A discrição de Cano



    Cano marcou duas vezes contra o São Paulo (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Confesso que tentei pensar num assunto além do óbvio para tratar após esse Vasco 2×1 São Paulo, mas não tem como fugir de Germán Cano. Poderia escrever um pouco sobre a pressão alta do Tricolor que quase causou danos irreversíveis na saída de bola vascaína ou como a entrada de Bruno Gomes corrigiu um pouco dessa deficiência. Porém, nada disso foi tão decisivo quanto Germán Cano. Não só pelos gols, mas pela forma com que os acha.

Cano tem uma rara qualidade num artilheiro: a discrição.

Enquanto a maioria dos goleadores chamam a atenção o tempo todo – e nem sempre pelos gols -, o argentino parece caçar silenciosamente numa savana, se esgueirando entre a vegetação. Ou estar em uma daquelas cenas de James Bond, onde você acha que ele está apenas preparando uma nova dose de dry martíni quando na verdade está desarmando uma bomba. E quando você se dá conta, já foi: gol!

A sensação que dá é que Cano resolve tudo num toque só. Troca lâmpada, configura a internet, conserta a calha do telhado, prende um prego na parede e faz um origami, tudo num único gesto. Com o gol não seria diferente.

Até mesmo quando volta para ajudar na saída de bola, resolve tudo da forma mais simples, rápida e eficiente. Num certo momento, contra o São Paulo, recuou no meio de uns oito jogadores, na pressão imposta pelo time de Diniz, e num único giro, sem dominar, inverteu o lance para Cayo Tenório livre na direita. Nem o lateral esperava ser acionado naquele instante. Só Cano o viu.

Enxergar bem é uma qualidade de todo bom caçador.

Enquanto todos olhavam a viagem da bola no escanteio batido por Benítez, o artilheiro já mirava o local onde ela cairia após o primeiro contato. Cinco jogadores subiram para disputar a redonda e apenas um ficou no chão aguardando. Quem? O dono dela: Cano. Gol.

No segundo, novamente, teve toda a calma para esperar o desenrolar do avanço de Andrey antes de receber livre e estufar as redes. Nenhum gesto brusco, nenhum grito para o companheiro, nada. Tão discreto que Arboleda correu para a marca do pênalti certo de que estava sozinho. Obviamente, não estava. O único solitário ali era Cano, que mais uma vez concluiu de primeira e com perfeição.

De todas as estatísticas ofensivas que podem ser usadas para elogiar Cano, uma diz muito sobre o centroavante: o camisa 14 passou mais tempo comemorando seus gols do que com a bola nos pés. E olha que, sem torcida, a celebração foi rápida. Uma prova indiscutível da eficiência do artilheiro.



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