De ‘craque’ a dispensável: a estranha desvalorização de Paulo Vítor



Paulo Vítor foi negociado com o futebol espanhol (Foto: Paulo Fernandes/Vasco)

“- Esse aqui é craque, pode anotar aí. Esse joga muita bola”.

Foi assim que um antigo funcionário do Vasco me apresentou a Paulo Vítor, em 2015, numa visita minha a São Januário no dia em que os times sub-15 e sub-17 comemoravam o título da Taça Guanabara, conquistados no fim de semana anterior.

De chinelos ou descalços, comendo em pratinhos de plástico o churrasco preparado por membros da comissão técnica, estavam outras promessas daquela geração, como Douglas Luiz, Andrey, Evander, Mateus Vital, Marrony e Alan Cardoso. Do sub-15, ainda mais jovem, Paulinho.

Mas o craque, para muitos ali, era Paulo Vítor, por quem o Vasco havia brigado com o Fluminense, inclusive sofrendo retaliações de outros clubes. O Tricolor acusava o Cruz-Maltino de aliciar o jogador. Já o responsável pela base vascaína na época, Álvaro Miranda, afirmava que o garoto – que já havia jogado pelo Vasco anteriormente – não possuía vínculo profissional – tinha apenas 15 anos de idade – e, portanto, poderia escolher onde jogar.

Para resolver o imbróglio formado, que ameaçava inclusive a disputa da Taça BH daquele ano, a CBF decidiu intervir e pagar ao Fluminense R$ 1,5 milhão em indenização pela transferência do jogador. Ou seja, aos 15 anos, sem ter idade ainda para assinar um contrato profissional – só pode a partir dos 16 -, PV já estava avaliado em mais de um milhão de reais e era cobiçado por dois dos maiores clubes do Brasil.

PV comemora o título no sub-17, em 2015 (Foto: Divulgação/Vasco)

E, no campo, Paulo Vítor chegou justificando a disputa. Marcou 13 gols no Carioca Sub-17 e foi um dos destaques do Vasco na conquista que encerrou um jejum de 15 anos sem títulos estaduais na categoria. Com apenas 16 anos, começou a fazer a transição para o sub-20, disputando algumas partidas nos juniores e outras no juvenil, já em 2016. Apesar da temporada discreta, foi convocado para um período de treinos na Seleção Brasileira sub-18.

Na temporada seguinte, mais adaptado à nova categoria e atuando como centroavante – antes jogava pelas pontas -,  se reencontrou com os gols e voltou a brilhar. Em 2017, foi artilheiro da Copa do Brasil Sub-20, com 6 gols marcados, e do Campeonato Carioca, vencido pelo Vasco, com 13.

Quase 20 bolas na rede em apenas sete meses.

Atuações que o levaram ao elenco profissional e à Seleção Brasileira Sub-20 que disputou o Torneio de Toulon, o mesmo campeonato que Douglas Luiz, Mateus Vital, Lucão e Paulinho conquistaram este mês, na França. Lá, foi titular nas três partidas do Brasil e não marcou nenhum gol.

Paulo Vítor defendeu a Seleção em Toulon, em 2017 (Foto: Divulgação)

Apesar da campanha ruim da Seleção, que caiu na 1ª fase, realizou um feito e tanto para quem vinha jogando uma categoria acima. No caso do Vasco, duas.

Estreou como profissional com apenas 17 anos – um mês antes de atingir a maioridade -, mas logo foi ofuscado por Paulinho, que surgiu no mesmo período. Ao todo, disputou 26 jogos como profissional pelo Vasco e marcou apenas um gol. Das partidas em que atuou, porém, iniciou como titular em somente quatro, todas sob o comando de Milton Mendes, logo assim que subiu. Depois, virou apenas opção de segundo tempo. E raras.

Ou seja, em agosto de 2017 – seu último jogo como titular, no empate em 0 a 0 com a Ponte Preta -, com 18 anos e um mês de idade, 53 dias após sua estreia, Paulo Vítor já não seria mais aproveitado entre os onze iniciais. Nem em jogo de Estadual.

Nas 26 partidas que jogou, PV acumulou um total de apenas 778 minutos em campo. Uma média de 30 minutos jogados por atuação, só um terço do total. É como se tivesse disputado apenas oito jogos e meio – em relação a tempo.

No mesmo período, outros atacantes com características parecidas foram contratados – normalmente com custos superiores -, ganharam mais chances e também não aprovaram, como Kelvin (1888 minutos), Riascos (1295) e Rildo (1111). Além de outros com passagens ainda menos marcantes, como Manga Escobar (536) e Muriqui (385).

A diferença entre Paulo Vítor e os contratados, além do custo, é que nenhum deles vivia uma transição prematura entre base e profissional.

Dois anos após ser artilheiro do Carioca Sub-20, defender a Seleção da categoria e estrear como profissional, e quatro após custar R$ 1,5 milhão aos cofres da CBF pela transferência para o Vasco, Paulo Vítor deixa São Januário em definitivo e de graça, mesmo tendo mais um ano de contrato com o Cruz-Maltino.

O atacante, que pulou categorias na base, tinha idade para atuar entre os juniores até a Copa São Paulo deste ano, onde os cariocas foram finalistas, mas antes mesmo de estourar o tempo de sub-20, já era visto como dispensável nos profissionais. Pior: visto como custo, não mais como possível lucro.

Os dez anos de investimento do Vasco na formação de Paulo Vítor – chegou ao clube com oito anos de idade, em 2007, e permaneceu até 2013, antes de ir para o Fluminense e retornar em 2015 – foram jogados fora em menos de 13 horas de atuação como profissional com a camisa vascaína.

O clube que tanto brigou para ter – e formar – 100% do atleta, agora doa 70% para uma equipe espanhola da 3ª divisão. No ano que vem esse percentual subirá para 80%. A justificativa: reduzir folha salarial, assim como fez com Rodrigo Fernandes, Renato Kayser, Hugo Borges, Alan Cardoso…

Enquanto isso, o Vasco segue gastando com Vinícius Araújo, Yan Sasse, Ribamar…

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