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VIAGEM AO FUNDO DA QUADRA

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Uma nota rápida que, por falta de tempo, não consegui publicar ontem:

Tive uma conversa interessante com (a primeira e única) Ana Moser, pouco depois da majestosa vitória da seleção brasileira feminina de vôlei sobre a Rússia.

Ana é comentarista dos canais Espn.

Voltar a momentos de um jogo, ouvindo as impressões de quem passou a vida dentro da quadra, é uma experiência fascinante e educativa.

Por mais que vejamos, que prestemos atenção em variados fatores, nunca observaremos as mesmas coisas. O cérebro de quem joga/jogou funciona de outro jeito.

O relato de Ana Moser sobre os sete match-points da partida de ontem (seis contra e apenas um, o decisivo, a favor do Brasil) é incrivelmente detalhado.

Enquanto Sheila chamava a atenção na quadra ao virar cinco pontos sem margem de erro, Ana percebia o técnico José Roberto Guimarães literalmente guiando o time na lateral.

Ela também entendeu o que aconteceu a partir do primeiro match-point russo (14-13) como o momento em que Sheila, Thaisa e Fabiana assumiram a responsabilidade de não permitir mais uma derrota para a Rússia.

Não por acaso, quase todos os pontos brasileiros foram marcados por elas (cinco com Sheila, um com Thaisa, um com Fabiana e um ace de Fernanda Garay).

O que Sheila fez foi assombroso. Cinco ataques que evitaram que o jogo acabasse, desempenho perfeito sob máxima pressão. Coragem, confiança e maturidade.

E não foi por acaso. Logo depois do erro de Fabiana que gerou o 13-14, Zé Roberto pediu tempo. Após algumas orientações, é possível ouvir Sheila gritando com as companheiras: “É nosso! É nosso!”

Era a primeira chance das russas para fechar o jogo. Sheila estava determinada a impedir outra edição de um pesadelo da seleção feminina contra o time que derrotou o Brasil nas Olimpíadas de Atenas e em duas finais de Mundiais.

Aquela derrota devastadora em 2004, finalmente, foi colocada para descansar.

Curioso como o esporte sempre oferece a oportunidade de um acerto de contas, sejam elas antigas ou recentes.

Fabiana, envolvida nos erros que levaram o Brasil de 13-10 a 13-14, foi quem fez o ponto final.

Espetáculo.

Obrigado, Ana.

MAGNANO, O PROFESSOR

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Até que alguém confesse (o que obviamente não acontecerá), não se pode afirmar que a seleção espanhola de basquete perdeu de propósito para o Brasil ontem.

O que se pode fazer é afirmar que o último quarto do jogo foi estranho, do ponto de vista do nível de atuação dos vice-campeões olímpicos. Placar parcial de 31-16 para o Brasil no período, escandalosos 17-3 nos últimos 6 minutos.

Mais do que isso, a Espanha foi errática, apática, confusa e desatenta. Comportamento que não se notou em nenhum outro jogo deste torneio olímpico. Durante o quarto final, não se percebeu no jogo espanhol o sentido de urgência que é evidente quando uma equipe quer vencer.

Ao contrário, o Brasil jogou com a seriedade que se espera de todos os times. Ainda mais de uma seleção que ficou tanto tempo sem disputar os Jogos Olímpicos.

Ruben Magnano tinha um bônus para ordenar uma atuação cafajeste, pensando na derrota: o Brasil evitaria os Estados Unidos antes de uma possível final, e ele evitaria um encontro com seu país nas quartas de final.

Magnano mandou jogar e vencer, mais um exemplo das virtudes do treinador que orquestrou o renascimento da seleção brasileira masculina.

O basquete brasileiro recuperou sua auto-estima no Pré-Olímpico de Mar Del Plata, sua importância na estreia em Londres, e sua dignidade ao vencer a Espanha (antes que apareça algum troll dizendo “mas quando o Brasil entregou no vôlei você não criticou…, a crítica está aqui). Magano merece o crédito.

A Espanha optou por um caminho perigoso.

O grande risco de permitir que se suspeite de uma entrega é ver o tiro acertar o pé.

Imagine o estímulo que a seleção francesa ganhou nas últimas horas, ao ficar com a sensação de que foi o adversário “escolhido” pelos espanhóis.

E se a Espanha não passar pelas quartas, que imagem ficará de sua participação em Londres?

A classificação do Brasil em segundo lugar no grupo marcou um encontro com a Argentina. Jogo entre times de nível semelhante (os argentinos ganham em experiência, diga-se), repleto de rivalidade. Confronto equilibrado, ganhável.

A seleção brasileira, se fizer o jogo que tem de ser feito, pode vencer qualquer adversário nestes Jogos. Até os Estados Unidos.

Lembremos que os americanos mostraram alguma vulnerabilidade no jogo contra a Lituânia, vencido nos últimos minutos por uma extraordinária explosão ofensiva de LeBron James.

