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COLUNA DOMINICAL

domingo, 13 de maio de 2012

(publicada ontem, no Lance!)

JOGOS VIRTUAIS

O futebol do ar rarefeito desceu a montanha e levou 14 x 0. Um passeio desagradável pelos países baixos da América. Este foi o placar agregado das derrotas do Bolívar e do Deportivo Quito, os dois times das alturas que disputaram seus últimos jogos nesta edição da Copa Libertadores.

Os bolivianos, após a vitória por 2 x 1 e a exibição de maus modos nos 3.650m de altitude de La Paz, foram repreendidos pelo Santos, na Vila. A demolição de 8 x 0 foi a resposta mais adequada – na bola e sem piedade – que o melhor time brasileiro poderia oferecer. O Bolívar entrou para a lista dos times humilhados não apenas por falta de capacidade, mas por falta de educação. Não fosse o tratamento dispensado ao Santos no estádio Hernando Siles, talvez Neymar e Ganso tivessem parado em respeitáveis 4 x 0.

A desgraça dos equatorianos foi menor em números, mas igualmente chocante. Venceram a Universidade de Chile em casa, 2.800m acima do nível do mar, por 4 x 1. Detalhe: fizeram dois gols quando jogavam com um homem a menos. Em Santiago, tomaram o tenístico placar de 6 x 0.

São times bipolares? Não. Não há discrepâncias em seus comportamentos dentro e fora de casa. O que explica, aí sim, a enorme diferença de desempenho relacionada ao local do jogo é o comportamento do adversário. A altitude e seus efeitos são os jogadores mais perigosos das equipes que atuam nas nuvens.

Sim, a amostra é pequena. Mas uma olhada sem compromisso nos números de Bolívar e Deportivo Quito já mostra sinais de um padrão interessante. Contando os jogos de oitavas de final, a equipe boliviana ganhou 9 pontos em seu estádio: 3 vitórias e 1 derrota, com 8 gols a favor e 5 contra. Em viagem, somou 4 pontos: 1 vitória, 1 empate e 2 derrotas, 3 gols marcados e 11 sofridos.

O contraste dos resultados do time equatoriano é ainda maior. Venceu todos os quatro jogos em casa, em que marcou 14 gols e só sofreu 1. Fora, não ganhou nenhuma partida: 1 empate e 3 derrotas, com 1 gol a favor e 10 contra. Alterado pelas condições do ar que se respira, e sem a devida adaptação das equipes visitantes, o futebol na altitude é feito de jogos que não são reais.

A questão é médica e, mais do que tudo, política. Toca no direito de cada clube (ou país, no caso das Eliminatórias da Copa do Mundo) de mandar jogos em sua casa, e em estudos científicos que apresentam resultados distintos quanto ao risco de submeter atletas não aclimatados a altitudes extremas. O contra-argumento do calor – ainda que não exista cenário em que a mudança de ambiente seja comparável – é lembrado para equilibrar a conversa.

Mas o ponto, aqui, não é a saúde dos jogadores. É o sentido da competição. É a validade de partidas em que as dificuldades não são iguais para os dois participantes, por causa de fatores externos. É a mágica que produz resultados tão semelhantes quanto 2 x 1 e 0 x 8, em dois jogos entre os mesmos adversários.

Obrigar os times das nuvens a mandar jogos em altitudes mais razoáveis não resolverá o problema nas competições entre clubes. O argumento usado será o do direito de ser mandante, mas o real motivo é o medo de ser goleado “em casa”.

COLUNA DOMINICAL

domingo, 6 de maio de 2012

(publicada ontem, no Lance!)

COMO UMA VIRGEM

Era maio de 2009, estávamos no auge do “Madonnagate”. Marco Polo Del Nero cumpria suspensão de 90 dias, imposta pelo STJD, por seu envolvimento no obscuro episódio que impediu que o árbitro Wagner Tardelli apitasse o jogo entre Goiás e São Paulo, na última rodada do Campeonato Brasileiro do ano anterior.

