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Arquivo de julho de 2011

COLUNA DOMINICAL

domingo, 31 de julho de 2011

(publicada ontem, no Lance!)

UMA NOITE EM SANTOS

Por uma noite, a Vila Belmiro se transformou num ponto de encontro. Gerações desafiaram as regras do tempo e do espaço e se reuniram no mesmo gramado, na mesma hora, por pura diversão.

Por uma noite, um jogo que prometia muito entregou ainda mais. Uma misteriosa conspiração a favor do futebol. Uma maravilhosa exceção em nossas quartas nem sempre nobres.

Quem era mesmo aquele jogador vestido de branco? Aquele que aplicou um drible de videogame num espaço de poucos centímetros na lateral do campo? Dois marcadores em cima, e ele simplesmente sumiu. A jogada se desenhou em alta velocidade, com uma tabela precisa. Na entrada da área, outro drible desconcertante, uma finta de futsal que era para ser uma caneta. Virou um drible da vaca por causa da inércia do adversário. Aí veio o toque final, sem chance para o goleiro, assinando a obra que viajou o mundo inteiro.

Deu para ver quem era? Parecia mais magro e mais alto. O cabelo era muito diferente. E o detalhe intrigante é que ele vestia a 11 do Santos, não a 10. Estranho. Talvez os olhos embaçados pela beleza do lance tenham perdido a capacidade de identificá-lo. Mas quem mais poderia fazer aquilo? Tem certeza de que não era Ele? Dizem que até ganhará uma placa…

E quem era o rubro-negro que fez o time acreditar que a desvantagem de 3 x 0 não significava nada? O primeiro gol dele foi comum. Mas o segundo… Você viu a finta no zagueiro? Balançou o corpo, fez uma letra, deixou o cara no chão. Um outro veio e fez a falta, pertinho da área. A barreira pulou, esperando a cobrança por cima. Como numa jogada de sinuca, a bola passou por baixo, rasteirinha. Entrou no canto, morreu na rede. O goleiro só olhou.

Uma coisa deu para perceber. Ele vestia a 10 do Flamengo, tocava na bola com classe, comandava o time com autoridade e ainda fez o gol da vitória, com muita categoria. Mas tinha uma cabeleira comprida demais para ser o Galo. Definitivamente não era ele.

Bom… Se não era, então só pode ser uma pessoa. O sorriso aberto durante a comemoração do gol de falta foi a lembrança. Não o víamos há tanto tempo que, sabe como é, achávamos que não o veríamos mais. Mas o que ele fez na Vila foi um sopro de cinco, seis anos atrás. Tempo em que algo diferente, interessante, acontecia sempre que ele tocava na bola. Tempo em que marcá-lo era inútil. A esperança era, apenas, contê-lo. Um artista. Jogava de azul-grená e fazia todo mundo sorrir, lembra? Até a torcida adversária aplaudia.

Por uma noite, um time abriu 3 x 0 porque jogava muito, não porque o outro jogava mal. E o time que perdia tratou de reagir e vencer, em vez de se fechar para não perder de mais.

Por uma noite, o jogo acabou e começou de novo. E quando acabou, até quem ganhou queria que continuasse.

Por uma noite, tudo o que o futebol brasileiro tem de ruim estava de folga. E tudo o que tem de bom apareceu na Vila. Um encontro que durará enquanto conseguirmos lembrar dele.

CAIXA-POSTAL

sábado, 30 de julho de 2011

Perdão pelo horário adiantado. Sábado meio enrolado.

Mas aqui estão os temas da semana:

Francisco escreve: André, parabéns pelo blog. Quais são os critérios para escolha das perguntas que você publica na caixa postal?

Resposta: obrigado por ser um leitor. É a primeira vez que recebo essa pergunta, acredite. Faço a seleção por assunto, claro, conforme o que aconteceu na semana. Os fatos costumam determinar o interesse das pessoas. Quando muitas mensagens chegam com o mesmo tema, uma delas vai para o blog, mesmo que eu não ache muito interessante. Na grande maioria das semanas, é bem fácil escolher. Fico agradecido ao perceber que essa conversa aos sábados é algo de que o pessoal que lê o blog quer participar.

