Escolha do Vasco por Ramon mantém antiga tradição em São Januário



Ramon brilhou no Vasco como jogador (Foto: Márcio Rodrigues)

Grandes jogadores se tornarem técnicos não é nenhuma novidade no futebol. Desde o inglês Henry Welfare, ídolo do Fluminense que treinou o Vasco na década de 20, passando por Telê Santana, Zagallo e Evaristo de Macedo, até chegarmos hoje a Rogério Ceni e Renato Gaúcho, muitos foram os casos.

Isso sem falar na Europa, de Cruyff a Guardiola.

Em São Januário, porém, isso parece ter se tornado quase uma tradição. E antiga. Mais do que ex-jogadores, são ex-atletas do próprio clube assumindo o posto. Ramon Menezes, efetivado nessa segunda-feira, o último deles.

Autor de 96 gols em 270 jogos com a camisa vascaína – 18º maior artilheiro da história do clube -, Ramon será o 28º a ter essa experiência nas duas funções no Vasco. Uma lista tão extensa que é possível montar não só uma, mas duas seleções.

De um lado, uma equipe com Yustrich, Paulinho de Almeida, Abel, Mauro Galvão e Calocero; Ely e Alcir; Russinho, Pinga, Ademir Menezes e Romário. Do outro, PC Gusmão, Orlando Lelé, Joel, Gaúcho e Jorginho; Zanata e Jair Pereira; Ramon, Gradim, Zizinho e Valdir. E ainda teriam reservas.

O primeiro ex-jogador do Vasco a assumir o clube como treinador foi Russinho, 5º maior artilheiro da história do clube com 225 gols marcados. Em 1938, após a demissão de Floriano Peixoto, o recém-aposentado atacante – e então diretor de futebol – comandou a equipe por quatro jogos, até que o uruguaio Carlos Scarone chegou.

Formação do Vasco de 1929 com Russinho no centro, agachado

Oito anos mais tarde foi a vez de Roque Calocero, lateral-esquerdo comandado por Russinho em 38, assumir o comando. Após a queda do português Ernesto Santos, o argentino foi efetivado no cargo em outubro de 46 e por lá ficou até abril de 47, quando Flávio Costa tomou as rédeas para levar o clube ao título Sul-Americano de 48.

Depois foi a vez de Gradim, outro antigo goleador da Cruz de Malta. Atacante do time entre 1934 e 1937, marcando 20 gols no período, se tornou treinador da equipe em 1957, substituindo Martim Francisco, em novembro. No elenco que comandou, nomes como Ely do Amparo, Paulinho de Almeida e Pinga, que também se tornariam técnicos do Cruz-Maltino mais à frente.

Ao sair no fim de 59, tendo conquistado o Carioca e o Rio-São Paulo no ano anterior, Gradim foi substituído pelo ex-goleiro Yustrich, que defendeu o clube entre 44 e 45, sendo reserva de Barcheta e de Rodrigues antes do surgimento de Barbosa.

Ely, seu antigo companheiro de time, ocuparia o seu lugar interinamente em 1960. O meia do Expresso da Vitória ainda retornou na temporada seguinte, após as saídas de Filpo Nunes e, novamente, Martim Francisco. Como efetivo, porém, apenas em 64, quando foi chamado após a demissão de Duque, ex-zagueiro que passou pelo clube na década de 50.

Em 1966, outra vez Ely serviu de ponte para o novo treinador. Assumiu o cargo em novembro, após a queda de Zezé Moreira, e o entregou em janeiro de 67 para Zizinho, ídolo do Flamengo, mas que em 55 foi emprestado pelo Bangu ao Vasco para a disputa de dois amistosos.

Zizinho e Ademir vestiram a camisa do Vasco em campo e fora dele

Mestre Ziza, porém, cairia em junho, após derrota para o América, dando lugar a Gentil Cardoso. Gentil, por sua vez, também não terminou a temporada, sendo trocado em outubro pelo até então maior artilheiro da história do clube: Ademir Menezes.

A passagem do Queixada também seria curta – 12 confrontos -, e outro ex-jogador e ídolo do Vasco ocuparia o seu posto logo no início de 1968: Paulinho de Almeida.

Considerado por muitos o maior lateral-direito da história da equipe de São Januário, Paulinho obteve 30 vitórias, 10 empates e 14 derrotas nos 54 jogos à frente do time. Nem o bom desempenho, porém, impediu a sua saída faltando duas partidas para o fim da temporada, quando Pinga, 4º maior goleador do Vasco em todos os tempos, passou a comandar a equipe.

A ciranda continuaria.

Pinga cai em abril, após empate em 0 a 0 com o Bonsucesso, e Evaristo de Macedo, recém-aposentado dos gramados – mas sem nunca ter vestido a camisa cruz-maltina -, ocupa a função. Em agosto, Paulinho de Almeida reassume, mas apenas até outubro, quando Célio de Souza – que não foi jogador – vira o treinador.