À época, Del Nero não ousava sonhar que o dirigente mais poderoso do país fugiria para os Estados Unidos, deixando vaga a cadeira que hoje ele ocupa, por intermédio de outra pessoa. O presidente da FPF era apenas mais um político do futebol, dedicado a projetos pessoais de poder e a pactos de ocasião. Um deles, é claro, o alinhava a Ricardo Teixeira, e o transformava em inimigo do São Paulo.

Você conhece a história. A “material girl” se apresentaria no Morumbi, em dezembro de 2008. Os ingressos enviados pelo São Paulo para a sede da Federação Paulista, uma praxe, foram confundidos (sabe Deus como) com um envelope que continha uma reclamação formal do clube contra um árbitro. Informado por sua secretária sobre “o envelope”, Del Nero viu por bem procurar o Ministério Público, às vésperas da rodada final do BR-08. E deu-se o caos.

Del Nero estava em apuros. Enquanto seu recurso da suspensão não era apreciado pelo Pleno do STJD, o cartola tentava digerir o risco de se tornar o primeiro dirigente importante – de futebol – brasileiro a ser impedido de ocupar seu cargo por conduta imprópria. Nas salas da sede da FPF, e em ambientes menos formais, entre amigos, Del Nero confessava: “Fiz uma grande cagada. Preciso consertá-la”.

A Justiça Desportiva consertou, reformando a decisão da Terceira Comissão Disciplinar e inocentando Del Nero. Decisão que solucionou metade do problema. A outra metade é também uma reforma, mas das relações com o Morumbi. O que nos leva às finais deste Campeonato Paulista.

Antes, é preciso dizer que uma decisão de campeonato sem jogos nas casas dos finalistas é o fim apropriado para este torneio. Um regulamento revolucionário, que cria uma fase de classificação em que os participantes se enfrentam em condições distintas de dificuldade, e jogos eliminatórios em que a única vantagem é justamente o mando de campo. Tudo para se chegar à final, em ida e volta.

Se a FPF quisesse produzir um evento, uma finalíssima, não haveria problema em escolher um estádio neutro. Seria uma espécie de Super Bowl do pernil, provavelmente com uma atração musical brega à milésima potência antes do jogo, com o objetivo de vender ao país o que não seria verdade em relação a qualquer campeonato estadual: que o Paulistão é legal. Mas pelo menos faria sentido.

Ocorre que este campeonato é um descalabro do ponto de vista esportivo. E há muito perdeu o apelo que fez com que os clubes, um dia, lhe dessem mais importância (Gobbi, por favor…) do que à Copa Libertadores. Santos e Guarani jogarem duas vezes no Morumbi – ou em qualquer lugar que não se chame Vila Belmiro ou Brinco de Ouro – é ridículo.

Mas há uma coincidência aí, só pode ser. Foi no Morumbi que Madonna cantou, não foi?

COLUNA DOMINICAL

domingo, 29 de abril de 2012

(publicada ontem, no Lance!)

VIDA E OBRA

Se Pep Guardiola não ganhar mais nenhum jogo em sua carreira, não importará.

Claro, importará para ele, que terá de sobreviver com as dúvidas existenciais e a respeito da própria capacidade. Que se perguntará se o Guardiola do Barcelona e o dos outros clubes é o mesmo treinador. Que, no fim, lembrará de seu período no Camp Nou com a mesma sensação que temos quando acordamos no meio da noite impressionados com um sonho bom, mas irrecuperável.

Importará para os pragmáticos, os conservadores, os medrosos. Sejam quem forem e estejam onde estiverem. Para os ressentidos, os humilhados, os deprimidos. Que se rendem à antipatia sem sentido, ou ao preconceito mal informado. Para os míopes, os insensíveis, os alienados. Que enxergam, mas não veem.

Importará para seus futuros empregadores, que comprarão sem receber. Para seus futuros jogadores, que estudarão sem aprender. Para seus futuros torcedores, que sofrerão sem vencer. E para seus futuros detratores, que falarão sem saber.

Importará para seus colegas, os bons e os nem tanto. Os bons lamentarão a ausência de um virtuoso, que fez da profissão de técnico de futebol um ambiente em que a criatividade, a ousadia e a fidelidade ainda encontram espaço. Um professor que não se vê merecedor de tal honra, que entende o jogo como entende a vida, caminhos que não valem a pena sem valores. Os bons, os bons de verdade, perderão alguém com quem se comparar, alguém para imitar, alguém para superar.

