Não é azar



Rildo saiu machucado no 1º tempo (Foto: Paulo Sérgio/Agência F8)

“O Vasco jogou bem, mas deu azar”. Li por aí, no Twitter.

No ano, só não li muitas vezes esta frase completa em razão da escassez de grandes atuações cruz-maltinas. O tal do azar, entretanto, fora lembrado em diversas ocasiões. E apesar da minha fé inabalável no imponderável, no místico, preciso reconhecer que o mal que assola o Vasco não é o azar, não é um problema cármico que se resolva com sal grosso.

Se você perde o ônibus uma vez, porque acabou a bateria do seu relógio, é azar. Agora, se quase sempre você está atrasado, é uma deficiência sua, não um imprevisto.

O azar tem por característica a surpresa, o inesperado. É uma fatalidade, não uma constante. Ninguém é azarado o tempo todo. Para reconhecer o azar, é necessário conhecer também a sorte. É preciso uma referência oposta. E isso o Vasco não sabe o que é. Portanto, não é azar, é incompetência, uma incapacidade.

Quando Rildo levantou para Kelvin, não foi azar a defesa de Santos na cabeçada. Foi mérito do goleiro, líder de defesas difíceis do campeonato, e um erro de conclusão do atacante, conhecido pela sua dificuldade na finalização. São apenas 20 gols em 204 jogos como profissional.

Mesmo caso de Rildo, que desperdiçou, quase em sequência, nova oportunidade na frente do arqueiro do Atlético Paranaense. O camisa 17 balançou as redes 25 vezes em 229 partidas por Vitória, Santos, Corinthians, Ponte Preta, Coritiba e Vasco.

Não foi o azar que trabalhou, foi a lei do retorno. Kelvin e Rildo dão velocidade ao time, mas não gols, raros durante toda a carreira de ambos, e necessários para um Vasco carente de seus dois artilheiros, Maxi López e Yago Pikachu.

Não dá para culpar o acaso pela bola não entrar, a deficiência é antiga – tanto dos jogadores quanto da montagem do elenco, que por meses dependeu quase que exclusivamente de um lateral improvisado na ponta para marcar os seus gols.

Rildo deixaria o gramado lesionado ainda no 1º tempo. Mais uma vez. No Vasco e na carreira. Assim como Ramón, que terminou 2017 machucado e, infelizmente, terminará da mesma maneira esta temporada, tal qual Breno e Marcelo Mattos.

Apesar de ter um quê de fatalidade – principalmente no lance do lateral -, as lesões também não são fruto somente do azar. Fisiologia, fisioterapia, o condicionamento físico, de uma maneira geral, não são signos do horóscopo, não trabalham de acordo com o posicionamento da lua. São áreas de estudo e, portanto, de domínio profissional.

Por mais que eu seja leigo na área médica, acho improvável que algum livro cite urucubaca ou mau-olhado como causas de lesões.

Contratar jogadores com histórico de lesões não é azar, é risco.

O cansaço que assolou o time ainda no fim do 1º tempo, quando o Furacão passou a dominar as ações no meio-campo, também não foi um imprevisto, tem sido rotineiro. Principalmente após a entrada de Giovanni Augusto na vaga do machucado Rildo, fazendo com que Thiago Galhardo – o melhor em campo – sumisse no lado esquerdo para a entrada centralizada do meia.

Não foi azar, foi uma escolha de Alberto Valentim – que optou por desfazê-la no intervalo.

Realmente o Vasco não fazia uma má partida, mas também não a definia. E isso é o mesmo que cozinhar e não servir: dá água na boca mas não mata a fome. Pelo contrário, só aumenta. E gera uma ansiedade desnecessária.

O time passava, como em toda a temporada, a segurança de um Tadic no gol. O vascaíno que lotou São Januário, durante o 0 a 0, não gritava somente em busca da vitória, mas também para evitar a derrota. Algo que, se não entoado a fortes pulmões, atinge a equipe com a velocidade de um Raúl ou a precisão de um Petkovic.

Quando Thiago Galhardo, arquiteto, engenheiro e mestre de obras do meio-campo cruz-maltino no jogo, abriu o placar, de pênalti, a primeira reação do torcedor talvez tenha sido olhar o relógio. O vascaíno já não grita gol com um entusiasmo natural, explosivo, muitas vezes ele berra um ‘ufa’, mais aliviado do que feliz.

Muito pouco para quem cresceu com a alegria plena no estufar das redes de Ademir, Sabará, Dinamite, Romário e e Edmundo. Hoje, até pra comemorar, o vascaíno precisa de precaução.

Ao contrário do habitual, o time em vantagem se torna fraco mentalmente, medroso. O Vasco sucumbe à própria vitória parcial. Eu explico: o Cruz-Maltino, enquanto 0 a 0 no marcador, trabalha em busca do êxito, do triunfo. Mas quando ele sai na frente, a preocupação é outra: não perder a vantagem conquistada. E time que só pensa em evitar a derrota, ou se salva pelo relógio ou morre nele.

Diante do triunfo iminente, o Vasco se encolheu feito uma criança com medo, que cobre o rosto com o cobertor aguardando o dia clarear. É como se mais breu fosse ofuscar o escuro natural da noite. Incoerente.

Cansado, mas vencendo, Valentim optou por abrir mão da bola e apostar em contra-ataques. A equipe que chegou a ter 66% de posse bola nos 15 minutos iniciais – dados do Footstats – , terminou o confronto com apenas 48,55%. Após o gol, chegou a ter somente 41%.

Ou seja, o treinador trocou a organização coletiva por pequenos impulsos individuais – quase sempre de Galhardo, já que Ríos e Giovanni se arrastavam em campo – que dependiam exatamente da capacidade física dos atletas. Ainda que ganhassem as jogadas em algumas oportunidades, como aconteceu com Thiago e Andrés, ao chegar na área, faltavam pernas – como devia ser esperado – para finalizar com qualidade.

Não foi azar, foi opção estratégica.

O Vasco terminou a partida, em seu estádio, com total apoio da torcida, precisando da vitória, com vantagem no placar, encurralado em seu campo de defesa, dando chutões para frente, com jogadores sem a menor condição física em campo, e incapaz de cavar uma falta de costas na saída de bola restando menos de um minuto para o fim. Sofreu o gol de empate, mais uma vez, no último girar do ponteiro.

O azar nunca foi tão previsível.

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