Homenagear Barbosa é reverenciar o próprio Vasco



Barbosa é um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro (Foto: Reprodução)

Conversava outro dia com um amigo, também jornalista esportivo, sobre o nosso papel em meio a uma pandemia. Não há jogos, não temos notícias, não há um chute torto sequer para uma notinha fajuta de rodapé. E cheguei a conclusão que, se não podemos salvar vidas diretamente, como muito bem fazem os médicos, enfermeiros e fisioterapeutas nos hospitais, temos o dever de salvar memórias. Assim surgiram as ideias de dois livros, uma revista e algumas entrevistas que serão publicadas em breve.

Somos um povo que esquece rápido e demora para aplaudir. Às vezes nem isso o faz. Nos tornamos adeptos da vaia compulsiva e do elogio comedido. Há quem espere até hoje um 7 a 1 pra cima de Messi ou Cristiano Ronaldo para dizer que não foram isso tudo, para relegá-los aos mortais. Viramos analistas das falhas, e não é de hoje.

Barbosa talvez seja o maior exemplo disso.

Dias após o fim da Copa do Mundo de 1950, o Jornal dos Sports estampava a seguinte manchete: “Barbosa e Bigode, os esteios da Seleção”. E completava: “Esplendida trajetória da Seleção Brasileira na Copa do Mundo desse ano”. E reforçava nas linhas seguintes: “Indiscutivelmente, para quem assistiu aos jogos do Brasil, Barbosa e Bigode foram sempre dois esteios (um suporte, uma segurança) da equipe brasileira. Sua atuação foi espetacular mesmo, provocando exclamações de espanto por parte de estrangeiros que ainda não os haviam visto jogar.”

Ou seja, ao terminar a Copa, para quem viu no estádio, Barbosa não era vilão, mas sim herói daquele time. E o insucesso na decisão, apesar de naturalmente doloroso – como toda derrota é -, representava não uma vergonha nacional, mas sim um marco na história do futebol brasileiro: a primeira vez em que chegaram à uma decisão de Mundial.

Apesar das milhares de pessoas que lotaram o Maracanã para assistir o Brasil golear México (4 a 0), Suécia (7 a 1), Espanha (6 a 1), vencer a Iugoslávia (2×0) e empatar com a Suíça (2×2), a imagem que ficou para milhões foi a do gol de Ghiggia. A história passou a ser contada somente do fim. Viramos adoradores da derrota.

Quando Parreira impediu Barbosa de conversar com Taffarel às vésperas do jogo decisivo com o Uruguai, nas Eliminatórias de 93, ficou claro como uma história mal contada pode afetar vidas inteiras. Um dos maiores goleiros da história do Brasil relegado à um pé frio qualquer.

A vida, as pessoas, foram injustas com Barbosa. O Vasco, sua casa por mais de dez anos, não pode ser.

Nos últimos dias, o torcedor vascaíno tem se mobilizado para escolher o nome do seu novo CT que vem sendo construído. Craques não faltam à história do clube para uma votação. Poderiam colocar 30 nomes num saquinho, de Nelson da Conceição à Mauro Galvão, jogar para o alto e escolher qualquer um. Certamente dali sairia um grande ídolo.

Nenhum deles, porém, tão merecedor de uma nova história quanto Barbosa. Homenageá-lo, dando seu nome ao Centro de Treinamentos, é reverenciar o próprio Vasco.

Barbosa não é goleiro da Seleção que sofreu o gol do Uruguai, mas sim o arqueiro vascaíno campeão invicto de dois Cariocas (47 e 49) e um Sul-Americano (48). Derrotas impedidas por Barbosa, que por tantas vezes parou Heleno de Freitas, Ademir – nos tempos de Fluminense -, Di Stéfano, Zizinho, Esquerdinha, Jair Rosa Pinto, Leônidas da Silva, Didi… e até mesmo Ghiggia.

Em 1951, o Cruz-Maltino, base da Seleção de 50, enfrentou o Peñarol, base do Uruguai campeão do mundo meses antes. Um jogo em cada país e duas vitórias vascaínas.

Barbosa parou Ghiggia, Obdulio Varella e Schiaffino tanto lá quanto cá: 3 x 0 fora e 2 a 0 no Maracanã. Nenhum gol sofrido e a confiança no futebol brasileiro restabelecida. O viralatismo já não latia tão alto.

Transformaram Barbosa no símbolo de uma geração que, pra eles, fracassou. O Vasco agora tem a chance de mudar isso, fazendo com que o seu nome seja lembrado como a casa de muitas gerações que triunfarão.



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