Os nem tanto se deliciarão com o alívio. A mediocridade os salvará. O fim de cores inalcançáveis aumentará o valor conferido ao cinza nosso de cada dia. Será o triunfo da insipidez, a consagração da nota 6. Melhor ainda, será o argumento que faltava para se deslumbrarem com o que definitivamente não são. Pois eles serão os primeiros a distanciar Guardiola deste Barça, como se um time assim pudesse existir sem um técnico. Baterão no peito e dirão “com aquele timaço, até eu”. Só não terão coragem para fazê-lo em público.

Importará aos infelizes para quem os espetáculos devem se restringir aos teatros e casas de óperas. Que pensam que o resultado final é o que nos define, e não a forma como o buscamos. Que ignoram que respeito se conquista com postura. Que são incapazes de receber as vitórias com classe, as derrotas com gentileza, as oportunidades com gratidão.

Importará para os que não gostam da bola, não são obcecados pelo passe, não acreditam que uma equipe deve se mover pelo gramado como se fosse uma única composição. Importará para os viciados em linhas de quatro, de oito, de onze. Importará para os que não entendem que filosofia de jogo não é uma receita para vencer, mas uma forma de se expressar. Importará para os egocêntricos e os egoístas. Os presunçosos e os pretensiosos. Os perdidos e os iludidos.

Mas para quem percebeu o que ele ajudou a construir nas últimas quatro temporadas, se Pep Guardiola não ganhar mais nenhum jogo, não importará. Em mais cem anos, provavelmente não haverá nada parecido.

COLUNA DOMINICAL

domingo, 22 de abril de 2012

(publicada ontem, no Lance!)

VANTAGENS?

É improvável que o torcedor do Fluminense assuma, mas a melhor campanha na fase de grupos da Copa Libertadores veio com um brinde de loja de mágicas. Uma daquelas caixinhas que assustam quem abre com o salto de um réptil. O cruzamento colocou o Internacional e, provavelmente, o Boca Juniors, no caminho tricolor nas próximas semanas.

É fato que, diferentemente de outros clubes brasileiros, o Fluminense não cultiva experiências traumáticas relacionadas à camisa do Boca. Passou pelos argentinos nas semifinais da edição de 2008 (sim, perdeu para a LDU na decisão), e venceu na Bombonera no mês passado (sim, perdeu no Engenhão há dez dias). É fato, também, que um encontro com os xeneizes não está garantido. Depende do que o Boca fizer contra o Unión Española. E do que o Fluminense fizer contra o Internacional.

Aí é que está. A “vantagem” de jogar contra o pior segundo colocado (em bom português, a pior campanha entre todos os classificados) se materializou num confronto doméstico, que tende a equilibrar as diferenças entre um time que fez quinze pontos e um que fez oito. Porque poucas coisas podem ser mais cretinas – talvez a fase de classificação do Campeonato Paulista esteja à altura – do que comparar campanhas de equipes que não enfrentaram os mesmos adversários.

A prova da cretinice: tomemos como exemplo o Boca, que fez treze pontos e saldo de seis gols no mesmo grupo do Fluminense, classificando-se em segundo lugar. A campanha faria do time argentino o líder de cinco dos oito grupos da Libertadores. Já o Inter, que foi o segundo colocado no grupo do Santos, não se classificaria em nenhuma outra chave. Ao estabelecer os confrontos das oitavas de final com base no ranking de campanhas, a Conmebol arranca as pernas de uma formiga, diz para ela andar e conclui que formiga sem pernas não ouve.

Outro inconveniente do método é possibilitar a escolha de adversários pelos times que jogam por último. Neste ano, equipes que atuaram na noite de quinta-feira sabiam o que precisavam fazer para direcionar seus próximos encontros. Há como afirmar que foi o que aconteceu com a Universidad de Chile e o Nacional de Medellín, que chegaram à última rodada já classificados? Não. Mas também não há nenhum motivo para correr o risco.

