Eu tenho pena de Germán Cano



Cano é o responsável por mais de 50% dos gols do Vasco no ano (Foto: Daniel Jayo/AFP)

Eu tenho pena de Germán Cano.

Sei que esse não é um dos sentimentos mais nobres, mas a psicologia o define como algo “comum à maioria das pessoas, que se sentem tristes ao verem alguém em uma situação delicada”. Pois é exatamente que sinto ao ver o atacante argentino.

Cano é o artilheiro de um time que não sabe atacar. É como se fosse um pugilista numa equipe de xadrez: praticam esportes distintos.

Se não fosse a enorme qualidade individual do camisa 14, seu efeito no coletivo seria nulo, já que depende em grande parte do tempo que o sirvam. Digo grande parte do tempo e não todo o tempo por um motivo simples: Cano cria sua próprias oportunidades. Isso graças ao seu talento natural para atacar espaços, como já escrevi aqui certa vez.

E o gol contra o Fluminense é a prova disso. Mais uma vez.

Leo Gil não tentou servir Cano. Me atrevo a dizer que o volante, que joga quase sempre de cabeça baixa, sequer havia visto o atacante por ali. Simplesmente bateu a bola para a área e rezou. E no Vasco atual, o santo atende por nome e sobrenome: Germán Cano.

Não existe outra ideia ofensiva eficiente no Vasco. Não há maneira do time marcar que não seja pelos pés do hermano. É como se todos os outros fossem café com leite na brincadeira, incapazes de seguir a regra natural do jogo. Ou Cano marca, ou ninguém marca.

Se tiver a oportunidade, reveja o replay do tento. Quando Gil recebe de Benítez, Cano é o vascaíno mais aberto na esquerda numa linha de quatro dentro da área. Após a batida, ele – e só ele -, faz a diagonal para interceptar a bola e marcar livre. Isso porque ele – e só ele – conhece o caminho do gol.

O Vasco tem apenas 41 gols no ano. É o pior ataque da temporada entre os 20 clubes da Série A. É a pior média da história do clube. E ainda assim, tem o maior artilheiro de 2020 entre os atletas da elite: claro, ele – e só ele -, Germán Cano.

Talvez você esteja pensando: “mas Garone, você deveria ter pena do Vasco, não do Cano”. Eu te entendo e até concordo. Mas a questão aqui, pra mim, é: Cano faz a sua parte e entrega o que foi prometido, já o Vasco, não. O clube colhe o que plantou, Cano é vítima. Logo, digno de compaixão.

Cano tem mais gols que o Vasco, se separarmos o centroavante do restante: 21 x 20. Nem mesmo em 2000, quando Romário marcou 66 gols – recorde na história do clube -, o Cruz-Maltino teve uma dependência tão grande de um goleador – o time estufou as redes mais 107 vezes. Nem com Roberto Dinamite em 1981, ano em que fez a alegria da torcida em 61 oportunidades – recorde antes do Baixinho -, um artilheiro teve que ser tão decisivo isoladamente.

Eu tenho pena de Germán Cano…

Num time minimamente organizado, seus números individuais seriam ainda mais expressivos. Numa equipe mais competitiva, o argentino daria mais do que 15 passes por jogo – média mais baixa entre os principais artilheiros do Brasileiro. Num Vasco que não se limitasse a cruzamentos – foram 20 contra o Fluminense – e bolas longas – 44 -, Cano certamente teria uma média de finalizações superior a duas por jogo – segunda pior marca entre os principais artilheiros, ficando à frente apenas de Luciano (1,84 f/j), do São Paulo; o tricolor, porém, joga ao lado de Brenner, que tem média de 2,7.

Eu tenho pena de Cano por ser um talento individual em meio ao caos coletivo, um oásis de esperança num deserto de ideias que tem sido o Vasco.

* Com dados do Sofascore



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