É preciso elogiar Germán Cano



Cano marcou três gols contra o Macaé (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Escrevi outro dia aqui, num texto em que defendi a homenagem à Barbosa no novo CT do Vasco, sobre como temos uma dificuldade imensa em elogiar pessoas. Estamos sempre esperando um erro que justifique a falta de reconhecimento lá atrás. Principalmente no futebol, um esporte cada vez mais desumanizado, onde os atletas são tratados e cobrados como máquinas.

A sequência é mais ou menos assim: começa com “calma, é só o Carioca”, depois vem o “no Brasileiro é mole, quero ver na Libertadores”, passa pelo “contra time da Venezuela não conta”, chega ao “na Europa não tem essa moleza” e, por fim, “no Barcelona é fácil, quero ver fazer isso jogando no Elche”. Temos muita pressa pra criticar e pouca para elogiar.

Tá aí o Cano que não me deixa mentir.

Não que o argentino esteja próximo de ir para a Europa ou algo do tipo. Nem tem mais idade pra isso. Mas ele é inegavelmente um dos destaques do Carioca. E alguns vêem isso como um problema. Não se pode mais ser destaque em Estadual, é crime.

Antes destaque do Carioca do que decepção dele, oras.

É claro que não dá pra comparar os adversários do Brasileiro com os do Estadual, mas dá para elogiar em ambas as competições. Por que só em uma? Até porque, qualidades individuais são notáveis em qualquer disputa. Marcar três gols em apenas 12 toques na bola não é pra qualquer um. Nem no intersalas do colégio é normal.

E não é apenas sorte, é talento. É posicionamento e precisão. Qualidades que Cano tem mostrado independente de adversário, desde os tempos de Medellín, na Colômbia. Já são 85 gols em 125 jogos nos últimos três anos – de junho de 2017 até hoje. Quantos têm estes números? Poucos. Ainda que muitos também joguem o Estadual.

Veja bem, o Vasco joga o Campeonato Carioca todos os anos desde 1923. E ainda assim, não via um hat-trick de um jogador seu desde 2016, com Nenê, contra o Sampaio Corrêa, na Série B. Um centroavante vascaíno não marcava três gols desde 2010, quando Dodô anotou sobre o Botafogo, também marcando todos na etapa inicial. Uma década sem um goleador assim. Até mesmo no Estadual.

Se formos puxar entre os estrangeiros que passaram pelo clube – e foram 41 apenas neste século -, o feito é ainda mais raro. Desde 1941, com o também argentino Alfredo González, que um gringo não conseguia um hat-trick pela equipe de São Januário. Foi num 4 a 0 sobre o Bangu, também pelo Carioca.

Cano agora tem 8 gols em apenas 12 jogos pelo Vasco. No ano passado inteiro, Marrony e Pikachu foram os artilheiros do time com 10 bolas na rede somente. E, claro, contando o Estadual.

Não dá para desmerecer tudo.

O que mais impressiona é que o argentino tem uma ótima média num time de baixa eficiência. O Vasco tem apenas 11 gols em 2020. Ou seja, Cano é responsável por 72,7% desses gols. Para se ter uma ideia, com esse rendimento na temporada passada, quando o time marcou 79 vezes, o atacante teria feito 54, número que não é alcançado desde Romário, em 2000, quando fez 66.

É preciso elogiar.

Enquanto muitos voltam fora de forma após um tempo parados, Cano voltou mais magro. A fome de gols, no entanto, segue a mesma. Assim como o poder de definição e a leitura de jogo.

A bola procura o argentino e quase sempre o acha. O argentino, por sua vez, a mantém na linha. Quase sempre a linha do gol.



MaisRecentes

A Bastos o que é de Bastos



Continue Lendo

Análise de Neto Borges, novo reforço do Vasco



Continue Lendo

Com renovações, jovens passam a ter os contratos mais longos do Vasco



Continue Lendo