Isaías, o beija-flor



* Texto originalmente publicado pelo autor no livro ‘1898 em diante’

“Isaías era um pássaro de ébano com reflexos roxos, que encantava os sentidos fatigados de movimentos comuns. Partiu para um infinito deixando no caminho um rastro ziguezagueante de luz.”. O relato é de Luiz Menezes no Globo Sportivo de 11 de junho de 1947.

Como ele não diz a qual tipo de pássaro se refere, me permito imaginar Isaías como um beija-flor. Desses que surgem rapidamente em meio a uma janela entreaberta, de surpresa, encanta e se vai antes mesmo que a sua presença seja registrada por uma máquina qualquer. Um incansável batedor de asas, de passagem fugaz, porém marcante.

A verdade é que Isaías foi um dos muitos craques ofuscados pelo tempo, pela ausência da TV ou de um Maracanã capaz de amplificar o seu talento. Os craques da era pré-televisão foram assim, algo como os grandes músicos da Idade Média. Gênios que só encantaram uns poucos que tiveram o privilégio de vê-los de perto, ao vivo.

Isaías se foi antes que o mundo registrasse suas habilidades com a devida justiça, tal qual um beija-flor que não espera o click do fotógrafo. Partiu aos 25 anos de idade após meses lutando contra a tuberculose.

Isaias era fisicamente o mais forte dos Três Patetas, trio ofensivo do Madureira  formado com Jair Rosa Pinto e Lelé, que encantou o Rio de Janeiro no início dos anos 40 e que logo foi contratado pelo Vasco. Ninguém poderia imaginar que uma doença derrubaria o forte atacante vascaíno. Nenhum zagueiro sequer chegava perto, não seria uma enfermidade que pararia o jovem atleta. Mas foi.

A morte precoce fez com que a história o deixasse à sombra de seus amigos Jajá e Lelé, que seguiriam brilhando pelos gramados mundo afora nos anos seguintes, inclusive defendendo a Seleção Brasileira. Isaías, no entanto, jamais foi um coadjuvante. Nem na morte, muito menos em vida.

Jair e Lelé estrearam antes com a camisa vascaína, ainda em 1942, mas Isaías brilhou primeiro. No seu primeiro coletivo em São Januário, marcou três gols na vitória dos titulares sobre os reservas por 5 a 4, se sobressaindo até à Ademir Menezes. Em seu primeiro jogo, contra o Corinthians, no Pacaembu, rápido como um beija-flor, precisou de apenas cinco minutos para beijar as redes. A partida terminaria em 2 a 2, e o atacante não sairia mais do time.

Isaías marcaria 21 gols em 1943, sendo superado somente por Queixada, com 27, na artilharia cruz-maltina daquele ano. Em 44, mais 22 bolas na rede. Dessa vez o seu amigo Lelé terminaria no topo com incríveis 36 tentos. No ano seguinte, mais 13. E depois, outros 22.

Em apenas quatro anos, Isaías se tornou o sexto maior goleador das três décadas de futebol do clube com 78 gols em 124 jogos. Ademir, o terceiro maior de todos os tempos até hoje com 301 tentos, naquele momento havia marcado “somente” 83. Passadas quase oito décadas de sua morte, segue sendo o 8º maior artilheiro vascaíno no clássico com o Flamengo, com 8 gols.

Até onde chegaria Isaías? Difícil dizer. Suas asas bateram rápido demais, cedo demais. Mas não sem antes polinizar algumas flores, claro, como um bom beija-flor.

Antes de partir, Isaías deixou família. Cinquenta e dois anos após sua morte, em 1999, seu bisneto também trocou Madureira por São Januário: Léo Lima.

O meia não voaria tão alto quanto o bisavô, mas conseguiria imortalizar toda a família num único gesto. A TV, o Maracanã que faltou à Isaías, sobrou para Léo que precisou de apenas um momento resgatar a história do velho atacante.

A letra do meia contra o Fluminense, símbolo da conquista vascaína no Campeonato Carioca de 2003, não foi um improviso de momento ou um simples recurso técnico. Foi a mais pura prova da presença de Isaías não só no campo, mas no DNA do camisa 10.

Sessenta anos antes, no dia 2 de agosto de 1942, Isaías havia consagrado o mesmo gesto, exatamente num duelo com o Tricolor Carioca. Naquela época, ainda defendendo outro tricolor, o Suburbano, que goleou por 4 a 1 em plena Laranjeiras. O atacante fez dois, sendo o último uma pintura.

Isaías foi além da letra. Antes de empurrar para as redes com a soberba que só é permitida aos grandes craques, driblou três zagueiros e o goleiro Gijo, não deixando ali qualquer dúvida sobre o seu talento.

Um dos raros momentos em que o beija-flor permitiu ser imortalizado em voo solo.

** Publicação em homenagem aos 100 anos do nascimento de Isaías, completados no dia 27 de outubro de 2021



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