A monovalência e a última impressão



Danilo Barcelos marcou seu 3º gol de falta (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

A polivalência, muitas vezes, é o esconderijo da mediocridade. Quem muita coisa faz, normalmente o faz com pouca eficiência. Salvo raras exceções, que já não figuram mais em gramados brasileiros. No futebol, polivalente virou sobrenome. Convencionou-se que acrescentar no currículo as funções de zagueiro, lateral, falso 9 e massagista – às terça a noite – é algo positivo.

É como colocar inglês, espanhol e italiano como básico só por ter assistido Friends legendado e escutado Alejandro Sanz e Laura Pausini nos ano 90. Nada acrescenta.

No meio disso, normalmente menosprezado, o monovalente. Danilo Barcelos é um destes exemplos.

“Ele bate muito bem na bola, e só”.

Ora, como se ter uma arma dessas nos pés pudesse ser reduzida a uma sílaba apenas. Ser especialista em algo não é defeito, muito pelo contrário. Luís Cláudio, em 97, era ‘só’ um grande cabeceador. E foi assim que ele deu vitórias importantes sobre Portuguesa, Santos e Racing, naquele ano. Contribuía exatamente com o que podia.

Assim como Danilo.

O camisa 14 foi alvo das primeiras vaias do ano, já na estreia, contra o Madureira. Terminou o jogo com nove assistências para finalização, recorde da equipe até agora no ano, todas elas em cruzamentos. Na partida seguinte, contra o Volta Redonda, marcou de falta o seu primeiro gol. O segundo sairia na decisão da Taça Guanabara, garantindo o título. O terceiro, nesta quarta-feira, contra o Avaí.

Foi a monovalência de Danilo, mais uma vez, que colocou o monofásico Vasco de volta no jogo após começar perdendo por 1 a 0, logo aos 10 minutos, com um gol de Pedro Castro. O lateral empatou, novamente de falta, ainda no 1º tempo e cruzou com perfeição para Rossi fazer 2 a 1 já na etapa final. Dos seus pés saíram ainda quatro assistências para finalização – é quem mais cria no time no ano – e cinco cruzamentos certos.

O mesmo pé que impediu o gol de Rodinei, no clássico do fim de semana, participou diretamente da construção de outros cinco – são três tentos e duas assistências na temporada. Apenas Marrony, com cinco bolas na rede, um passe e dois pênaltis sofridos foi mais efetivo na equipe.

O Vasco de Valentim é um time organizado na defesa, mas ainda se perde na hora de atacar. Atrás no placar, Lucas Mineiro virou meia e o time deu brechas para o contra-ataque catarinense. O jeito mais fácil – e seguro – de agredir era exatamente através de bolas paradas e cruzamentos da intermediária. E poucos laterais fazem isso tão bem quanto Danilo.

Isso muda, ou diminui, quando o treinador coloca em campo Rossi e Bruno César nos lugares de Marrony – que não fez um bom 1º tempo – e Raul, no intervalo, reeditando a formação contra o Boavista com dois meias de criação. Essa é, até agora, a única composição onde o Vasco deixa de ser monovalente e monótono na construção ofensiva, que muitas vezes gira a bola com a horizontalidade de um Pêndulo de Newton.

Com Bruno e Rossi, passou a ser mais vertical.

Valentim acertou ao mudar, mas ainda não explicou o porquê da escolha pela dupla no banco. A mudança de postura após as entradas só reafirmaram o questionamento.

Ninguém luta tanto neste Vasco quanto Rossi. Outro tachado pejorativamente de monovalente: “só corre”. Outra vez: como se fosse um defeito.

Rossi corre para marcar e desarmar. Corre para bater o lateral e ligar o contra-ataque. Corre também para antecipar o zagueiro e correr para o abraço com a torcida comemorando o segundo gol vascaíno, o da virada – após cruzamento de Danilo, que “só” cruza.

Alguns minutos depois, Rossi corre novamente, dessa vez para conseguir o escanteio. Bruno César – que “só” chuta – cruza, Thiago Galhardo – que era só vaias – carimba a trave e depois as redes, fazendo 3 a 1.

O Vasco é um time mais organizado do que em 2018, mais competitivo, mas ainda limitado. Limitação essa que o faz buscar explorar mais o simples do que o extraordinário. E nada mais trivial do que bola parada e cruzamento. É pouco, óbvio, mas tem sido consistente. Como base, até que o trabalho evolua, é uma opção quando se é forçado a propor o jogo.

O gol de Moritz, quase no fim, fez jus ao bom primeiro tempo do Avaí, e também acentuou a fragilidade de marcação, principalmente, dos volantes vascaínos. Não à toa o Cruz-Maltino é, entre os grandes, o time que mais cedeu finalizações no Carioca até agora, com uma média de 15 por partida. Muitas delas da entrada da área, de onde saíram os dois gols avaianos. Dado que explica também a preocupação de Alberto em colocar Andrey em campo para recompor a formação com dois volantes, já que Raul havia saído.

Porém, dessa vez, em vão.

O futebol é tão dinâmico e bipolar, que a torcida que vibrava com o empate e o 2 a 1, vaiou o 3 a 2. Na bola, e nas arquibancadas, a última impressão é a que fica.

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