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SEGUNDO TEMPO, INDEPENDÊNCIA

por André Kfouri em 08.mai.2013 às 23:29h

Atlético Mineiro 4 x 1 São Paulo

1 – Frenético Mineiro. Blitz feroz nos primeiros segundos do jogo. Duas chances evidentes antes do cronômetro marcar dois minutos. Pressão que reúne a adrenalina, o barulho e a velocidade com que a bola chega ao gol são-paulino. Não é correto dizer que o visitante sentiu o golpe, porque o jogo mal tinha começado. Não houve mudança de comportamento. O árbitro apitou, a bola chegou à área de Rogério e de lá não saiu.

2 – Uma aparição de Ganso na área obriga Victor a usar os pés. Falsa sugestão de que o jogo passou a ser disputado por duas equipes. Engano. O Atlético não está instalado no campo de ataque, mas controla tudo o que acontece no Independência. A um São Paulo de posses curtas, resta tentar converter em calma uma tempestade assustadora. Em vão. Tardelli e Bernard são velozes demais.

3 – O Atlético agride como uma série de ondas num dia de ressaca. O São Paulo tem apenas o tempo suficiente para erguer a cabeça acima da superfície, antes que uma nova montanha de água desabe. E o perigo vem de todas as formas. De trás, pelo chão, com os volantes mineiros ultrapassando as linhas de pressão sobre a bola. De perto, com o alto volume de desarmes na metade do campo. E de longe, com a já tradicional bola longa de Victor em ligação direta.

4 – 17′, 1 x 0. De Victor para o campo de ataque, a ideia é que Jô “quebre” a bola para um dos atacantes. A jogada do gol não se desenvolve assim. Mas a bola encontra Tardelli no lado direito. O passe para Bernard liga o alarme na defesa do São Paulo. A sobra para Jô é aproveitada com um petardo.

5 – Em oportunidades construídas, o primeiro tempo termina com 5 x 1 a favor do Atlético. Pelo volume, pareceu até mais.

6 – A primeira obrigação do São Paulo era entrar em estado de amnésia induzida. Esquecer onde estava, como estava e quanto estava. Recomeçar do zero em busca de no mínimo dois gols improváveis. Mesmo se conseguisse alcançar tal desprendimento, teria de lidar com um adversário superior e longe, longe de estar satisfeito. Nem nos piores cenários os planos tricolores consideravam o que se passaria no segundo tempo.

7 – 17′, 2 x 0. Mesmo minuto do primeiro gol, e mesmo autor. A zaga são-paulina perde Jô na linha do impedimento. Jô não perde a chance de iniciar a festa. O placar encerra o confronto, mas não o jogo. O Atlético tem outras intenções.

8 – 19′, 3 x 0. Nocaute. Mais uma bola que vem do campo de defesa, e Rafael Tolói resolve participar do ataque do Atlético. Não percebe Tardelli, em altíssima velocidade, passar por ele em direção à área. Cabeceia na medida para a intervenção do atacante, antes de Rogério. O jogo entra oficialmente no território das goleadas, opõe euforia e depressão com contornos claros.

9 – 23′, 4 x 0. De batido a abatido, o São Paulo perambula no Independência à espera do fim do sofrimento. Mas, além de ser muito cedo para a rendição, o Atlético está se divertindo. Começa o show estético de Ronaldinho, que jogava muito bem mas com certa discrição. Ele ganha no ombro de Wellington e aciona o artilheiro da noite. Triplete de Jô.

10 – 30′, 4 x 1. O São Paulo chega a um gol que será pouco lembrado. Luis Fabiano.

11 – Aparição de Ronaldinho melhor do mundo. Sequência de fintas humilhantes na lateral do campo, uma delas para Douglas jamais esquecer. Outra finta na área, e o gol não sai por pouco. Magia.

12 – Majestoso Atlético. Entre dois times grandes do futebol brasileiro, é um dos jogos mais unidimensionais dos tempos recentes. Um Atlético dominante em todos os ângulos. Vibrante e brilhante. Um São Paulo superado, subjugado, entregue. Não houve competição no Independência nesta quarta-feira. Houve uma exibição de um excelente time de futebol.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 07.mai.2013 às 8:15h

(publicada ontem, no Lance!)

SORRISO AMARELO

O clássico:

1 – São Paulo em controle. A soma da postura menos agressiva da primeira linha corintiana com a qualidade do trato de Jadson e Ganso resulta num início em que o dono da casa propõe os movimentos. O São Paulo também não pressiona com a mesma verve que se viu contra o Atlético, talvez por causa do desgaste excessivo sofrido na quinta-feira.

