Casa vascaína



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* Texto escrito em 21 de abril de 2015 e atualizado em 2017

Com um tamanco velho, uma camisa negra furada, uma calça maior que a cintura e carregando uma cruz que lhe foi dada ao nascer, o garoto parte para seu primeiro dia de aula na escola particular LMDT*.

Tímido, senta-se numa carteira num canto, para não chamar muita atenção.

É a primeira vez que o garoto se aventura por aquelas bandas. Negro e pobre, sente-se deslocado em meio àqueles jovens da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Apesar da timidez inicial, cumpre com galhardia tudo que lhe é imposto. Nas 14 provas a que é submetido, tira nota 10 em onze delas e termina o semestre como o melhor aluno de sua turma, para espanto de todos.

Incomodados com o feito alcançado por aquele garoto de periferia, alguns se incomodam e alegam que sua conduta não é a ideal para aquele ambiente. Lhe faltavam pré-requisitos básicos, como uma casa, por exemplo. Alguns membros de sua família também não eram bem quistos, por serem simples trabalhadores braçais.

Indignados, os meninos da zona sul decidem abandonar o colégio e deixar o pobre garoto junto com os outros renegados. Porém, após mais um ano brilhante, são obrigados a se juntar novamente, em uma única turma. Como iguais.

Com um par de sapatos meia boca e uma calça um pouco mais ajustada, mas a mesma camisa preta, ele volta disposto a calar todos e mostrar que ali é seu lugar. Todo lugar é.

Se o que faltava era uma casa, decidiu construir uma com as próprias mãos. Seus amigos e familiares, confiantes no potencial do garoto, decidem ajudar. Cada um dá o que pode. Cada um dá o que nem tem. Se falta dinheiro, sobra amor. Eles só querem o bem do menino.

Até ‘Seu Manel’ colaborou. Várias vezes. Joaquim ajuda no concreto, tia Leonor frita os bolinhos de bacalhau para a rapaziada. Tinoco e Fausto ajudam com as pedras e Mário acerta a grama.

‘- Cadê a Fátima com o suco?’, grita um.

São Cristóvão é o lugar escolhido. O terreno é bom, a vizinhança melhor ainda. Gente trabalhadora, diversificada e acolhedora, assim como ele.

As ruas são estreitas, mas o coração é grande. No quintal dá para brincar, se divertir, jogar bola e ainda ajudar os outros. Afinal, tudo o que aprendeu deve ser compartilhado.

E a cervejinha com churrasco na esquina? Ahh, aquela gelada… O garoto achou o lugar perfeito!

Após muito suor e luta, consegue erguer seu tão sonhado espaço. Tão grande quanto seus sonhos. Tão imponente quanto sua presença.

Apesar do desprezo recebido, tem a ombridade de receber todos aqueles que que um dia lhe olharam atravessado. Cordial, algumas vezes até cedeu o novo espaço para festas destes velhos amigos.

Aprendeu a ser um bom anfitrião vendo os erros dos outros.

Até presidente o menino já recebeu em sua moradia. Que moral! Quem iria imaginar isso lá atrás?

Para quem o visita, o menino pede que chame apenas de São Januário. Para os mais chegados, Colina Histórica. Aos que o temem, nomeou de Caldeirão.

Para aquele garoto chamado Vasco, é somente lar. O seu lar.

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Obs 1: LMDT é a sigla para Liga Metropolitana de Desportos Terrestres, que cuidava da 1ª divisão do futebol do Rio na época.



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