Mas os problemas apareceram tanto na defesa quanto no ataque. As bolas de 3 pontos (que caíram com impressionante facilidade na vitória sobre a Argentina) teimaram em errar o alvo, o que aumentou a dificuldade de jogar contra a defesa por zona dos lituanos. E os EUA não conseguiram defender sua cesta, principalmente quando o faltoso Tyson Chandler teve de ficar no banco. A Lituânia pegou mais rebotes.

O Brasil, com seus 3 jogadores altos da NBA, é uma das equipes que podem equilibrar um jogo eliminatório contra os Estados Unidos.

Mas antes é preciso vencer a Argentina. Se conseguir, um lugar entre os quatro melhores estará garantido. Resultado que seria estupendo, mesmo que não produza uma medalha.

Ser quarto lugar, com honra, é muito melhor do que ser vice-campeão com vergonha.

O MELHOR ENTRE OS MELHORES

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Michael Phelps tem mais medalhas de ouro olímpicas (15) do que 170 países reconhecidos pelo COI.

E só 5 países (Estados Unidos, Austrália, Hungria, Japão e Holanda) ganharam mais ouros na natação do que Phelps.

Números tão chocantes que banalizam o que é ser campeão olímpico, o ápice da carreira de um nadador.

Fomos testemunhas dessa banalização nos últimos dias. Phelps demorou quatro sessões na piscina londrina para, enfim, conquistar sua primeira medalha de ouro nos Jogos de 2012.

De sábado até ontem, quando fechou em primeiro lugar o revezamento 4 x 200m livre, ele ficou fora do pódio nos 400m medley, e foi prata no 4 x 100m livre e nos 200m borboleta. Na última, a “derrota” para o sulafricano Chad Le Clos foi o tipo de resultado capaz de devastar um atleta.

Se nos 400m medley Phelps foi amplamente superado por nadadores mais bem preparados, nos 200m borboleta ele venceu, mas não ganhou.

Liderou a prova até, e inclusive, a última braçada. Uma fotografia do derradeiro metro da piscina o mostra claramente à frente de Le Clos. Mas um erro técnico na chegada, em que esticou os braços e “esperou” o toque no bloco, o transformou em segundo colocado.

Por 5 centésimos de segundo.

Deve ter sido difícil acreditar no placar eletrônico. Por mais de 12 anos, nas competições mais importantes, o nome ao lado do número 1 nos 200m borboleta sempre foi o mesmo: Phelps, Michael.

Na raia ao lado, Le Clos não acreditava no que havia feito. Vitória por uma fração de tempo que seres humanos não conseguem calcular.

Um sentimento que Phelps conhece. Há quatro anos, no Cubo de Água de Pequim, ele roubou a vitória nos 100m borboleta do sérvio Milorad Cavic, de forma semelhante.

A diferença é que Phelps ganhou por 1 inacreditável centésimo, mantendo vivo seu plano de conquistar 8 medalhas de ouro.

Oito em Pequim, seis em Atenas… e nenhuma em Londres, até aquele momento. A medalha que igualou o recorde de Larisa Latynina foi uma prata, algo que Phelps nos fez entender como um desempenho não suficiente.

Algo que o próprio Phelps demorou alguns minutos para entender. Foi quando apareceu o imenso campeão que é. Após cumprimentar Le Clos (que decidiu ser nadador ao ver Phelps vencer em Atenas), ele caiu na piscina de aquecimento para digerir o fato de ter sido vencido. Durante e depois da cerimônia de premiação, deu uma exibição de classe que significa tanto quanto seus triunfos.

Sorriu no pódio, mostrou a prata com orgulho contido, não fez nada que pudesse desviar a atenção do sulafricano que ali saboreava um momento sublime. E conduziu Le Clos no desfile dos vencedores, caminho que nenhum outro nadador percorreu tantas vezes.

Meia hora depois, Phelps estava de volta, ao lado de três companheiros, para a prova que o consagrou como o maior atleta olímpico de todos os tempos. Ele fecharia o revezamento 4 x 200m livre, perseguindo a décima-nona medalha.

Pediu aos que nadariam antes dele que lhe entregassem uma larga vantagem. Quando caiu na água, os EUA lideravam a prova por cerca de 3 segundos. Uma piscina, duas, três, e Phelps manteve a posição. Nos 25 metros finais, conforme declarou em entrevista, ele se permitiu um momento raro: sorriu em meio ao esforço da mais exigente das competições. E desfrutou das últimas, históricas, braçadas.

O esporte é tão maravilhosamente cruel que nos proporciona contradições. A idade que já chegou, os interesses que o distanciam da piscina, a preparação que ficou longe da ideal fazem com que Phelps possivelmente não seja o melhor nadador destes Jogos.

Mas estes são os Jogos que o coroaram como o maior nadador que já existiu.

E seu feito, por mais assustador que já seja, pode estar incompleto. Há mais a buscar em Londres.

O voraz conquistador de medalhas ainda não está satisfeito.

O BASQUETE EM LONDRES

terça-feira, 24 de julho de 2012

O torneio olímpico masculino de basquete tem potencial para ser épico em Londres.

E o Brasil, dezesseis anos depois de Atlanta, pode estar envolvido nos melhores momentos.

A Seleção Brasileira tem um técnico digno do Hall da Fama, um armador talentoso, experiência e tamanho para fazer estragos. Se jogar seu melhor, e tiver um pouquinho de sorte, brigará por uma medalha.

