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Arquivo de agosto de 2008

COLUNA DOMINICAL

domingo, 31 de agosto de 2008

Talvez você tenha lido, na coluna da jornalista Mônica Bérgamo (Folha de S. Paulo, anteontem), uma pancadinha do Ministério do Esporte na Confederação Brasileira de Basquete. O ministro Orlando Silva disse que o basquete será um dos principais alvos da reestruturação do repasse de verbas governamentais aos esportes olímpicos. A CBB recebe R$ 2 mi por ano, fora o patrocínio da Eletrobrás, para fazer uma adaptação particular do filme “Querida, Encolhi as Crianças”. A Seleção feminina era o “álibi” da atual administração. Bronze em Sydney, quarto lugar em Atenas, quarto lugar no Mundial de São Paulo. O décimo-primeiro lugar em Pequim (entre 12 times) parece ter irritado o ministro. Muito pior do que o desempenho das mulheres, é o fato da única relação da Seleção masculina com os Jogos Olímpicos ser o aparelho de televisão. O Brasil está perdendo um esporte. E o presidente Gerasime Bozikis não vê nenhum problema em tentar a reeleição, em maio do ano que vem. A maior prova da escuridão em que o basquete brasileiro se encontra é que a opção a Bozikis é estimulante como uma visita ao dentista. Toni Chakmati, presidente da Federação Paulista, é mais do mesmo. Mas não leve a sério a bravata do Ministério dos Esportes. Tem toda a pinta de jogo de cena. O governo precisa divulgar que fez a parte dele, ao distribuir a fortuna que as confederações de esportes olímpicos receberam da Lei Piva nos últimos quatro anos. E dizer que a culpa pelo “sucesso” (o que o COB teve a coragem de afirmar, com cara lavada, aqui é obviamente uma ironia) em Pequim é culpa de quem sacou a grana e não mostrou resultados. Está tudo combinado. Brasília lava as mãos, quem deve vestir a carapuça (COB) finge que nada acontece, e todos voltam, daqui uns seis meses, de mãos dadas. Falando sobre a campanha do Rio 2016. O Brasil é o paraíso dos cartolas. ****** Sabe quem pagou a conta do fracasso do futebol na Olimpíada? Rafinha, lateral do Schalke 04. O clube tascou-lhe uma multa pela rebeldia de jogar em Pequim sem autorização. Valor não revelado, mas são 6 dígitos. E em euros. E os “estadistas” do Corinthians, hein? Mais um projeto malogrado, e outro na agulha. Incrível. Não se anuncia a cura, para continuar a vender o remédio. O US Open pode não parecer um grand slam tão charmoso quanto seus irmãos europeus. Mas é ótimo cobri-lo, mesmo com os jogos entrando pela madrugada. Quem gosta de fast-food, então, tem opções infinitas em volta do estádio Arthur Ashe. Jadel Gregório é ouro. No Grand Prix de Gateshead, na Inglaterra. Tudo na vida é uma questão de timing. A propósito, o triplista brasileiro quebrou um recorde mundial na Olimpíada. Chegou a Pequim com dois técnicos e, no dia da final, não tinha nenhum. Nos últimos quatro anos, Zé Roberto Guimarães mostrou que sabe perder. Desde a semana passada, mostra que sabe ganhar. O que é mais difícil. Amanhã, as “Notinhas Pós-Rodadas” estarão de volta. Bom fim de domingo.