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Fernando escreve: As cenas de agressão no jogo entre Vasco x Sport (Copa BH Junior) foram muito debatidas durante a semana. Você publicou textos no blog mas tenho uma dúvida. Entendi sua posição, mas gostaria de saber o que você faria se fosse dirigente nessa hora.

Resposta: Eu? Eu não dispensaria o jogador e lhe prestaria toda a assistência possível. Jogadores em formação devem ser acompanhados em todos os aspectos, não apenas vistos como produtos que serão incluídos em futuras negociações. Como escrevi, o goleiro do Sport não pode ficar sem punição severa pelo que fez. Mas também não pode ser descartado como se fosse uma peça defeituosa. Jogadores estabelecidos, alguns até consagrados, cometeram atos semelhantes e seguiram normalmente com suas carreiras. Fico satisfeito ao saber que o Sport dará assistência psicológica ao atleta e até está revendo a decisão de demiti-lo. É uma prova de que esse tipo de situação deve ser analisado com tranquilidade e distanciamento pelos dirigentes.

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Rogério escreve: Você vai cobrir o sorteio da Copa de 2014? Já cobriu algum? Se já, qual foi e o que achou? Obrigado.

Resposta: Nã0. Sim. Alemanha, mas o dos grupos do Mundial, em 2005. Chato.

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César (entre muitos) escreve: André, você também é da opinião que o jogo Santos x Flamengo foi o jogo do ano?

Resposta: Fácil. Foi o grande jogo dos últimos anos no Brasil. Escrevo sobre ele no Lance! de hoje. Espetacular.

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Muito obrigado pelas mensagens. Até o próximo sábado.

(emails para a CP do blog: akfouri@lancenet.com.br. ou clique no link abaixo da foto)

CAMISA 12

sexta-feira, 29 de julho de 2011

(publicada ontem, no Lance!)

INDEPENDÊNCIA

Algo está acontecendo no futebol da Europa. As declarações de Karl-Heinz Rummenigge, presidente da Associação Europeia de Clubes (ECA), contra as evidências de corrupção na Fifa, chamaram a atenção pelo tom mais elevado. Depois, os clubes enviaram sinais de uma revolta iminente contra a Uefa.

Na terça-feira, Rummenigge afirmou que “não aceita mais que os clubes sejam guiados por pessoas que não são sérias e limpas”, que “agora é o momento para intervir, porque sabendo que algo está errado, é obrigação mudar”. O ex-jogador alemão também protestou contra o calendário inchado, duvidando que as associações nacionais de futebol tomem alguma providência, “pois o sistema atual é feito sob medida para as associações, e votado por elas”.

O grito de Rummenigge, principal executivo do Bayern Munique, certamente não reflete apenas a opinião de uma pessoa. Também não é um episódio isolado. Ontem, o jornal inglês The Guardian falou com um membro da ECA que disse que “o fato de o Bayern, que sempre foi próximo das instituições, falar tão alto é um claro sinal de que estamos próximos de uma ruptura”.

O futebol europeu é regido por um acordo entre os clubes e a Uefa, assinado há três anos e meio e válido até 2014. Se não for renovado, os clubes estarão livres de obrigações com a Uefa e a Fifa. Isso significa que não serão mais forçados a participar de competições organizadas pelas associações – como a Champions League – ou ceder jogadores para torneios entre seleções – como a Copa do Mundo.

Quando o repórter do The Guardian quis saber se não seria prejudicial deixar de disputar a Liga dos Campeões, uma competição extremamente lucrativa para os clubes, o membro da ECA respondeu: “Não seja ingênuo. Não ache que não haverá uma competição alternativa”. A alternativa é a criação de uma liga de clubes no continente, a não ser que as questões financeiras e de cessão de jogadores às seleções sejam discutidas.

Sem os clubes, o futebol não existe. Clubes não precisam da autorização de ninguém para organizar seus campeonatos, negociar os direitos de transmissão de seus jogos, tomar decisões a respeito do calendário. Basta que se entendam e resolvam cuidar da própria vida.

É simples assim.

CALMA

O Sport vai esperar o retorno à Recife do goleiro Gustavo, que agrediu covardemente um adversário na Taça BH de futebol júnior, para tomar uma decisão definitiva sobre seu futuro no clube. Medida correta e prova de que a demissão minutos após o fato foi uma atitude precipitada. Gustavo deve ser punido com rigor no âmbito esportivo e até fora dele, mas seu clube não pode descartá-lo como se ele fosse um produto com defeito.

