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Arquivo de maio de 2011

COLUNA DOMINICAL

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Nota 1: puxei o plug na alta madrugada de sábado para domingo, e só me reconectei hoje. Por isso a coluna chega com um dia de atraso.

Nota 2: o texto, obviamente ficou antigo. Foi publicado para manter o costume.

Nota 3: respondi as perguntas que chegaram em comentários no post do jogo. Passem lá.

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(publicada anteontem, no Lance!)

COMO ERA?

Conhecer Wembley sempre foi um sonho. O lendário estádio londrino era o Palácio de Buckingham do futebol. Conferia ao esporte um ar aristocrático, religioso até. Nas fotos e imagens pela TV, Wembley parecia uma catedral, era como tantas e tantas igrejas espalhadas pela Europa, pontos turísticos obrigatórios seja qual for o motivo da visitação.

De certa forma, o sonho acabou em 2002, quando o que existia desde 1923 foi demolido para dar lugar a uma nova arena. Lembro das cenas dos guindastes demolindo as icônicas torres e da sensação de que aquilo era um terrível erro.

Nada tenho contra a modernidade, tudo a favor. Apenas acho que certos símbolos devem ser preservados. Que lugares onde aconteceram fatos importantes para várias gerações não podem simplesmente desaparecer. Eles têm vida.

Por isso, quando o novo Wembley surgiu, mesmo apesar da vontade de conhecer o que ergueram no lugar da antiga catedral, nunca me interessei em fazer uma dessas visitas guiadas. Estádios de futebol, por mais belos e históricos, são apenas construções dormentes quando nada acontece dentro deles. É brutal a diferença entre ir a um estádio e ir a um jogo.

É possível ver Wembley do estacionamento do hotel. A estrutura gigantesca, o arco que substituiu as torres como principal característica arquitetônica, a fachada imponente. A aparência remete imediatamente às mais novas arenas de futebol americano. De fato, o novo Wembley não é só um estádio. É uma enorme casa de espetáculos.

Uma das boas coisas dessa profissão é que ela te proporciona sensações. Claro, você vai a lugares, vê coisas, testemunha momentos especiais. Lembranças ficam guardadas, em imagens ou apenas na memória. Mas o que fica impresso em algum lugar, da forma mais profunda, é o que se sente.

Não falo necessariamente de grandes emoções. É apenas a maneira como a mente registra esses momentos. É difícil de explicar e mais difícil ainda, talvez impossível, de recuperar “o arquivo”. Mas creio que quando lembramos de cenas que nos marcaram, estamos tentando reviver o que sentimos quando elas aconteceram.

Passei os últimos dias imaginando como seria entrar no novo Wembley, e foi exatamente como antecipei. O lugar é belíssimo, vasto, imponente, impecável no jeito inglês de ser e parecer nobre. Exala importância. Em sua configuração para futebol, é realmente o cenário perfeito para um jogo decisivo. Mas não é Buckingham, ou a catedral. Os efeitos da transformação ficam evidentes no momento em que nos perguntamos (e não dá para evitar a pergunta) “como será que era antes?”. A resposta só tem quem esteve no velho palco.

Mas essa ainda não foi uma visita “oficial”. Durante os treinos de Barcelona e Manchester United, ontem, só havia jornalistas do lado de fora do campo. Um ambiente em que faltava algo. Não tinha clima, nem jeito, nem barulho de jogo. O jogo será hoje, final da Liga dos Campeões da Uefa.

Dia para conhecer o novo Wembley. E lamentar não ter conhecido o antigo.

 

SEM MAIS PERGUNTAS

domingo, 29 de maio de 2011

Ok, vamos fazer isso rápido. Estou muito além do cansaço.

Levarei dois momentos de Wembley: um é a entrada da taça no gramado, carregada pelos famosos guardas ingleses. O outro é Abidal a erguendo, por gentileza de Puyol.

Duas cenas que revelam nobreza. Como estamos em Londres, nada mais apropriado.

O jogo começou de um jeito interessante. Havia um time impetuoso em campo, e esse time não era o Barcelona. De acordo com Daniel Alves, nada mais do que a velha e boa ansiedade.

Fato é que o jogo logo encontrou sua dinâmica habitual: o Barcelona com a bola, seu adversário correndo.

O passe de Xavi para o gol de Pedro é desses lances que deveriam estar na capa dos manuais de futebol.

Mas até o melhor time do mundo falha. A jogada do gol inglês, bonita tabela entre Rooney e Giggs, começou num lateral para o Barcelona.