Os anos 70 começam com Tim – ex-jogador de Corinthians, São Paulo, Botafogo e Fluminense – no comando, e o Vasco encerra um jejum de 12 anos sem títulos estaduais – desde Gradim. A dança de treinadores diminui o ritmo, mas prossegue, e Zizinho retorna à São Januário em 72 para ocupar a vaga deixada por Admildo Chirol.

Começava ali, sob a batuta de Ziza, a era Roberto Dinamite do Vasco.

Até então apenas um menino recém-promovido aos profissionais, o craque teria com Zizinho a sua primeira sequência entre os titulares. Roberto havia sido lançando com Chirol, mas quase sempre entrando no 2º tempo. Quando marcou o histórico gol sobre o Internacional, em 71, que imortalizou o apelido de Dinamite – ganho ainda na base -, o artilheiro substituiu Gilson Nunes, outro que viveu os dois lados.

Gilson foi treinador do Vasco em uma partida em 1979 e em outras 12 em 1981.

Nessa segunda passagem, Nunes deu sequência ao trabalho de Orlando Fantoni, ex-atacante do clube entre 38 e 39, quando jogou com seu irmão, Niginho. Fantoni já havia comandado o time também em 77.

A década de 70 formou também muitos nomes que se tornaram técnicos do clube nos anos seguintes. Apenas do time campeão brasileiro em 74, quatro se tornaram técnicos do Vasco: Zanata – 83, 88-89 e 95/96 – Joel Santana – 86/87, 92/93, 2000/2001 e 2014 -, Alcir Portela – 90, 93, 96 e 2001 – e Gaúcho – 2010, 12 e 13.

Jair Pereira – 94/95 – e Edu – 84/85 -, irmão de Zico, contratados em 75, também dirigiram a equipe depois. Abel Braga, zagueiro trazido em 76, é outro, sendo treinador em 95, 2000 e agora, em 2020. Seu companheiro de Barreira do Inferno – como ficou conhecida a defesa do Vasco de 77 -, Orlando Lelé dirigia o time em alguns poucos jogos no início de 89.

Nesse século não tem sido diferente. Alcir, capitão do Brasileiro de 74, comandou o time no primeiro jogo de 2001 – derrota dos reservas para o São Paulo pelo Rio-São Paulo -, enquanto que Joel – outro campeão de 74 – prepara os titulares para a decisão do Brasileirão contra o São Caetano. PC Gusmão, goleiro do Vasco nos anos 80, assumiria em outubro daquele ano, após a queda de Hélio dos Anjos.

Em 2003 foi a vez de Mauro Galvão, capitão da conquista da Libertadores de 98, se arriscar no cargo. O ex-zagueiro assumiu em julho, após nova queda de Lopes, e dirigiu o time em 30 partidas, conseguindo apenas 8 vitórias, 10 empates e 12 derrotas.

Quatro anos mais tarde, o teste mais inusitado. Já próximo de encerrar a carreira, mas ainda em atividade como jogador, Romário fez as duas funções com a queda de Celso Roth já no fim de outubro. A dobradinha durou apenas uma partida: vitória por 1 a 0 sobre o América do México. Ao menos oficialmente.

Romário foi jogador e técnico em 2007, contra o América do México pela Sul-Americana

O Baixinho até tentou iniciar 2008 como treinador do Vasco, mas uma suspensão por doping – depois foi absolvido – o retirou inclusive do banco de reservas nas partidas iniciais. Alfredo Sampaio fez o papel do auxiliar-técnico e assumiu o time nas primeiras partidas, mas logo os dois deixaram o clube. Em abril o camisa 11 anunciaria a sua aposentadoria definitiva.

Tita, campeão brasileiro como jogador em 89, seria um dos técnicos daquela trágica temporada de 2008. PC Gusmão voltaria em 2010 e ficaria até 2011, quando Ricardo Gomes assume para ganhar a Copa do Brasil.

Gaúcho, que já havia assumido interinamente entre PC e Gomes, comanda também após a saída de Cristóvão Borges, em 2012.

Em 2015, Jorginho, campeão Brasileiro e da Mercosul pelo Vasco em 2000, conquista o cargo, vencendo o Carioca do ano seguinte. Em 2018 teria nova passagem por São Januário, dessa vez mais curta. Na temporada anterior, Milton Mendes, revelado junto com Romário na base vascaína, aumentou a lista de ex-jogadores do clube que também foram treinadores.

Valdir, interino em alguns jogos em 2017 e 2018, foi o último a colocar o seu nome no grupo. Ramon será o próximo.



MaisRecentes

Rápido e versátil: veja a análise de Guilherme Parede, novo reforço do Vasco



Continue Lendo

Vasco regulariza os primeiros reforços para o Campeonato Brasileiro



Continue Lendo

Ramon testa o elenco e Vasco ganha “reforços” para o Brasileiro



Continue Lendo