Resta ao time que ficou no “primeiro lugar geral” saber que decidirá todos os confrontos em sua casa, até a decisão. E lidar com o fato de que o último clube que conquistou a Libertadores tendo feito a melhor campanha na fase de grupos foi o River Plate, no distante ano de 1996 (bom time que tinha Crespo, Gallardo e Sorín).

Mas esse bônus é mais valorizado no Brasil. Clubes argentinos, que comemoraram a Copa em estádios brasileiros três vezes nos últimos dez anos, não se importam com a ordem dos jogos. O Vélez Sarsfield, por exemplo, poderia ter sido o líder geral desta edição e simplesmente descartou a última rodada, ao jogar – e perder – em casa, com time misto, contra o Defensor.

Um sorteio dirigido, como se faz na Liga dos Campeões da Uefa, seria muito melhor. Fica a dica.

COLUNA DOMINICAL

domingo, 15 de abril de 2012

(publicada ontem, no Lance!)

SANTO TIME

Ele já tinha ouvido as histórias, visto os lances, lido os livros. Conteúdo que satisfez sua curiosidade, mas só aumentou a saudade do que ele não conhecia. Como é possível ter existido um time de futebol tão bom, mas tão bom, que os torcedores de outros clubes pagavam ingresso para vê-lo? Bem, seu pai pagou, várias vezes. E os pais de todos os seus amigos também.

Ele sabia seus nomes, um por um. Gilmar, Lima, Mauro, Calvet, Dalmo, Mengálvio, Zito, Dorval, Coutinho, Pelé, Pepe. Sabia o que eles tinham feito. As goleadas inacreditáveis, as coleções de títulos, as honras recebidas em excursões pelo mundo. As imagens disponíveis fermentaram a imaginação. Era um time que entrava em campo, ensinava futebol ao adversário, pegava o troféu e chamava o próximo. A impressão que se tinha era a de aquele time de branco não parava de jogar. Os adversários formavam fila e agradeciam quando eram contemplados com derrotas dignas.

Ele até os conhecia pessoalmente, graças ao trabalho como jornalista. Já tinha feito entrevistas com Zito, Pepe e Pelé. Vê-los pela primeira vez teve o impacto que se imagina. Impossível enganar o cérebro, ignorar de quem se trata e fingir que ali está um entrevistado como qualquer outro. Foram sempre gentis, cordiais, carinhosos até. O “problema” é que a pessoa não é o mito. Quando se está diante de monstros do futebol da década de 60, o contato é com alguém que já não parece aquele sujeito que fez maravilhas quando jogava. É como se as respostas saíssem da boca de um porta-voz.

Em 2003, chegou o momento de conhecê-los de verdade. Era o dia da inauguração do Memorial das Conquistas do Santos. Ele chegou algumas horas antes, queria conhecer o lugar com calma. Talvez tenha sido apenas um acaso, mas quem crê em destino certamente dirá que não. O rapaz caminhava pela infinidade de taças (a quantidade é inacreditável), imagens, flâmulas e peças de uniformes. Conduzido pela admiração, observava o ambiente sem prestar atenção para onde ia. Até que se deparou com a foto.

É preciso vê-la de perto para compreender. É um painel, em tamanho real, daquele fantástico time posado, antes de um jogo. Gilmar e Mauro Ramos estão em pé, um do lado do outro, de braços cruzados. Pelé e Pepe, agachados, parecem sorrir. Eles estavam prestes a fazer mais uma vítima. A imagem é simples, comum. Um time de futebol posando para os fotógrafos, como todos os times fazem. Mas também é imponente e, num aspecto, ameaçadora. É tanta glória que aqueles homens não parecem humanos. É fácil se sentir pequeno diante deles, o que revela muito a respeito da posição dos adversários.

Havia quatro troféus (hoje há cinco, mais uma Libertadores) expostos na frente dos jogadores. Duas Copas Libertadores e duas Intercontinentais. Elas compunham uma cena quase sagrada. O mundo aos pés dos gênios. Para quem consegue enxergar, é de uma beleza emocionante. Ele nunca mais esqueceu.

Parabéns ao Santos e aos santistas.

COLUNA DOMINICAL

domingo, 8 de abril de 2012

(publicada ontem, no Lance!)