CAIXA-POSTAL

sábado, 30 de agosto de 2008

Reentrada concluída com sucesso. Aos temas da primeira Caixa-Postal pós-Pequim: Marco Aurélio escreve: O assunto é uma declaração do Anderson, que jogou a Olimpíada no meio de campo do Brasil, e foi mal. Perguntado sobre como ele reagia às críticas da imprensa, ele simplesmente disse que “quem me critica deve ganhar em toda a vida o que eu ganho em um ano no Manchester”. Pergunto: o que uma coisa tem a ver com a outra? Que caráter é esse dos nossos jogadores de futebol que escancaram que só estão lá pela grana mesmo, e que se dane o torcedor (ou consumidor)? Que criação deslumbrada teve este garoto? Ele se acha acima do bem e do mal só porque joga bola e ganha bem? Qual contribuição efetiva para o mundo, ou para as pessoas, ele pode dar com esta resposta cretina e infantil? Resposta: Não cobri o futebol na Olimpíada, e não li esta declaração do Anderson. Se ele realmente disse isso (e uso aqui o se não porque duvido, mas apenas porque não vi com meus próprios olhos), é triste. Concordo com todas as indagações que você fez, ainda que esse tipo de “raciocínio” seja muito frequente no futebol. Jogadores constumam usar o valor do salário para humilhar colegas de profissão em campo, portanto não surpreende que pensem dessa forma sobre quem “ousa” criticá-los. Mesmo que, obviamente, uma coisa nada tenha a ver com outra. Para alguns, como parece ser o caso do Anderson, o mundo se resume a isso. É pouco, não? ****** Helio escreve: A “Era Bernardinho” poderá ser dividida em pré e pós-Ricardinho? Resposta: Acho que o mais correto seria dizer pré e pós-briga com Ricardinho. Mas a resposta só virá com o tempo. Como Bernardinho continuará comandando a Seleção (e não há nenhum motivo para que não seja assim), os resultados futuros mostrarão se a ausência do levantador fará tanta diferença. É importante lembrar que uma medalha de prata olímpica é uma conquista enorme (lembra da nossa “geração de prata” dos anos 80? Era um baita time), e que a derrota para os EUA na final poderia ter acontecido com Ricardinho no time. Só quem tem poderes paranormais pode afirmar que as coisas seriam diferentes com ele em Pequim. ****** Renato escreve: Os recordes mundiais quebrados na Olimpíada, principalmente no atletismo e na natação, não sugerem o uso de substâncias proibidas? Resposta: Essa é uma maneira de olhar para resultados tão expressivos, é uma pergunta que está sempre presente. Por outro lado, os Jogos de Pequim foram marcados por um rigoroso controle anti-doping, até com exames de sangue. Usain Bolt e Michael Phelps, os dois maiores nomes da Olimpíada, tiveram de conviver com esse tipo de questionamento. A resposta depende se você acredita que, no esporte de alto rendimento, todos são inocente até que se prove o contrário. Ou se você acredita no inverso. ****** Mauro escreve: Comeu muita coisa estranha na China? O que foi mais difícil de encarar? Resposta: A coisa mais estranha que comi foi uma pizza comprada num supermercado, dessas de descongelar. Felizmente, não tive de recorrer aos excessos da culinária local: escorpiões, gafanhotos, casulos de borboleta e similares. Almocei no Centro de Imprensa (comida internacional) na grande maioria dos dias, e jantei em restaurantes “não-chineses”, ou em casa. Nesse aspecto, foi muito mais tranquilo do que eu imaginava. Minha única incursão na gastronomia chinesa foi o famoso pato, que é imperdível. ****** A Caixa-Postal está de volta a seu ritmo normal. Muito obrigado pelas mensagens. (e-mails para a Caixa-Postal do blog: akfouri@lancenet.com.br, ou clique no link do lado direito da página)

SAUDAÇÕES DO PORTÃO E-7 DO AEROPORTO DE PEQUIM

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Embarcando daqui a pouco para o Brasil. Escala de uma hora em Barajas, Madri. Em Guarulhos por volta das 16h de quinta-feira. Em casa quando o trânsito paulistano permitir. Mas felizmente, na volta, o vôo certo para dormir é o primeiro, quando é noite. Livros, revistas, filmes e joguinhos farão a parte deles no segundo trecho. Até amanhã.

FIM

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Ontem entrei pela primeira vez no Cubo de Ouro, arena de basquete que os chineses construíram aos moldes dos ginásios da NBA. Foi até uma empresa americana a autora do projeto. O lugar é fantástico, claro. Estava eu, momentos antes do início da final do basquete masculino (jogaço entre EUA e Espanha, 117 a 108), admirando a quadra e comemorando o privilégio de estar ali. O jogo começou e um garoto de 17 anos chamado Ricky Rubio (ainda falaremos muito dele), passando a bola por trás do corpo, fintou Jason Kidd como se ele fosse um qualquer e fez uma bandeja para a Espanha. Pouco depois, Dwyane Wade, armador americano, roubou uma bola na meia quadra e cravou de costas. A pessoa que estava do meu lado (na posição de narração de uma TV da Bósnia, que não foi usada), chamada Pedro Bial, segurou o meu braço e disse “E ainda nos pagam salário para ver isso!” Pois é. Quem anda por este blog sabe que é exatamente o que penso. A frase do Bial resumiu o que foi esta Olimpíada. Vinte dias de momentos que eu pagaria para ver. Então aqui vai uma listinha. A ordem não importa. Dez momentos inesquecíveis de Pequim 2008: – A cerimônia de abertura (não acho que será superada algum dia. Se for, melhor para nós) – A final do revezamento 4 x 100m livre masculino (cinco times nadando abaixo do recorde mundial, com Jason Lezak tirando quase um corpo de vantagem de Alain Bernard na última perna) – A medalha de bronze de César Cielo nos 100m livre (foi só o começo) – A medalha de ouro de César Cielo nos 50m livre (a primeira de um nadador brasileiro) – A chegada dos 100m borboleta (Phelps um centésimo mais rápido) – Usain Bolt nos 100m rasos (ouro e recorde mundial, brincando no final) – Usain Bolt nos 200m rasos (ouro e outro recorde mundial) – A medalha de ouro de Maurren Maggi (por um centímetro) – A medalha de ouro do vôlei feminino (só perdeu um set em todo o torneio) – A final do basquete masculino (um dos maiores jogos da história olímpica) E assim, encerramos nossa cobertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. Obrigado a todos que estiveram por aqui, e ajudaram a fazer este blog durante a Olimpíada. Vou descansar por alguns dias.