2 – É um mistério o recuo do Corinthians em relação a uma de suas características mais marcantes em 2012. A trégua oferecida à saída de jogo do adversário compromete a recuperação da bola no campo de ataque. Ao mesmo tempo, não se vê um time perigoso ao esperar o oponente para surpreendê-lo na transição. Assim como na Bombonera, é um Corinthians que conversa ao invés de discutir.

3 – A posse do São Paulo leva o jogo às portas da área corintiana. O último passe para Luis Fabiano se converte na maior ameaça, o que obriga a última linha alvinegra a viver no limite do precipício. Acionado em condições de marcar, a maior competição do 9 são-paulino é a linha de impedimento, que o vence – uma jogada, milimétrica, deveria ter seguido – durante o primeiro tempo.

4 – Osvaldo no hospital. Dores no osso do quadril o retiram do jogo e exigem um raio-x. Mais um problema médico para um time que perdeu dois jogadores no meio de semana, com lesões musculares. A ausência de Osvaldo torna o ataque do São Paulo mais previsível. Enquanto a semifinal do Campeonato Paulista se desenvolve, a missão de quarta-feira no Independência fica mais difícil.

5 – Poderia se esperar uma queda física do São Paulo no segundo tempo. Reflexo do esforço excessivo por jogar cerca de uma hora com um homem a menos contra o Atlético Mineiro, na noite de quinta-feira. O Corinthians atuou na noite anterior. Mas não é o que se percebe no Morumbi, talvez porque o visitante não acelerou o passo na segunda metade do clássico.

6 – O jogo se deteriora rapidamente. Um clipe de melhores momentos da etapa final se transforma em tarefa inglória até para o mais otimista dos editores. Para um observador desatento, nada indicaria que se trata de uma semifinal, um passo para a decisão de um título. Nível de vibração que revela o prestígio do torneio. Nem a rivalidade é estímulo. Os dois times carregam o jogo para a disputa de pênaltis, em que uma derrota e sua repercussão doem menos.

7 – Dois dos jogadores mais importantes do São Paulo falham. Ganso perde o alvo, Cássio rejeita Luis Fabiano. Erros que ficarão na memória de quem conseguir se lembrar deste domingo. A cobrança desperdiçada por Alessandro, o mais condecorado dos atuais jogadores do Corinthians, será esquecida.

8 – O que ficará na história: antes de levar o Corinthians à final, Alexandre Pato cobrou um pênalti com barreira.

9 – O Campeonato Paulista é uma companhia oportunista para a Copa Libertadores. Atrapalha quem sustenta as duas frentes, não consola quem perde o que é mais importante e mais desejado. Quem fica pelo caminho no estadual pode se concentrar no principal objetivo, como fez o Corinthians em 2012. É o que o São Paulo quer, mas não será fácil.

SUPREMO GLORIOSO

Não haverá final no Rio de Janeiro neste ano, porque a superioridade do Botafogo decidiu o campeonato antes. No futebol, não há campeão sem merecimento, mas há torneios em que não sobra absolutamente nada para os outros. Quando se contar a história deste estadual, só se falará sobre o Botafogo. O time que venceu o primeiro turno e todos os jogos do segundo. O time que mostrou trabalho, desempenho e resultado. O time que tem um treinador competente, um líder internacional e um elenco que permite ao torcedor sonhar com uma temporada orgulhosa. O estadual carioca de 2013 foi o campeonato que já não tinha o Maracanã e perdeu o Engenhão. Um campeonato decidido fora do Rio de Janeiro, por falta de estádios. Um campeonato sem público. Mas foi o campeonato do Botafogo e dos botafoguenses, que não têm nada a lamentar. Apenas a comemorar.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 05.mai.2013 às 11:23h

(publicada ontem, no Lance!)

MODELO

Uma semana antes de completar noventa e sete anos, João Havelange se despediu de seu último anel. A presidência honorária da Fifa, entidade que comandou por quase um quarto de século, se foi por renúncia. Havelange se retirou para evitar humilhação pública, ainda que o caso ISL e as “comissões” que embolsou sejam parte integrante de seu histórico em qualquer busca na internet. Para sempre.

Ele havia feito mesmo em relação à posição no Comitê Olímpico Internacional, em dezembro de 2011, semanas antes de uma reunião do comitê de ética da entidade. Antes da punição, porta dos fundos. O rastro de corrupção levou a um fim de vida infame, covarde até. Mas provavelmente não será suficiente para manchar sua imagem como modelo de dirigente esportivo brasileiro.

