Jairinho, uma história que merece ser continuada



Jairinho passa por Cáceres (Foto: Andre Melo Andrade/AM Press/Gazeta Press)

Vi Jairinho pela primeira vez no Flamengo x Bangu da 1ª rodada do Campeonato Carioca, no Maracanã, partida vencida pelo Rubro-Negro por 2 a 1 mas com boa atuação de todo o coletivo banguense, que saiu na frente e jogou com um a menos desde os 13 minutos da etapa inicial. O ponta esquerda entrou no 2º tempo e aprontou uma correria pra cima de Pará.

Depois do jogo fui pesquisar sobre o jogador e encontrei: Jairinho, 22 anos, revelado pelo Campo Grande em 2017. Fazia sentido. Se tratava de um entre tantos jovens tentando despontar no Estadual, assim como Marcos Junior e Yaya Banhoro, também do alvirrubro.

O camisa 11 entrou bem também contra o Botafogo, assustou o gol de Gatito duas vezes e ganhou a titularidade no decorrer da competição.

Em sua primeira partida atuando os 90 minutos, deu uma assistência na vitória do Bangu sobre o Americano por 2 a 0. No jogo seguinte, contra o Vasco, em São Januário, iniciou a jogada que resultou no gol de Marcos Júnior, no triunfo dos vistantes por 2 a 1 que colocou o time nas semifinais da Taça Rio. Jairinho foi o maior driblador da confronto, com duas fintas certas, e o jogador de ataque mais participativo no jogo junto de Yaya, trocando 26 passes certos.

Na semi, novamente conta o Cruz-Maltino, o ponta se destacou pelos dribles – líder novamente com dois certos – e por ser um dos principais desafogos da equipe banguense, puxando a maioria dos contra-ataques em velocidade pela ponta esquerda, sendo o terceiro com mais passes certos no time – o primeiro, mais uma vez, entre os homens de frente.

No terceiro encontro seguido com o Vasco, nova atuação destacada. Mais uma vez saindo de campo como o maior driblador da partida, com três fintas certas e nenhuma errada – assim como nos outros duelos. Dessa vez, foi ainda um dos líderes do Bangu em assistências para finalização, com duas, e o de maior posse do time (5,58%), superando inclusive Marcos Junior (5,52%), responsável por ditar o ritmo da equipe.

Foi ele, inclusive, o responsável por puxar o contra-ataque que resultou no gol de empate alvirrubro, partindo do campo de defesa e abrindo para Dieyson servir Yaya. Uma de suas principais características no campeonato. O gol de Sasse, porém, eliminaria o Bangu da decisão do Carioca, o que seria um feito ainda mais histórico para o time que conseguiu o seu melhor resultado desde 2002.

Jairinho, ao lado de Yaya, Marcos Júnior e do goleiro Jefferson, terminaria o campeonato como um dos destaques do Bangu, terceiro colocado na competição, ficando à frente de Fluminense e Botafogo. Uma das revelações da disputa, até que se ‘descobriu’ que o atacante na verdade tem 28 anos e não 22, como informavam alguns sites – que fizeram a correção posteriormente.

A informação torceu o nariz de alguns que achavam se tratar de uma jovem promessa.

Ora, como se um jogador de 28 anos que nunca teve uma chance no futebol fosse um risco mais alto que um de 30, que ganha por mês o que o banguense não recebeu nos últimos dez anos, e que teve diversas chances em clubes grandes sem nunca ter aproveitado e hoje vive de lampejos, como muitos.

É claro que investir em um de 22 é melhor, abre uma janela para uma venda futura. Com 28, passa a ser um investimento ‘apenas’ técnico. O risco, no entanto, é zero.

Assim como foram Marçal, Marcão – aquele mesmo que se tornou ídolo do Fluminense depois e que é auxiliar de Ado no Bangu -, Maciel, Acássio, Vágner, Odvan e Nasa – que também tinha 28 anos na época -, em 97. Os dois últimos se tornaram base da equipe multicampeã nos anos 90. Ou Dedé, criticado em 2009 por ter vindo do Volta Redonda e ter lesionado Carlos Alberto em um de seus primeiros treinos, e que se tornou o pilar defensivo do time campeão da Copa do Brasil em 2011.

Na verdade, Jairinho, aos 28 anos, jogou como se tivesse 22 sem que ninguém duvidasse. Se não fosse o seu registro oficial, ninguém notaria a diferença pelo o que fez em campo. Correu e driblou, inclusive, mais do que muitos bem mais jovens no campeonato. E isso contra Vasco, Botafogo e Flamengo, não apenas contra os pequenos.

O grande mistério sobre Jairinho era sobre o seu passado. Como um jogador de 28 anos não tem nenhum registro antes de 2017, com a camisa do Campo Grande, na 4ª divisão do Rio?

A resposta foi trazida na ótima reportagem de Renan Mafra, do site FutRio: Jairinho havia largado o futebol ainda na base, desiludido com a bola, para ir trabalhar num sacolão.

Enquanto seus adversários passaram os últimos anos sob os cuidados de preparadores físicos, fisioterapeutas, fisiologistas e nutricionistas, Jairinho provavelmente chupava laranja sentado num caixote qualquer. Ainda assim, os venceu na maioria dos duelos travados em campo.

E isso não deve depreciar a história ou diminuir os feitos de Jairinho, muito pelo contrário. Com todas as adversidades, quase como um jogador amador, ainda assim conseguiu se destacar em cima de profissionais que possuem estruturas e suportes muito maiores. E por muito mais tempo.

O atacante revelou que chorava todos os dias após o expediente, arrependido pela escolha que fez. Chegava em casa às 2h e voltava ao trabalho às 5h. Talvez isso explique os piques incansáveis até o fim dos jogos, puxando o time do Bangu para o campo de ataque, encaixotando marcadores e abrindo espaços.

O Vasco tem interesse em Jairinho. Tinha mais quando achava ter 22. Mas isso não deveria ser problema.

Se a defesa vascaína teve dificuldades para parar o rápido ponta de 28 anos, o defeito não está nem na idade, menos ainda na qualidade do atleta, mas sim no atual elenco vascaíno. Ou que se reconheça a qualidade do atacante.

Jairinho está longe de ser a solução do ataque vascaíno, é claro. Mas pode ser útil no um contra um, arma que falta ao time. O Vasco teve a menor média de dribles certos do Carioca, com 2,8 por rodada. É quase a média do atacante sozinho nos três jogos contra o clube – 2,3. Isso faz do time muitas vezes previsível na hora de concluir as jogadas.

Mais eficiente e barato do que manter 12 volantes no elenco, certamente é.

Jairinho é uma das grandes histórias que o futebol carrega e que, normalmente, só o Estadual proporciona. Como ele, muitos pararam e jamais voltaram. Outros, tentaram e não conseguiram. Ele tem a chance de ser a exceção.

Mais do que idade, Jairinho mostrou futebol no Carioca. E merece, pelo menos, que sua história ganhe um novo capítulo e que não seja interrompida precocemente como já foi um dia. Principalmente em razão de sua idade.

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