Casa vascaína



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* Texto escrito em 21 de abril de 2015 e atualizado em 2019

Com um tamanco velho, uma camisa preta furada, uma calça maior que a cintura e carregando uma cruz que lhe foi dada ao nascer, o garoto parte para seu primeiro dia de aula na escola particular LMDT*.

Tímido, senta-se numa carteira num canto, para não chamar muita atenção.

É a primeira vez que o garoto se aventura por aquelas bandas. Negro e pobre, se sente deslocado em meio àqueles jovens da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Apesar da timidez inicial, cumpre com galhardia tudo que lhe é imposto. Nas 14 provas** a que é submetido, tira nota 10 em 11 delas e termina o semestre como o melhor aluno de sua turma, para espanto de todos.

Incomodados com o feito alcançado por aquele garoto da periferia, alguns se alegam que sua conduta não é a ideal para aquele ambiente. Faltavam-lhe requisitos básicos, como uma casa, por exemplo. Alguns membros de sua família também não eram bem quistos, por serem simples trabalhadores braçais.

Gente normal, do povo.

Indignados, os meninos da zona sul decidiram criar o próprio colégio e deixar o pobre garoto junto com os outros renegados, igualmente mal vistos.

Porém, após mais um ano brilhante do garoto, são obrigados a se juntar novamente, em uma única turma. Como iguais. Bom, na verdade, naturalmente diferentes, daí a sua importância.

Com um par de sapatos meia boca e uma calça um pouco mais ajustada, mas a mesma camisa preta, ele volta disposto a mostrar que ali é seu lugar. Aliás, um lugar de todos.

Se o que lhe faltava era uma casa, decidiu construir uma com as próprias mãos. Seus amigos e familiares, confiantes no potencial do garoto, resolveram ajudar.

Cada um dá o que pode. Cada um dá o que nem tem. Se falta dinheiro, sobra amor. Eles só querem ver o menino bem.

Até ‘Seu Manel’ colaborou. Várias vezes. Joaquim ajuda no concreto, enquanto a tia Leonor frita os bolinhos de bacalhau para a rapaziada. Tinoco e Fausto ajudam com as pedras e Mário acerta a grama. Do outro lado, Nelson faz a segurança.

São Cristóvão é o lugar escolhido. O terreno é bom, a vizinhança melhor ainda. Gente trabalhadora, diversificada e acolhedora, assim como ele.

As ruas são estreitas, mas o coração é grande.

No quintal, espaço livre para brincar, se divertir, jogar bola e ainda ajudar os outros. Afinal, tudo o que aprendeu deve ser compartilhado.

E a cervejinha com churrasco na esquina? Ahh, aquela gelada… O garoto achou o lugar perfeito!

Após muito suor e luta, consegue erguer seu tão sonhado espaço. Tão grande quanto seus sonhos. Tão imponente quanto sua presença.

Apesar do desprezo recebido, tem a hombridade de receber todos aqueles que um dia lhe olharam atravessado.

Cordial, algumas vezes cedeu o novo espaço até para festas destes velhos amigos.

Aprendeu a ser um bom anfitrião vendo os erros dos outros.

Até presidente o menino já recebeu em sua moradia. Que moral! Quem iria imaginar isso lá atrás?

Alguns poucos sonharam, e muitos realizaram.

Para quem o visita, o menino pede que chame apenas de São Januário. Para os mais chegados, Colina Histórica. Aos que o temem, nomeou de Caldeirão.

Para aquele garoto, chamado Vasco, é somente lar. O seu lar.

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Obs 1: LMDT é a sigla para Liga Metropolitana de Desportos Terrestres, que cuidava da 1ª divisão do futebol do Rio na época.



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