A posse de pontos



Cano tem 37 gols pelo Vasco (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

“Em matéria de tática, há poucas certezas absolutas. Certamente não existe a “melhor” formação (…). Além de precisar haver um equilíbrio entre ataque e defesa, tudo depende das circunstâncias: dos jogadores que estão disponíveis, de seu estado físico (…), do que uma equipe pretende no jogo – e, claro, do adversários e seus jogadores, de sua formação, condição física e mental. Não se trata apenas de tudo estar relacionado: tudo é relativo”.

Esse parágrafo pertence à introdução do livro “A pirâmide invertida”, do britânico Jonathan Wilson. O livro conta a história da evolução tática do futebol, as diferentes formas de se jogar e suas origens. Nesse trecho, após todo estudo, ele deixa claro algo que parece óbvio, mas que para muitos não é: não existe jeito certo de se jogar futebol.

Digo isso porque o debate, apesar de ter início lá em 1870, entre ingleses e escoceses, voltou à pauta agora, principalmente entre os vascaínos.

Desde a derrota para o Avaí, em São Januário, pela 4ª rodada da Série B, a equipe de Marcelo Cabo alterou a forma de atuar. Entre outras coisas, abriu mão dos 61,5% de posse de bola que vinha tendo – em média – e passou a ter apenas 41,1%. O que tem causado muita reclamação em parte da torcida.

Um campeonato de futebol, no entanto, não é vencido simplesmente pela posse de bola – apesar de ser fundamental em muitos modelos -, mas sim pela posse de pontos – óbvio. Pontos esses que podem ser conquistados com diferentes estratégias. E o próprio Vasco é uma boa amostra disso.

Antes da mudança, o time havia vencido apenas um dos quatro jogos disputados na Série B. Em todos teve mais posse que o adversário. Desde então, com a alteração, ganhou quatro de seis.

Uma das duas derrotas recentes foi contra o Cruzeiro, tendo mais posse, mais uma vez. O único insucesso com menos posse foi o duelo com o Goiás, onde teve Bruno Gomes expulso com cinco minutos – também havia recebido cartão vermelho em Minas. Uma partida atípica.

Mas não foram apenas os resultados que mudaram.

Um dos equívocos é achar que um time de menos posse ataca menos e é mais agredido. Pode acontecer, mas não é uma regra. E, mais uma vez, o próprio Vasco mostra isso.

Apesar das vitórias apertadas contra CRB – o 3 a 0 foi construído nos minutos finais – Brusque (2×1), Confiança (1×0) e Sampaio Corrêa (1×0), a equipe cruz-maltina quase dobrou a sua média de gols feitos – de 0,75 para 1,33 por jogo – e reduziu para menos da metade a de gols sofridos – de 1,5 para 0,66. A única partida em que não estufou as redes foi exatamente contra o Goiás, onde jogou com um a menos por praticamente 90 minutos.

E esses não foram os únicos pontos que melhoraram.

Ainda que tendo uma média superior a 60% de posse de bola nos primeiros jogos, o Vasco não conseguia transformar isso em situações de gol. Pelo contrário. Tornava o time exposto, já que adiantava as suas linhas, trocava muitos passes, mas não conseguia tirar a bola dos pés dos seus zagueiros e até do seu goleiro. Resultado: contra-ataque adversário. Como escrevi após o confronto com o Avaí, o Vasco havia criado uma nova estratégia: a de atacar sendo atacado.

Os números, mais vez, falam por si.

O falso controle do jogo através da posse deu ao time uma média de apenas 3,5 finalizações certas por partida. A média nos últimos seis jogos subiu para 5,6, mesmo contando o duelo atípico com o Goiás. Sem ele esse número sobe para 6,4, quase o dobro de antes. E com quase metade da posse.

Os jogadores acertaram o pé? Não é só isso.

O Vasco, que antes trocava 20 passes para se organizar antes de atacar, passou a buscar a definição em cinco ou seis toques pra frente. E alterando a forma como ataca, mudou também a maneira como o adversário defende. Afinal, há menos tempo para recomposição. Enfrentar defesas menos fechadas facilitou os arremates com mais liberdade, em melhor posição. Resultado: maior volume de acertos. Mais qualidade.

