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COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 06.mar.2011 às 11:28h

(publicada ontem, no Lance!)

OS DRAMAS DA COMUNICAÇÃO

O sujeito se destaca por qualquer motivo e logo recebe um rótulo. Se for bem apessoado, é “bacana”, no mau sentido. Se não for, que Deus o ajude. Uma das primeiras reações será “por que não se arruma melhor”? No futebol, eldorado dos desdentados e desletrados do país em que educação é privilégio, o preconceito muitas vezes aparece no sentido oposto. Aquele que fala português direito é que será ridicularizado. E se dominar outra língua… que o digam Leonardo, Ricardo Gomes, até Raí.

“Nasci na roça”, diz Tite, em conversa telefônica. “Mas tive condições de estudar até o curso superior”, completa o técnico de futebol, professor de Educação Física formado pela PUC de Campinas. Tite fala todos os erres e esses. Não escorrega na concordância verbal, não é dado a estrangeirismos. Seu português é correto como é, em regra, o que carrega sotaque gaúcho. Aí começa o problema. Há quem pense que “a imprensa” o trata com benevolência justamente por isso. É o primeiro passo para o conceito formado com maldade.

Num ambiente caracterizado pelo mau trato ao idioma, o diferente se transforma em filósofo. Digamos que Tite tem sua parcela de responsabilidade. O uso de termos não convencionais em entrevistas coletivas criou uma espécie de glossário, que foge a seu controle. Expressões como “jogador terminal” e “treinabilidade”, por exemplo. Mas no departamento das ideias que dão errado, as que estão carregadas de boas intenções são as que machucam mais.

É evidente que o tal “jogador terminal” não é um boleiro em fim de carreira. É o homem de finalização de jogadas, aquele que termina o lance. Também deveria ser evidente que “treinabilidade” não é neologismo. Nem poderia. A palavra existe, é um princípio, um termo muito utilizado no ambiente acadêmico. Tem a ver com a capacidade de um indivíduo de ser treinado.

E o pior, ou melhor, é que Tite fala(va) assim porque imagina(va) que a conversa ficaria melhor, mais rica. “É uma tentativa de aproximar as pessoas do nosso vocabulário, para ampliar a discussão”, pondera. “Mas vou prestar atenção nisso, porque estou sendo mal interpretado”.

Está mesmo. Por mau humor, antipatia, preguiça, é muito mais fácil aplicar o carimbo. Elevar o nível do debate é incomparavelmente mais complicado. “Uma vez estive na Argentina com o Internacional e vi um programa na TV em que o nosso time foi dissecado taticamente”, conta Tite. “Aqui a gente quase não vê isso, são raras as exceções”, completa.

Os jogadores que trabalham com Tite não têm nenhum problema para compreendê-lo. A bem da verdade, sua terminologia no vestiário e no campo é outra, mais simples. A missão de um técnico, afinal, é fazer a mensagem chegar. Ele só não achava que o mesmo cuidado fosse necessário quando estivesse diante de gente cuja missão é a mesma. Não deveria ser.

E aquele glossário que leva seu nome, como se resultasse da pretensão de formar um vocabulário pessoal, incomoda. Muito. “Eu me sinto pessoalmente desrespeitado”, diz Tite.

21 comentários para “COLUNA DOMINICAL”

  1. Marcos Vinícius disse:

    Aí.André,lembra do Dr. Enéas Carneiro,aquele do “O meu nome é Enéas!”?Ele era um dos poucos homens públicos que dominavam perfeitamente o uso do nosso vocabulário,e era ridicularizado,também,por isso.

    Certa vez vi uma entrevista do homem,um cara simplesmente brilhante,mas com umas idéias,em se falando de política,nacionalização e atributos de um presidente,digamos,meio anticonvencionais.Mas uma coisa que me chamou a atenção na entrevista foi uma frase que ele disse,ao ser questionado sobre sua forma de se expressar e seu amplo conhecimento da língua portuguesa.

    “Dominar a língua portuguesa é privilégio de poucos políticos.E os que conseguem fazer isso são ridicularizados.”

    Pra se ter uma idéia,certa vez ele participou de um humorístico,sendo entrevistado por uma apresentadora (que se faz de) burra,e usou o termo “contracenso”.Virou motivo de piada.