EVOLUÇÃO DA ESPÉCIE

É boa a ideia de Muricy Ramalho, revelada ontem a este Lance!, de abolir a concentração no Santos. De fato, mesmo que a mudança demore a acontecer, a simples intenção de tratar jogadores de futebol como adultos responsáveis já é ótimo sinal.

Muricy, sabemos todos, não começou ontem. Se sua experiência como jogador e técnico detectou tal possibilidade no time que ele dirige, é porque alguma coisa diferente (mais uma…) está acontecendo ali. E se o time mais talentoso do Brasil também for responsável por reformar a relação entre um clube e seus jogadores, teremos mais motivos para aplaudir.

Quando alguém fala em acabar com a concentração no futebol, dois exemplos surgem. Um é o período conhecido como “Democracia Corinthiana”, no início dos anos 80 do século passado. Mas reduzi-lo a apenas uma experiência em que os jogadores não eram obrigados a dormir num hotel nas vésperas de jogos é um erro histórico, uma vez que os componentes daquele grupo especialíssimo tinham voz ativa em uma série de outros aspectos da rotina de um time. A “Democracia Corinthiana” foi um evento único e assim deve ser tratado.

O outro exemplo está ainda mais distante de nós. É o Barcelona, que, em suas partidas em casa, solicita que os jogadores se apresentem algumas horas antes do apito inicial. Na véspera, todos dormem nas próprias camas. A liberdade não deve ser confundida com falta de comando ou regras cujo cumprimento não se discute. Durante a semana, os jogadores do clube catalão têm de estar em casa até meia-noite, horário em que podem receber um telefonema da comissão técnica. Não atendê-lo sem oferecer uma explicação convincente é garantia de encrenca.

O Barcelona também controla as atividades comerciais de seus atletas. O técnico Pep Guardiola tem a última palavra sobre compromissos (dia, hora e local de gravações, por exemplo) com patrocinadores pessoais. É um regime de disciplina que supervisiona a conduta dos jogadores dentro e fora do clube, mas não os obriga a dormir longe de suas casas. Um sistema muito mais fácil de aplicar a atletas produzidos internamente, que, quando chegam ao time principal, já estão habituados ao funcionamento e aos princípios do lugar onde trabalham (mais uma faceta da importância de se formar jogadores para mantê-los, não vendê-los). Num ambiente assim, a concentração não é necessária.

Talvez esse seja o caminho. Abolir o confinamento de jogadores – mesmo que seja só por uma noite – porque se construiu uma forma de trabalhar em que o método não faz sentido. Parece ser o cenário a que Muricy se referiu, quando mencionou a juventude e o caráter dos atuais jogadores do Santos.

Grupos que encontram o equilíbrio entre liberdade e responsabilidade tendem a ser mais unidos, o que os torna mais fortes. Um vestiário que se policia e se governa cria outro tipo de relação com seus objetivos. É bom saber que algo assim pode acontecer no futebol brasileiro.

COLUNA DOMINICAL

domingo, 1 de abril de 2012

(publicada ontem, no Lance!)

SEGUE O BARCO

“Eles têm de jogar agora. A bola está no campo deles.”

Por “eles”, entenda “nós”. Ou, mais precisamente, as pessoas encarregadas da organização da Copa do Mundo de 2014. A frase é de Joseph Blatter, presidente da Fifa, em entrevista coletiva após a reunião do comitê executivo da entidade. Dessa vez não houve “chute no traseiro” ou expressões que pudessem causar polêmicas. Talvez porque Blatter não permitiu que Jérôme Valcke respondesse a pergunta de Jamil Chade, colega de O Estado de S. Paulo, sobre como ficaram as relações entre a Fifa e o governo brasileiro depois do defeito na tecla SAP do secretário geral.

Mas teve a tradicional cutucada no baço, em tom professoral e com alguma dose de irritação. “Estamos esperando agora por algumas ações, não apenas conversa”, disse Blatter, finalizando sua resposta. A parte mais difícil é concluir que, no lugar dele, qualquer pessoa diria exatamente a mesma coisa.

