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DNA SUPERIOR

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

É bem provável que você jamais tenha visto o senhor na foto acima.

Ele se chama Archie Manning, é pai de dois quarterbacks que você deve conhecer.

Enquanto o New York Giants celebrava o quarto troféu de Super Bowl no gramado (sintético, ao contrário do que disse um repórter brasileiro na transmissão do jogo… Ainda bem que ele corrigiu depois.) do estádio Lucas Oil, Manning esperava ao lado da porta do vestiário do time de seu filho caçula, Eli.

Estava acompanhado pela mulher, pela nora pelos netos, todos ostentando um sorriso do tamanho do estádio.

Eu me aproximei e perguntei se ele poderia falar um pouco. “Claro”, respondeu.

A entrevista foi uma mistura de felicidade (“Estou muito orgulhoso dos Giants e de Eli”), classe (“foi muito sofrido. Tom poderia ter vencido no final) e análise (“o ataque dos Giants foi eficiente no último quarto em toda a temporada”), cortesia de um ex-quarterback que tem o indescritível prazer de ver seus dois filhos atingirem o olimpo do esporte “oficial” da família.

Os jogadores do time nova-iorquino chegavam, vindos do campo, e todos – sem exceção – paravam para cumprimentar Archie Manning, e elogiar Eli.

O Manning caçula tinha acabado de conquistar seu segundo Super Bowl.

É muito improvável que alguém estivesse mais feliz do que Archie Manning no final da noite de domingo. Claro que sua mulher, Olivia, também estava exultante. Mas creio que o fato de Archie ter sido jogador amplifica seu sentimento de orgulho.

O jogo foi o encerramento perfeito para a semana de Eli Manning em Indianapolis. Por ser irmão de Peyton, ídolo do time da cidade, ele já carregava o favoritismo sentimental da torcida local. A rivalidade do Indianapolis Colts com o New England Patriots certamente influenciou o clima dentro do estádio, com uma maioria flagrante de pessoas torcendo para os Giants.

Como nos grandes jogos de futebol americano, tudo contribuiu para um último quarto eletrizante, que poderia ter feito o troféu rumar para o vestiário de New England até o último lançamento de Tom Brady para a endzone, quando os segundos expiravam.

O que vou lembrar de forma mais viva? O passe de 38 jardas de Manning para Mario Manningham, faltando 3’46″ para o final, quando os Patriots venciam por 17 a 15.

Fora a quantidade absurda de talento envolvida, foi a jogada que praticamente decidiu o Super Bowl XLVI (tão importante quanto o passe de Brady para Wes Welker, três jogadas antes, que, se fosse completo, significaria o quarto título dos Patriots).

Manning colocou a bola no único espaço em que Manningham conseguiria alcançá-la antes da dupla marcação que o acompanhava. Manningham, exibindo um magistral controle de movimentos em relação à sua posição no gramado (rente à linha lateral), agarrou apenas metade da bola, mas foi o suficiente para que ela não escapasse. E ele ainda manteve seus dois pés dentro do campo, antes de ser empurrado para fora.

O barulho que a torcida do Giants fez no momento da recepção foi incrível. E como o lance foi desafiado pelos Patriots, a comemoração se repetiu quando os árbitros confirmaram a jogada.

Lance que entrará para a História. Assim como o “touchdown relutante” de Ahmad Bradshaw, que não conseguiu parar sua corrida antes da linha e sentou na endzone, enquanto Manning gritava para que ele não marcasse os pontos, o que faria o cronômetro parar.

A ideia era gastar mais tempo, provavelmente chutar um field goal e minimizar as chances de uma campanha vitoriosa de Brady e seu ataque.

Os Giants sofreram até a última bola, mas ganharam.

Foi o terceiro Super Bowl conquistado por um herdeiro de Archie Manning.

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Perdão pela atividade limitada do blog durante os dias em Indianapolis. Eu certamente gostaria de ter sido mais frequente.

Ocorre que a forma como a ESPN cobre o Super Bowl cresceu muito nos últimos anos e isso significa, ainda bem, que há mais trabalho a fazer.

Tive alguns dos dias mais longos da minha carreira nesta semana. A quinta-feira, por exemplo, começou às 7 da manhã e só terminou às 3 horas do dia seguinte. Com apenas uma refeição propriamente dita no período.

