Dois olhares sobre o Vasco



Pikachu perdeu um pênalti mais uma vez (Foto: Fernando Michel/Picasa)

Perder para o Cruzeiro no Mineirão está longe de ser um fracasso. Independente do momento vivido pela Raposa. Não é nem uma questão de opinião, é matemática. São três pontos que, na ponta lápis, caem na conta de poucos no Brasileiro. Não era de se imaginar, antes da bola rolar, que seria diferente com o Vasco, então 14ª colocado do campeonato. Mas poderia ter sido.

E isso, como quase tudo na vida, tem duas formas de se olhar.

Quem acompanhou o Cruz-Maltino ser deflorado por Athletico – 4 a 1 – e Santos – 3 a 0 – no início da competição, sob o comando de Marcos Valadares, após péssima passagem de Alberto Valentim,  apostaria de olhos fechados em uma goleada cruzeirense sobre os cariocas jogando em Minas. Talvez até no Rio, como aconteceu na Libertadores de 2017, por exemplo. Só que aquele Vasco não existe mais.

O Vasco, hoje, vende mais caro as suas derrotas do que os seus mandos de campo. E isso lhe traz, claro, algumas vitórias. Ainda perde, é verdade – e natural. Mas joga, peleja e, vez ou outra, triunfa, dentro de suas limitações já conhecidas e escancaradas.

Contra o Cruzeiro, o time já não tinha mais o elemento surpresa de Talles Magno, que deixou as calças curtas de menino e passou a ser visto como homem após o gol e a atuação de gala contra o São Paulo. Ciente do que o garoto poderia aprontar, Rogério Ceni colocou Orejuela e Dedé para impedir um novo crescimento prematuro do atacante. E conseguiu. Contra dois jogadores fortes e rápidos, Talles não se criou.

Por outro lado – literalmente -, Rossi e Pikachu davam trabalho à dupla Egídio e Fabrício Bruno, apesar dos muitos erros de passe de Raul – seis ao total, recordista negativo no duelo pelo lado vascaíno. No centro, os meias se anulavam, revezando entre faltas e passes errados – Robinho, com sete, foi quem mais falhou entre os cruzeirenses.

Um cenário que, para o Vasco, era perfeito. Se expunha pouco, encontrava espaço – principalmente na direita – para contra-atacar e ainda arrumava uma falta ou outra para levar perigo nas batidas de Danilo Barcelos. É o jogo do time de Vanderlei Luxemburgo.

É aí, porém, também, que surge o outro olhar: o individual.

Se coletivamente o Vasco é outro, individualmente ainda é o mesmo. Desde a chegada de Luxa, saíram mais jogadores do que chegaram. A equipe encaixou, encontrou sua melhor forma de atuar, mas ainda comete crimes que não são só capitais, mas países inteiros.

O pênalti de Pikachu, por exemplo, é simbólico desde a sua origem.

O Vasco iniciou a jogada pela esquerda, usou seus volantes para inverter o jogo, e Rossi e Pikachu trocaram de posição. O lateral avançou, recebeu bola longa do atacante, ganhou na velocidade de Fabrício Bruno e foi derrubado. Jogada semelhante havia ocorrido minutos antes, com Marrony, só que o zagueiro conseguiu fazer o corte. O que mostra que foi algo trabalhado, pensado pelo treinador. Yago, porém, parou em Fábio, recordista da noite.

Coletivamente, criou. Individualmente, falhou. Um pequeno retrato que fica mais nítido quando ampliado.

A fragilidade evidenciou quando Luxemburgo precisou mexer na equipe. Se já é difícil colocar 11 em campo capazes de uma atuação, antes de tudo, não comprometedora, quem dirá 14. E foi exatamente na troca que o jogo mudou. Quando Rossi deixou o campo – cansado, assim como Talles e Marrony –  para a entrada de Fellipe Bastos, com Raul saindo do meio para jogar mais aberto, que o Cruzeiro se aproveitou da quebra coletiva e a queda individual para fazer o 1 a 0.

Cansado, Raul não acompanhou. Desconectado, Bastos só observou. Azarado, Richard tocou mas não cortou. E assim foi David, como não havia ido o jogo todo, enfileirando vascaínos como numa noite de autógrafos, até a bola cair nos pés de Maurício, que decretou a vitória mineira.

Uma ‘coletiva falha individual’ do Vasco.

A boa notícia é que o Vasco, coletivamente, vende cada vez mais caro as suas derrotas. A má, é que vez outra ainda solta uns cupons de desconto, facilitando a entrega.



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