O empate no jogo produziu um empate na História que é quase impossível de acreditar: desde que o formato Liga dos Campeões foi adotado, em 1992-93, Barcelona e Manchester United fizeram (304) e sofreram (159) exatamente o mesmo número de gols.

Mas, no segundo tempo, as diferenças ficaram evidentes.

O gol de Messi (décimo-segundo, igualando o recorde de Ruud Van Nistelrooy) saiu numa jogada em que a defesa inglesa parecia anestesiada. Deu início a um período em que o Barcelona se proclamou dono de Wembley e o United não reclamou.

O golaço de Villa (vale a pena ver a comemoração de Messi, ajoelhado) foi a imagem que faltava para uma vitória simbólica.

Não importa a qualidade do adversário. O Barcelona tem capacidade para reduzir seus oponentes a times frágeis. A média de posse de bola dos ingleses na Champions era de 58%. Na final, foi 37%.

No placar dos escanteios: 6 a zero.

Nos chutes a gol, no alvo: 12 a 1. Sim, o gol de Rooney foi o único chute certo do Manchester United em todo o jogo.

O que estamos vendo é raro e histórico. Creio que desde o Milan de Sacchi não havia um time tão superior aos outros.

Para fechar a noite, o capitão Puyol, que começou o jogo na reserva, cedeu a Abidal o direito de levantar a “orelhuda”.

O francês, sobrevivente de um tumor no fígado, tinha dito que o dia em que voltou ao futebol (jogo de volta das semifinais, contra o Real Madrid) foi o mais feliz de sua vida. Talvez tenha de reformar a frase.

O melhor time do mundo ganhou mais um título. Pense na quantidade de troféus que os espanhóis do Barcelona conquistaram nos últimos anos, por clube e seleção.

Tenho 37 anos. Esse é o melhor time que já vi.

A FINAL DA LIGA (com palpite)

sábado, 28 de maio de 2011

De novo, eu já ia me esquecendo…

Barcelona x Manchester United

28/5 – Wembley

Previsão: Barcelona. Independentemente de como os ingleses jogarão, com mais ou menos marcadores no meio de campo, o problema permanece o mesmo: ceder a bola ao Barcelona ou brigar por ela? O Manchester United é muito sólido na defesa e, sim, pode se fechar e usar a velocidade de Rooney e Chicharito. Também tem talento e experiência para lutar pela posse e mantê-la. O palpite aqui é que fará a primeira opção. É válida, porém arriscada. Dar a bola ao melhor time do mundo (continuará sendo, mesmo se perder hoje) é perigoso demais. Tudo pode acontecer num jogo só? Claro. O Manchester United tem time para jogar melhor e ganhar? Óbvio. Apenas acho que não será assim.

CAMISA 12

sexta-feira, 27 de maio de 2011

(publicada ontem, no Lance!)

MEMÓRIAS DO CÁRCERE

Para jogadores acostumados a dormir em suas casas antes de um jogo de futebol, a final da Liga dos Campeões da Uefa impôs uma mudança de hábito.

O Barcelona não gosta de concentrações. Em casa, os jogadores se apresentam no Camp Nou horas antes do jogo. Fora, dependendo da distância, o time viaja no mesmo dia da partida.

Mas antes da decisão europeia, os catalães dormirão quatro noites seguidas em quartos de hotéis. Culpa do vulcão islandês Grimsvotn, que os obrigou a viajar para Londres 48 horas mais cedo do que planejavam.

O diretor esportivo do Barcelona, o ex-goleiro Andoni Zubizarreta, disse que não espera problemas causados pela reclusão incomum, porque as condições encontradas em Londres são as melhores possíveis. A delegação está hospedada num exclusivo clube de golfe no norte da cidade, próximo do CT do Arsenal, onde escolheu trabalhar. É a mesma combinação de hospedagem e treinamento utilizada pela seleção inglesa, quando joga em Wembley.

Mas como o clube já tinha reservado vários apartamentos num outro hotel londrino, em Chelsea, terá de se mudar hoje à noite. Mais um movimento diferente, em dias decisivos, para um time habituado à calmaria.

O Barcelona pretendia ficar em casa até hoje, voar para Londres no final do dia e fazer apenas um treino, o protocolar em Wembley, na véspera da final. Um vulcão islandês ficou de mau humor e foi necessário driblá-lo. O combo avião para a França + trem (ou talvez ônibus + trem) seria cruel, muito mais danoso do que a concentração.