Numa sala repleta de cartolões e cartolinhas, mestres e aprendizes do ofício, Havelange receberia beijos no rosto de quase todos os presentes. De alguns, como agradecimento pelo patrocínio de tantos e tantos anos. De outros, por mera bajulação a um ícone. Poucos, pouquíssimos, seriam aqueles que manteriam distância respeitosa. Menos ainda seriam os que não fariam de tudo para usar seus sapatos. Se não são discípulos do homem, são do método.

Carlos Arthur Nuzman faria as vezes de cicerone, segurando a mão de Havelange e sussurrando aos seus ouvidos os nomes dos pedintes. O presidente do COB ainda discursaria por longos minutos, enumerando os feitos e evidenciando a dívida impagável que o esporte brasileiro tem com um benemérito que lhe dedicou a vida. Nuzman abriria sua participação cumprimentando as senhoras e senhores, e chamando Havelange de “meu líder”, como costuma fazer.

Foi durante o período de Havelange na Fifa, entre 1974 e 1998, que as organizações comerciais passaram a desempenhar um papel crucial no futebol. A Copa do Mundo se expandiu, os direitos de transmissão pela televisão deram um salto estratosférico, a Fifa virou o que é hoje. Seguindo o exemplo, outras entidades esportivas se converteram em agências de negócios bilionários. Havelange é o criador de um modelo bem sucedido e, ao mesmo tempo, gerador de tudo o que existe de errado no esporte.

Enquanto você lê essas linhas, a absoluta maioria dos dirigentes esportivos brasileiros está preocupada apenas em prolongar sua permanência na cadeira. Por que seriam tão apegados? Por que seriam tão refratários a conceitos saudáveis como alternância no poder? O que os mantém ali por décadas, até que a saúde anuncie o fim da festa? Certamente é algo complexo, pois nem eles são capazes de responder.

Ricardo Teixeira, ex-genro de Havelange em autoexílio na Flórida, deixou a estrutura pronta na CBF para José Maria Del Nero (ou Marco Polo Marin, como queira) gozar enquanto puder. Ignorado pela Fifa e pelo governo brasileiro, o presidente da CBF se agarra a jantares caros enquanto procura saídas convenientes.

Na semana passada, as eminências estiveram em Assunção articulando um golpe na Conmebol. Marin assumiria o comando, com caminho aberto para Del Nero na CBF. Tudo por causa da renúncia de Nicolás Leoz, o penúltimo dos acajus, também molhado pela ISL.

DRAMA

O São Paulo não tem como fugir do dilema Copa Libertadores x Campeonato Paulista. Não há dúvida sobre qual é mais importante, nem sobre em qual a chance de sucesso é maior. O problema é que o calendário presenteou o clube com três jogos eliminatórios em uma semana. No primeiro deles, o time jogou por uma hora com um homem a menos e perdeu dois atletas por lesão. O que fazer? A rivalidade e a possibilidade de um título estadual indicam escalação mais forte possível neste domingo, contra o Corinthians.

CENAS

No bonito clássico de quinta-feira pela Libertadores, três momentos: a finta de Ganso no lance do gol são-paulino, tirando dois jogadores do Atlético da foto. O escanteio cobrado por Bernard, no gol de Ronaldinho. Sem peso, milimétrico. E o passe de Marcos Rocha para o gol de Tardelli. A bola quase parou diante do atacante.

SENSIBILIDADE

por André Kfouri em 03.mai.2013 às 11:51h

(o jornal me pediu um texto, para a edição de hoje, sobre Boca Juniors 1 x 0 Corinthians. Aí vai.)

SENSIBILIDADE

Tite se irritou com a sugestão de que o Corinthians “sentiu” a Bombonera. Ele tem razão, mas não no apelo aos títulos, usado para imunizar o time desse tipo de fraqueza. O Corinthians realmente não sentiu o jogo, o que explica a atuação pouco característica. Se tivesse sentido, provavelmente teria vencido.

É necessário estar em sintonia com o momento. Talvez seja difícil interiorizar o chamado “espírito de decisão” numa fase da competição em que as coisas ainda parecem mornas. Mas as oitavas de final são tão decisivas quanto o que está adiante delas. E contra o Boca Juniors, qualquer Boca Juniors, é obrigatório antecipar – em todos os aspectos – a máxima dificuldade.

O atual time do Boca é claramente inferior ao do Corinthians. A maneira como se portaram em campo revela que os argentinos têm exata noção da diferença técnica entre as equipes. O Boca conduziu o jogo para o território que lhe interessava, um ambiente de mais pressão e intensidade. O Corinthians passou mais tempo preocupado em responder ao convite do adversário do que em fazer o que lhe tornou campeão.

Só Tite pode dizer se a marcação recuada foi uma ordem ou uma adaptação. A fragilidade e o momento ruim do Boca sugeriam que a pressão alta era o mecanismo indicado para gerar uma vantagem no placar. O Corinthians decidiu esperar e pagou por isso. Tomou um gol “sem querer”? Sim. Mas esse é o risco que correm os times que permitem que a bola ronde sua área.