A conferência de imprensa de Blatter e Valcke está disponível, na íntegra, no site da Fifa. No total, são 46 minutos de material. Mas o presidente fez uma singela abertura de quase 20 minutos, falando da importância da reforma na governança (não se interesse pelo tema, pois nada mudou) do órgão. A entrevista propriamente dita foi uma clínica na arte de evitar qualquer relação entre perguntas e respostas.

O que não significa que nada de útil tenha emergido da sede da Fifa, em Zurique, na manhã de ontem. Em resposta a Rodrigo Mattos, da Folha de S. Paulo, Jérôme Valcke pintou o quadro surrealista que é a organização da Copa de 2014, neste momento. O jornalista brasileiro quis ouvi-lo sobre os atrasos relativos aos estádios, aeroportos e hotéis. “Se não houver quartos suficientes em uma cidade, teremos de garantir que a mídia e os torcedores poderão voar para um jogo e depois voar de volta para o lugar onde estavam”, disse Valcke. “Temos de encontrar uma solução, pois sabemos que será difícil construir ou mudar as coisas até a Copa das Confederações e, depois, até a Copa do Mundo”, completou.

A Fifa quer trabalhar com cada cidade sede, e já percebeu que o cenário é dramático. Não há apenas atrasos nos cronogramas. Há dúvidas quanto à conclusão de determinados projetos, o que pode afetar o calendário de jogos do Mundial, divulgado em outubro do ano passado. Ou então começaremos a organizar acampamentos perto dos estádios. O “façam-mais-e-falem-menos” foi a óbvia reação de Blatter, que recebeu as más notícias durante o encontro do comitê executivo.

Francamente, nada disso é novidade. Também é difícil acreditar que a Fifa esteja surpresa. No processo de adaptação da Copa ao Terceiro Mundo, Blatter e Valcke fizeram uma etapa de aclimatação na África do Sul, em 2010, onde fenômenos semelhantes aconteceram na organização e na realização do Mundial. Da Alemanha direto para o Brasil, o susto seria muito grande.

Na semana da votação da Lei Geral e de mais um pito, o autor da melhor frase foi o megacartola argentino, Don Julio Grondona: “A Copa é da Fifa. Ela apenas ocorre no Brasil”.

COLUNA DOMINICAL

domingo, 25 de março de 2012

(publicada ontem, no Lance!)

SÓ DERROTA

A história de Léo Rocha é uma trágica comédia de erros. Nela, não há uma única decisão correta. Um compêndio sobre o equívoco, o mau julgamento, o mau comportamento e a ignorância. Em todos os níveis, do começo ao fim.

O começo, obviamente, é a forma como o jogador do Treze resolveu cobrar o pênalti que poderia empatar a decisão com o Botafogo em 3 x 3. O destino da fatídica cavadinha foi aquele com que todo goleiro sonha. Em vez de observar a bola entrar lenta e dolorosamente, Jefferson poderia tê-la matado no peito, se quisesse.

Parêntese, opinião pessoal: cavadinha é o estelionato do pênalti. É falsa demonstração de capacidade, que beira a má fé. A intenção que há por trás desse tipo de cobrança não é nobre. Seja quem for, do imortal Zidane ao desempregado Léo Rocha. Procure quantas cavadinhas existem nos currículos de Zico, de Sócrates. Ou de Evair, mestre da marca penal.

O componente de provocação é claro. O cavador busca algo mais do que fazer o gol, o que acirra os ânimos e produz certas confusões de conceitos que infestam o futebol dentro e fora do campo. Ponto central do segundo erro desta saga: a atitude de Jefferson.

É curioso como se fala em “respeito” hoje em dia, aparentemente sem saber do que se trata. Porque respeito deve valer para todos, em todas as situações. Ninguém, independentemente dos digitos do salário, da camisa que veste ou dos troféus na estante, pode ter licença para desrespeitar. Portanto, se a cavadinha de Léo Rocha no Engenhão é falta de respeito com o Botafogo, Loco Abreu desrespeitou todos os times contra quem bateu pênaltis assim. E não consta que Jefferson – ou os outros botafoguenses que “trollaram” o meia do Treze – tenha tido uma interação semelhante com o companheiro uruguaio. Bom saber que o goleiro acusou o próprio exagero.

