A maior diferença do século



Lucas Mineiro teve muitas dificuldades para marcar Gérson (Foto: Alexandre Vidal/Flamengo)

Um Vasco x Flamengo não pode ser consumido de forma impulsiva, numa golada só, como uma cachaça barata qualquer antes do almoço. Não é aperitivo, é prato principal.

Nélson Rodrigues escreveu certa vez que o Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada. Eu jamais ousaria discordar de Nélson. Mas afirmo: se o duelo entre tricolores e rubro-negros nasceu antes de tudo, portanto, ainda no silêncio, o confronto entre Vasco e Flamengo, barulhento de berço, foi o que originou o Big Bang.

Ali, no estádio da rua Paysandu, em abril de 1923, começou o jogo que ainda não teve fim. A virada vascaína por 3 a 1 – gols de Cecy (2) e Negrito – deu início a uma partida sem ponto final, apenas com vírgulas. Nessa noite de sábado, mais uma. Novamente explosiva.

Dizem também que em clássico não há favorito. Nesse caso, sou obrigado a discordar. Por momento, há sim, sempre, alguém um passo à frente, ainda que não tenha uma vencedor antecipado. E é isso que faz do clássico tão emocionante. Mesmo com um dos lados sendo superior, existe a esperança de uma surpresa. Favoritismo não é certeza. Às vezes, porém, a diferença é muito grande para ser superada. Neste caso, a maior do século.

E não só pelo placar – 4 a 1 -, o maior imposto pelo time da Gávea no Clássico dos Milhões desde 2000.

Ao Vasco, sabidamente inferior, coube o papel de entrar em campo recuado, com o dedo no gatilho, esperando o contra-ataque. Faltava, no entanto, a bala, função quase sempre de Rossi. Ainda assim, conseguiu escapar algumas vezes com Raul e Pikachu pela direita. Talles Magno, por sua vez, novamente jogando como se tivesse um bastão entre o pescoço e o peito, sempre de cabeça erguida, articulava toda a movimentação ofensiva da equipe, desde a transição defensiva. A esquerda, porém, seguia cega.

Teoricamente era o jogo ideal para o Cruz-Maltino. Um Flamengo que atacava e dava espaços, contra um time rápido e vertical. Mas é preciso ser também eficiente. E os gols perdidos nas chances criadas deixavam isso claro. A qualidade, uma hora, invariavelmente, aparece.

Quando Bruno Henrique cortou da esquerda pra direita, passando pra Arrascaeta e recebendo de volta, como num treino qualquer de finalização, era clara e evidente a batida. Raul ficou pra trás, Lucas Mineiro e Henríquez, atrasados, se lançaram ao chão, à distância, e o atacante guardou com maestria. Sem qualidade, essa bola pararia na Esplanada dos Ministérios. Com talento, é gol.

Mesmo tendo apenas 39% de posse no 1º tempo, o Vasco conseguiu finalizar cinco vezes e permitir somente seis ao Flamengo. Um claro equilíbrio, apesar das propostas distintas. Porém, quando os números se equivalem, a precisão decide. O gol abriu um portal sem volta no clássico.

O Vasco, montado para contra-atacar, passou a ter que propor. E aí, amigos, cai por água qualquer chance de igualdade. Fora da toca, o time de Luxemburgo é um comum, um qualquer. Algo que não deveria ser, por toda a história do clube, mas é. Com cinco minutos da etapa final, Bruno Henrique – Gabigol na súmula – confirmou isso.

Ter a bola é quase um castigo para o time de São Januário. Enquanto o lúcido Gérson concentrava o jogo rubro-negro em seus pés – foi o líder de posse com 7,35% -, conduzindo quase que silenciosamente o meio-campo, o insosso Henrique, do frágil lado esquerdo cruz-maltino, que teve ainda os inoperantes Lucas Mineiro e Marquinho, foi quem mais a teve (5,18%). Por aí já se entende um pouco das dificuldades de criação.

Quem passou a dar espaços foi o Vasco, que sofreu com as bolas longas de Marí e Arrascaeta. Era a arma vascaína agora nas mãos dos flamenguistas, muito mais qualificados para decidir o jogo. E assim o fizeram.

Os dois pênaltis defendidos por Diego Alves, culminando na batida de Arrascaeta para fazer o quarto, formaram o retrato perfeito da diferença. Nos únicos momentos indiscutivelmente individuais do jogo, sem tática ou algo que o valha, o Fla levou a melhor. Ganhou outros vários duelos com a bola rolando, é claro, mas estes simbolizam a eficiência de um e as limitações do outro. Mesmo com ela parada.

Esse não é o pior Vasco deste século, longe disso. Mas talvez seja o melhor Flamengo. Ou ao menos um dos. E é isso que causa o distanciamento de hoje. Uma diferença que começa fora do campo e se reflete dentro dele.



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