PÉROLAS

Dois golaços na noite de ontem pelo Campeonato Brasileiro. Um foi o terceiro do São Paulo contra o Coritiba, marcado por Dagoberto. Jogada para nos relembrar que o futebol é um esporte coletivo. Bola de pé em pé. O outro foi o terceiro do Santos contra o Flamengo, marcado por Neymar. Jogada para nos relembrar que o futebol vive do talento. Dribles incríveis. Juntos, os lances exemplificam o que gostamos de ver.

NOTAS PÓS-RODADAS

quinta-feira, 28 de julho de 2011

BR-11 em noite gloriosa, com 25 gols em 7 jogos.

Começando com… adivinha.

* Épico, histórico, inesquecível. E se você tiver outro termo superlativo para classificar a espetacular vitória do Flamengo (5 x 4 no Santos: Borges-2, Neymar, Ronaldinho-3, Thiago Neves e Deivid – 12.968 pagantes na Vila Belmiro), pode usar. O jogo merece.

* O terceiro do Santos, de Neymar, foi um autêntico gol de Pelé. E o gol de falta de Ronaldinho é desses lances que fazem a gente sorrir.

* O jogo foi tão bom que o Ronaldinho Gaúcho “do Barcelona” apareceu na Vila, comandando a reação do Rubro-negro. Que saudade e que bom revê-lo.

* (Quarta nota? Lógico.) Acontece de vez em quando e é emocionante, eu sei. Mas nenhum time de futebol profissional pode perder um jogo em que esteve vencendo por 3 x 0. Nenhum.

* (Mais uma? É necessário.) Elano cometeu uma irresponsabilidade, sem dúvida. Mas se ele não merece o respeito da torcida do Santos, quem merece?

* O São Paulo (4 x 3: Carlinhos Paraíba, Juan, Dagoberto, Lucas, Rafinha e Bill-2 – 23.185 pagantes no Couto Pereira) impôs a primeira derrota em casa ao time titular do Coritiba na temporada.

* Jogo maluco. O Coritiba pressionou, pressionou… e levou um gol. Pressionou, pressionou… e levou o segundo. Pressionou, pressionou… e levou o terceiro. Perdeu um jogador, levou o quarto e depois… fez 3 gols. O futebol é um jogo sarcástico.

* O terceiro gol do São Paulo talvez seja o mais bonito do ano no Brasil (fora o gol que Neymar fez ontem, que é “fora de categoria”).

* (Quarta nota? Só uma provocação…) Então quer dizer que Rivaldo não pode jogar no time do São Paulo? Por favor…

* O Botafogo levou um gol no começo, mas virou e ganhou (2 x 1 no Avaí: Dirceu, Maicosuel e Herrera – público ND no Engenhão) após 4 rodadas.

* Os autores dos gols foram substituídos por Caio Júnior antes da metade do segundo tempo. Ambos, e parte da torcida, não gostaram.

* O empate em casa (1 x 1 com o América-MG: William Rocha e Miralles – 15.033 pagantes no Olímpico) deixou o Grêmio apenas dois pontos acima da ZR.

* Que é onde o time mineiro criou raízes.

* André estreou, marcou, e o Atlético Mineiro ganhou (1 x 0 – 16.100 pagantes no Ipatingão) do Fluminense. Abel reclamou de perseguição da arbitragem aos cariocas.

* André só precisou de 8 minutos em campo para marcar.

* Depois de sete rodadas sem vitória, o Atlético Goianiense (2 x 0: Felipe-2 – público ND no Serra Dourada) surpreendeu o Cruzeiro.

* Alguns jogadores cruzeirenses disseram que faltou o “devido respeito” ao adversário. Erro que o futebol não perdoa.

* Jogo transformador no Orlando Scarpelli. Primeira vitória fora de casa do Palmeiras (1 x 0: Maurício Ramos – público ND) no campeonato. E primeira derrota em casa do Figueirense.

* Felipão, sobre o julgamento de Kléber por causa do “fair play”, no STJD: “Não vou dizer o que acho, porque senão eu que serei julgado”.

