A infantilidade de Pikachu



Pikachu não faz boa temporada (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Apesar de gostar de escrever sobre personagens individuais pós-jogo, não é do meu feitio carimbar vilões. Não que eu tenha algum problema em criticar, pelo contrário, é que é possível fazer isso sem enterrar alguém. Mas nem sempre.

Veja bem, jogadores erram dezenas de passes ao longo de 90 minutos, são driblados, perdem no jogo aéreo, na antecipação, na velocidade… É natural, é do jogo. Só há ataques e contra-ataques por causa disso. Sempre que alguém leva vantagem, outro automaticamente está em desvantagem. É assim que se joga futebol. E nem todos esses lances terminam em gol, é claro. Por isso acho injusto que se procure nestes momentos decisivos, tão habituais no futebol, um culpado único. Em certas partidas, em certas jogadas, no entanto, é impossível fechar os olhos.

A derrota do Vasco para o Coritiba nesse domingo é um desses casos. O que fez Pikachu no Couto Pereira foi diferente. Eu explico.

Os times fizeram um 1º tempo gélido, de invejar as apresentações do ‘Holiday On Ice’. Se não fosse um chute de Germán Cano para boa defesa de Wilson, o rapaz que monta os melhores momentos para a tv seria demitido por falta de serviço.

O argentino, inclusive, é uma espécie de dor de dente para os adversários. Quando menos se espera, ele dá uma pontada e incomoda. Isso quando não leva logo para a anestesia – o gol.

O Coxa, mesmo chegando a bater 70% de posse de bola nos primeiros minutos, só incomodava Fernando Miguel nos cruzamentos. Miranda e Marcelo Alves, porém, dessa vez, deram conta.

A verdade é que foram 45 minutos de uma disputa que pouco se parecia com o futebol. Dono da bola, o Coritiba não criava. Recuado, marcando em seu campo, o Vasco não tinha a velocidade de Benítez no meio-campo para contra-atacar. E os times ficaram naquele “vai tu que eu tô cansado”, como diria meu avô.

Pior para quem assistia sem poder dormir.

A etapa final foi  melhor. O Cruz-Maltino parou de abrir mão da bola, começou a ocupar o campo de ataque, e, apesar da burocracia para finalizar – às vezes parece que Cano é o único autorizado para o serviço -, levou perigo.

Com Bruno César e Talles Magno, criou duas vezes pela esquerda, para Cano e Guilherme Parede – que entrou no 2º tempo – fazerem Wilson trabalhar novamente. Num terceiro lance, Talles carimbou a trave após passe do argentino.

Mesmo sem muito jeito ou beleza, o Vasco era mais perigoso e prometia uma pressão final para esquentar a fria Curitiba. A equipe caminhava para a pouco valorosa, mas muito valiosa, “vitória sem jogar bem”. Até que apareceu Pikachu.

Como já disse, errar um passe, um bote e até perder na velocidade, como aconteceu na jogada, faz parte do jogo, mas puxar a camisa de um atacante dentro da área, com VAR, aos 40 minutos do 2º tempo, num cruzamento onde muito provavelmente não daria em nada, é imperdoável.

Imperdoável porque é uma ação premeditada, consciente, onde a única coisa que poderia acontecer era exatamente o pênalti. Não é um erro de execução, onde se tenta uma coisa e acontece outra. É de raciocínio. Pikachu, aos 28 anos de idade, há cinco no clube, jogador do elenco com mais partidas disputadas com a camisa vascaína e capitão da equipe na ausência de Leandro Castan, deveria ser o primeiro a saber disso.

Costumo dizer que o Vasco do Ramon é um Vasco consciente. Ou seja, maduro, com forte compreensão do que fazer em campo, do certo e do errado. Tanto que por muito pouco não conquistou mais três pontos fora de casa mesmo sem um grande futebol. Yago, que já não faz um grande ano, é quem mais destoa dessa ideia.

O lance que decretou o 1 a 0 em Curitiba é o batom na cueca, a prova indiscutível, que Pikachu parou de evoluir.

E até ele parece saber disso.



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