Jefferson tem a seu favor o argumento do sangue quente, da difícil arte de manter a compostura em momentos de pressão. Já os dirigentes do Treze, não. E foram eles os autores das piores decisões neste episódio. De acordo com os relatos, Gil Baiano interpelou, empurrou e quase agrediu Léo Rocha na entrada do vestiário. Baiano é gerente de futebol do Treze. Gerente. Imagine se gerenciar não fosse sua obrigação.

O descontrole se deu não pela desclassificação nos pênaltis, mas pela “falta de responsabilidade” (expressão usada pelo técnico Marcelo Vilar) de Rocha. Engano. Se a bola entrasse, ninguém questionaria o senso de responsabilidade do jogador. A análise não pode se basear no resultado, mas na ação. Se o Treze, como clube, entende que cavadinha é irresponsabilidade, que tome a mesma atitude com seus jogadores que a tentam com sucesso. Que todos tenham o mesmo fim de Léo Rocha: a rua. Fazer dele um vilão escolhido por perder um pênalti é jogar para a torcida.

Mas o presidente do Treze, Fábio Azevedo, tem a oportunidade de corrigir o final da história. Dar um sopro de bom senso nesta tragicômica sequência de bobagens. Pois se Léo Rocha não serve porque tentou uma cavadinha, foi mal demitido. Se não serve por outros motivos, foi mal contratado.

COLUNA DOMINICAL

domingo, 18 de março de 2012

(publicada ontem, no Lance!)

O RATO ROEU… (epílogo)

O mordomo não podia acreditar. Seu rei havia abandonado o trono, para não mais voltar. As informações vindas de Raton foram a gota d’água para o leal servo. O relacionamento com os dois senhores a quem ele devia obediência não era agradável. Sim, eram dois. Um lhe atormentava com voraz apetite para sorvetes. O outro lhe causava arrepios pela lembrança de um incendiário imperador romano. A esperança de voltar a servir à Sua Majestade era o que lhe mantinha são. Com a notícia da renúncia, o mordomo decidiu fugir. Ele tinha de ver o rei.

Chegou a Raton com o dia amanhecendo. O rei já estava acordado, mas ainda na cama, num estado de torpor causado pelos remédios para dormir. A voz do mordomo o alertou.

- Meu rei…

- Infeliz… é você?

- Sim, Majestade. Como tem passado? Não posso crer que o senhor não voltará…

- Não voltarei, está decidido. O que você está fazendo aqui?

- Desculpe, senhor. Preciso ouvir de sua boca que seu reinado acabou.

- Acabou. Você não viu as notícias, não soube da carta que deixei?

- Claro, senhor. Mas me surpreendi. Talvez tenha dado muita importância aos relatos de que o senhor jamais renunciaria. Pensei que essa história seria como a do cavaleiro mascarado, aquele que jamais é pego…

- Sabemos que você nunca foi muito esperto, não é? Declarações de pessoas interessadas em minha permanência, repercutidas por vassalos de pouca capacidade cerebral, assim como você. Minha decisão foi tomada há tempos.

- Lamento minha avaliação equivocada, Majestade. O que houve com seu rosto?

- Meu rosto?

- Vossa Majestade tem olheiras profundas. E há quantos dias não faz a barba?

- Nada disso importa, agora. Não preciso me preocupar com aparências. E não tenho tido muito ânimo para sair deste quarto. Como estão as coisas por lá?

- Difíceis, senhor. Se me permite falar abertamente, o novo rei não passa a impressão de saber o que faz. Apenas repete que dará continuidade ao trabalho de Vossa Majestade. Sinto que existe uma suspeita de que ele é manipulado por outro nobre regional.

- Qual? Deixei ordens expressas quanto ao meu substituto.

- O mercador veneziano… o imperador de Roma… o senhor pode escolher.

- Ah, sim. Você não precisa saber dos detalhes, mas essa era exatamente a minha vontade. Não posso permitir que alguém com ideias mirabolantes ocupe meu trono. Tudo deve continuar como está.

- Entendo. Dizem lá que há vários nobres descontentes com a situação, Majestade. Fala-se em disputa pelo poder, talvez até com o envolvimento do baixo clero que cuida dos jogos que divertem o povo.