Isso não é uma reclamação. Ao contrário, termos conseguido enviar e exibir três reportagens sobre o Super Bowl no SportsCenter da ESPN Brasil naquela noite é motivo de satisfação.

Mencionei o ritmo de trabalho apenas para ilustrar como foi a rotina nos últimos dias.

Aos que acompanharam a transmissão da ESPN, obrigado pela companhia.

No ano que vem será ainda mais legal.

FRIO, FÃS E FESTA

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O oficial do controle de passaportes em Miami disse “bom dia”. E ouviu: “e aí, feliz com os Giants?”

Ele me olhou por cima dos óculos, incrédulo. “Como você sabe?”, perguntou.

Simples. Três semanas atrás, em férias, entrei nos Estados Unidos com minha família por Miami. O oficial da fronteira achou que eu usaria meu visto de jornalista, viu que eu trabalhava na ESPN e iniciou uma conversa sobre futebol brasileiro, Copa do Mundo e os playoffs da NFL.

Os Giants jogariam contra o Green Bay Packers no dia seguinte, motivo de ansiedade do policial. Finalizado o processo da nossa entrada, ele nos desejou boas férias, nós lhe desejamos boa sorte, e a vida seguiu.

Nesta quarta-feira, 5 da manhã em Miami, eu estava de volta ao mesmo aeroporto e, surpresa, à mesma fila onde o oficial fazia seu turno. Dessa vez, a conversa foi apenas sobre o Super Bowl e as chances dos Giants no próximo domingo.

Mundo pequeno.

A foto acima é do hotel JW Marriot, em Indianapolis. Nele fica o centro de imprensa do Super Bowl XLVI. O capricho na organização caracteriza a forma como a cidade recebeu o evento.

Das 45 edições do Super Bowl, 15 foram realizadas no estado da Florida. Não dá para competir com o clima de lá, agradável até no inverno.

Fazer um Super Bowl no frio é o desafio que Indianapolis encarou com a ideia de se reposicionar aos olhos dos americanos.

Para isso, estudou a organização dos Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver, em 2010. O plano era convencer as pessoas que valeria a pena visitar a cidade e ver o jogo, mesmo sob o risco de temperaturas negativas.

Indianapolis tem os hotéis e o estádio. Quer mostrar que também há o que fazer nas ruas.

Estive aqui em 2002, cobrindo o Campeonato Mundial de Basquete. A cidade está absolutamente transformada.

Num calçadão no centro, os organizadores fizeram o “NFL Festival”. Um grande corredor com bares, restaurantes e dois palcos para apresentações musicais. Imagine como fica no fim da tarde, quando as pessoas começam a sair do trabalho.

Por cima delas, aventureiros despencam por seis cabos de aço de 500 metros em tirolesas.

O Super Bowl é o maior evento esportivo de um dia no mundo. Em Indianapolis, parece que durará bem mais do que isso, e com um presente do clima: numa época em que o termômetro fica abaixo do zero, os dias têm sido surpreendentemente amenos.

Nesta quinta, contato com os jogadores dos dois times. Todos têm de ficar uma hora respondendo perguntas.

Eles devem adorar.

SAUDAÇÕES DO PORTÃO 22 DE CUMBICA

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Embarcando logo mais para Indianapolis, via Miami, para a cobertura do Super Bowl XLVI.

Tenho a impressão de que minhas férias acabaram… mas não a diversão.

Será o terceiro Super Tazón (como dizem os mexicanos) que a ESPN transmitirá ao vivo e com equipe completa no estádio. Mesmo assim, ainda é difícil acreditar que acontecerá de novo.

Se você gosta da bola oval, confira a programação dos canais ESPN nos próximos dias para reportagens especiais e entradas ao vivo de Indianapolis.

Obviamente, o principal evento do esporte nos Estados Unidos será o assunto neste blog até o fim de semana.

O jogo acontece no domingo, às 21h30 (hora de Brasília), na ESPN e na ESPN HD. Teremos um “Abre o Jogo” ao vivo, a partir das 8 da noite.

New York Giants e New England Patriots jogarão pelo troféu Vince Lombardi, no Lucas Oil Stadium.

Everaldo Marques narrará, Paulo Antunes comentará, Madonna cantará no intervalo e eu tentarei não atrapalhar a transmissão.

Estarei por aqui em algum momento desta quarta-feira.

Até.