    Num meio onde não estamos acostumados a ouvir certas frases,ou palavras,qualquer coisa diferente do usual vira motivo de piada.ou taxamos alguém por se expressar de forma diferente da maioria.Tite é um cara letrado,culto,e que trabalha em um meio onde o mais comum é ouvir gritos e palavrões.Como ele foge dos padrões dos nossos boleiros,foi taxado.

    O que é uma pena.

    “Não sou boca para esses ouvidos”(Assim Falava Zaratustra. Frederico Nietzsche)

  2. Anna disse:

    Gosto muito do Tite. Bela coluna que fala da comunicação, de seus ruídos e de seus preconceitos.

  3. Jade disse:

    Você escreve muito bem e escolheu um excelente personagem para retratar na sua coluna com um adequado feeling.

  4. Jose disse:

    Logo, logo, Tite será reconhecido pelo seu competente trabalho.

  5. Marcel Souza disse:

    Eu não gosto muito do Tite como técnico, mas é ridiculo esse preoconceito que ele e os outros que você citou sofrem. Aqui no Brasil é assim, é bonito o cara falar errado, ser bronco, mostrar a tal “origem humilde”.

  6. BASILIO77 disse:

    Falta de assunto, acho que é isso.
    Eu que sempre critico a imprensa, messe caso peço paciência…as vezes falta assunto e eles acabam se pegando nessas bobagens.
    Há momentos em que se critica o que fala e veste de maneira mais rebuscada e há momentos em que se critica o estilo mais “largado”.
    Joel Santana é um exemplo de um bom treinador que não o levam muito a sério por ter uma postura mais de “largado”.
    A imprensa as vezes acha que tem que analisar…julgar TUDO…quando apenas tem que comentar o que interessa de fato, que é o resultado do trabalho, o que vemos em campo, no caso dos treinadores…pouco importa que roupa usa, como fala e se usa uma prancheta à beira do campo.
    Abraço.

  7. Kurt disse:

    O texto exemplifica que a maioria realmente não entende bem o que lê ou o que escuta, quando alguém utiliza nossa língua da forma correta, porém com um vocábulo menos usual…. ou melhor, mesmo quando o vocábulo é simples, gera-se confusão. Como é o nome disso mesmo????

  8. Paulo Pinheiro disse:

    Recado mais que direto à crônica esportiva.

    Parece complexo de vira-lata. Mas o nível não sobe por falta de vontade ou falta de capacidade? Será que não é necessária uma “peneira” mais severa nos meios de comunicação? Será que a exigência do diploma de jornalista é mesmo “discriminatória”?

    O Marcel foi muito feliz ao lembrar dessa questão da supervalorização da “origem humilde”. Este é o ponto: não importa a sua origem; importa pra onde você está indo. Se você quer ser melhor empregue esforço pra isso!

  9. Marcelo disse:

    André,
    Mudando de assunto, faz tempo que você não fala de basquete hem! E eu sei que você gosta! Lembro que você disse um tempo atrás que para você LeBron James é o melhor jogador atualmente. O que está achando do super time do Miami? É tipo um Real Madrid da NBA? Quem é seu favorito para esse ano? Abraços!

    AK: Não existe outro jogador como LBJ. Nunca existiu. A combinação de tamanho, força e talento é inédita. O que não significa que ele seja imune aos maus momentos, como agora. O time também vai mal, joga sem confiança e já teve seus pontos fracos (falta de uma presença dominante no garrafão, dificuldade para marcar um bom PG, problemas quando o jogo fica restrito à meia-quadra) identificados pelos adversários. Meu favorito no Leste, desde o começo da temporada é Boston. No Oeste, Spurs/Lakers. Mas aposto que o Heat vai longe nos playoffs. Um abraço.

  10. mauro alvim disse:

    Voce esta certo, caro André,mas “jogador terminal” é uma firula. Artilheiro, matador, goleador, centro avante, o nove, sao termos que não carecem de legenda.

  11. Rodrigo Neves disse:

    André,

    Cadê o Rivaldo?? Quando ele estreiou pelo São Paulo, ele fez um gol meio que na sorte e alguns muitos jornalistas babaram ovo para o “craque” Rivaldo. Te pergunto?? A falta de verdadeiros craques faz com que qualquer jogadinha feita por ex-jogador em atividade seja endeusada??