PRATA, PARA VOLTAR AO TOPO

domingo, 24 de agosto de 2008

Se a seleção brasileira de vôlei masculino tivesse conquistado a medalha de ouro neste domingo, estaria no olimpo dos esportes coletivos. Seria, oficial e eternamente, um dos maiores times da história. De qualquer esporte. Bernardinho falou sobre o assunto em algumas entrevistas, e esse legado certamente estimulava seu time. Não que a medalha de prata retire a seleção que ganhou quase tudo o que disputou, com basicamente o mesmo grupo, da conversa sobre times que marcaram época. Mas o ouro, a segunda visita seguida ao topo do mundo, “fecharia” a caminhada dos atuais jogadores com o máximo de glória. A medalha de prata é misteriosa. É resultado de uma derrota e, por isso, um orgulho que demora a chegar. Ganha-se o ouro e o bronze. Perde-se a prata. Lógico que é difícil ver isso agora, mas é muito bom para o esporte que outro time tenha conseguido alcançar o nível que o Brasil mostrou nos últimos anos. E não é de hoje que os Estados Unidos incomodam a seleção brasileira. A barra do voleibol mundial foi elevada pelos americanos (3 x 1: 20/25, 25/22, 25/21 e 25/23) neste domingo. Buscar novas alturas é a missão de quem pretender desbancá-los daqui a quatro anos. Não há nenhum motivo para duvidar de que o Brasil pode fazer isso. Principalmente porque Bernardinho disse que continuará no comando de uma das seleções mais vitoriosas que já vimos. Se não for a mais. Às vezes, não há nada melhor do que uma frustração para nos levar adiante. Uma medalha de prata, por incrível que pareça, é capaz disso.

OURO PARA QUEM MERECE

sábado, 23 de agosto de 2008

Minha coluna no Lance! de hoje é sobre uma conversa que tive quatro anos atrás. Na cafeteria da ESPN Brasil, enquanto aguardávamos o início de uma entrevista, José Roberto Guimarães e eu conversávamos sobre o que tinha acontecido duas semanas antes. A inexplicável derrota da seleção brasileira de vôlei feminino para a Rússia, na semifinal da Olimpíada de Atenas. Zé Roberto estava devastado pela eliminação. Quando perguntei se ele pretendia continuar como técnico do time, ele respondeu que não sabia. “Se continuar, terá que ser com um time comprometido com um único objetivo, que é ganhar o ouro em Pequim”, ele concluiu. A bola pingou e eu quis saber se o time que foi a Atenas não tinha esse compromisso. Zé Roberto balançou a cabeça. Falou, sem citar nomes, sobre a turminha que reclamava de fazer musculação, “porque o namorado não gosta de braço musculoso”. Ouvi, um tempo depois, uma história sobre uma jogadora que discursava no vestiário, após o jogo, berrando que “não podemos deixar a Mari ficar como a culpada”, falando da novata (à época) que errou bolas decisivas contra as russas. Mari, obviamente, não tinha culpa nenhuma. Ela só apareceu naquelas situações porque outras jogadoras sumiram. E é lógico que quem discursava era uma das desaparecidas. Aposto que ela também fazia parte da turma que se preocupava mais com estética do que com títulos. Teve também o caso dos DVD´s dos adversários, que eram analisados por outro treinador. Normal, até, desde que Zé Roberto soubesse. Mas ele não sabia. Avance quatro anos no tempo, e saiba que a impecável campanha que terminou hoje com a vitória (3 x 1 – 25/15, 18/25, 25/13, 25/21) sobre os Estados Unidos não aconteceu com este grupo por acaso. Há um motivo para a primeira medalha de ouro olímpica do Brasil, num esporte coletivo feminino, ter sido conquistada pelas atuais jogadoras. Esse motivo é o fato delas formarem um time só. A vitória deste sábado (dia em que Mari completou 25 anos) não muda nada a respeito daquela terrível noite em Atenas. Apenas a coloca em seu devido lugar. E acerta os ponteiros com quem merece viver a alegria de um título olímpico. ATUALIZAÇÃO, 24/08, 11h27 em Pequim – Tecnicamente, como lembraram alguns comentários, o ouro no vôlei não foi o primeiro do Brasil em esportes coletivos femininos. Jaqueline e Sandra ganharam o vôlei de praia, em Atlanta 96. Quanto ao tamanho de cada conquista, é uma questão de opinião.