NFL: DONOS COMEMORAM

segunda-feira, 16 de maio de 2011

(Ok, para entender o problema, é só clicar em “nfl” nas categorias do lado direito da página e passear pelos posts. Está tudo lá.)

Faz tempo que não escrevo sobre o assunto. Desde o começo de abril.

Àquela altura, aguardava-se a decisão da juíza Susan Nelson sobre o locaute que impede qualquer relação entre donos e jogadores da NFL.

Em 25 de abril, a juíza Nelson decidiu a favor dos jogadores. Ordenou a suspensão do locaute enquanto a questão principal (sua legalidade, como explicado em posts anteriores) não fosse julgada.

O post de 6 de abril terminava dizendo que o lado “perdedor” da decisão apresentaria recurso. Foi o que a NFL fez, e com sucesso.

Quatro dias depois, período em que os jogadores tentaram voltar a utilizar as instalações dos clubes, um tribunal de apelações concedeu uma liminar à Liga, determinando que o locaute voltou a valer.

Essa liminar foi julgada hoje e, de novo, a NFL “venceu”.

A mesma corte decidiu por 2 votos a 1 manter o locaute em vigor até a audiência do dia 3 de junho, que julgará a legalidade do mesmo.

A vitória dos donos é importante por alguns aspectos:

1 –  Na medida em que o caso vai galgando as esferas da Justiça americana, fica mais complicado reverter as decisões.

2 – Os juízes que votarão em 3 de junho são os mesmos que votaram hoje. Obviamente, eles parecem tender para os argumentos da Liga (o caso é trabalhista, não deveria ser discutido na Justiça… a dissolução da Associação dos Jogadores foi apenas uma estratégia… etc, etc, e etc).

3 – Em caso de nova decisão a favor da NFL, os recursos podem protelar o caso em mais de 2 anos, cenário terrível para todos e um caminho que os jogadores não devem buscar.

Sendo assim, esperemos até o começo de junho.

Se há uma boa notícia é que as decisões sobre os recursos têm sido rápidas. A audiência está marcada para o dia 3/6, mas a decisão a respeito dela deve demorar algumas semanas. Seja qual for o veredicto, haverá tempo para os dois lados sentarem-se à mesa e discutirem um novo contrato coletivo de trabalho que permita a realização da(s) próxima(s) temporada(s).

Como explico no item 3 acima, o lado perdedor da decisão sobre a legalidade do locaute ficará numa encruzilhada: continuará a brigar na Justiça, essencialmente enterrando qualquer possibilidade da temporada se realizar. Ou aceitará o que o outro lado oferece como condições para uma nova relação trabalhista.

A julgar pelas notícias de hoje, o “favoritismo” está com a NFL.

ATUALIZAÇÃO, terça-feira, 10h24 – Para ajudar, pense da seguinte forma: dois caras que trabalhavam juntos tiveram um problema. Tentaram resolvê-lo na base da conversa e, por que ambos não estavam muito a fim de papo, não conseguiram.

Decidiram, então, brigar. Mas com regras.

Levaram a questão para um ringue de boxe, com árbitro e juízes contando pontos.

Os dois “lutadores” sabem que não têm capacidade de nocautear o adversário. Mas podem impressionar os juízes na troca de golpes e castigar o oponente de tal forma que ele desistirá da luta.

E aceitará voltar ao estágio da conversa, em posição de inferioridade nos pontos de discordância mais sensível.

A vitória “por pontos” ao final do combate também é possível, mas demorará tanto que impedirá ambos de trabalhar por um longo tempo.

Neste momento, os donos de clubes acabaram de encaixar um golpe e lideram na contagem dos juízes.

Os jogadores estão no córner, ponderando o que fazer.

NFL NO TRIBUNAL

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Antes de mais nada, para entender melhor o impasse trabalhista que ameaça a próxima temporada, clique em “nfl” nas categorias do lado direito da página.

Os últimos 4 ou 5 posts são todos sobre o assunto.

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Aconteceu nesta quarta feira, em Minneapolis, uma audiência judicial que é crítica para os próximos episódios da disputa entre donos e jogadores da NFL.

Diante da juíza Susan Nelson, os dois lados apresentaram seus argumentos.

Os jogadores querem o fim imediato do locaute imposto por seus empregadores. Alegam que a NFL é um monopólio que conspira para impor regras que os prejudicam, e que o risco de não haver temporada em 2011 é um dano irreparável para suas carreiras.