    AK: Lamento que sua aparente antipatia por Rivaldo interfira na análise. Rivaldo fez um gol de craque, que é a palavra que melhor define sua carreira. Carreira que está no fim, observação obrigatória em qualquer comentário sobre ele. Um abraço.

  12. Rodrigo disse:

    Nunca fui muito fã do Rivaldo, mas acho engraçado o pessoal que pega no pé da imprensa quando dizem que Rivaldo, Ronaldo ou Ronaldinho “fizeram um gol de placa” ou coisa do tipo. Quando Ronaldo fez o gol por cobertura contra o Santos, choveu de gente dizendo que um jogador tinha marcado gol igual no campeonato pernambucano (salvo engano) e ninguém falou nada. É esse o ponto: posso tocar Stairway To Heaven na guitarra, nota por nota, com os mesmos efeitos e tudo mais, mas ninguém me pagaria para ver isso. E para ver o Jimmy Page, quantos já não pagaram? Não basta fazer, tem que saber fazer com arte.

    AK: A questão é o repertório. Quando um jogador mediano faz um golaço, a gente diz que ele fez  um “gol de craque”, algo que distoa. Quando um craque faz um golaço, é mais um. Um abraço.

  13. Marcos Vinícius disse:

    André,já que vc fugiu do tema…

    Rapaz,concordo que LeBron James é um baita jogador.Não acompanho a NBA,mas vejo alguns jogos,e os melhores momentos de outros.Mas daí a vc dizer que nunca existiu outro jogador como ele…amigo,menos.

    Vc lembra de um camarada chamado Ferdinand Lewis Alcindor?

    E de outro camarada,chamado Michael Jeffrey Jordan?

    Esses sim,foram,na minha opinião,jogadores que fizeram história.Escrita em letras douradas.

    LeBron ainda está escrevendo a dele.E tem tudo para ser um best seller.Mas esses dois acima citados foram ícones de uma época.

    Discordo de vc.Só pra variar.

    AK: Na história da NBA, não há outro jogador que reúna as características de James. Isso não é uma questão de opinião. E nem significa que ele será melhor do que os outros. Um abraço.

  14. Marcos Vinícius disse:

    Mas como não é questão de opinião?

    Vc acha que LBJ é o jogador mais completo da história da NBA.

    Ok,Kareem não era extamente um cara forte,parrudo,de presença física.Tecnicamente era insuperável,mas não era forte.

    Mas Michael “Air” Jordan era completo em todos os sentidos.E tecnicamente superior não só a LeBron,mas a qualquer mortal que pratique ou tenha praticado basquete!

    AK: Não ponha palavras no meu teclado. Vou repetir o que escrevi: até hoje nenhum jogador apresentou tal combinação de força, tamanho e talento. Um abraço.

  15. Marcos Vinícius disse:

    “AK: Não ponha palavras no meu teclado.”

    Rapaz,nunca tinha ouvido ou lido esse termo.

    Não gostaria,mas não gostaria mesmo,de alimentar uma discussão,mesmo que amigável.
    Grande abraço,e até a próxima.

  16. Willian Ifanger disse:

    Também concordo que o futebol é muito pobre nesse aspecto. Entrevistas com jogadores são raramente aproveitáveis, ficando apenas o lado “pitoresco” da conversa. Mas tem muita gente da mídia que adora isso.

    Só acho as vezes que o Tite força a barra e usa palavras e expressões desnecessárias. E acaba virando um personagem pitoresco também. Nada contra a língua ou escrita culta, normativa. Mas existem situações/ambientes em que o coloquial se enquadra de melhor maneira.

    Mas antes alguém que faça pensar, do que alguém que faça doer os ouvidos.

  17. Klaus disse:

    André, simplesmente admiro sua capacidade de auto-análise sobre o fazer jornalístico, principalmente o esportivo. No fundo, você e o Tite tentam a mesma coisa: a elevação do nível profissional de sua área de atuação – uma tentativa que, aparentemente, não tem sido valorizada como deveria.
    Um abraço.

  18. Marcos Nowosad disse:

    Andre’, alguem ja’ mencionou isso num post anterior (e ja’ estou preparado para levar pedrada tambem por esse meu comentario), mas tem certeza que voce nao anda estressado demais? 

    Ultimamente, algumas de suas respostas aos leitores tem sido bem secas e rispidas. 