ESPORTE E CIDADANIA

terça-feira, 26 de julho de 2011

Nova contribuição ao debate sobre a agressão durante Sport x Vasco, na Taça BH de futebol júnior.

Eis que o vascaíno, aquele vascaíno que tantas vezes já colaborou com o blog, nos enviou o texto abaixo.

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André,
 
Estou indignado.
 
Neste momento, muito se fala da atitude do goleiro do Sport, que agrediu de forma despropositada um atleta adversário no jogo de ontem entre seu time e o Vasco, pela Taça BH de Juniores.

“é um animal”
“é um monstro”
“é um covarde”
 
E, na boca do povo, o rapaz também já foi julgado e condenado.  Faltam só os algozes para lhe cumprirem a pena.

“tem que ser banido”
“tem que ser preso”
“tem que tomar muita porrada”
 
Mas, no país do futebol que celebra um atacante chamado de “animal” (Edmundo), outro de “gladiador” (Kléber), um zagueiro de “monstro” (Thiago Silva), e cuja imprensa noticia “duelos” e “batalhas” ao invés de partidas, atiremos pedras e mais pedras na Geni, o pobre do rapaz que cometeu a barbaridade que vira assunto da semana.
 
Quando se olha para a seleção uruguaia, legítima campeã da Copa América e se lhe celebra a entrega, o sentimento de participação, a simbiose entre time e sua torcida, volta a discussão do trabalho do técnico.  Segundo relatos (como o de Lúcio de Castro, já citado por você), há um trabalho intenso, que começa na base, tratando não somente as valências técnicas, táticas e fisiológicas dos atletas, mas também as suas valências humanas – há um forte acompanhamento psico-sócio-educacional para todos os jovens atletas, com a preocupação de formá-los como cidadãos atletas.  E não somente como atletas que, por um mero acaso, também precisam ser cidadãos quando estão fora do campo.
 
País hipócrita este nosso, que crucifica o rapaz.  Vamos, crucifiquemos o garoto, atiremos pedras, façamos justiça ao agredido com lapidação, a terrível morte por apedrejamento, ainda usada em alguns países e tão chocante e cruel para os nossos padrões ocidentais.
 
Nossa indigência intelectual começa, por mais que isto possa parecer pueril, nos apelidos dos jogadores.  Não há hoje, desfilando pelos gramados, uma “Enciclopédia do Futebol”, um “Príncipe Etíope”, “Pequeno Polegar”, “Anjo de pernas tortas”, “Fio de esperança”, “O gerente” disputanto aguerridas contendas.
 
Façamos um exercício prático.  Pegue-se declarações de Wlamir Marques (que tem toda a cara de “Sir Wlamir Marques”), Tostão, Pepe, Djalma Santos, e compare-se estas declarações com atletas mais jovens, de qualquer modalidade.
 
Nossa cultura esportiva recente celebra os guerreiros, gladiadores, matadores, animais, em cruentas batalhas e duelos.
 
Nosso esporte não tem, salvo raríssimas exceções, NENHUMA, absolutamente NENHUMA preocupação com a formação do cidadão.  Forma-se o atleta.  O pé de obra barato que se valoriza e enche os bolsos de meia dúzia de espertos aproveitadores.
 
Somos tão indignos, que preferimos fechar os olhos para as nossas falidas e famintas Forças Armadas, que dispensam recrutas para que não se lhes precise oferecer alimentação adequada no dia-a-dia.  No nojento vale-tudo do esporte, entretanto, contrata-se sargentos de aluguel para disputar jogos militares e colocar o “Brasil-sil-sil” no alto do pódio, com jogos nojentos e desiguais de profissionais contra amadores.
 
Não, nossas Forças Armadas não se preocupam em formar cidadãos. Nossos soldados são, muitas vezes, incapazes de treinar suas obrigações militares por absoluta falência de seus equipamentos.
 
Mas, surpresa, o Brasil-sil-sil é uma potência do esporte. Tudo muito simples: contrate-se meia dúzia de atletas de segundo escalão, que se vendem por quaisquer dez cruzeiros para ganhar uma medalha qualquer, competindo contra “gordinhos” e “baixinhos”, depois mostrando uma vibração fajuta, que é adulada por uma parte igualmente corrompida e descompromissada da mídia.
 
