As mãos invisíveis



Com gol de mão, Vasco foi derrotado pelo Corinthians (Foto: Nelson Costa/Vasco)

Com gol de mão, Vasco foi derrotado pelo Corinthians (Foto: Nelson Costa/Vasco)

Poucas coisas são tão constrangedoras quanto um gol de mão. Irrita quem sofre, envergonha – ou deveria – quem faz e denigre quem valida.

Há um ar de ingenuidade coletiva que o cerca. Afinal, é o princípio básico do esporte, a primeira coisa que se ensina a uma criança quando ela arqueia o corpo para segurar a bola que rola pelo chão: ‘Chuta! Com a mão não pode!’.

Ainda assim, vez ou outra ela passa desapercebida.

A mão de Jô, que definiu o duelo entre Corinthians e Vasco, só não constrange mais que a entrevista pós-jogo do atacante: ‘Não vi se foi com a mão’, disse o artilheiro. Ora, como se o tato fosse um sentido menos importante do que a visão.

Amanhã mesmo deveremos ter alguém na Lava-Jato bradando com o oftalmologista por conta dos milhões recebidos que jurava ser do Banco Imobiliário, mas não viu. Não duvido.

É um exagero, óbvio. Mas não duvide, nunca, do talento de alguns. E nem estamos falando de futebol agora.

Logo Jô, que por duas vezes foi ao chão dentro da área, de forma quase imediata, acusando um toque dos zagueiros vascaínos. Nessas horas, todos os sentidos funcionaram, ao que parece. Não houve adrenalina que apagasse o contato da memória ou diminuísse o tempo de reação.

Não que eu não comemoraria um gol de mão que fizesse meu time voltar a vencer no Brasileirão. Ainda mais marcado por mim. Talvez até já tenha sonhado com esse momento, não sou hipócrita. Impedido, ainda por cima, confesso. Cena interessante pelo drama que carrega, não pela vantagem conquistada.

Daí a sair de campo ignorando o fato, quase fingindo demência, é pouco samaritano.

Mais vale um canalha convicto, desses que perambulam com um sorriso talhado no canto da boca, que um malandro enrustido. Ao menos pra mim, é claro.

Não que Jô seja um deses casos, mas foi. Ou transpareceu ser em sua fala. Literalmente, deu uma de João-sem-braço. Jô-ão.

A questão não está no gol irregular que se marca, isso é um problema do árbitro, mas na forma com que lida com ele. A honestidade mora exatamente nos erros, qualquer um é honrado nos acertos. Até a pior pessoa.

Jô poderia ter sido mais 9 e usado mais a cabeça. Poderia ter sido dez, mesmo após os 90. Não para anular o próprio gol, mas para evidenciar o erro de quem está lá para acertar. Não foi. Escolheu ser cúmplice. Ou complacente, como preferir.

Uma pena.

Mas também tivemos futebol.

Corinthians e Vasco fizeram exatamente o que se esperava dos dois. O líder, precisando vencer, encaixotou os cariocas e pressionou, mas parou na má pontaria dos pés de seus jogadores – salva pela mão. Já o Cruzmaltino, aceitou a supremacia paulista, entretanto, sem abdicar de tentar.

O time de Zé Ricardo tinha mais homens atrás do que vendedor de cerveja no Rock in Rio. Ainda assim, conseguiu chegar em chutes de média distância, obrigando Cássio a trabalhar. O Timão, por sua vez, insistiu nas triangulações pelo meio, quase sempre paradas pelo volante Jean e pelos zagueiros.

Os dois times fizeram uma partida de manual, com as armas que tinham e entendendo o momento que vivem. Poderia ter terminado de inúmeras maneiras, mas quis a arbitragem que fosse da mais injusta e menos atraente, apesar da alta dose de dramaticidade que embebeda os dois lados um ato como esse.

Venceu o melhor. Da pior maneira.



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