- Que piada… só eles para me fazer rir numa hora dessas. Esses aí não conseguem nem ficar juntos numa sala por dez minutos. Se depender deles, o castelo pega fogo.

- Não diga isso, Majestade. É capaz de aquele senhor gostar da ideia… Ah, já ia me esquecendo: seus amigos fizeram com que o povo soubesse que seu reinado foi um tempo de trabalho e prosperidade.

- Com isso eu nunca precisei me preocupar. Agora me dê licença…

- O que vai fazer, senhor?

- Vou ao trono, infeliz. É o que mais gosto de fazer hoje em dia.

COLUNA DOMINICAL

domingo, 11 de março de 2012

(publicada ontem, no Lance!)

O RATO ROEU… 3

O rei está cansado. A idade e os tombos do passado cobram seu preço em forma de cefaleias que analgésicos não tratam. Certos movimentos, na vida cotidiana e no exercício do poder, se tornaram impossíveis. Levantar da cama é um suplício causado pelas dores nas costas e pela obrigação de encarar mais um dia. O mordomo é chamado todas as manhãs.

- Onde está você, infeliz!?

- Aqui, Majestade, deixe-me ajudá-lo. O tempo está bom hoje…

- Estou c… para o tempo. Preciso me vestir e sair daqui o quanto antes.

- É por isso que a carruagem real está lá fora, senhor?

- O que você acha? É claro que sim. Vou ao encontro de minha família. Partirei em minutos.

- De novo? Pensei que Vossa Majestade tinha resolvido todos problemas na última assembleia com os nobres regionais…

- Aqueles pulhas… Você sabe muito bem o que eles queriam. Chegaram com o peito cheio, mas mudaram o tom quando ofereci mais algumas poucas moedas. Eles não resistem ao barulho do metal. Estão todos quietinhos agora.

- Brilhante estratégia, senhor. Aqui estão suas meias…

- Mas o que fiz foi apenas deixar claro a eles quem manda. Eu vou colocar aqui quem eu quiser e eles terão de aceitar. Meus planos de me ausentar não mudaram. Viajarei a Raton e não sei quando volto.

- Permita-me perguntar… Por que agora, Majestade?

- É o melhor momento. Tem esse rolo do francês com o ministro… Vou deixar a coisa pegar fogo. Quero ver esses políticos resolverem o problema. Não quiseram me receber, agora que se virem. Me passe o paletó…

- Eu o felicito pela decisão, senhor. Dessa forma, Vossa Majestade descansa e observa o desenrolar das coisas. Mas que deselegante foi a declaração do secretário francês…

- Você acha que alguém diz uma coisa dessas sem saber exatamente o que acontecerá? Por favor, criatura, pense um pouquinho. Esse francês é meio atrapalhado, mas sabe o que está fazendo. Eu o conheço bem. Quero ver onde isso aí vai dar… Onde estão meus sapatos?

- Vou buscá-los no armário. O senhor realmente não sabe quando volta?

- Não, ainda não pensei nisso. Tem muita coisa acontecendo. Preciso monitorar aquela situação na Suíça, cuidar da saúde. Agora querem investigar até os magistrados que jogam umas peladas no nosso campo de futebol! Não dá, vou sumir por uns tempos.

- Enquanto o senhor estiver fora, quem vai cuidar daquele evento que organizaremos daqui a dois anos?

- Convidei aqueles meninos para aparecer na televisão e nos jornais. Eles dão entrevistas, aparecem bastante, o povo gosta. Mas quem manda sou eu. Ninguém dá um passo sem eu mandar.

- E quem ficará no seu lugar por aqui, Majestade? A quem devo servir durante sua ausência? Não me diga que é aquele…

- De quem você está falando? Diga logo.

- Desculpe, senhor. Mas falo daquele que pegou a medalha.

- Exatamente. É ele. A escolha foi minha. E já determinei uma reforma na nossa sala de troféus. Ele está animado com as novas atribuições. E não esqueça: seu novo chefe gosta muito de sorvetes. Mande comprar.

- Não vou esquecer, Majestade. Boa viagem.