Somos capazes de imaginar o que aconteceria com um time habituado a se concentrar e que de repente se vê presenteado com a liberdade. Alguns não saberiam o que fazer, surpreendidos pela novidade. Outros, naturalmente, se lambuzariam. O que não sabemos é como quem é livre lidará com a clausura. O Barcelona, que no ano passado sofreu com 14 horas de estrada para Milão, por causa de outro vulcão islandês, preferiu pagar para ver.

O debate sobre a necessidade da concentração é antigo. Parece claro que times especiais não precisam dela. Veremos se o Barcelona será o mesmo, apesar dela.

FREE WIRELESS

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Lamento a ausência nas últimas horas. Os dias têm sido longos por aqui e a conexão de internet do hotel não tem colaborado muito.

De qualquer forma… enviar reportagens de televisão é, hoje, uma tarefa muito mais fácil do que quando comecei na profissão.

Antigamente, era necessário marcar um horário de satélite, de preço salgado. Depois, agendar com uma produtora ou um canal de televisão para fazer a conexão com o satélite.

Você levava a fita com sua reportagem gravada, pedia para a produtora/emissora entrar em contato com a empresa de telecomunicações, recebia o ok e apertava play.

Se tudo estivesse absolutamente certo (e lógico, quanto mais você estivesse, mais complicado era), uma voz no Brasil dizia que estava vendo e ouvindo seu material com clareza. Aí era só começar a gravar e pronto.

Mas quantas e quantas matérias, muitas vezes o trabalho de um dia inteiro, foram perdidas porque todas essas comunicações não deram certo e o horário reservado no satélite terminou? Posso garantir, a sensação é horrível.

Mas hoje… hoje chega a ser ridículo. Como fez em muitas outras áreas, a internet revolucionou nosso trabalho.

Apenas um exemplo, desta quinta-feira aqui em Londres: o Barcelona treinou pela manhã e foi de ônibus para seu hotel definitivo na cidade, em Chelsea.

A segurança do local impediu os repórteres de se aproximarem do lobby. Ficamos todos na calçada, do outro lado da rua, aguardando para fazer imagens do ônibus.

Em dias como hoje, em que não há praticamente nada, qualquer imagem vale muito.

Um dos assessores de imprensa do clube veio nos explicar que cerca de uma hora depois, um dirigente do Barcelona daria uma entrevista a todos. Só poderíamos entrar nesse momento.

Mas ainda faltava muito tempo para a delegação chegar ao hotel e resolvemos almoçar num pub/restaurante que ficava na esquina. Lá dentro, o adesivo “Free Wireless” nos deu uma ideia: por que não tentar mandar um boletim para o Brasil?

Faz tempo, câmeras de televisão não usam fitas. Gravam em cartões que armazenam arquivos digitais que podem ser editados, comprimidos, convertidos e enviados para qualquer lugar do planeta via internet.

E não precisa ser wi-fi. Uma boa conexão 3G é capaz de enviar uma pequena reportagem num tempo bem razoável.

Saí com nosso cinegrafista, gravei um boletim, voltamos para o pub e o editamos. Em 20 minutos, o material estava em São Paulo, pronto para ir ao ar.

E o mesmo aconteceu com a matéria que mandamos mais tarde, já com a entrevista do dirigente catalão. Logicamente, todas as pessoas que estavam na mesma situação recorreram à hospitalidade e às facilidades do pub, cujo roteador wireless teve um dia heróico.

Porque todas as mídias dependem da internet.

Metade da imprensa espanhola passou horas dentro do pub. Repórteres de TV, rádio, jornais, sites e fotógrafos, todos com laptops abertos, trabalhando.

Free wireless.

E no final das contas, o vulcão islandês não atrapalhou ninguém. O Barcelona chegou antes, trabalhou dois dias, trocou de hotel e agora está onde planejava.

Os mais de 20 mil torcedores catalães poderão voar normalmente para Londres.

E o avião que originalmente traria o time, trouxe os familiares dos jogadores. O único contratempo foi um atraso de duas horas no voo, pois o espaço aéreo inglês foi fechado.

Mas não pelo vulcão, e sim para que o Força Aérea 1, o avião do presidente americano Barack Obama, pudesse decolar para a França.

Nesta sexta, treinos e coletivas oficiais em Wembley. Dia cheio.

O BARÇA EM LONDRES

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O Barcelona desembarcou em Londres no final da noite de ontem e foi para um luxuosíssimo hotel em Hertfordshire, onde passará apenas dois dias.

Foi o que se pôde fazer para acomodar o time, por causa da antecipação da viagem em 48 horas.