Nossas paupérrimas forças armadas não se preocupam em investir na prática esportiva para os seus quadros. A prática esportiva que cultiva valores de comprometimento, treino, disciplina, respeito, reconhecimento de limites e fraquezas, de trabalho para superar fraquezas e limites. O Esporte, com E maiúsculo, é evento gerador e catalisador de cidadania. Nossas forças armadas não querem cidadania. Querem continuar encasteladas em seus mundinhos encantados em que nada acontece. Aliás, em que se ganha meia dúzia de medalhas fajutas, mas não se ganha respeito.
 
Elas são um reflexo exato de nossa comunidade esportiva (pelo menos da sua grande maioria), que quer resultados a qualquer custo.
 
Nossa mídia, que (em sua grande maioria) adula as “batalhas” e os “duelos” e que saúda os “guerreiros” e “matadores”, aplaude e abana seus nojentos rabinhos caninos para os nossos atletas fardados.
 
Nossos torcedores, que querem “raça”, “garra” e “disposição” aplaudem.
 
Nossos atletas, que querem mais louras, morenas, mulatas, carros e aviões, nesta vidinha de celebridades instantâneas. Nossos atletas que perdem vergonhosamente uma competição e aparecem na mídia com suas belas namoradas, jogando seus belos videogames, pilotanto seus belos carrões. Nossos atletas que não sabem (e pior, não querem saber) sequer o significado do hino que cantam.
 
E, eventualmente, acabam pegos em deslizes. Uma cadeia por falta de pensão alimentícia… uma outra cadeinha por um acidente de carro.  Até uma cadeiona por suspeita de assassinato. Muitos envolvidos com traficantes, amigos dos envolvidos com casas de prostituição, parceiros dos banqueiros de jogo do bicho e contraventores em geral. Ou um dopingzinho, que dependendo das conexões inconfessáveis do autor, também não tem nenhuma influência.
 
Mas o goleiro do Sport… ah o goleiro do Sport. Esse aí tem mais é que se ferrar mesmo.
 
PS: Sou Vasco. O goleiro do Sport agrediu um atleta do Vasco. Mas nem por isso, desejo mal ao pobre Gustavo.  Que, por azar somado à sua enorme inconsequência, virou epítome da nossa nojenta hipocrisia.
 
Abraços.

EXPULSAR É FÁCIL, TRATAR É DIFÍCIL

terça-feira, 26 de julho de 2011

Se você ainda não viu a agressão inacreditável do ex-goleiro Gustavo, do Sport, contra o vascaíno Elivélton, aqui está.

Aconteceu ontem, em jogo válido pela Taça BH de futebol júnior.

Elivélton foi para o hospital, teve lesão na coluna, mas se movimenta  normalmente. Passará por exames mais detalhados.

Cerca de 20 minutos depois da cena assustadora, a diretoria do Sport mandou Gustavo embora.

O que o jovem goleiro fez é gravíssimo e inexplicável. Deve ser punido severamente no âmbito esportivo e até fora dele.

Mas abandoná-lo é a atitude mais fácil e errada. É como passar o problema para frente, dizer “aqui ele não arrumará mais confusão”.

É cuidar da repercussão do fato, e não de suas causas.

No final da manhã de hoje, o Sport informou que dará assistência psicológica a Gustavo, mesmo após dispensá-lo.

Como nada a respeito dessa assistência foi divulgado ontem – apenas a demissão -  parece que se trata de algo discutido e decidido com calma, distante do problema, como se espera de dirigentes.

E que seja algo feito com seriedade, não apenas para tratar da imagem do clube.

Jogadores em formação precisam de orientação.

NOTAS PÓS-RODADAS

segunda-feira, 25 de julho de 2011

BR-11, décima-primeira jornada:

*Após o empate (2 x 2 com o Atlético Goianiense: Rhodolfo, Bida, Rivaldo e Anselmo – 23.487 pagantes no Morumbi) que marcou a estreia de Adílson Batista, jogadores do São Paulo trocaram pequenas farpas.

* O gramado do Morumbi é um dos poucos que estão em boas condições, no momento.

* Pouco a dizer sobre o 0 x 0 entre América-MG e Figueirense (752 pagantes na Arena do Jacaré). Jogo de menor público no campeonato.