    Eu sei que voce ja’ respondeu que “responde no mesmo tom do comentarista”. Mas, entao, permita-me discordar de que em alguns casos voce tem avaliado mal o tom e a “intencao” do comentarista, respondendo de maneira desproporcionalmente rispida ao tom em que a discussao se encontra.  

    Marcos Vinícius (acima) tentou comecar uma discussao legal e amigavel sobre o Miami Heat e o LeBron James e, depois de uma troca de ideias interessante,  voce o “cortou”  inesperadamente, de maneira brusca com um “Não ponha palavras no meu teclado”. Ele sentiu o “clima de mal-estar” e sabiamente encerrou o bate-papo.

    Como disse, se quiser dar “pancada” em cima desse meu comentario, fique a vontade. Pode ate’ ajudar voce a descarregar o seu stress atual e aliviar a pele dos outros leitores… :-)

    Eu sou de paz e gosto muito do seu blog. Por isso gostaria que ele continuasse a manter a alta qualidade e alto nivel de discussao que tem atualmente, entre blogueiro e comentaristas, coisa rarissima hoje em dia nos blogs esportivos. 

    Abracos,
    Marcos

    AK: Obrigado pelo comentário. Mas, como fiz no outro, te digo que está tudo tranquilo. “Não ponha palavras no meu teclado” é algo que já usei outras vezes, no bom humor. No caso em questão, o comentarista me “acusou” de algo que eu não escrevi. Obviamente posso errar na avaliação. Dessa vez, minha intenção não era ser ríspido. Um abraço.

  19. Teobaldo disse:

    Sou frequentador do blog e, nas respostas do AK, avalio que as “interações via teclado” são sensivelmente prejudicadas pela falta do “olho no olho” ou de “não se ouvir o que foi digitado”. Isso leva, por vezes, à troca de farpas. Um abraço a todos.

  20. André Bastos disse:

    Vou aproveitar o gancho e dar uma alfinetada sobre King James.

    Ele pode reunir todas essas características que você e os demais analistas da NBA listam.
    Mas na hora que foi chamado para ser O Cara do Cavaliers negou fogo. Direito dele, claro.
    Preferiu dividir o fardo com D-Wade e CB1, novamente, direito dele.

    Ele tem tudo para estar na história dos melhores da NBA, mas precisar ter a responsabilidade de ser o grande nome de um time, fazer jogadores medianos elevarem seu nível pelo simples fato de dividir a quandra com ele. Isso ainda não conseguiu.

    Black Mamba “brinca” com King James.
    Quando Shaq deixou o Lakers muitos duvidaram se Kobe teria o que é necessário para ser o Team Leader. Não demorou muito e ele conseguiu mais anéis de campeão, sendo MVP, enfileirando mais de 40 pontos em playoffs e por ai vai.

    Na minha humilde opnião LBJ precisa ser o Big One do time para ser imortalizado, e ainda falta muito.
    Já KB já foi até comparado a Jordan.

    Reunir todas as caracteristicas não significa dizer que o cara vai ser o maior de todos.
    Como exemplo R9 era forte, veloz, extremamente técnico e não é unanimidade sobre o melhor de todos os atacantes.

    Bom, já deixei claro pra quem torço, né?…rsrsrs…talvez esse lado torcedor até invalide tudo que escrevi.

    SRN!

    AK: Vou repetir o que escrevi na época da ida do LBJ para Miami: cada um sabe o que faz com sua carreira, e isso não se discute. Mas os grandes legados da NBA foram construídos por jogadores que fizeram história em SEUS clubes. O Miami Heat provavelmente nunca será o time de James. Um abraço.

  21. Marcos Vinícius disse:

    Só para tentar esclarecer o ocorrido:
    Não é que eu tenha “acusado” vc de algo que não tenha escrito.Mas entendi que a combinação encontrada em LBJ por vc citada faz dele um jogador completo.
    Quanto ao “não ponha palavras no meu teclado”,vindo de quem vem pode ter duas conotações:Bom humor e crítica.Por via das dúvidas,e também pelo histórico de discussões nem sempre amigável de ambos,preferi encerrar.Não entendi que houve rispidez,mas antes que chegasse a tal ponto…é melhor não pagar pra ver.

    Gosto do blog.Se não fosse assim,não visitaria e postaria comentários regularmente.
    Mas,como vc mesmo disse,tudo tranquilo.

    Abraço,e até a próxima.

    AK: Abraço. Até.

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