Mortal



Vital fez o gol da vitória do Corinthians sobre o Vasco (Foto: Antônio Cicero/Photopress)

Uma partida de futebol pode ser tão dolorosa quanto pingar própolis nos olhos. As decisivas, ainda mais. Elas se desenrolam quase que propositalmente para o seu desfecho mais cruel – para uns – e improvável, como se por obrigação ela tivesse que ter um ar irônico para se eternizar, para ferir ainda mais o perdedor. Não basta navalhar, tem que girar.

A Lei do Ex, como o próprio nome já indica, não deveria estar mais lá. Entretanto, se coloca, ao lado da de Murphy e a do impedimento, como cláusula pétrea da Constituição do Futebol. Há, porém, um agravante em um dos casos: o cria da base.

Sofrer um gol de um jogador que tomava Toddynho nas arquibancadas do clube sonhando ser profissional tem um quê de traição, ainda que a separação, por vezes, aconteça em comum acordo.

Mateus Vital, entretanto, não deixou o Vasco, ele foi doado, o que agrava ainda mais o gol marcado neste sábado.

Não que o garoto fosse uma unanimidade nas arquibancadas de São Januário. Nunca foi. Mas se o clube fosse administrado única e exclusivamente pela passionalidade de sua torcida, Felipe não teria sobrevivido à discreta estreia contra o Botafogo, em 96, e Pedrinho teria sido emprestado ao Olaria, no mesmo ano, no lugar de Pedro Renato.

A ironia do gol de Mateus vai além da obviedade da Lei do Ex, debochada por si só. Ela passa pelo valor negociado, o mais baixo entre as últimas promessas reveladas pelo Cruz-Maltino nos últimos anos, e pela maneira como a saída foi conduzida, na surdina, às vésperas de uma estreia na Libertadores, e concretizada por uma diretoria que já empilhava as caixas para deixar o clube. Vital foi vendido ao mesmo tempo em que o último porta-retrato era recolhido. Uma espécie de bazar de garagem.

Lapidado por 14 anos na base vascaína, Vital rendeu – financeiramente – ao clube, o suficiente para pagar menos de uma temporada a Wagner, que cobra R$ 8 milhões na Justiça. E nenhum veste mais a camisa do clube… Assim como Nenê, Evander, Guilherme Costa e Paulinho, totalizando seis baixas no meio-campo ofensivo em 2018. Vagas preenchidas apenas por Thiago Galhardo e Giovanni Augusto, dois dos líderes de lesões no ano.

Mais do que irônico, desde o seu nome, o gol de Vital foi simbólico – assim como a inércia de Raúl, os erros do árbitro Wilton Pereira Sampaio e a bola na trave de Henríquez. Quase cômico. Uma realidade cruel como aquela tradicional frase de banheiro de rodoviária, que narra a volta da água à própria nádega.

Pois é, voltou. E na proporção da m… feita.

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