* E após 10 rodadas, o Atlético Paranaense ganhou (2 x 1 no Botafogo: Morro Garrcia-2 e Alexander – 12. 714 pagantes na Arena da Baixada) pela primeira vez.

* Quatro jogos sem vitória para o Botafogo.

* Na rodada em que conseguiu seu sexto empate (1 x 1 com o Ceará: Renato e Felipe Azevedo – 4.737 pagantes no Moacyrzão), o Flamengo tornou-se o único time invicto do campeonato.

* Thiago Neves estava certo. Era melhor não jogar contra o Ceará (para não ouvir as reclamações da torcida após o resultado).

* E o Bahia (0 x 0 com o Coritiba – 21.151 pagantes no Pituaçu) não ganha em casa…

* O Fluminense teve de fazer dois gols – o primeiro foi mal anulado – para ganhar (1 x 0: Marquinho – 6.547 pagantes no Raulino de Oliveira) do Palmeiras.

* O tricolor é o único time que ainda não empatou no BR-11.

* Com dois gols do ex-atleticano Diego Souza, o Vasco venceu (2 x 1 no Atlético Mineiro: Magno Alves fez o gol mineiro – 16.006 pagantes) no Ipatingão.

* O Vasco está no G-4.

* Não é verdade que o Cruzeiro (1 x 0 no Corinthians: Wallyson – 34.462 pagantes) tenha jogado “como time pequeno” no Pacaembu. A escalação de Roger ao lado de Montillo interferiu na atuação de Ralf e Paulinho, e atrapalhou o Corinthians.

* Foi pênalti de Ramon, quando o Cruzeiro já vencia por 1 x 0.

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Guardadas as devidas e consideráveis proporções, a conquista do Uruguai (3 x 0 no Paraguai: Suárez e Forlán-2) na Copa América foi como o título da Espanha na Copa do Mundo: fez bem ao futebol.

O maior campeão do continente é um país onde se faz um trabalho competente, sob o ponto de vista humano, no futebol.

Fora esse aspecto, foi ótimo ver jogadores exibirem felicidade autêntica por uma conquista. Sem máscaras ou estrelismos.

Bonita festa.

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O bilionário checheno Bulat Chagaev faria sucesso como cartola no Brasil.

Chagaev comprou o clube suíço Neuchatel Xamax em 12 de maio. No dia seguinte, demitiu o técnico, os supervisores e os patrocinadores.

Em 28 daquele mês, o Neuchatel perdeu a final da Copa da Suíça para o Sion por 2 x 0.

Chagaev mandou o segundo técnico embora.

Após a estreia no Campeonato Suíço, derrota para o Lucerne por 3 x 0 há uma semana, o dono do Neuchatel ordenou que o goleiro brasileiro Gallato fosse para o banco.

Ontem, o clube perdeu de novo, por 2 x 0 para o Basel.

E Chagaev demitiu o terceiro técnico, junto com o brasileiro Sonny Anderson, que tinha o cargo de manager.

Cobramos demais dos nossos dirigentes, que são muito pacientes e acreditam no trabalho a longo prazo.

COLUNA DOMINICAL

domingo, 24 de julho de 2011

(publicada ontem, no Lance!)

TELECURSO

O ensino à distância jamais vislumbrou tamanho sucesso. E provavelmente não imaginava que ele seria alcançado com decisiva colaboração das transmissões de futebol pela televisão. É o triunfo do esporte como ferramenta de educação.

Profissionais de várias áreas já foram diplomados. Especialistas em leitura labial, advogados, delegados de polícia, médicos… A semana trouxe como novidade mais uma disciplina: psicologia. O jogo que fez o papel de “conclusão de curso” aconteceu na noite de quarta-feira, no Pacaembu. Palmeiras x Flamengo. Uma rápida sequência de imagens foi suficiente para que alunos construíssem o perfil de um jogador. Prova da impressionante eficiência do método.

Aos fatos: no segundo tempo, o árbitro Leandro Vuaden parou o jogo para que o lateral rubro-negro Junior Cesar fosse atendido. No momento da paralisação, a posse de bola era do Flamengo. A situação invocou uma das “leis não escritas” do futebol, conjunto de normas que transformam as peladas de fim de semana e a final da Copa do Mundo numa coisa só: “no reinício do jogo, a bola deve ser devolvida a quem tinha a posse (ou o tempo vai fechar)”.

