Infância



Camisa de pano, meião listrado... (Foto: Arquivo pessoal)

Camisa de pano, meião listrado… (Foto: Arquivo pessoal)

Bolinho de chuva. Esse era o cheiro que dominava a casa dos meus avós em dia de jogo. Vem de lá, e com esse aroma, as minhas primeiras lembranças do futebol. Eu e Vô David na sala. Vó Mazinha na cozinha. Ele bebendo seu licor caseiro de alguma fruta que tenha dado perto de casa e ela fritando os bolinhos para acompanhar.

Não importava o jogo, o dia e nem a hora. O ritual era sempre o mesmo.

Eu, sentado no chão de taco para ficar mais perto do radinho. Ele, no sofá, fingindo fazer pouco caso. Fingia em todos os jogos. Começava a ‘não se importar’ uma hora antes e só parava umas três depois, quando se esgotavam todas resenhas possíveis no rádio e um esporádico vt na Bandeirantes, com narração de Januário de Oliveira – a voz da minha infância.

Eu, fã da genialidade de Bismarck. Ele, encantado com os gols de Valdir. Eu, preocupado com o meio. Ele, com o fim.

Apoiado na mesinha de centro, o Jornal dos Sports, com suas páginas rosas que minha avó usava depois – antes de eu começar a recortar – para embrulhar ovos. E lá eu fiz minhas primeiras anotações, fosse um cartão amarelo ou um gol marcado. Tudo ia pra a ‘minha súmula’.

Além do radinho e da antiga televisão que não tinha mais que quatro canais – Manchete, Bandeirantes, SBT e Globo -, a única ‘grande tecnologia’ que havia ali era o relógio do Silvio Santos – sim, ele mesmo – em que um galo anunciava a hora. Meu avô adorava tanto quanto um gol do Vasco, achava aquilo demais. E eu admirava ainda mais. Os dois.

Nosso tempo real era nossa imaginação. Fazíamos tira-teima intuitivo acompanhando o jogo pelo rádio. Dava pra saber se estava irregular ou não pelo vibrar ou lamentar da torcida.

‘- Certeza de que não estava! Juiz ladrão!’, bradávamos enquanto apontamos para o velho rádio Semp Toshiba cinza, modelo TR-950, enquanto os comentaristas também analisavam sem replay. E todos concordávamos. Ou não.

O velho radinho cinza... (Foto: Reprodução)

O velho radinho cinza… (Foto: Reprodução)

Eram outros tempos. Vibrávamos com dribles que sequer havíamos visto. Até hoje não sabemos como foi, mas sabemos que foi. E isso bastava.

O jogo talvez fosse mais bonito por ser criado imaginariamente dentro da minha cabeça. Os craques, mais craques, por eu saber menos deles. Ou eles saberem menos sobre o mundo. Ou o mundo querer ser menos eles.

Assistir uma partida ao vivo era raro, talvez por isso uma reprise no fim da noite comendo bolinhos de chuva fosse tão especial. Por mais que já soubéssemos o placar. Ainda que já conhecêssemos o tempero de Dona Mazinha. Era sempre tudo novo, tudo puro.

Tudo real, nada virtual. Tão concreto quanto as arquibancadas de São Januário.

Naquele piso, muitas vezes solto, passei grande parte do início da década de 90. ‘Vi’, com os ouvidos, os primeiros dribles de Edmundo. ‘Ouvi’, com o olhos que miravam meu avô, seu grito de gol calado quando Jardel marcou duas vezes na final do Carioca de 94.

Inocente, como toda criança, achei que Richardson seria o novo Bismarck, que Brener seria o substituto ideal de Dener, que Clóvis era o atacante mais cruel da face da terra e que Pedro Renato era o cara mais habilidoso daquela geração (ahhh, aquela lesão contra o Flamengo que nunca vi mas tanto lamentei…).

Canela, naquela época, apenas para passar nos quitutes de vovó. O bolinho era de chuva. O cheiro, até hoje, é da minha infância. Memórias e perfumes andam lado a lado. Juntos, trazem sentimentos de épocas que, infelizmente, não voltam. Mas que bom que foram vividas tão intensamente quanta um grito de gol no velho Maraca em dia de clássico.



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