Na quinta-feira, os jogadores serão transferidos para o Wyndham Grand Hotel, em Chelsea Harbor, escolhido pelo clube como concentração para a final da Liga dos Campeões da Uefa.

Em sua programação original, o Barcelona treinaria em casa até a tarde de quinta-feira, embarcaria para Londres e faria apenas o treino protocolar em Wembley no dia seguinte, véspera do jogo.

Claro, o vulcão Grimsvotn mudou tudo.

O local escolhido para os treinos de hoje e amanhã foi o CT do Arsenal, afastado do centro da capital inglesa. Pelas últimas informações, as duas sessões serão fechadas.

O que obrigará as centenas de jornalistas que estão aqui para cobrir o time a perambular pela cidade.

Em momentos como esse, quem trabalha em televisão sofre mais. O “Media Day”, na segunda-feira, nos deu oportunidade para fazer muitas entrevistas e captar um treino de uma hora. Material de sobra para reportagens durante a semana.

Ocorre que a mudança de cenário “envelheceu” as imagens feitas no Camp Nou. E o time só será visto em Londres na sexta.

Teremos de nos virar por aqui. Não será a primeira vez.

Enquanto isso, o primeiro ministro britânico, David Cameron, estará fazendo um churrasco para o presidente Barack Obama.

 

 

VIAGEM ANTECIPADA

terça-feira, 24 de maio de 2011

A decisão será oficialmente anunciada em instantes, mas o Barcelona viajará para Londres nesta terça-feira.

A chegada das cinzas do vulcão Grimsvotn ao espaço aéreo da Escócia, que provocou o cancelamento de mais de 250 voos na manhã de hoje, forçou o clube catalão a antecipar a viagem.

O voo sairá às 22 horas.

 

GRIMSVOTN…

segunda-feira, 23 de maio de 2011

No início da preparação do Barcelona para a final da Liga dos Campeões, o primeiro adversário se chama Grimsvotn.

Como se sabe, não é um jogador do Manchester United. É um vulcão que entrou em erupção na Islândia.

No Brasil, vivemos tão distantes desse tipo de situação que ela não parece real. Mas milhões de europeus já tiveram de lidar com o problema. Por causa das cinzas, aviões ficam no chão e planos são alterados.

O Barcelona, que sabe o que é não poder voar para um jogo decisivo, espera notícias boas nesta terça-feira. Se a nuvem negra chegar à Escócia, é quase certo que os catalães tomarão providências para antecipar a viagem para Londres.

E não é apenas o clube que está apreensivo. Cerca de 20 mil torcedores do Barcelona compraram ingressos para a final. Foram vendidos pacotes que incluíam a parte aérea e agora tudo está em compasso de espera.

Pep Guardiola disse que seria uma pena jogar uma final dessa magnitude com espaços vazios em metade do estádio.

Não há o que fazer além de esperar.

Messi falou por uns 40 minutos, em coletiva. A parte mais interessante da conversa foi o encontro que ele marcou com a torcida catalã.

Durante a celebração da conquista da Liga Espanhola, no Camp Nou, o craque argentino combinou de rever o torcedor no dia 29 de maio, no mesmo local. É o dia seguinte à decisão europeia, demonstração de confiança no título.

Muita gente estranhou. Nem Messi nem o Barcelona são afeitos a esse tipo de declaração, que pode ser mal interpretada e/ou usada pelo adversário como arma motivacional.

Perguntado, Messi respondeu que sempre acredita que vai ganhar todos os títulos que disputa, não há motivo para pensar de outra forma.

Correto. Mas acreditar é uma coisa, dizer é outra. Não significa que ele tenha errado, apenas chamou a atenção.

E a bem da verdade, Messi foi estimulado várias vezes a falar sobre o adversário de sábado, e o fez sempre com elogios. Um repórter inglês afirmou que, em seu país, comenta-se que o time atual do Manchester United não tem o brilho dos últimos anos. Messi discordou.

Amanhã teremos mais informações sobre o vulcão e o efeito dominó que ele pode causar.

Posso garantir que estamos tão interessados nisso quanto o Barcelona e seus torcedores.

OUTRO VULCÃO?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Cerca de um ano depois de precisar viajar de ônibus para enfrentar a Internazionale, o Barcelona pode ter seus planos prejudicados por outro vulcão islandês.

A televisão pública da Islândia informou ontem que o vulcão Grimsvotn entrou em erupção no sábado, lançando uma nuvem de fumaça de 19 quilômetros de altitude.