Tite também tem razão quando diz que o resultado é plenamente reversível. A derrota em Buenos Aires significa, apenas, que a margem de manobra do Corinthians no Pacaembu será menor. Situação perigosa contra times que, independentemente do momento e do elenco, sabem como explorar a necessidade do adversário de propor o jogo. O Boca Juniors é catedrático nessa área.

O desnível técnico deve prevalecer no jogo de volta, se o Corinthians utilizar o que não fez na Bombonera como um aviso. Desde a Libertadores do ano passado, houve momentos em que faltou futebol. Mas ainda não havia faltado postura.

É preciso “sentir” esses jogos.

CAMISA 12

por André Kfouri em 03.mai.2013 às 9:49h

(publicada ontem, no Lance!)

DIREITO

Parece claro que, aos ouvidos do torcedor do Palmeiras, o nome do estádio erguido onde ficava o Palestra Itália deveria exibir uma ligação íntima com a antiga moradia do clube. A remodelação do local, feita com recursos de terceiros e destinada a transformar uma praça essencialmente esportiva em sede para diversos tipos de eventos, representa uma valiosa oportunidade para todos os envolvidos, mas – ainda – não foi capaz de romper com certas tradições.

O nome do novo estádio do Palmeiras é um dos protagonistas da operação que possibilitou que ele exista. Nela, a grosso modo, a construtora (WTorre) se encarrega de erguê-lo sem que o clube disponha de um real. O clube recebe um estádio top de linha e concorda que, por um período pré-determinado, a construtora o explore para reaver seu investimento e, obviamente, mais do que isso. Uma das maneiras de fazê-lo é comercializar os direitos de nomenclatura do lugar.

Para tanto, é preciso que alguém se interesse por estampar sua marca na fachada e a ver mencionada pelo público e meios de comunicação. É publicidade pura e simples. Paga-se por espaço e pela mídia gerada. Nesta semana, soube-se que uma seguradora alemã (Allianz) aceitou investir R$ 300 milhões para ter esse direito por 20 anos.

É um absoluto contrassenso pretender que uma empresa disposta a tal investimento (lembre, sem ele o negócio não fica em pé) escolha um nome que não seja o que lhe interessa. Impor a quem contribui para o financiamento do estádio uma outra sugestão é o equivalente à seguradora determinar à construtora que materiais utilizar na obra. Ou ao Palmeiras a escalação de seu time.

Num cenário ideal, a empresa detentora dos direitos optaria por um nome de consenso e todos ficariam felizes. Mas a questão é prerrogativa dela. Num cenário verdadeiramente ideal, o clube não precisaria de ninguém para construir seu estádio.

DINHEIRO VEM

A Juventus construiu seu próprio estádio e escolheu chamá-lo de Juventus Stadium, o que deve agradar boa parte dos torcedores. Mas os direitos de nomeá-lo já foram negociados com uma empresa de marketing que está a procura de interessados. Quando, e se, alguém chegar a um número que agrade, o nome mudará. E a maior torcida da Itália terá de compreender.

DINHEIRO VAI

Ainda no tema, que ninguém se atreva a mudar o nome do Engenhão. A mais recente movimentação de João Havelange, renunciando à presidência de honra da Fifa para não ser expulso por corrupção, impõe que o estádio interditado continue a levar seu nome. Num país decente, as “comissões” embolsadas deveriam ser devolvidas e usadas para corrigir o projeto.

PRIMEIRO TEMPO, MORUMBI

por André Kfouri em 02.mai.2013 às 23:50h

São Paulo 1 x 2 Atlético Mineiro

1 – Atlético acuado, envolvido pela esperada pressão inicial do São Paulo e dos são-paulinos. Os primeiros 15 minutos parecem a sequência do jogo no mesmo Morumbi pela fase de grupos. Pressão alta do mandante, energizado pelo ambiente. Rápida circulação da bola, que não sai do campo de ataque. Bernard e Tardelli não podem ser acionados porque o Atlético é impedido de pensar. Gol iminente.

2 – 8′, 1 x 0. O cruzamento do lado direito encontrou a zaga mineira. Ganso encontrou uma maneira de consertar o que deu errado. Controle na área, soberba noção de espaço, uma finta e dois atleticanos saem da foto. Toque de pé direito para Jadson, que não precisou de nada mais. A finalização de primeira é típica de um jogador que já sabia o que faria, e já tinha visualizado a bola entrando no canto esquerdo de Victor. O chute é apenas a materialização do lance.