E defensivamente? O efeito inverso. A forma como um time ataca define a maneira como ele defende.

Se antes Marcelo Cabo posicionava sete jogadores, às vezes oito, no campo de ataque, para conseguir girar a bola – e não conseguia -, agora bastam quatro, no máximo cinco, para definir o lance em velocidade. O que significa mais jogadores vascaínos atrás da linha da bola no momento da perda. Mais segurança e menos contra-ataques.

Tanto que o Vasco vinha cedendo 4,7 finalizações certas por partida na ideia antiga e agora permite apenas 3,6. E poucas com real perigo. Tanto que a média de gols sofridos caiu de 1,5 para 0,6.

Nos quatro primeiros jogos – Operário, Ponte Preta, Brasil de Pelotas e Avaí -, o Vasco só teve mais finalizações certas do que o adversário contra o Brasil – única vitória no período. Já nas últimas seis rodadas, com a mudança, só não finalizou mais no duelo com o Goiás – novamente, o jogo atípico pela expulsão precoce.

Em resumo: com mais posse, o Vasco atacava menos e era mais atacado. Com menos, passou a atacar mais e ser menos atacado.

O que deixa bem claro que a posse é apenas um meio, não o fim. O objetivo final sempre será o equilíbrio entre defesa e ataque, como diz Jonathan Wilson no parágrafo que trouxe acima.

Fazer mais gols e sofrer menos. O básico.

O Vasco antes sofria o dobro de gols que marcava, em média. Agora marca o dobro que sofre. Sintomático.

Um equilíbrio que, se o Vasco ainda não encontrou por inteiro, ao menos aparenta estar mais perto do que antes.

Não há mal algum em se ter a bola, desde que saiba o que fazer com ela. O Vasco não sabia. Muitos times da Série B também não sabem. O próprio Sampaio Corrêa, derrotado pelo Cruz-Maltino nesta sexta-feira, entrou em campo ocupando a 3ª posição na tabela, a defesa menos vazada, mas em 19º no ranking de posse de bola do campeonato. Mais uma prova de que ter a bola não é tudo.

O melhor jeito de se jogar futebol é aquele que torna o time mais eficiente. Aquele que a ideia consegue ser melhor executada em campo. E o Vasco, ainda que muito longe do ideal, no comparativo com o que era antes, tem sido.

Você pode até preferir uma outra ideia de jogo – eu também prefiro. Pode até achar feio – e tem sido. Mas após o péssimo início de campeonato, o Vasco precisava muito mais se apossar de alguns pontos do que realmente da bola. E era claro que com ela não atingiria esse objetivo.

VASCO NOS 4 PRIMEIROS JOGOS DA SÉRIE B

1 vitória
1 empate
2 derrotas
61,5% de posse de bola (em média)
0,75 gols marcados por jogo
1,50 gols sofridos por jogo
3,5 finalizações certas por jogo
10,7 finalizações por jogo (contando as erradas)
4,7 finalizações certas cedidas por jogo
11 finalizações cedidas por jogo

VASCO NOS ÚLTIMOS 6 JOGOS

4 vitórias
0 empates
2 derrotas
41,1% de posse de bola (em média) (43,4% sem o jogo com o Goiás)
1,33 gols marcados por jogo (1,6 sem o jogo com o Goiás)
0,66 gols sofridos por jogo (0,5 sem o jogo com o Goiás)
5,6 finalizações certas por jogo (6,4 sem o jogo com o Goiás)
11,3 finalizações por jogo (contando erradas) (12,6 sem o jogo com o Goiás)
4,3 finalizações certas cedidas por jogo (3,6 sem o jogo com o Goiás)
11,3 finalizações cedidas por jogo (9,6 sem o jogo com o Goiás)



MaisRecentes

Cano passa Pikachu no ranking de artilheiros do Vasco neste século



Continue Lendo

O talentoso Riquelme



Continue Lendo

Nenê sobe cinco posições no Troféu Ademir Menezes



Continue Lendo