A primeira vitória



Tiago Reis fez o gol da vitória vascaína (Foto: Jorge Rodrigues/Eleven)

É sabido por todos que o carioca, quando o termômetro aponta menos que 25ºC, só sai de casa com cachecol, moletom e um tubo de manteiga de cacau no bolso. Isso apenas para tomar um caldo e voltar, nada de passear no frio. Com menos de 20ºC, diz até que o joelho dói, que é um aviso de geada, segundo ele.

São Januário, no entanto, nesta noite de sexta-feira, era uma fornalha solitária no gélido Rio de Janeiro com seus 22º C – temperatura de verão em Petrópolis, nos Alpes Cariocas. Não havia ali, portanto, entre os mais de 11 mil cruz-maltinos que foram acompanhar o duelo com o Internacional, um pé frio sequer. Estes, por motivos óbvios, passaram a noite com duas meias na frente do aquecedor, em casa.

Eram vascaínos em combustão que tentavam empurrar o time, congelado na última colocação desde a 1ª rodada.

Com 37 segundos, Rossi já promovia uma de suas jogadas mais tradicionais: o cruzamento errado com perigo. No último fim de semana, o camisa 7, que tem sido um dos destaques do time, já havia obrigado Gatito Fernandez a fazer grande defesa em lance parecido. Agora, foi a vez de assustar Marcelo Lomba.

Poucos minutos depois, com as arquibancadas ainda pulsando como uma criança febril, com o coração acelerado, rosto avermelhado e respiração ofegante, Oswaldo Henríquez, principal surpresa de Luxemburgo, se mostrou frio como um Corneto ao driblar Rafael Sóbis no bico da área – faria isso ainda mais duas vezes – e sair jogando com a tranquilidade de quem ali esteve o tempo todo. Era, porém, apenas o seu segundo jogo no ano.

Rossi, duas vezes de fora da área, e Tiago Reis, de cabeça, mantiveram a Colina acesa. Era nítida a evolução do time – já nos dois jogos anteriores -, mas ainda faltava decidir. Faltava Andrey.

Fundamental para o time em 2018, o volante ainda devia uma boa atuação em 2019. E ainda deve. Andrey era o mais discreto do meio-campo vascaíno até que Rossi – aquele que leva perigo até quando cruza errado -, aos 44 minutos, levantou na área, a zaga cortou e a bola caiu no pé esquerdo do camisa 15. O chute que a direita tanto errou com força na temporada, saiu preciso com a canhota, quicando. Fraco, deu o tempo necessário para o torcedor sofrer com a incerteza da velocidade e a imprecisão da direção.

Por um breve segundo, o vascaíno congelou. Por minutos, ascendeu em êxtase.

Digo minutos porque logo depois foi a vez de Tiago Reis, outro que pouco aparecia na partida, marcar o segundo. A torcida ainda suava o primeiro gol quando Danilo Barcelos explodiu a trave de Lomba com a violência de um boxeador. No rebote, Tiago Reis, dono da frieza comum aos artilheiros, colocou a bola no ângulo oposto ao tentado pelo lateral. Feliz por estar em casa, a bola correu mansa pela rede para nova explosão em São Januário.

Havia, porém, o segundo tempo. E assim como a temperatura que cai, o vascaíno sabe que a queda de rendimento do time na etapa final é quase ensaiada, uma espécie de rito.

O Inter, que teve 62,9% de posse de bola no 1º tempo mas só conseguiu finalizar três vezes, passou a ter 72,1% e arrematou em sete oportunidades, segundo dados do Footstats. Muito graças a mudança feita por Odair Hellmann, o técnico colorado que pôs em campo o meia Patrick para jogar nas costas de Pikachu. Foi por lá que o Botafogo fez 1 a 0 na rodada passada e por ali que saiu o cruzamento que originou o gol de Emerson Santos, aos 10.

A temperatura caiu dois graus no momento em que o chute do zagueiro tocou as redes, como em uma cena de O Sexto Sentido. Poderia jurar que caíram gotas de orvalho durante a comemoração, tamanho o frio que se instaurou no ambiente.

Por 35 minutos, o vascaíno teria que se aquecer em sua esperança, bombear o coração com as próprias mãos, e torcer para relógio e time não congelarem.

Contaria também com a fundamental contribuição de Fernando Miguel. Gaúcho de Venâncio Aires, o camisa 1, fazendo sua estreia no Brasileiro, se sentia em casa no frio.

No 1º tempo, quando Nico López surgiu à sua frente como um fantasma, o arqueiro vascaíno já havia realizado um milagre com apenas uma mão. Algo santo. O bandeira, no entanto, já marcava impedimento. Porém, Fernando já deixava claro que o gol cruz-maltino vivia um novo tempo após sua longa ausência e que não seria fácil transpô-lo.

Quando o bom Nonato finalizou de longe, com o placar já em 2 a 1, o goleiro voou novamente para consolidar o triunfo do time. A defesa reacendeu a torcida, que passou a cantar quase que para si, já que em campo a equipe demonstrava pouca reação.

Por alguns minutos, foi a arquibancada que jogou e o time que assistiu. Com cantos e gritos, os vascaínos deixaram claro para o Internacional que ali ainda vivia um Vasco, e que apesar de muitas vezes se apresentar com um semblante frio, ainda corre em suas veias – principalmente na de seu torcedor –  um sangue quente.



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