3 – O Morumbi ainda pulsava – e o Atlético não tinha respirado – quando Aloísio pediu substituição, por lesão muscular. O choro do atacante, produto da noção de que um afastamento o espera, foi um prenúncio de como a noite terminaria para o São Paulo. O jogador que entrou em seu lugar, Ademilson, foi substituído por Rhodolfo, que foi substituído por Douglas.

4 – Aloísio faria os gols que Ademílson perdeu? Quem pode responder? Exagero falar em “quatro chances claras”. Mas uma foi. Saiu por cima, e ninguém pode dizer como ficaria o jogo – e o confronto – se o São Paulo fizesse o segundo. Sopro de sorte para o Atlético, que em breve passaria de dominado a dominante, metamorfose que poucos esportes proporcionam de forma tão instantânea quanto o futebol.

5 – Lúcio levou um cartão amarelo aos 24 minutos. Marcos Rocha deveria ter levado um vermelho no minuto seguinte. Vermelho que Lúcio mereceu aos 34, por falta de pontualidade e excesso de força na carga em Bernard. A vantagem numérica, primeiro, acalmou o Atlético. Depois, permitiu que os mineiros controlassem a bola e o tempo. O campo amplo contribuiu para a troca da guarda do jogo.

6 – 41′, 1 x 1. Escanteio da direita, e o jogador menos cotado para marcar um gol de cabeça apareceu na segunda trave. O toque não foi forte, mas a bola tinha olhos. Passou tranquila pelo espaço entre os defensores e o goleiro são-paulino, contou com a indecisão de todos e só parou na rede lateral. No final do primeiro tempo, a maldição se fez sentir no Morumbi: gol qualificado do Atlético e todo a segunda parte com um jogador a menos.

7 – Senhor Atlético. Sereno sem ser complacente. Paciência, não negligência. Ronaldinho dava as cartas, mas Tardelli é quem dava as ordens no jogo. A vocação do atacante para se desmarcar criou uma situação frequente em partidas de futebol. Estava evidente que quando Tardelli e a bola estivessem juntos, no lugar certo, o Atlético estaria a caminho de casa com um sorriso no rosto.

8 – 14′, 1 x 2. Marcos Rocha providenciou o encontro na área. Tardelli se encarregou do resto. Velocidade e instinto de goleador na conclusão de primeira para superar Rogério Ceni. Momento que se construía diante de todos. O Atlético esperava pela hora certa, o São Paulo sabia que tinha poucas chances de evitá-la. As probabilidades estavam dramaticamente a favor do visitante.

9 – E permanecem assim, quando transportamos o raciocínio para o jogo de volta. Cerca de uma hora com dez homens castigou o São Paulo, que recebe o Corinthians para a semifinal do Campeonato Paulista no domingo. O Atlético saiu inteiro do Morumbi e vive uma situação bem menos complicada em seu estadual. Na próxima quarta-feira, ambos se reencontram em Belo Horizonte, num local onde o Atlético se sente ainda mais forte.

10 – O desequilíbrio seria ainda maior se Luan não desperdiçasse o terceiro gol, cujo autor teria sido Rosinei e o mentor, Ronaldinho.

11 – Segundo tempo, Independência.

O OUTRO LINK DA LIGA

por André Kfouri em 01.mai.2013 às 22:58h

O jogo terminou com Messi no banco, Busquets na tribuna, Xavi e Iniesta substituídos.

Para o Barcelona, sinais tão preocupantes quanto o placar final: Bayern 3 x 0.

Se é que faltava – creio que não – alguma coisa a este Bayern avassalador, era dispensar o Barcelona em sua própria casa.

E se é que faltava confiança ao time alemão – também não creio – de que era possível construir um resultado semelhante ao do primeiro jogo, a ausência de Messi lhe deu o sinal verde.

Piqué havia dito na véspera que seria necessário “jogar com a ilusão das crianças” e “abandonar o bom senso”. Eis que o Barcelona foi levado para a escola, sem nenhum senso do que era ou do que deve ser.

Um Barcelona ciente da própria inferioridade, jogando para ser digno.

Um Bayern certo do próprio domínio, jogando para fazer uma declaração.

Um time desfalcado e distante das melhores condições contra uma máquina rodando a 100% de sua capacidade.

O 0 x 0 no intervalo poderia ser considerado um bom placar diante dos sinais enviados pelo time vermelho, firme e organizado. Forte e ousado.

O gol de Robben deprimiu um estádio habituado a sentir orgulho de sua equipe, acostumado a ver partidas decididas pela supremacia técnica, pela virtude e pelo talento.

Qualidades exibidas pelo visitante, que se somaram, novamente, a uma descarga física indiscutível.