Os donos querem que a juíza Nelson não faça nada. Sustentam que essa é uma questão essencialmente trabalhista, esfera na qual reclamam que a dissolução da Associação dos Jogadores é uma estratégia para produzir ações judiciais contra a Liga.

Após ouvir os dois lados, a juíza pediu duas semanas para decidir. Também pediu que, enquanto isso, as partes voltem para a mesa de negociações.

É muito difícil prever como ela julgará o caso. Mas espera-se que decida a favor dos jogadores.

Em sua carreira como advogada, a juíza Nelson representou reclamantes em ações de classe (como a que os jogadores propuseram) contra grandes corporações. Pode-se dizer que sua experiência pende para o lado dos atletas, e que ela considera a dissolução da Associação um movimento legítimo.

Ao mesmo tempo, é pouco provável que o órgão trabalhista (equivalente ao nosso TST), apesar de ter autoridade para tal, interfira no processo ao dar ganho de causa para os donos na questão da dissolução. O órgão também deve se posicionar com os jogadores.

Se a juíza Nelson partir do princípio de que a NFL é um monopólio (e é. Os donos dificilmente conseguirão convencer alguém do contrário), determinará o fim do locaute. Ela sabe que essa decisão praticamente garantirá que haverá jogos de futebol americano profissional em 2011.

O problema é que, seja qual for o veredicto, o lado perdedor apresentará recurso. O que protelará o caso por mais ou menos dois meses.

Próximo dia D: daqui a duas semanas.

 

BOLETIM DA NFL

sábado, 26 de março de 2011

E aqui estamos para mais uma atualização do duelo entre donos e jogadores da NFL.

Neste post, explicamos como tanto o locaute imposto pelos donos como a dissolução da Associação dos Jogadores foram questionados nas esfera judicial (ambos) e trabalhista (apenas a dissolução).

A data de 6 de abril continua como o um momento chave na questão. A decisão sobre a legitimidade do locaute dará ao “vencedor” maior poder de barganha.

Ocorre, como também explicamos no post mencionado, que a Liga foi ao órgão equivalente ao nosso Tribunal Superior do Trabalho e argumentou que a dissolução da Associação foi apenas uma tática para permitir as ações judiciais movidas pelos atletas.

Isso leva a dois problemas: 1) para complicar, a decisão trabalhista não tem data para sair. E 2) se o órgão trabalhista julgar que a reclamação da NFL procede, e a Justiça determinar a suspensão do locaute, a questão passará a ser quem tem autoridade sobre quem.

A Liga e a Associação fizeram seus encontros anuais na semana passada e mandaram mensagens ameaçadoras para “o inimigo”.

Enquanto as reclamações não são julgadas, cada lado quer apenas mostrar que é duro na queda.

Entre os jogadores, já há gente se virando para o caso de não poder jogar futebol americano em 2011. Tem atleta participando de eventos de artes marciais misturadas. E tem o popular Chad Ochocinco tentando uma vaga num time da MLS.

Quem viu o teste do wide receiver do Cincinnati Bengals passou a torcer mais para um acordo entre donos e jogadores. Ochocinco não tem a menor intimidade com a bola redonda.

O aspecto mais cruel do impasse se verifica na vida dos funcionários dos times sobre os quais ninguém ouve falar. Assistentes, roupeiros, responsáveis pela manutenção dos gramados, etc.

Times como Arizona Cardinals, San Diego Chargers, Kansas City Chiefs, New York Jets, Baltimore Ravens e Pittsburgh Steelers já começaram a cortar salários. Em alguns casos, funcionários receberam ordem para não comentar o assunto publicamente, sob pena de serem dispensados.

Não se questiona o direito dos donos de times da NFL de buscar um novo acordo de trabalho em que embolsem maior parte do lucro. Eles só deveriam assumir o risco, em vez de repassá-lo a quem não tem nada a ver com a questão.

Mas não nos esqueçamos de que essa é uma briga por dinheiro. Nada mais.

 

 

NFL: SITUAÇÃO DE MOMENTO

domingo, 20 de março de 2011

Na semana passada, Roger Goodell enviou uma carta a todos os jogadores (e alguns agentes) da NFL.

Nela, o comissário da Liga detalhou a última proposta que os donos de times fizeram à Associação dos Jogadores, minutos antes das negociações em Washington falharem e a próxima temporada se transformar numa longa e complicada batalha judicial.

