A entrevista não dada



Eurico Miranda faleceu aos 74 anos (Foto: Vasco)

“- Alô, é o Eurico?”

“- Sim, o que foi?”

“- O Edílson vem para o Vasco?”

“- Estou vendo isso aí, espero que sim.”

“Obrigado!”

E desliguei.

Memoráveis 10 segundos de conversa que o alto custo do interurbano – feito da casa de um amigo – e a surpresa por ter conseguido o número certo impediram que fosse mais longa.

Foi o meu primeiro – de dois – diálogo com Eurico Miranda, em junho de 2000. Eu tinha 14 anos de idade e não fazia ideia de que um dia me tornaria jornalista. Queria ser arquiteto, até então. Mas já era vascaíno e curioso. Consegui o telefone com um amigo da escola que havia pego com o pai, colega de um cara que era conhecido do primo… Uma longa rede de contatos que hoje pode ser resumida num grupo de WhatsApp.

Esse acabou sendo o meu primeiro momento jornalístico da carreira, ainda que curto e extra-oficial. Em tempos pré-internet, para um pré-adolescente petropolitano, com o minuto da ligação interurbana custando mais que um dia de pacote de dados, um feito e tanto.

No dia seguinte, no colégio, cheguei com o LANCE! na mão, ainda apenas como leitor. Na capa, a notícia do interesse do Vasco no Capetinha – a Placar chegou a colocá-lo como jogador do clube no tradicional Guia do Brasileirão -, e não tive dúvidas em cravar para todos: “Edílson vai jogar no Vasco, falei com o Eurico ontem”.

Ele não tinha me assegurado nada, mas eu confirmei. Foi a minha primeira ‘barrigada’. E de quase toda a imprensa da época. Edílson acabou acertando com o Flamengo. Na frustração da negociação, chegaram Juninho Paulista e Euller como resposta.

O atacante iria para São Januário apenas seis anos depois, com Eurico já presidente e não mais vice. O Vasco, porém, naquele ano, seria vice da Copa do Brasil e não campeão como em 2000, quando levou o Brasileiro e a Mercosul.

Azar do Capetinha, que chegou para jogar com Romário e terminou com Valdir Papel.

Ninguém se importou com a informação errada na época. A grande notícia, na verdade, era o fato de eu, um simples mortal no início da puberdade, ter falado com Eurico Miranda ao telefone. Os amigos acreditavam mais no Edílson no Vasco do que na minha conversa com o dirigente. Isso sim, improvável.

Era uma época onde se comunicar com o mundo ainda era um obstáculo. E, naquele dia, eu venci.

Eu voltaria a falar com Eurico apenas 14 anos depois. Dessa vez, numa ligação que partiu dele.

Atendi o celular com a displicência de quem espera do outro lado um atendente de telemarketing. Era Eurico Miranda, anunciado na primeira frase, sem alô: “É o Eurico, queria falar comigo?”.

Eu sequer escrevia para o LANCE!, mantinha um blog independente até então. Alguns dias antes, havia entrado em contato com sua assessoria pedindo entrevista com o dirigente. Eu aguardava o ok para definir como faríamos. Ele mesmo escolheu a hora e o momento. Ligou e pegou o postulante a jornalista aqui desprevenido.

“- Pessoal da minha equipe (Eurico iniciava a campanha para retornar à presidência do Vasco) falou que você queria falar comigo, pode falar”.

Gaguejando: “Então, doutor, eu queria fazer uma entrevista com você, sobre essa a sua volta para a política do Vasco…”

“- Nunca deixei o Vasco”, interrompeu.

“- Sim, então, queria conversar com o senhor sobre os projetos, propostas, erros e acertos da gestão anterior, cheguei a mandar algumas perguntas para a sua assessoria.”

“- Não recebi, você mandou pra mim?”, ele parece distanciar do telefone para falar com alguém próximo e questionar o possível contato.

“- Não recebi nada, pra mim você não mandou. Tem certeza? Meu email é euricovg… Pra mim não veio.”

“- Na verdade eu mandei para o email da campanha”, respondi.

“- Não uso esse, nem sei a senha. Sei nem quem mexe nisso. Meu não é. Manda para o meu”.

Desligamos e enviei o email com uma série de perguntas sobre o passado e o futuro do Vasco. Nunca recebi as respostas. Nem uma curta, como sobre a vinda do Edílson, há quase duas décadas.

Não recebi retorno também nas tentativas seguintes, já no LANCE!. A última delas, no fim de 2017, antes das eleições do clube.

Eurico Miranda faleceu nesta terça-feira após mais de 50 anos de Vasco – começou a trabalhar no clube em 1967.

Não entrarei nos méritos ou deméritos de sua vida pública, já conhecida por todos. Não acho que seja hora. Essa avaliação, aliás, já foi feita durantes as últimas décadas.

É por isso que, nestes momentos, respeitamos um minuto de silêncio: para não errarmos nas palavras.

A resposta dada ao vascaíno de 14 anos, mas ignorada ao jornalista de 30, já dizem o suficiente.

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