O segundo e o terceiro gols completaram a mensagem do Bayern, para que não fiquem dúvidas sobre suas intenções e possibilidades.

A segunda final seguida de Liga dos Campeões, terceira nas últimas quatro temporadas, recoloca o colosso alemão no rumo da conquista do continente.

No passo derradeiro, encontrará um adversário doméstico, assíduo. A situação elimina uma série de elementos que habitam grandes decisões, e de certo modo nivela aspectos que podem pender de um lado a outro.

Mas essa é uma conversa para mais tarde.

As exibições do Bayern nesta edição do torneio, e especialmente nas semifinais, revelam um time configurado para vencer.

Agora e nos próximos anos.

Ao Barcelona, o time dos últimos anos, resta a difícil tarefa de agir corretamente diante de um problema.

Minimizá-lo, como se fosse uma infeliz coincidência de azares, é o mais fácil a fazer. E como quase sempre, um equívoco.

Reconhecer sua gravidade – 7 x 0 no placar agregado é um lembrete adequado – leva à obrigação de tomar providências.

A boa notícia é que Messi tem só 25 anos.

______

PS: Uma outra boa conversa para mais tarde é a decisão entre Bayern e Dortmund sob o ponto de vista de Pep Guardiola.

O catalão foi contratado para agregar sua mentalidade de excelência a um time que pretende recuperar seu lugar no futebol europeu.

O que pode acontecer antes mesmo de sua chegada, alterando dramaticamente o balanço de expectativas e a própria análise de seu desempenho.

Ademais, assumir um time campeão continental seria reencontrar uma situação parecida com a que Guardiola deixou ao se despedir do Camp Nou para um período sabático.

Ok, mesmo imaginando que o Bayern triunfará, estaríamos falando de um time bem menos condecorado do que o Barcelona de Pep.

Mas pode – atenção, trolls: PODE – ser um Bayern campeão alemão com dois meses de antecedência, campeão da Copa da Alemanha e campeão da UCL.

Pode ser um time saciado.

Nunca saberemos, mas creio que, intimamente, Guardiola prefere ver o Dortmund ganhar esta Champions.

O LINK DA LIGA

por André Kfouri em 30.abr.2013 às 19:58h

Um cenário que parecia inevitável no jogo no Bernabéu era o que aconteceria quando o Real Madrid marcasse o primeiro gol.

A materialização da vantagem para um time que certamente seria só pressão nos movimentos iniciais testaria a capacidade do Borussia Dortmund de se controlar.

E o teste mais importante se apresentaria nos primeiros minutos após o gol, quando se costuma verificar se um time absorveu ou não o impacto do golpe.

Nós vimos tudo no final do jogo. O Dortmund não reagiu bem ao gol de Benzema, aos 38 minutos do segundo tempo. Tanto que levou o segundo, de Sergio Ramos, cinco minutos depois.

Mas o futebol é tão difícil de prever que, quando tudo indicava para um colapso de gigantescas proporções, os alemães não capitularam ao ambiente, aos próprios medos, e à iminência de mais uma remontada do Real Madrid (2 x 0 no Borussia Dortmund, eliminado no placar agregado de 4 x 3).

Sim, havia tempo para o improvável 3 x 0. O árbitro Howard Webb deu 5 minutos de acréscimo e deixou o jogo seguir por um pouco mais do que isso.

Mas foi exatamente quando se viu à beira do abismo que o Dortmund teve frieza para consumir alguns valiosos segundos, ao invés de apenas se defender de uma amedrontadora blitz espanhola.

Foi o desfecho de um jogo que não parecia caminhar para momentos de tamanha tensão.

Até sofrer o primeiro gol, o Dortmund se comportava tão bem que dava a impressão de que venceria.

Os alemães pecaram por falta de agressividade no início, optando por proteger sua área em vez de sair para definir a noite com um gol fora de casa. Preferiu aguardar a tempestade passar, embaixo de um pequeno guarda chuva, a procurar um lugar seguro.

Quase foi levado pela enxurrada, nas chances claríssimas que Higuaín e Ozil perderam.

O risco pareceu válido à altura da metade do segundo tempo, quando o Madrid nitidamente cansou e o Bernabéu se resignou com o 0 x 0.

Lewandowski, livre, já tinha chutado uma bola no travessão, e Gundogan, mais livre e mais perto, obrigado Diego Lopez a fazer uma defesa monstruosa.

Foi quando o Madrid abandonou o bom senso que de nada lhe servia e criou o instante que mudou tudo.

O furioso cerco à área alemã sugeriu que havia o dobro de jogadores brancos em campo. 1 x 0, 2 x 0 e o Dortmund pedia para sentir o que fez com o Málaga.