Estima-se que pela direção dos ventos na região, as cinzas devem alcançar a Escandinávia. Mas segundo a agência de notícias espanhola Efe, não está afastado o risco de o Reino Unido ser atingido, impossibilitando o tráfego aéreo nessa parte da Europa.

Em 2010, um vulcão islandês de nome impronuncável (Eyjafjallajokul) obrigou o Barcelona a viajar 14 horas de ônibus até Milão, para o primeiro jogo das semifinais da Liga dos Campeões da Uefa. Na ocasião, o time foi eliminado pela Internazionale.

A rede de televisão TV3, da Catalunha, informou que o clube já estuda outras formas de ir para Londres. Uma ideia seria viajar de ônibus até Paris, trajeto de 1200 quilômetros, e depois pegar o trem Eurostar para a capital inglesa.

Nesse cenário, o Barcelona teria de antecipar sua viagem, marcada originalmente para a noite da próxima quinta-feira.

SE EU PERDER ESSE TREM…

domingo, 22 de maio de 2011

O avião que nos trouxe do Brasil pousou em Heathrow, no terminal 5.

A conexão para Barcelona era no terminal 3.

Nenhum problema, já que o Heathrow Express passa pelo terminal 3 a caminho do centro de Londres. Além disso, tínhamos umas 3 horas para matar antes do embarque para a Espanha.

Entramos no trem. Ainda faltavam 10 minutos para a partida, quando vi um adesivo no vidro: “conecte-se e usufrua de nossa rede wi-fi gratuita”.

Em segundos, o mundo estava em minhas mãos. Que erro.

O trem parou na estação seguinte, não prestei atenção na voz feminina que anunciou onde estávamos. Permaneci imerso nos emails, nas notícias, no twitter…

Quando percebi uma luz forte entrando pela janela, me dei conta de que já estávamos fora do aeroporto.

Próxima parada: Paddington Station.

Felizmente o tempo era mais do que suficiente para esperar a parada e voltar, no mesmo trem.

E cá estamos de novo em Barcelona.

Domingo de eleições municipais, com mais de 30% de abstenção. A exemplo do que se vê na praça da Porta do Sol, em Madri, a Praça Catalunya foi ocupada por manifestantes acampados.

Eles protestam contra a monarquia, o capitalismo, os políticos, a crise econômica, a corrupção. O lema do movimento 15M (15 de maio, data do início) é “nossos sonhos não cabem em suas urnas”.

Encontramos uma estudante brasileira, de Salvador, com um cartaz na mão. Entre tantas faixas com protestos em catalão e espanhol, ela trazia um verso de Chico Buarque: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”.

Eu me identifiquei mais com outro, que dizia “50% dos problemas de nosso país seriam resolvidos com 20 anos de cadeia para políticos corruptos”.

O movimento, que se repete em praças de várias outras cidades espanholas, divide opiniões. Há sociólogos que, respeitadas as devidas diferenças, enxergam algo de 1968.

Outros veem apenas uma “festa de rua”, estimulada pelas mídias sociais e pelo altíssimo (40%) desemprego entre jovens.

Há quem também perceba uma relação com as recentes revoltas em países árabes, apesar de a Espanha não viver sob uma ditadura e da ausência de violência nas ruas.

Independentemente do ângulo, foi claro o impacto das manifestações no dia da eleição.

Falando de futebol, o Barcelona inicia amanhã sua semana final na Liga dos Campeões, com um dia dedicado à imprensa.

Lionel Messi concederá uma rara entrevista coletiva (passei 3 semanas ao lado do time, ele não falou uma única vez) no fim da tarde, antes da sessão de Pep Guardiola com os jornalistas.

Na sequência, um treino de uma hora de duração será inteiramente aberto às câmeras.

E depois, os outros jogadores do time passarão pela zona mista no Camp Nou.

Suspeito que Messi entendeu que precisava dizer algo na semana da final da UCL. Se estivesse junto com os outros, a confusão na zona mista seria incontrolável. Por isso a coletiva.

E no final da noite acontecerá uma cena interessante na loja oficial do clube, no estádio. Entre 23h e 01h30, o novo uniforme do Barcelona começará a ser vendido.

As primeiras 1899 pessoas que comprarem a nova camisa azul-grená (nota pessoal: ficou muito feia, descaracterizando as famosas listras, uma infelicidade) terão em mãos algo único. Numa alusão ao ano de fundação do Barcelona, as camisas serão numeradas na manga esquerda.

Estarei lá para ver o tamanho da fila.