A luta de Marrony



Marrony fez o gol da vitória vascaína (Foto: Carlos Gregório Jr/Vasco)

Não sei se é pelo bigode miúdo, bem assentado logo acima da boca, lembrando Sabará – primeiro ídolo de meu avô -, ou por ser um ponta canhoto, esguio, como Ipojucan. Ou talvez seja pelas pernas finas, como as de Jair Rosa Pinto. A questão é que algo em Marrony me remete constantemente ao passado. Um que eu nem vivi, aliás.

Uma época onde se doar em campo era algo natural e obrigatório. E não estou falando de entrega tática, mas sim de algo mais visceral. Marrony carrega consigo uma total falta de preocupação com seu uniforme ou até mesmo com o corpo. Esfolar-se é algo comum para o atacante, que nem sempre é tecnicamente eficiente mas é constantemente voluntarioso.

Marrony joga como se precisasse provar algo a alguém. Mais do que os outros. Talvez até para si próprio.

É o 4º atacante que mais desarma no Brasileirão – apenas Barcia, do Goiás, Rossi, seu companheiro, e Antony, do São Paulo, roubaram mais bolas – e o 3º da posição que mais comete faltas – atrás Everaldo, da Chapecoense, e Bruno Henrique, do Flamengo. Marrony, literalmente, briga.

É como se ainda fosse um juvenil buscando um espaço nos profissionais. Mas a verdade é que já não é. Ainda que seja necessário ter calma na avaliação de um menino de 20 anos em seu segundo ano no time principal.

Marrony nem sempre toma as melhores decisões com a bola nos pés, é verdade, mas jamais abre mão de brigar por ela.

O camisa 38 começou o ano jogando pela esquerda. Por vezes, trocava com Rossi, indo para a direita. Na falta de um 9, agora assume vez ou outra a função de centroavante do time – como foi no 2º tempo contra o Inter. Com Luxemburgo, em alguns jogos, chegou a ser um segundo atacante por dentro, flutuando às costas de Ribamar.

Marrony se encaixa em qualquer lugar porque, antes de tudo, briga para estar em algum. Ou para chegar nele.

O garoto marca lateral, zagueiro, volante e até goleiro. Neste domingo, contra o Internacional, vejam só: marcou até gol. E a entrega foi tanta, que o próprio tento foi um mero detalhe em sua atuação.

Com dois minutos de jogo Marrony já dava um lençol de cabeça em Edenílson, driblava por dentro e era derrubado por Bruno Silva. Ali, no primeiro toque, deixava claro que seria um incômodo constante aos seus marcadores.

Num certo ponto da partida, na defesa, ciscou duas vezes na linha de lado, indo e voltando com a bola, pressionado, esperando um companheiro para jogar. Sozinho, tirou para dançar Heitor e Patrick, até sofrer a falta. Uma tranquilidade que até outro dia não era vista no jogador. Uma evolução, ao que parece, natural.

Com o Inter formando uma blitz do seu lado, com D’Alessandro, Nico, os volantes e até Zeca, o lateral-esquerdo, agrupados pela direita de ataque – esquerda de defesa do Vasco -, Marrony precisou se desdobrar defensivamente. Algo que já é natural para o atacante. Quando teve a bola nos pés, porém, soube acelerar e criar – foi o líder de assistências para finalização do time, com quatro.

Aos 23, após ótima triangulação entre Castán, Henrique e Bruno Gomes, recebeu no meio-campo e lançou Felipe Ferreira, que viu seu chute explodir nas mãos de lomba. Já nos acréscimos, aos 51, a grande pintura do menino.

Com quatro marcadores em sua volta, Marrony lavou, cozinhou, passou e tricotou um casaquinho, antes de servir docemente Lucas, o Ribamar, no centro da defesa. O camisa 9 vascaíno, porém, não mostrou o mesmo virtuosismo do garoto, e mandou para fora a grande chance até então.

O gol no início da etapa final, no entanto, viria para consagrar a grande atuação de Marrony. Não foi plástico como as jogadas individuais criadas pela esquerda, mas foi na luta que tem sido a sua principal marca.



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