros. Neste caso, cinco do pequeno e dois do grande.

Quando digo 5 a 2, me refiro aos placares não-ortodoxos, os chamados ‘bailarinos, como o 5 a 3 entre Vasco e Volta Redonda, em 2009, quando Dedé chamou a atenção do clube. Ou o 7 a 1 de 1985 sob o comando de Romário – que marcou três gols -, aos 19 anos de idade, e o 4 a 3 imposto pelo Voltaço ao Expressinho comandado por Evaristo de Macedo, no Caixão 2002. Estadual é a festa dos placares incomuns, das trocas francas com o queixo desprotegido.

Veja bem, Vasco e Volta Redonda fizeram, nesta quarta-feira, um primeiro tempo típico de 0 a 0, com o jogo concentrado todo no meio-campo e tentativas frustradas de bolas longas. Ainda assim, do alto de toda passividade vista em São Januário nos primeiros minutos, a partida foi para o intervalo marcando um efusivo 2 a 1 para o Cruz-Maltino.

Foi, talvez, o 0 a 0 com mais gols na história.

Um placar movimentado principalmente graças aos erros coletivos e as qualidades individuais que nem a pausa de fim de ano e o calor são capazes de limar. É o que se tem em janeiro no futebol: lampejos.

Bastou Marrony e Ribamar pressionarem a saída de bola que nasceu o primeiro gol vascaíno, anotado pelo prata da casa. Um misto de falha defensiva com sorte ofensiva que só é visto com naturalidade durante o Estadual. Incomum no lance apenas a frieza do camisa 38 – destaque da partida, no meu entender – na finalização.

Ao elogiar Tiago Reis, do sub-20, durante a semana, escrevi que se tratava de um ‘finalizador desinibido, de poucos toques’. O centroavante é desses que chutam até hidrante quando aparecem pela frente. Pois bem, Marrony nunca foi esse tipo de jogador. Ou ao menos não apresentou ser nos primeiros jogos que fez – e até nos juniores. Talvez por isso, apesar da boa estatura, atua pelos lados e não dentro da área. Esta noite, no entanto, foi diferente.

Na estreia, contra o Madureira, em duas oportunidades, o garoto entrou na área e hesitou, tentando cortar para a canhota. Faltou a confiança do artilheiro, o tesão adolescente. Hoje, contra o Volta Redonda, com a frieza de um goleador, empurrou para as redes as duas chances que teve. Ambas de direita e de primeira.

Rápido, habilidoso, alto e combativo, faltava a Marrony um pouco mais de objetividade dentro da área. Com uma assistência e dois gols em apenas duas partidas, a temporada parece promissora para o jogador.

Os quatro gols seguintes, curiosamente, seriam idênticos entre si, quase espelhados, como numa troca de tapas de mão aberta entre dois lordes ingleses.

De falta, de canhota, com a cobrança um pouco mais para a direita, Luiz Paulo descontou para o Voltaço e Danilo Barcelos fez o terceiro do Vasco. Batidas perfeitas num raro jogo em São Januário com dois gols de falta sem as presenças de Roberto Dinamite, Bebeto, Juninho Pernambucano, Ramon, Pedrinho, Juninho Paulista ou Marcelinho Carioca em campo.

O gol do lateral vascaíno, porém, só sairia após dois tentos em jogadas individuais pela direita no gol da piscina. Primeiro, com Cáceres superando a marcação e cruzando para Dudu, outra cria da base que vem despontando na temporada. Foi o primeiro gol do menino que só tem três jogos como profissional, uma rara marca obtida por quem sobe da base. Depois, com o bom Douglas Lima, destaque desde os tempos de Madureira e que já despertou o interesse do clube de São Januário, em 2017, que cruzou para João Carlos fazer o segundo dos visitantes.

Lucas Mineiro – outro canhoto que marcou de direita -, quase no fim, faria o quinto, fechando a goleada: 5 a 2.

Na semana em que o Vasco volta a disputar uma final de Copa São Paulo de Juniores após 20 anos, o clube estreia em seu estádio triunfando com a sua base decidindo. Desde julho de 2017, na goleada por 4 a 1 sobre o Vitória, no Barradão, que o clube não marcava três gols com pratas da casa em uma mesma partida – Guilherme Costa, Paulo Vítor e Thalles fizeram.

Uma demonstração clara da importância de se valorizar o próprio produto, não apenas para a venda, mas para o consumo próprio. Mais do que gerar lucros financeiros, o time precisa voltar a ter ganhos técnicos com os seus jovens, como teve nesta noite.

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