Engano.

Quando a pressão subiu a níveis quase insuportáveis, o time de Jurgen Klopp mostrou lucidez.

A sensação de que faltou tempo ao Real Madrid disfarça, mas não esconde, a falta de futebol que proporcionou o resultado largo no jogo de ida.

A quimera da décima conquista europeia se desfez nas semifinais pelo terceiro ano seguido.

Todos os sinais indicam que foi a última temporada de José Mourinho no clube, concluindo um período em que as promessas superaram amplamente a realidade.

Ensimesmado em destronar um rival doméstico, o treinador mais bem pago do mundo não foi capaz de construir um time que se impusesse no torneio continental.

Não lhe faltou orçamento.

O Borussia Dortmund é um finalista genuíno, um time que é mais do que a soma de seus jogadores, a metade de uma decisão alemã que pode se completar nesta quarta-feira.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 30.abr.2013 às 8:38h

(publicada ontem, no Lance!)

MENTE QUE VENCE

Um dia alguém conseguirá explicar o que aconteceu com a psique do futebol alemão numa noite de maio de 1999, no Camp Nou. Foi quando o Manchester United conseguiu uma das mais improváveis vitórias já vistas num campo de futebol, ao virar a final da Liga dos Campeões contra o Bayern Munique. Os dois gols ingleses foram marcados nos acréscimos do segundo tempo, em lances que se iniciaram com escanteios cobrados por David Beckham do lado esquerdo. O nome do clube alemão, e fitas com suas cores, já decoravam o troféu quando o mundo acabou.

Desde então, dissipou-se a mentalidade vencedora que marcou o futebol da Alemanha durante tanto tempo. Não, não esquecemos do título europeu do mesmo Bayern em 2001, após disputa de pênaltis com o Valencia. Foi o único momento de júbilo do período, apequenado diante das frustrações vividas por clubes e pela seleção.

Vejamos. Em 2002, derrota para o Brasil na final da Copa do Mundo da Coréia e do Japão, um mês e meio depois que o Real Madrid venceu o Bayer Leverkusen na decisão da Liga dos Campeões. Na Copa de 2006, em casa, eliminação nas semifinais pela Itália, na prorrogação. Na Euro 2008, derrota na final para a Espanha.

Um clube alemão só voltaria ao jogo decisivo do futebol da Europa em 2010, quando o Bayern caiu ante a Internazionale. Pouco depois, no Mundial da África do Sul, nova decepção nas semifinais, cortesia dos espanhóis. A semifinal foi o fim do caminho também na Euro 2012, quando os gols de Mario Balotelli impulsionaram a Itália. Um mês antes, o Bayern tinha perdido a Liga dos Campeões para o Chelsea, na dolorosa decisão por pênaltis que deprimiu Munique.

Cerca de um ano mais tarde, dois times alemães estão a um passo de encerrar a longa e escura noite que ilude um país habituado a vencer no futebol. Se o Bayern e o Borussia Dortmund sobreviverem à passagem desta semana por estádios espanhóis, determinarão que a Alemanha comemorará a conquista da temporada europeia de clubes. São vários os resultados que produziriam tal panorama, já que ambos têm o luxo de perder fora de casa sem que isso os elimine. Um deles, o Bayern, pode até ser goleado.

A volta ao Camp Nou soa como obra do destino para o clube da Baviera. Foi lá que o duríssimo golpe foi sentido há 14 anos. Foi lá, também, que uma goleada por 4 x 0 imposta pelo Barcelona em 2009, nas quartas de final da Liga dos Campeões, marcou a correção dos caminhos da instituição dirigida por Karl-Heinz Rummenigge. A humilhação está na origem do trabalho que levou o Bayern às portas de mais uma final europeia.

Para o Borussia Dortmund, um clube de futebol no sentido mais puro da expressão, sair vivo do Santiago Bernabéu significa alcançar a decisão pela primeira vez desde 1997, quando venceu a Juventus em Munique e reinou no continente.

Para os que consideram que o gol é um detalhe: se o Barcelona fizer 4 x 0, o jogo irá para a prorrogação. Se o Real Madrid fizer 3 x 0, estará classificado. As tarefas dos espanhós e as chances dos alemães são proporcionalmente colossais.

O reencontro com a mentalidade vencedora nunca esteve tão próximo.

FAÇANHA

Preocupante, mesmo, em relação à Copa do Mundo de 2014, não é o atraso das obras nos estádios. Estarão prontos de um jeito ou de outro. Não é a situação dos aeroportos, onde o “imagina na Copa” ganha os contornos mais assustadores que podemos imaginar. Não é o inacreditável serviço das operadoras de telefonia celular, incapazes de cumprir um mísero percentual do que prometem. Não. O que dá medo é a tal caxirola. A Copa das Confederações nos mostrará que conseguimos piorar a vuvuzela. Não é pouca coisa.