MÁGGICA

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Confesso que não achei que veria uma medalha de ouro de Maurren Maggi. Esperava vê-la brigando pelo pódio. Mas quando ela respondeu ao primeiro salto da russa Tatyana Lebedeva (6.97m) com um de 7.04m, todo mundo no estádio percebeu o que estava acontecendo. Uma mensagem às adversárias: “vim para ganhar”. Se fosse o contrário, se a russa (ouro em Atenas) tivesse desestabilizado a concorrência com um primeiro salto tão bom, o mundo aplaudiria a estratégia. Talvez não se diga o mesmo sobre Maurren porque, na verdade, não era esse tipo de exibição que se esperava dela. Mas foi exatamente isso que ela fez. Os cinco saltos queimados, seguidos, de Lebedeva, mostraram como ela estava arriscando, indo para o tudo ou nada. Maurren teve o mesmo comportamento, mas com a “tranquilidade” da liderança. Ela tinha dito, no dia da classificação, que gostaria de saltar mais do que sete metros na final. E que, se conseguisse, uma medalha estaria garantida. Disse e fez. O primeiro salto foi o de ouro. Prova final do amadurecimento de Maurren como atleta. Nélio Moura, seu técnico (que também treinou o campeão olímpico Irving Saladino, do Panamá), disse que, em outros tempos, o primeiro salto de Lebedeva poderia ter feito Maurren “pirar”. Quando perguntamos o que ele pensava, no final, quando a russa tentava superar a marca (último salto foi de 7.03m), Nélio falou que Lebedeva estava no limite. E que Maurren teria um salto ainda melhor, se fosse preciso. Quando o placar mostrou que Maurren Maggi tinha se transformado na primeira atleta brasileira a ganhar uma medalha olímpica, e de ouro, por um centímetro, a reação geral foi “isso está mesmo acontecendo?!” É o que pensamos quando presenciamos momentos históricos como o desta sexta-feira. Maurren também merece todos os elogios pela comemoração simpática e emocionada. Acho que ela ainda não tocou na areia.

DOZE ANOS DEPOIS

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Eu me lembro do dia em que Michael Johnson quebrou o recorde mundial dos 200m rasos, na Olimpíada de Atlanta. Naquele dia, o “homem das sapatilhas douradas” se transformou no velocista que eu mais gostei de ver em ação. Nada a ver com as sapatilhas, e sim com a postura que lhe deu o apelido de “O Pato”. Peito estufado, cabeça “para trás”, Johnson corria com técnica incomparável. E vencia com tanta facilidade que era até engraçado. Em Sydney 2000, consegui dar uma escapada (espero manter meu emprego após a revelação) até o Estádio Olímpico, apenas para ver a final dos 400m rasos, prova que ele dominou por anos. No dia do recorde nos 200m em 1996, o momento que ficou marcado na minha memória foi a reação de Johnson. Ao olhar para o placar eletrônico, cruzando a linha de chegada, ele jogou os braços para o alto para comemorar a nova marca. Um velocista usando sapatilhas douradas, quebrando o recorde mundial dos 200m e celebrando como se fosse um gol. A cena se repetiu ontem, doze anos depois. E é apropriado que Michael Johnson, em Pequim como comentarista, tenha visto, in loco, o jamaicano Usain Bolt roubar dois centésimos de segundo (19″30) de seu recorde, o mais antigo do atletismo de velocidade. O Ninho de Pássaro testemunhou uma mudança de eras, com um fantástico velocista tomando o lugar de outro. Creio que não sou o único a comemorar a “chegada” de Usain Bolt. Assim como Johnson, Bolt é diferente dos outros. Enquanto o americano lembrava um pato, o jamaicano tem mais a ver com um jovem dobermann, correndo meio desengonçado, com os braços soltos. Mas os dois são muito semelhantes no que fazem com os adversários. Michael Johnson foi o primeiro homem a vencer os 200m e 400m rasos na mesma Olimpíada. Usain Bolt foi o primeiro a vencer os 100m e os 200m, desde Carl Lewis em 1984. E o primeiro a estabelecer novos recordes para as duas provas, na mesma edição dos Jogos. No sábado passado, ele venceu os 100m brincando no final, talvez porque o recorde já era dele. Na classificação dos 200m, correu com esforço estimado entre 30 e 40% pelos jornalistas jamaicanos que o conhecem desde que ele foi campeão mundial júnior, com 15 anos. Ontem, o mundo se impressionou com o que ainda não tinha visto: Usain Bolt com todos os motores ligados. A prova dos 200m é sua especialidade, seu evento favorito, e (era) o recorde que ele perseguia. Acostume-se a ver seu nome escrito ao lado de números inéditos. Meus colegas caribenhos dizem que Bolt já correu os 400m algumas vezes, com tempos na casa dos 43 segundos. O recorde mundial, estabelecido por Michael Johnson em 1999, é 43s18. Como escrevi aqui em maio, Usain Bolt tem o nome certo para um velocista profissional. Um dos significados de “bolt” é raio. Ele faz jus ao nome. Deixa o mundo de cabelos em pé.