A polêmica sem sentido sobre a convocação ou não dos jogadores que optaram por não atuar pela seleção no passado está, felizmente, enterrada. A atuação do Brasil no amistoso recente contra os Estados Unidos comprovou que Ruben Magnano acertou ao chamar os melhores.

O que vemos hoje é uma seleção que tem um plano. Talvez lhe falte material humano para uma rotação que possa sustentar o nível de jogo dos titulares, mas não há o que fazer quanto a isso.

Após a longa ausência em Olimpíadas, Londres pode proporcionar o ressurgimento da seleção brasileira masculina.

Mas este post não é sobre o Brasil. É sobre o time que certamente estará no centro do debate a respeito do torneio, seja qual for o resultado: os Estados Unidos.

Melhor time do mundo e favorito ao ouro, sem dúvida. Mas estamos diante de um quadro em que o resto do planeta deve se conformar em luta pela prata?

De forma nenhuma.

Os americanos chegarão às Olimpíadas com um problema de tamanho que já era considerável na convocação original, e que ficou evidente após as lesões de Dwight Howard, Chris Bosh e Blake Griffin.

A questão do tamanho gera um dilema tático que pode ser decisivo em Londres, quando os Estados Unidos encontrarem adversários mais capazes.

Há alguns dias, o técnico Mike Krzyzewski declarou que seu time terá sete “titulares” nas Olimpíadas: Tyson Chandler, Carmelo Anthony ou Kevin Durant, Lebron James, Kobe Bryant e Chris Paul ou Deron Williams.

Com qualquer quinteto que Krzyzewski escolher, até mesmo envolvendo jogadores não citados acima, a seleção americana deve passar pela fase de grupos atropelando a maioria dos seus oponentes.

Entre todos os times de elite, os EUA talvez sejam o que tem o menor número de movimentos ofensivos. O jogo de defesa extremamente agressiva e transição é seu DNA. Expediente que funcionará sem defeitos durante a classificação.

Mas quando os jogos eliminatórios chegarem, times mais fortes devem apresentar maiores dificuldades. Se essas equipes conseguirem diminuir o ritmo do jogo e conter os americanos na defesa, terão chance de explorar algumas vulnerabilidades no chamado jogo de meia quadra.

Nesta situação, há certamente duas seleções (Espanha e Argentina), talvez mais (Rússia? Brasil?), que têm ataques competentes o suficiente para derrotar os Estados Unidos.

Tudo dependerá do desempenho dos jogadores grandes. Se serão capazes de aproveitar a diferença de tamanho em relação a seus marcadores americanos.

O encontro desta terça entre Espanha e EUA (os americanos venceram por 100 a 78) poderia ter mostrado algo, se os espanhóis não tivessem claramente escondido o que pretendem. Marc Gasol não jogou, e Pau Gasol e Serge Ibaka ficaram juntos em quadra por muito menos tempo do que veremos daqui a alguns dias.

O amistoso também mostrou que LeBron James é capaz de defender oponentes maiores do que ele (PGasol, no caso) com extrema eficiência, o que reforça seu status de peça fundamental no time. Mas, à exceção de James, quem mais pode fazer isso?

Aí é que está.

O jogo em Barcelona foi “resolvido” por um jogador que, em tese, pode. Carmelo Anthony, que parece ter perdido o lugar para Kevin Durant, saiu do banco para ser o cestinha da noite (27).

Anthony é um dos jogadores que representam a maior dor de cabeça para os adversários da seleção americana. Ele, James e Kevin Love podem atuar como pivôs e são excelentes arremessadores de longa distância. Marcá-los longe da cesta é um drama para pivôs internacionais.

Krzyzewski adoraria ter certeza de que seu time chutará sempre tão bem quanto o fez em Barcelona, mas evidentemente sabe que essa é uma aposta que não pode ser feita.

O que nos leva de volta ao dilema tático mencionado no início.

Contra times grandes, em tamanho, e no jogo de meia quadra, os EUA terão de “aumentar” sua presença na quadra. Para isso, Kevin Love/Andre Iguodala devem se juntar a Chandler na rotação dos pivôs. E quem sai?

Sei que parece loucura, mas vamos por eliminação: James? Esqueça. A combinação que ele oferece, ainda mais para um time que precisa inchar, é crucial.

Durant? Seria suicídio. Ele é o melhor e mais confiável pontuador do time, virtualmente imarcável.

Paul/Willams? Alguém precisa levar a bola…

Sim, amigos, quem sobra é ninguém menos do que Kobe Bryant. Ele poderia sair do banco, junto com Anthony, para limitadas porém importantes missões ofensivas nos jogos que realmente interessam.

É pouco provável que Krzyzewski faça esse movimento. Afinal, trata-se de deixar KOBE BRYANT no banco. Mas muitos jogadores em situações semelhantes já tomaram a iniciativa e facilitaram o trabalho de seus técnicos ao se oferecer para um papel, digamos, menos glamuroso.

Foi o que Dwyane Wade fez em Pequim 2008. Kobe estava lá.