As mudanças de Abel e a precisão de Cano



Cano marcou mais uma vez pelo Vasco (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Me atrevo a dizer que se Vasco e Oriente Petrolero tivessem se enfrentado num domingo de sol, à tarde, não teríamos tido um público de quase 20 mil cruz-maltinos como nesta quarta-feira de enchente no Rio de Janeiro. O vascaíno gosta desse tom dramático. O caos, seja ele dentro ou fora do clube, soa como um convite para ir à São Januário. Um sentimento quase maternal, de proteção.

Convenhamos que o início de ano do Cruz-Maltino tem sido tão animador quanto uma dor de dente. Apenas um reforço anunciado, salários atrasados, ações judiciais tão diárias quanto A Voz do Brasil, dificuldades para renovar com peças importantes e, até então, somente uma vitória em cinco jogos disputados na temporada.

O apelido de Time da Virada, no entanto, vem exatamente dessa resiliência, assim como seu torcedor no dilúvio – o segundo em menos de uma semana.

Para virar a página do início ruim, Abel Braga decidiu dar um passo atrás para tentar dois à frente. De certa forma conseguiu. Ao menos a primeira passada.

O técnico abriu mão de suas convicções para trabalhar com o que o elenco lhe permite. No popular, desistiu de caçar com gatos. E completo: sem cães, achou melhor pescar.

Abel largou sua linha de quatro na frente, confusa e embolada, para apostar no esquema do recém-saído Luxemburgo: um 4-1-4-1 defendendo e 4-3-3 atacando. Só que com mais posse e menos contra-ataque.

O time já havia ido bem contra o Botafogo desta maneira, no fim de semana, e agora, contra os bolivianos, conseguiu unir desempenho e resultado. Ainda que magro pela bola que jogou.

O Vasco fez 1 a 0 com Germán Cano ainda no 1º tempo, mas poderia ter sido três ou quatro, se Marcos Júnior – duas vezes – e Werley não tivessem carimbado o poste. Ou se o árbitro não ignorasse o pênalti em Henrique, numa cama de gato tão clara que foi possível ver de longe o novelo de lã ali guardado para o deleite do bichano.

Tudo isso construído já na 2ª etapa, quando as pernas começavam a falhar e o receio de serem surpreendidos por um contra-ataque – como foi no último clássico – passaram a frear o ímpeto da equipe. Só mesmo o inquieto Vinícius para arrancar alguns suspiros nas arquibancadas nos minutos finais.

A sensação é de que poderia ter sido mais, mas a atuação deixa marcas positivas além da vantagem mínima.

O gol saiu exatamente numa jogada de Talles pela direita, posição que tem ocupado pouco. Após ótimo lançamento de Pikachu, que sempre ajuda muito. Atacante aberto e lateral construindo, algo que não se via nos primeiros jogos de Abel.

Yago e Henrique deixaram o campo como líderes em assistências para finalização, com quatro e três, respectivamente. Andrey, uma das novidades do técnico, mesmo jogando mais recuado, ficou logo atrás, com duas, assim como Talles Magno. Nada de zagueiros na criação.

Cano, sempre finalizador, além de artilheiro também virou organizador. Com seus companheiros abertos, e não enfileirados lado a lado como bonecos de totó, o atacante flutuou pela intermediária abrindo espaço para as infiltrações de Marcos Júnior, Talles e Marrony.

Movimentação de Cano na intermediária (Foto: Footstats)

O camisa 14 promoveu uma verdadeira aula de visão de jogo, acertando ao menos cinco viradas, tanto de pé direito quanto de esquerdo. Com essa pontaria em bolas de 50 metros, não é de se espantar que o argentino tenha dois gols em apenas quatro jogos pelo Vasco. Todos em conclusões onde não precisou de mais que alguns centímetros de espaço.

Aí é covardia.

Ainda é cedo para dizer que o Vasco de Abel Braga se encontrou. Falta muito, inclusive peças. É inegável, porém, que ele busca um novo caminho. Dessa vez, junto de seu torcedor, encontrou. Um alívio em meio ao dilúvio.



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