Entre corpos e almas



Pikachu fez um dos gols contra o Cruzeiro (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Quem diz que estádio não ganha jogo nunca pisou numa arquibancada trêmula e ritmada onde gritos e braços se fundem como as cores num quadro de Monet, ou como os rostos em Operários, de Tarsila do Amaral. Já conheci, inclusive, estádios com mais alma que algumas pessoas. Com mais pulso, certamente.

Antes do Vasco merecer a vitória em campo, a sua torcida presente já a conquistara.

O vascaíno, esse apaixonado infatigável, estendeu as mãos ao time antes mesmo dos pés rolarem a bola pela primeira vez. Havia, ali, nas arquibancadas, uma certeza de vitória inquebrantável. O torcedor que deixou sua casa para ir a São Januário o fez com a convicção de um religioso fervoroso, apesar do momento lhe implicar o oposto.

Não sairiam dali sem os três pontos, e assim o fizeram.

Nos onze de Alberto Valentim, uma novidade: Bruno Ritter. Um rosto nunca antes visto nos profissionais do clube e, de certa maneira, até pouco aproveitada na base. Ritter nunca foi dono da posição nos juniores, onde chegou no fim de 2016, vindo do Internacional. Sem Desábato, Bruno Silva, Raúl e Willian Maranhão, porém, se tornou opção no time principal, superando as concorrências de Rodrigo Fernandes e Caio Lopes, volantes titulares do sub-20.

Uma aposta de Valentim que deu certo.

Bruno, que ainda usava fraldas quando o Vasco venceu o Cruzeiro por mais de um gol de diferença em São Januário pela última vez antes deste domingo, carregou o número 43 às costas e no olhar. Sempre de cabeça erguida e sem fazer distinção de perna esquerda e direita, circulou a bola no meio-campo defensivo com a tranquilidade de um veterano. Foi seguro em sua estreia, que começou sob a nuvem da desconfiança.

O Vasco, porém, como é sabido, é incapaz de realizar 90 minutos de bom futebol. E é aí que entra a torcida. Quando o Vasco não foi Vasco, quando o Vasco quebrou o próprio espelho, sua torcida segurou no grito o 0 a 0 que perdurou por todo o 1º tempo. Preencheu, o que não dava na técnica, com alma.

Tanto que o grande momento coletivo na primeira metade do jogo não veio do gramado, mas sim das arquibancadas. Em tom de crítica.

Há tempos não se ouvia um coro tão sincronizado como o ‘Ôôôôô tira o Fabrício!’, deste domingo. Um desavisado, eu diria, até então, nem sabia que o camisa 6 estava em campo, tamanha sua discrição. Descobriu naquele instante. E era essa a cobrança.

Ora, um meia de criação pode ser tudo, menos omisso. Que peque no último passe, na precisão do chute, ou até por falta de capacidade, mas jamais por excesso de cortesia. Um camisa 10, ainda que com a 6, que não arrisca, que não verticaliza, que não agride, nada mais é que um goleiro que não salta – mesmo que atrasado.

As vaias e os gritos eram justos. O que não era justo era com o torcedor, que não viu um chute em gol sequer do Vasco na 1ª etapa. Uma sobriedade imperdoável para quem vê o Z4 mais colado que disputa de 2º turno.

Até então, o Vasco era só a alma doada, transferida, de seu torcedor. Faltava ser também o corpo que se impõe.

Problema resolvido no intervalo.

A vaia, o achincalhamento, a crítica, é um fator motivacional. Há quem se perca no primeiro “uh” das arquibancadas. Alguns tremem até com um grito mais alto de um torcedor que clama por um ambulante. Mas há também aqueles que se enchem de brio após os gritos negativos. O Vasco, por vezes, é desses.

O inexpugnável, porém errante, Fabrício, permaneceu em campo. Aceitou as vaias como se fizessem parte do jogo tal qual a bola. Omisso no 1º tempo, sua simples presença no gramado no 2º já era, por si só, um ato de coragem. Seu e do treinador. Uma tacada de risco, é verdade, mas que teve resultado com apenas dois minutos.

No corpo – aquele mesmo que faltava -, Fabrício ganhou de Cacá e foi ao fundo, local onde se sente mais confortável que no meio. Maxi López, o único que não precisa de corpo para jogar – apesar de saber usá-lo melhor que ninguém no time -, deixou a bola passar, como se fosse apenas alma. Pikachu, de esquerda, para completar o improvável, abriu o placar.

O 0 a 0, entretanto, era um resultado seguro para o Vasco, mas o 1 a 0 não. Estar à frente do placar, muitas vezes, se torna um peso para o time de Valentim. O Cruzeiro, até então um bom visitante, amigável e respeitador, passou a pressionar e forçar as jogadas pelos lados. Luiz Gustavo falhou – mais de uma vez -, mas Werley, Castán e o grito da torcida, que por vezes mais parecia um mantra, seguraram a vitória parcial.

Vieram das arquibancadas as coberturas mais perfeitas e os bloqueios mais improváveis.

Faltava, porém, o toque daquele que tem unido otimistas e pessimistas, triatletas e moribundos, destros e canhotos: Maxi López.

Sempre alma, o argentino usou também o corpo para desarmar Lucas Silva. Um atacante comum, do bico da área, com um zagueiro na frente e o goleiro posicionado, com a bola em sua perna dita ruim, rolaria para trás, para a batida quase sempre aérea de um volante qualquer.

Maxi, entretanto, tem sido tudo, menos comum em seu início pelo Vasco.

De chapa, de canhota, botou a força exata para que a bola passasse por Rafael mas não saísse das traves. Com seu rosa incomum, ela girou no próprio eixo como uma bailarina em sua grande apresentação solo, e só parou nos braços da rede, com quem se deitou sem arrependimento: 2 a 0.

O Vasco, que por três rodadas havia perambulado combalido por gramados distantes de São Januário, se reencontrou em seu estádio. Se não com um bom futebol, mas com a alma inabalável de seu torcedor que, por consequência, é também a sua.

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