A carta começa, textualmente, com as palavras “Querido jogador da NFL”, mas foi recebida pelos atletas como uma ferramenta estratégica maquiavélica.

“Dividir para conquistar” é uma tática quase tão antiga quanto o ser humano. É evidente que os jogadores serão mais afetados do que os donos dos clubes, no aspecto financeiro. Nessa briga de bilionários contra multimilionários, os atletas estão do lado “mais fraco”.

Plantar a semente da discordância entre 1900 jogadores de situações financeiras e opiniões diferentes, pode dar resultado.

Aparentemente, pelo menos por enquanto, não deu.

Dias depois, um grupo de jogadores liderados por Jeff Saturday, center do Indianapolis Colts, e Mike Vrabel, linebacker do Kansas City Chiefs, deu uma entrevista coletiva e deixou claro que os atletas permanecem unidos e em consenso quanto à posição da Associação.

Mais: Vrabel declarou que o comitê de negociação que os representa não quer mais se reunir com Goodell ou Jeff Pash, o executivo número 2 da NFL. Os jogadores querem falar com os donos mais diretamente envolvidos nas negociações.

Em questão de horas, a Liga divulgou um comunicado oficial dizendo que aceita a proposta de Vrabel, desde que os jogadores queiram voltar para a mesa.

A resposta formal à carta de Goodell foi enviada ontem. Começa com “Querido Roger”, mas bate forte no comissário.

Logo no segundo parágrafo, está escrito o seguinte, em negrito: “… nós estávamos presentes às negociações, e conhecemos a verdade sobre o que aconteceu…”.

O texto ainda afirma que os donos não conseguiram explicar por que pretendem modificar a divisão dos lucros, e que a última proposta é, de fato, pior do que a penúltima.

Os jogadores concluem: “suas afirmações são falsas.”.

Ainda que os movimentos mais importantes aconteçam nas esferas trabalhista e judicial, está claro que donos e jogadores têm interesse em se posicionar aos olhos da opinião pública.

Era absolutamente lógico que as cartas chegariam à imprensa.

O fato, desanimador, é que os dois lados não se comunicam diretamente.

A próxima data importante continua a ser 6 de abril, quando haverá uma audiência para determinar a validade do locaute.

Quem sair vencedor (o resultado será conhecido alguns dias depois) determinará os passos seguintes na direção da realização da temporada de 2011.

NFL: PLANO DE COMBATE (atualizado)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Prepare-se para o jogo de processos, ameaças e provocações que receberá, aqui, o nome de “futebol americano judicial “.

A Associação dos Jogadores da NFL (que não é mais um sindicato, mas uma junta comercial que trata dos interesses de jogadores e ex-jogadores de futebol americano) pediu hoje que os melhores atletas em nível universitário boicotem a próxima edição do draft.

O evento acontecerá no mês que vem em Nova Iorque. Dezessete dos melhores jogadores universitários, que receberam ou receberão convites da NFL, foram orientados a não comparecer.

A iniciativa da Associação é mais um movimento na briga entre jogadores e donos de times da Liga. Mas o combate real se dará nos tribunais.

Nas próximas semanas, os donos tentarão convencer a Justiça americana que a dissolução da Associação dos Jogadores é uma fraude. Por sua parte, os jogadores tentarão interromper o locaute.

A primeira data que deve ser anotada no calendário é 6 de abril, quando acontecerá uma audiência para que se determine a legalidade do locaute.

O complicador é que, em algum momento antes disso, o órgão equivalente ao nosso Tribunal Superior do Trabalho julgará se a dissolução da Associação é legítima.

Por que isso é importante? Porque se a decisão for a favor da NFL, ou seja, se a Associação for mantida, os jogadores não poderão prosseguir com as ações judiciais contra a Liga. Eles só podem acionar se não tiverem representação coletiva.

Se a audiência de abril acabar com o locaute, a Liga será obrigada a destrancar os portões e determinar as regras das relações com os atletas. Tudo indica que as normas do último contrato coletivo de trabalho (com as quais os jogadores estão de acordo) seriam reativadas.

Enquanto isso, a burocracia processual continua. Dez jogadores foram à Justiça contra a NFL, argumentando, a grosso modo, que ela os impede de trabalhar.

O processo, como é praxe nos Estados Unidos, tem nome: Brady x NFL. Por que, entre os dez reclamantes, o nome de Tom Bundchen Brady foi escolhido. Ora, você imagina por quê. Pela repercussão.