Vuaden reuniu os jogadores para o “bola ao chão”. Após uma breve discussão e alguma indecisão, Kléber pegou a bola e chutou para o gol do Flamengo. No campo, foi cercado pelos adversários. País afora, seu perfil psicológico foi traçado. Um mau-caráter, assassino do “fair-play”.

O fato de não haver consenso entre os jogadores sobre a posse da bola foi ignorado. O mesmo se fez com a possibilidade de Kléber ter agido como alguém convicto de que a bola era do Palmeiras (sim, um erro), e que perdeu a paciência com a demora. Foi exatamente o que aconteceu.

Mas até entre os que perceberam, há quem se recuse a admitir. Afinal, blá-blá-blá sobre o jogo limpo deixado de lado, Kléber fez pose e “jogou para a torcida”. Aí está o ápice da capacidade de diagnóstico, remoto, do que passa pela mente de um jogador. Nos minutos finais de um jogo empatado, durante uma celeuma sobre quem deveria ficar com a bola, Kléber identificou e processou a oportunidade de ficar bem na foto com o torcedor do Palmeiras. Nem Garry Kasparov, quando venceu Deep Blue, pensou tão rápido.

Momentos antes do episódio, o mesmo Kléber tentou uma jogada perto da área do Flamengo. Caído, entrou numa dividida com a cabeça, lance de alto risco para ele. Também foi algo premeditado, marketing pessoal? Qual é a chance de um jogador ter tempo para pensar em como seu comportamento será avaliado, enquanto tenta driblar o adversário?

Isso não é sobre o Palmeiras ou sobre o Flamengo. Não é nem sobre Kléber. Seu conhecido histórico não deveria ser utilizado para que se determinasse, de tão longe, o que aconteceu num lance específico. Estaríamos todos fazendo muito melhor se a vontade de “super-analisar” uma conduta fosse investida em descobrir o que de fato se passou. É mais difícil, mais trabalhoso, mais demorado. Mas é o certo.

Como ir à escola.

CAIXA-POSTAL

sábado, 23 de julho de 2011

Aos assuntos da semana:

Gustavo (entre muitos) escreve: Como você avaliou o caso Cesar Cielo, as justificativas  apresentadas e a diferença da decisão em relação a Daiane do Santos e ao  goleiro Renê, que foram severamente punidos pelo uso da furosemida?

Resposta: Minha impressão foi que o fato de se tratar de um campeão olímpico e mundial interferiu na decisão da CAS. Em casos semelhantes, com as mesmas justificativas por parte dos atletas envolvidos, a decisão foi por penas longas. Acima de tudo, penso que esse é mais um aspecto de um sistema que cria ídolos e depois os pune. É cada vez mais difícil acreditar em esporte de alto rendimento sem o uso da chamada “preparação química”. Casos são tratados conforme as conveniências do momento.
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Antonio escreve: André, sou palmeirense e quero saber o que você está achando dessa história do Martinuccio. Obrigado.

Resposta: O Lance! de hoje tem uma ótima reportagem sobre o assunto. O jornal teve acesso à última folha do pré-contrato que o jogador assinou com o Palmeiras. Martinuccio entendeu o que estava escrito e deu seu autógrafo. A reportagem também informa que o contrato foi registrado no Uruguai. Pelo jeito, a não ser que o Fluminense prove que o documento não tem valor legal, o caso pode terminar mal para o clube carioca (que pode ser multado) e para o jogador (que pode ser suspenso).
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Alex escreve: André, você vê uma possibilidade de estrelas da NBA fazerem contratos para jogar fora dos EUA por causa da greve?

Resposta: Sim. Essa é a grande diferença do locaute da NFL para o da NBA. Os jogadores de futebol americano não tem outro mercado. Os de basquete têm. Na China e na Europa há dinheiro e clubes interessados. Creio que, num primeiro momento, os europeus da NBA irão para clubes do continente, em número maior do que o de jogadores americanos. Mas bastará um jogador de maior nome (como Kobe Bryant, que pediu US$ 1 milhão para jogar na Turquia) ser contratado, para que outros o sigam. Essa possibilidade significa o maior poder de barganha dos atletas, num conflito trabalhista que é bem mais sério do que o da NFL.
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Luis Eduardo escreve: A seleção do Paraguai pode conquistar a Copa América sem ganhar nenhum jogo. Nessa hora ninguém fala da emoção do mata-mata, né?