BOLSO

Eu ia falar dos estadu… mas felizmente tem Copa Libertadores nesta semana. Todos os clubes brasileiros em campo, com destaque para mais um interessantíssimo clássico entre São Paulo e Atlético Mineiro. Nos outros confrontos, é hora dos orçamentos dos nossos clubes falarem mais alto. Não foi o que se viu, em muitos casos, até agora.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 28.abr.2013 às 11:10h

(publicada ontem, no Lance!)

LAJE

A frase de Scolari conseguiu revelar com precisão como estão os cronogramas de obras para a Copa do Mundo de 2014. Obras de engenharia civil e de futebol. “A Seleção está construída. Falta muito menos do que outras coisas aí que falta construir”, disse o técnico, na véspera do empate em 2 x 2 com o Chile, no novo Mineirão.

Felipão não se referiu ao time que enfrentou os chilenos, genérico distinto da equipe que jogará o Mundial, cujo desempenho no amistoso da última quarta-feira não deve ser levado em conta se o assunto for a preparação para a Copa. Esta começou atrasada, permanece atrasada, mas está, como afirmou seu condutor, quase concluída.

Como algo pode estar atrasado e praticamente terminado, ao mesmo tempo, é questão de expectativa. Para quem gostaria de ver uma Seleção com identidade própria e futebol virtuoso, a obra foi embargada por erros de planejamento e execução. Para quem se preocupa “apenas” em ganhar o torneio, o alvará está quase saindo.

Os cérebros que operam acima de Scolari não perdem um segundo pensando em futebol, de modo que transferir a responsabilidade para um treinador de conhecidas convicções competitivas é o mais fácil a fazer. Mesmo que isso signifique executar uma curva em “U”, esquecer o caminho percorrido desde que a Copa da África do Sul terminou e retornar o time a um tipo de futebol que só enxerga o resultado.

Alguém já disse que quando tudo o que se faz é apenas em nome do resultado final, nada sobra se você não o atinge. Essa é a aposta que a CBF fez e são seus ocupantes momentâneos quem deve ouvir as cobranças. Concordando ou não com a escolha de Scolari, ele foi chamado por, e para, trabalhar da forma que conhecemos. Volantes primordialmente preocupados com a primeira metade do campo, mais transição do que elaboração, satisfação garantida pela contagem mínima.

Não é suficiente para você? Olhe o calendário. A Copa do Mundo começa em pouco mais de um ano. O grande time que você deseja ver é um projeto inviável por falta de comando, de interesse, de conhecimento e, agora, finalmente, por falta de tempo.

A ironia embutida na solução de emergência é o que se desperdiçou para chegar a ela. Vimos recentemente um time que era um elogiável intérprete do chamado “futebol moderno”, aquele em que a ambição principal é minimizar riscos. Era a Seleção Brasileira de Dunga, derrotada pela Holanda em Port Elizabeth. Mano Menezes assumiu o posto para renovar, reciclar, recuperar conceitos. Foi destituído para dar lugar a um produto final que, muito provavelmente, será semelhante ao que Dunga criou. Mas pelas carências citadas há pouco, será inferior.

Há quatro times superiores ao Brasil de hoje. Espanha, Alemanha, Itália e Argentina, não necessariamente em tal ordem. É possível que as distâncias diminuam em um ano, é possível que se ampliem. No cenário otimista, a “família” se formará e se alimentará de inimigos imaginários, a arbitragem não atrapalhará, as arquibancadas empurrarão e, sabe como são esses jogos eliminatórios… cada escanteio é um perigo.

QUATRO

Robert Lewandowski é o nome do momento. Primeiro jogador a marcar quatro gols nas semifinais da Liga dos Campeões. Primeiro jogador a marcar quatro gols no Real Madrid em competições europeias. Uma pechincha de 4 milhões de euros que deixou o elenco mais caro da história do futebol a um milagre da eliminação. De tudo o que ele fez na quarta-feira em Dortmund, o terceiro gol foi o ponto mais alto. A puxada de futebol de salão, armando o chute de pé direito, foi o movimento que criou o espaço para a finalização forte e alta. Só o suficiente para evitar o carrinho de Pepe. Recurso raro em um 9 clássico, mais raro ainda em um jovem de 24 anos e 1m84.

CLUBE DE FUTEBOL

Ótimo ver o Borussia Dortmund em alta. Um clube dirigido por ex-jogadores, que é propriedade dos sócios e forma atletas por solução econômica e convicção futebolística.