Se as ações forem adiante, o resultado será o conjunto de normas que formará o novo contrato coletivo de trabalho entre a NFL e os jogadores. Tom Brady ficará na História como o jogador que emprestou seu nome ao episódio.

O caso, por enquanto, não está nas mãos do juiz David Doty, o melhor amigo dos jogadores da NFL. Mas acredita-se que por sua experiência, e por deferência de outros juízes a essa experiência, tudo vai acabar na corte de Doty – o último lugar onde um dono de time da NFL quer pôr os pés.

Em meio a todos os movimentos nas diferentes esferas da discussão, os jogadores continuarão dizendo que os donos sempre estiveram dispostos a trancá-los para fora. Os donos continuarão dizendo que a Associação dos Jogadores sempre planejou se dissolver.

Golpes verbais de diferentes potências serão desferidos, de lado a lado, pela imprensa.

As finanças dos clubes serão seriamente afetadas. Os jogadores não serão pagos. O salário de Roger Goodell, comissário da NFL (que ganha cerca de US$ 10 milhões anuais) foi reduzido simbolicamente a US$ 1,00. Os vencimentos de DeMaurice Smith, diretor-executivo da Associação dos Jogadores (cerca de US$ 3,5 milhões/ano) foram transformados em US$ 0,68.

Os advogados de ambas as partes ganharão muito, muito mais.

ATUALIZAÇÃO, terça-feira 15/3, 16h16 – Nesta terça, a Associação  dos Jogadores da NFL negou que tenha orientado atletas a boicotar a cerimônia do Draft. 

Mas confirmou que organizará um evento paralelo, que será transmitido ao vivo por um canal de televisão concorrente do NFL Network. 

TRANCADOS PARA FORA

sábado, 12 de março de 2011

Algumas considerações sobre o fim das negociações trabalhistas na NFL:

O cenário que vemos hoje, com os jogadores impedidos de frequentar as instalações de trabalho, e acionando a Liga na Justiça, estava previsto pelos donos dos clubes há alguns anos.

De acordo com testemunhas e documentos de ações judiciais envolvendo os contratos de televisão, o locaute faz parte das conversas entre os donos desde 2007.

Os clubes não ficaram totalmente satisfeitos com o último contrato coletivo de trabalho, assinado em 2006. Entendem que o investimento em elenco, estrutura e novos estádios os faz merecedores de uma fatia maior do lucro produzido pela Liga.

O contrato dava aos proprietários o direito de pedir uma renegociação dos termos em 2008, o que eles fizeram ao avisar os jogadores que pretendiam encerrar o atual compromisso e discutir um novo ao fim da temporada de 2010.

Para se preparar financeiramente para o possível cancelamento dos jogos, a Liga utilizou a extraordinária popularidade de seu produto e exigiu que as 5 emissoras de televisão que transmitem o campeonato concordassem em pagar os direitos mesmo se a temporada 2011 não acontecesse.

A Associação dos Jogadores questionou essa medida na Justiça, por acreditar que se tratava de um seguro para o locaute. E venceu.

Mas a NFL teve outra ideia, ousada: um processo judicial que poderia lhe garantir imunidade contra as ações que certamente viriam em caso de locaute. A Liga pediu à Suprema Corte dos Estados Unidos que revisasse um caso que ela tinha vencido contra uma fábrica de bonés.

O plano era obter uma decisão mais ampla, de forma a determinar que a NFL, em termos mercadológicos, não é uma liga de clubes, mas sim uma única empresa. A grosso modo, seria um reconhecimento da Justiça americana que a NFL é um monopólio (justamente o argumento dos jogadores nas atuais ações).

A decisão da Suprema Corte foi unânime: 9 a zero contra o pedido da Liga.

Não se deve criticar o desejo dos donos dos clubes de abocanhar uma fatia maior do lucro. O que se questiona é como. A NFL é a liga esportiva mais bem sucedida da História da humanidade. Seu produto só cresce em popularidade, audiência e dólares a cada ano.

Poderia-se discutir um novo acordo de trabalho em que o percentual do lucro direcionado para os clubes aumentasse gradualmente nos próximos anos. Com mais dinheiro entrando nas operações da Liga, o bolo ficaria maior e não haveria perdas reais em dólares.

É péssimo para os dois lados (sem contar os funcionários dos clubes que não ganham milhões) que a temporada, ou parte dela, esteja arriscada. Mas o episódio é fascinante.

