Maxi López, o obelisco vascaíno



Maxi López marcou seu sexto gol pelo Vasco (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Amigos, confesso que me sentei para acompanhar Vasco x Internacional com o ceticismo de um terraplanista e o entusiasmo de um vegano em uma churrascaria. Tenho pra mim que um jogo de futebol só pode ser disputado com deleite numa sexta-feira à noite se for a pelada da firma, com churrasco e cerveja antes, durante e depois da peleja. Do contrário, nada mais é que um concorrente desnecessário exatamente da pelada da firma, que tem cerveja e churrasco antes, durante e depois da peleja.

Mas eu estava errado.

Vasco e Inter fizeram uma partida de sábado à tarde na Colina. Não necessariamente de um grande futebol, mas uma atuação digna, com entrega, que é praticamente o que resta pelas bandas de São Januário.

Disse no início sobre o meu ceticismo, e explico: o Vasco, dia sim e noutro também, arranca alguns litros de felicidade de seu torcedor, numa seringa reutilizada e sem esterilização. E nem sempre a devolve.

Entretanto, há algo nesse inconstante e combalido Vasco que vale a abstenção de “sextou”: Maxi López.

É bem verdade que o argentino não jogou sozinho. Principalmente no 1º tempo, onde o time de Alberto Valentim se apresentou com a suntuosidade que lhe deveria ser comum diariamente, mas que tem sido uma exclusividade somente de São Januário.

Marrony e Ramon fecharam bem o lado esquerdo, atacado por Rossi. Na direita, o sólido Luiz Gustavo compensava as subidas de Pikachu neutralizando Patrick. No meio, Andrey e William Maranhão deixavam pouco espaço para D’Alessandro pensar o jogo, assim como Werley e Castán – o segundo em especial – em Nico López.

Castán, Luiz Gustavo e Andrey, inclusive, lideraram o ranking de desarmes da partida, com três roubos de bola cada, segundo o Footstats. E o Vasco, que tem uma das piores médias de desarmes do Brasileiro – 12 por jogo -, quase dobrou seu desempenho no fundamento em relação ao jogo contra o Sport: 8 x 15.

O solidez defensiva apresentada no 1º tempo era algo coletivo e raro nas últimas partidas. Na frente, entretanto, era o individual que despontava, mais uma vez. Maxi Lopez girava, prendia e criava com a imponência e a envergadura de uma Plaza de Mayo, brigando pela posse entre os zagueiros como se disputasse o último bife de chorizo.

A cada bola longa vinda da defesa vascaína, Maxi surgia por entre camisas coloradas como um obelisco que emerge em uma praça de tijolos vermelhos. Tal qual a estrutura arquitetônica, o argentino parece ter como função – ainda que apenas na crença – extirpar as energias negativas do local. Não é, portanto, exagero dizer que Maxi é uma referência física, técnica e, por que não, até espiritual do Vasco.

O argentino é o ponto de desafogo do time, a chave da mudança. Um amuleto capaz de transformar azar em sorte. É como se a bola acalmasse nos seus pés, sem afobação, num contraponto do que tem sido o time, apesar da primeira etapa surpreendentemente organizada e controlada.

Mas se por um lado Maxi se impõe com a firmeza concreta de um obelisco, o Vasco, como um todo, segue frágil como uma moleira de um bebê. Inclusive fisicamente, algo que, na falta de qualidade técnica, deveria ser prioridade.

Quando o Inter abriu o placar, já perto do fim, com Jonatan Alves – em nova rebatida errada de Martin Silva, para a frente da área -, a equipe vascaína já se arrastava como um carrinho de supermercado com as rodas travadas: lento, irregular e barulhento. Ao estufar de redes, um coro de “eu sabia” ressoou entre gritos e pensamentos. Até o silêncio indicava já prever.

Havia, porém, ainda, Maxi López. E antes que digam, não há redução de mérito no gol de pênalti. Ainda mais pela circunstância da partida.

Apesar de ser o lance de maior desigualdade no futebol, com clara superioridade para o batedor, há um agravante negativo: a previsibilidade. Sabe-se quem chute, com que perna e de onde. O único mistério, ali, é o lado. A altura também, ok. Mas uma escolha errada, alguns centímetros desalinhados, um deslize no pé de apoio, e a glória se torna pesadelo.

O pênalti em Kelvin, que foi bem menos que o não marcado em Castán no início do 1º tempo, e que daria outra dinâmica ao duelo, colocou o argentino na marca da cal, local que abriga um histórico de canonizações e de velórios. Afinal, ali, naqueles 11 metros que separam o herói do vilão, não há espaço para fragilidades. Bom para Maxi, sólido como um obelisco.

O camisa 11 correu para a bola com a confiança de um veterano e bateu com a firmeza de um jovem, no canto direito de Lomba, empatando a partida. Mais uma em que o Vasco mereceu ganhar e não soube como fazer.

Se a atuação, enquanto teve pernas, anima o seu torcedor, a falta de vitórias e o eterno saco de vacilos mantém a apreensão.

Por sorte, ainda tem Maxi López e seu talento natural para espantar o negativismo.

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