As duas faces de um empate



Kelvin não entrou bem no clássico (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Meus amigos, por pouco, muito pouco, não caminhamos para um zero a zero estéril e frígido em São Januário na noite desta quinta-feira. Daqueles que nos arrependemos das horas de sono perdidas. Ao invés disso, tivemos o clássico 1 a 1 onde um sai vencedor e o outro derrotado, numa falsa – ou curta – sensação de emoção.

É mentira que o empate é um placar igual para os dois times. Não é. Principalmente quando o gol furta, nos minutos finais, dois pontos de uma equipe e cede apenas um ao outro, num claro desfavorecimento ao time vazado no momento sacramentar.

O Vasco, mandante e dono dos três pontos até a reta final, deixou o gramado – péssimo, a propósito – frustrado pela incapacidade de manter o 1 a 0. Um placar, aliás, que refletia bem pouco do que havia sido a partida em seus primeiros 60 minutos.

O Fluminense, por sua vez, satisfeito por evitar uma derrota que não merecia.

Uma página em branco deve conter uma história mais bonita e vívida que o 1º tempo do clássico carioca. Aliás, que a partida inteira.

Se não fosse pelo gol de Ríos, meio ao acaso, após saída errada do goleiro Júlio César, aos 15 do 2º tempo, talvez o jogo fosse removido da memória do torcedor em questão de minutos após o apito final, com a velocidade de uma topada na escada. Só que menos dolorosa.

Vasco e Fluminense fizeram 45 minutos de um futebol, eu diria, tímido. Pela qualidade técnica, porém, o termo certo a ser usado talvez seja envergonhado.

O Cruzmaltino com mais posse, mas com a burocracia de uma repartição publica para finalizar em gol. Wagner, Pikachu e Giovanni Augusto trocando de posições, invertendo os lados, mas sem se encontrarem. Distantes, a bola rodou demais nos pés de quem não conseguia girar. E o jogo acabou preso.

Já o Tricolor, tentando apostar na velocidade de seu ataque, principalmente com Marcos Junior, parou no já dito pesado gramado de São Januário e nas grandes atuações de Ricardo Graça e Breno. O segundo, inclusive, por vezes sendo zagueiro, meia e até goleiro.

Aliás, até os 20 minutos do segundo tempo, os zagueiros vascaínos haviam sido mais goleiros que os próprios.

Breno, Graça e Luiz Gustavo – que jogou de lateral mas é zagueiro – bloquearam mais chutes que Martín Silva. Segundo dados do Footstats, foram cinco ‘defesas’ do trio contra três do camisa 1.

O uruguaio, até o gol de Ríos, só havia aparecido em uma defesa ainda no início do 1 º tempo, daquelas que o arqueiro suja a roupa apenas para valorizar o manto que algum felizardo levará pra casa. Pra ficar mais bonito na moldura.

Até que veio o lance com Digão, já aos 22 da etapa final. Sim, o jogo só começou mesmo no 2º tempo. Mais precisamente após o gol do argentino.

Sornoza levantou, Digão cabeceou e Martín impediu a ironia. Com os pés, caído, para tornar a defesa ainda mais bela visualmente. Era o gol certo, na cabeçada de manual, pra baixo, sendo evitada exatamente ali, no quique no gramado, com o goleiro sentado. Outra ironia.

Digo que Silva impediu a ironia porque até poucas semanas atrás o defensor tricolor era especulado em São Januário como possível reforço, e não contava com a simpatia da torcida vascaína. E todos nós sabemos que esse tipo de situação é capaz de alterar inclusive o posicionamento dos planetas. Um banho de água fria àquela altura, desta maneira, poderia ter significado até uma virada tricolor no futuro. Mas Martín manteve os astros alinhados.

Ao menos por mais algum tempo.

O lance não mudou o placar, porém, alterou a forma de atuar do Vasco. Antes pouco ameaçada, a equipe de Jorginho pareceu sentir a tensão do momento e recuou. O treinador pôs em campo Kelvin com a intenção de puxar contra-ataques. O gramado, entretanto, não era propício para o jogo de velocidade. O desempenho discreto de Pikachu já mostrava isso. E com o atacante não foi diferente.

O gramado, criticado durante a semana por revelar a presença de um simpático roedor, dessa vez cometeu o maior dos crimes: escondeu a bola.

Quase isso, mas nem tanto. A verdade é quem é difícil imaginar uma boa atuação dos dois times em condições diferentes. Falta qualidade a ambos, não apenas ao gramado.

A dupla vascaína, aliás, foi a que mais perdeu bolas no jogo: sete de Yago, que atuou os 90 minutos, e cinco de Kelvin, que esteve em campo por apenas 20.

Com estes números, não dá para ter o gramado como fator único.

A entrada de Kelvin teve um efeito inverso ao esperado. Ao invés de desafogar o time com a sua velocidade, tirou a posse que só era capaz com o toque de bola. Jorginho, após o jogo, em coletiva, explicou que não optou por Thiago Galhardo em razão do meia ‘não ter dado o volume esperado contra o Bahia’. Justo. Mas Kelvin, e tão pouco Evander – que sequer atuou contra os baianos -, também não haviam dado em suas últimas atuações.

O Vasco chamou o Fluminense para o seu campo. O Tricolor ouviu, gostou do convite e escreveu mais um daqueles roteiros clichês do futebol.

Mas não sem antes Martin Silva fazer mais um milagre, após outro cabeçaço. Desta vez, de Pedro, restando três minutos para o fim.

Parecia que seria a defesa da vitória, mas um minuto depois, após apagão coletivo e individual do Vasco, o centroavante deixou tudo igual. A equipe de São Januário realizou a façanha de transformar um lateral ao seu favor em gol adversário.

Passe errado de Evander, Desábato não corta Marcos Junior, Breno é driblado por Pedro e Martín, sem tempo para reenergizar seu barril de milagres, nada pôde fazer: 1 a 1.

Vasco e Fluminense não mostraram nada que justificasse a vitória de algum dos lados. Muito pelo contrário. Se fosse possível, por votação popular, talvez, os dois sairiam sem pontos do clássico. Por falta de opções – e de futebol -, cada um ficou com a pontuação mínima.

O Vasco, porém, com a enfadonha sensação de derrota.

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