A forma como os jogadores se unem em torno de sua representação coletiva é exemplar. E o fato de, em nome dessa representação, grandes astros da NFL estejam, neste momento, processando seus próprios empregadores é algo surreal para fãs de esporte em outros países.

Continuaremos acompanhando.

DIA D (MAIS UM) NA NFL

sexta-feira, 11 de março de 2011

Uma tentativa de esclarecer o que está acontecendo na NFL, que chega a um ponto crítico em suas discussões trabalhistas nesta sexta-feira.

O contrato coletivo de trabalho entre a Liga e a Associação dos Jogadores termina hoje, às 17 horas em Washington (19h no Brasil). O que acontecer, ou não acontecer, terá impacto na realização das próximas temporadas.

A questão principal (que surpresa!) é dinheiro. Do lucro anual de US$ 9 bilhões, a Liga quer repassar menos aos jogadores. A proposta dos donos é de 43%, a Associação quer meio a meio.

Em dólares, o que separa os dois lados da mesa é algo em torno de 600 milhões.

Os jogadores querem acesso detalhado aos números financeiros dos clubes. Alegam que precisam dessas informações para entender por que os donos querem mais dinheiro. A Liga não concorda com tal transparência.

A possibilidade de estender a temporada em 2 jogos, o que aumentaria a receita e reduziria o problema financeiro, está fora de questão para os jogadores. Mas pode voltar à mesa, como acontece em qualquer negociação.

A Associação dos Jogadores obteve uma importante vitória na semana passada, na Justiça, quando um juiz determinou que a NFL não poderá usar US$ 4 bilhões provenientes do contrato com as emissoras da televisão, se a próxima temporada não acontecer.

Os jogadores enxergaram a tentativa dos clubes de garantir esse dinheiro como uma prova de que a Liga queria um “seguro” contra o impasse trabalhista. Ou seja, estava se preparando para a possibilidade de não haver temporada, sem se preocupar com os atletas.

Os possíveis cenários:

1) Novo acordo de trabalho - paz e garantia da realização das próximas temporadas.

2) Mais tempo – aconteceu na semana passada, quando a conversa se aproximou do primeiro deadline. As partes decidiram estender a janela de negociações por 7 dias. Pode acontecer de novo, mas é menos provável do que há uma semana.

3) Locaute – com o fim das relações entre a Liga e os atletas, os donos dos clubes “trancam” (origem do termo “lockout”) as instalações de treinamento e os estádios. Os jogadores ficam impedidos de trabalhar. Significa muito provavelmente o cancelamento da temporada de 2011.

Esta última possibilidade merece um adendo: a Associação dos Jogadores tem uma carta na manga – a própria dissolução. Se deixar de existir, os jogadores passam a não ter representação coletiva e ficam livres para entrar na Justiça contra a NFL.

As ações acusariam a Liga de monopólio. O argumento seria o de que a NFL, que é a única possibilidade de emprego para os jogadores, não permite que eles sigam suas carreiras.

Essa estratégia jurídica já funcionou uma vez e é vista como certeza de sucesso pelos jogadores. Já está definido que grandes astros (Tom Bundchen, Peyton Manning e Drew Brees, por exemplo) seriam os primeiros atletas a ir à Justiça.

Se quiser se dissolver, a Associação dos Jogadores tem de fazê-lo antes do atual contrato coletivo de trabalho expirar. Dessa forma, garante que a questão será discutida na corte do juiz David Doty – o mesmo que decidiu a favor dos jogadores no caso do dinheiro da TV.

Doty é considerado pró-atletas, o que aumenta a confiança da Associação na possível (provável, eu diria) batalha jurídica.

Repetindo: o deadline é 17 horas de Washington (19h de Brasília), mas o diretor-executivo da Associação dos Jogadores soltou um twitter ontem à noite, alertando os atletas para que “ficassem fortes” e esperassem uma comunicação duas horas antes do prazo final.

A aproximação da chamada “hora H” pode mudar cabeças e aliviar posições, mas os dois lados parecem muito distantes de um acordo.

ATUALIZAÇÃO, 19h19 – A Associação dos Jogadores da NFL não aceitou a última proposta dos donos e entrou com o pedido de dissolução em Minneapolis. Batalha jurídica é o próximo passo. A temporada de 2011 está sob altíssimo risco.