Resposta: Calma aí… é impossível organizar copas usando outro sistema de disputa. Especialmente quando a competição é entre países. Para mim, o grande problema são as decisões por pênaltis (publico uma nota sobre o assunto em minha coluna no Lance! de hoje), que se transformam no objetivo de muitos times. O Paraguai, por exemplo, não quis ganhar da Venezuela nas semifinais. Levou três bolas na trave e se classificou. Eu não gosto dos pênaltis como forma de decidir confrontos. Acho que a prorrogação deveria continuar, em tempos de 15 minutos com permissão para substituições, até que um time vença.
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Uma vez mais, obrigado pelas mensagens. Até a semana que vem.

(emails para a CP do blog: akfouri@lancenet.com.br, ou clique no link abaixo da foto)

CAMISA 12

sexta-feira, 22 de julho de 2011

(publicada ontem, no Lance!)

TERRA DO NUNCA

O debate sobre a presença de Neymar e Ganso na Copa de 2010 é inútil. O motivo é auto-explicativo: eles não estavam lá. Mas a Copa América trouxe o assunto do passado, com algo que até mesmo as conversas inúteis dispensam – declarações oportunistas como a que Jorginho, auxiliar de Dunga na Seleção Brasileira, deu anteontem.

Estimulado, o hoje técnico do Figueirense disse, em tom de desabafo, que a campanha do Brasil na Argentina mostrou que Dunga e ele acertaram ao não levar os dois santistas para a África do Sul. E que agora quem cobrava as convocações lhes dá razão.

Falso. Jorginho tenta se atribuir um mérito que não existe. As atuações de Neymar e PHG na Copa América não podem ser utilizadas como medidores para que se descubra como eles se comportariam num Mundial. Trata-se de um cálculo impossível. Para dar razão à antiga comissão técnica da Seleção, é necessário ter um poder ainda mais espetacular do que o de prever o futuro. O poder de modificar o passado.

Não me lembro de cobranças para que os jovens santistas fossem titulares do time que jogou a Copa do Mundo. Ganso no lugar de Kaká? Neymar no lugar de Robinho? Se havia algo que aquela Seleção tinha era conjunto. E um conjunto (como aqui se escreveu dezenas de vezes) extremamente competitivo. Ademais, um dos pilares do período de Dunga e Jorginho foi a formação de um grupo, o que não se discute. Sugestões com os nomes de Neymar e Ganso foram feitas como opções. A exemplo do que aconteceu com Ronaldo em 1994, e com Kaká, em 2002.

Uma coisa é estar sentado no banco de reservas, como opcional de luxo de um time formado e entrosado, numa Copa do Mundo. Algo a oferecer, muito a aprender, pouca responsabilidade. Outra coisa é, com a experiência de jogos que se contam nos dedos de uma mão, receber a missão de comandar um time em construção, numa Copa América. Etapas antecipadas num processo de renovação necessário.

Nunca saberemos o que aconteceria com o Brasil na Copa de 2010, se Neymar e Ganso estivessem lá. Nunca saberemos como terminaria o jogo contra a Holanda, em que a Seleção não teve Elano (machucado) e Ramires (suspenso). Lembra?

EXEMPLO

O Uruguai já ganhou a Copa América se o critério for a admiração de quem acompanha o torneio. Questão de atitude, postura. Mas a Celeste não é assim apenas porque quer, ou acha bonito. O trabalho gerenciado por Oscar Tabárez nas categorias de base, com os futuros jogadores de futebol uruguaios, é baseado em educação, formação e cidadania. É a síntese do que o esporte deve significar, e o oposto do que se faz no Brasil.

PERGUNTAS

Qual é o ponto de oferecer um contrato a um ídolo, como o Internacional fez com Paulo Roberto Falcão, para tratá-lo como se fosse um treinador como qualquer outro? Qual era o plano do Internacional quando decidiu contratar Falcão, demiti-lo na primeira série de derrotas? Negar-lhe apoio quando precisasse? Quando chegará o momento em que um clube brasileiro, que se enxerga como “diferenciado”, passará do discurso às ações?