Dobradinha vascaína



Torcida e time jogaram juntos (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Não é nenhum absurdo dizer que o vascaíno vinha conhecendo a vitória com a frequência com que o clube paga salários: vez ou outra, quando dá, sem compromisso ou sequência.

Após passar sete rodadas sem triunfar no Brasileirão – uma espécie de jejum religioso ou dieta fit da moda-, derrotou o Internacional na última semana, e bateu o Ceará, nesta quinta-feira, respirando um pouco mais aliviado no campeonato.

Duas vitórias consecutivas do Vasco na Série A era algo que não ocorria desde as rodadas 37 e 38 de 2017, quando bateu Cruzeiro e Ponte Preta e se classificou para a Libertadores do ano seguinte. Uma época tão distante, que apenas Pikachu esteve presente nas duas dobradinhas. Ricardo Graça e Tiago Reis, por exemplo, sequer haviam estreado como profissionais.

A verdade é que há quase dois anos que time e torcida não sabiam o que era almoçar e jantar no mesmo dia. Reuniram-se, portanto, 20 mil vascaínos esfomeados em São Januário, de barriga negativa e energia positiva, sedentos não apenas por uma noite de alegria, mas por um mês de paz.

Não é à toa que das arquibancadas do estádio é possível ver o Cristo Redentor ao longe. A distância impõe um tipo de teste ao torcedor: fazer com que a prece seja ouvida a quilômetros de distância. E por isso ele canta, alto, antes mesmo da bola rolar.

Essa dobradinha torcida-time raras vezes falha.

Assim como não tem falhado a dupla Oswaldo Henríquez e Ricardo Graça, sólida como paixão de torcedor nos dois últimos jogos. Graça foi o líder de rebatidas defensivas, com 8, seguido de Oswaldo, com 4, e o terceiro maior ladrão de bolas do time, com três, segundo dados do Footstats. Tranquilo como um turista à beira-mar, o colombiano foi o segundo maior passador da equipe, com 51 toques certos.

O que os números não mostram é que Henríquez, até outro dia a 6ª opção do cardápio cruz-maltino para a defesa, fez isso como uma luxação no braço. Algo que tiraria qualquer um de um torneio de biriba, mas que não impediu o defensor de disputar um jogo de futebol em alto nível.

A dobradinha que não teve êxito dessa vez foi entre Andrey e Marcos Junior. Dois volantes mais avançados do time, com Raul mais recuado no 4-1-4-1 – outro que teve atuação sólida como o concreto de São Januário, sendo o líder de desarmes (4) e de passes conectados no jogo (59) -, não tiveram êxito na construção ofensiva. Sem um meia de criação, o Vasco de Luxa depende demais da aproximação da dupla, que terminou a partida liderando a estatística de passes errados do time – oito de Marcos Junior e cinco de Andrey.

Abraçado pela torcida fisicamente, com toda estrutura de São Januário preenchida como um aperto de mãe, o Cruz-Maltino se impôs desde o início, tendo 58,8% de posse na primeira etapa e fazendo o goleiro Diogo Silva trabalhar quatro vezes.

Os avanços, porém, eram mais solitários do que coletivos.

Rossi passava por seus marcadores como se fossem cones de auto-escola, predestinados a assistir o atacante partir em alta velocidade fazendo ziguezagues com a bola. Assim como Andrey e Marcos Junior, Pikachu, no entanto, não deu o suporte necessário para que as investidas do camisa 7 sobre a zaga se tornassem chances mais claras de gols, se limitando a cruzamentos na área e tentativas de rebote.

O que inviabilizou também a participação de Tiago Reis, uma arma sem ba(o)las no ataque vascaíno.

No segundo tempo, Luxemburgo sacou exatamente o atacante para a entrada de Valdívia, numa tentativa de encontrar o último passe quase sempre perdido. A mudança fez com que Marrony fosse adiantado, com o meia caindo pela esquerda.

A troca mudou a dinâmica ofensiva. Destro, Valdívia buscou menos o fundo e mais as jogadas pelo centro. Com Rossi já cansado – e todo o time, algo que tem sido comum no 2º tempo -, porém, as tentativas paravam quase sempre no bom zagueiro Luiz Otávio.

A bola rolava cada vez menos nos pés vascaínos, quando a solução veio da maneira que todo time sem pernas se utiliza: a cabeça.

Valdívia, o Valderrama brasileiro, cobrou o escanteio na cabeça de Henríquez, o zagueiro colombiano, que finalizou para a defesa de um Diogo Silva cada vez mais disposto a inovar na Lei do Ex, mas que acabou batido na sequência. Danilo Barcelos, que já havia isolado uma chuteira lá em Coronel Fabriciano, sua terra natal, numa furada de direita no primeiro tempo, dessa vez usou a cabeça para tocar para o gol vazio e soltar o grito certo da torcida, definindo o placar.

Uma vitória para ser degustada por um mês, enquanto o Brasileirão não volta. Uma dobradinha para 30 mil cruz-maltinos – somando os públicos de Inter e Ceará – que se desdobram para não deixar o clube sozinho.

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