Abel Braga no Vasco: uma questão de custo e expectativa



Abel Braga é o novo técnico do Vasco (Foto: Lucas Merçon/Fluminense)

Entre o ótimo e o péssimo existem incontáveis classificações que muitas vezes, por preguiça ou falta de conhecimento, ignoramos. Nos limitamos constantemente a avaliar de maneira simplista como bom ou ruim, útil ou inútil. Como se não houvesse um meio termo. Vivemos de extremos.

No futebol, por exemplo, o Brasileirão tem um campeão e 19 derrotados. Qualquer celebração, ainda que da torcida, por uma colocação que não seja a de primeiro logo é diminuída. A não ser no caso de uma zebra. Como se o mérito só existisse no topo e a realidade fosse igual para todo mundo.

No Brasil é crime ser segundo, sempre foi. Mesmo num campeonato onde ao menos 12 se autoproclamam grandes de um total de 20. No mínimo oito ficarão fora do G4, ainda que sejam 12 timaços.

O mesmo acontece com os técnicos. Todos são cobrados – quase sempre – para serem primeiros, independente de estrutura, elenco e momento do clube que dirige. Principalmente se já estiveram no topo em alguma época. O que explica o grande triturador de técnicos que é o futebol brasileiro.

Não conheço nenhum treinador que tenha sido campeão do mundo – vencendo o Barcelona de Iniesta, Deco e Ronaldinho Gaúcho -, da Libertadores, da Recopa e do Brasileiro, além de inúmeros estaduais, que não tenha suas qualidades, seus méritos. Aliás, em qualquer profissão, com um currículo desses, o mínimo que se espera é respeito.

Abel Braga, novo técnico do Vasco e dono desse histórico, tem o meu.

Até por isso me sinto confortável para dizer que não seria ele o meu escolhido para assumir o Vasco nesse momento se coubesse a mim a decisão – o que obviamente não é. O que não faz dele um inapto para o cargo, como alguns teimam em afirmar – assim como fizeram com Luxemburgo, aliás.

É possível ser bom sem ser o melhor.

A questão não é se Abelão entende ou não de bola. Isso pra mim é fato consumado. Ninguém acerta tantos dardos no alvo por sorte. A grande questão é o custo: R$ 450 mil, segundo apuraram os colegas aqui do LANCE!. E isso para o Vasco é fundamental. Ou ao menos deveria ser.

O valor, se confirmado, representa um aumento superior a 50% em relação ao que deveria ganhar Luxa este ano – R$ 290 mil. Digo ‘deveria’ porque o treinador não recebe desde julho. E essa é só uma das tantas dívidas que o clube tem para pagar. Recentemente, o Cruz-Maltino teve São Januário e a premiação do Brasileiro penhoradas na Justiça.

Se o Vasco não foi capaz de pagar R$ 290 mil para Vanderlei, como fará com os R$ 450 mil de Abel?

É como não ter dinheiro para comprar uma bicicleta e querer financiar um carro. Pode até conseguir, mas os boletos não vão deixar de chegar e as coisas podem se complicar mais à frente. Até para botar gasolina – nesse caso, reforçar o elenco.

Abel já não ocupa a prateleira mais alta do mercado, mas também está longe das últimas. Já não é quem se procura quando quer algo novo, um diferencial. É mais uma zona de conforto dos dirigentes, um nome de segurança. E para o Vasco atual, que não terá um elenco para brigar no topo independente de treinador – como deixou claro André Mazzuco, diretor de futebol -, nem precisava ser diferente. É um momento onde o clube necessita de estabilidade.

Porém, um gasto desses para ficar no meio de tabela não se justifica. A estabilidade começa pelo financeiro.

É bem mais do que receberam Roger Machado, no Bahia, Rogério Ceni, no Fortaleza, Zé Ricardo, no Internacional, e Fernando Diniz, no São Paulo, neste Brasileirão. De acordo com informações divulgas pelo jornalista Jorge Nicola, no Yahoo, em novembro, todos os citados ganharam entre 250 e 300 mil reais em 2019 – na linha de Luxa. Ney Franco, que surpreendeu com o Goiás, não aparece nem no top 13, que fecha com Alberto Valentim, com R$ 180 mil.

Será mesmo que o retorno em campo estará à altura do investimento? Tenho minhas dúvidas. Não só pela escolha do treinador, mas pela própria montagem de elenco.

Abel, em 2019, iniciou o ano no Flamengo e o deixou em 6º – seria campeão brasileiro e da Libertadores com Jorge Jesus – , e terminou pedindo demissão do Cruzeiro, rebaixado pela primeira vez em sua história. Viveu em poucos meses os extremos do futebol: a cobrança obstinada por títulos e a luta desenfreada contra o descenso.

Terminou o campeonato com 45% de aproveitamento – 6 vitórias, 9 empates e 5 derrotas, somando as duas equipes -, apenas 2% a menos que Luxemburgo no Vasco. Um desempenho de 10º colocado neste Brasileirão, como tem sido a média nos últimos anos.

Em 2018, pediu demissão no Fluminense em 13º com um elenco bastante limitado. Júlio César, Luan Peres, Ibañez, Nathan Ribeiro e Marlon; Jadson, Richard, Douglas e Mateus Norton; Pablo Dyego e Pedro, essa foi a sua última escalação no Tricolor.

Um ano antes, viveu um bom momento no 1º semestre com o Flu, chegou a surpreender com uma equipe de transição rápida e boa movimentação, mas viu o time cair de rendimento após perder Richarlison, negociado com o Everton, e Douglas, lesionado, além da insatisfação de Gustavo Scarpa e as muitas especulações em cima de Wendel. Terminou o Brasileiro em 14º, após virar o turno em 9º.

Seu último trabalho consistente foi no Internacional em 2014, quando levou o time ao título Gaúcho e ao 3º lugar no Campeonato Brasileiro. Era uma equipe, no entanto, que tinha como opções para o gol Dida, Alisson e Muriel. Willians, Aranguiz, D’Alessandro, Alan Patrick, Alex e os jovens Valdívia e Otávio como peças para o meio-campo. No ataque, os experientes Wellington Paulista, e Rafael Moura, além de Eduardo Sasha e Nilmar.

Não era um elenco de craques, mas um grupo bem mais consistente do que o Vasco tem conseguido montar nos últimos anos.

Abel Braga não faz milagres. Precisará de peças para fazer um bom trabalho em São Januário. E a equipe hoje não as tem. A não ser, claro, que as expectativas sigam lá embaixo.

Mas se permanecem, por que investir tanto em um treinador de poucos resultados nessa situação? É aí que, ao menos até agora, no meu entender, a conta não bate.



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