A GUERRA DOS TÊNIS

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O repórter jamaicano que é praticamente o porta-voz de Usain “Lightning” Bolt para a imprensa mundial, me contou ontem que a Puma vendeu 2 milhões de pares de tênis depois que Bolt ganhou os 100m rasos, no sábado passado. Em uma hora. Ao mostrar suas sapatilhas douradas na foto ao lado do placar eletrônico, exibindo seu recorde mundial de 9s69, Bolt desencadeou a explosão de vendas ao redor do mundo. Também deu à empresa alemã de artigos esportivos que o patrocina, um saboroso momento na guerra de marketing que é travada na Olimpíada, especialmente no atletismo. Em número de atletas exibindo sua marca nos pés, a Puma não tem como rivalizar com as gigantes Nike e Adidas. Mas, ao contrário do que se pode imaginar, patrocinar mais gente não siginifica necessariamente vencer a corrida comercial. A final dos 100m era vista como “a batalha dos tênis” em Pequim, um duelo entre o americano Tyson Gay (Adidas), e os jamaicanos Asafa Powell (Nike) e Usain Bolt. Era também o momento específico que motivou a concorrência entre Nike e Puma para fornecer material para os velocistas jamaicanos. A Puma conseguiu fechar contrato com a Federação Jamaicana, para fazer o uniforme que os atletas usam na Olimpíada. Mas a grande maioria dos velocistas assinou com a Nike. Usain Bolt foi o único que acertou com a empresa alemã. Como você deve lembrar, Tyson Gay não passou das semifinais dos 100 metros. Asafa Powell terminou em quinto lugar, uns cinco minutos atrás de Bolt. Nike e Adidas já tinham se deliciado com o final da Cerimônia de Abertura, quando o ex-ginasta Li Ning correu no topo do Ninho de Pássaro e acendeu a pira olímpica. Ning (3 ouros, 2 pratas e 1 bronze em Los Angeles ´84) é uma lenda do esporte chinês, que fundou uma empresa de material esportivo com seu nome, porque não gostava de usar marcas estrangeiras. A Nike levou outro golpe na segunda-feira, quando Liu Xiang (ao lado do gigantão Yao Ming, o principal garoto-propaganda da empresa americana nos Jogos), ouro em Atenas nos 110m com barreiras e ídolo nacional, abandonou a competição por causa de uma lesão no tendão de aquiles do pé direito. Enquanto isso, na Alemanha, os executivos da Puma esfregam as mãos pensando na final dos 200m rasos, que acontece nesta quarta-feira. Aí vem mais uma medalha de ouro, talvez mais um recorde mundial, e muitas fotos das sapatilhas douradas. Na semifinal de ontem, Bolt deu outra amostra de que a prova dele é diferente da dos adversários. O americano Shawn Crawford se matava para se aproximar, na reta. Bolt o olhou com cara de como-você-ousa-estar-aqui?, e acelerou de leve. Comentei com o colega jamaicano que “amanhã (hoje) é a grande noite”. A resposta dele: “Engano seu, amigo. Só há grandes noites quando há competição”.

MICO CHINÊS

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Não sei se uma atleta saltar com uma vara diferente da ideal é o equivalente a um jogador de futebol vestir uma chuteira que não lhe serve. Ou um tenista jogar com uma raquete que não é a dele. Talvez sejam situações parecidas, talvez não. Independentemente disso, é um completo absurdo que os organizadores de uma competição percam o equipamento de alguém. Ainda mais, numa Olimpíada. E não importa que Fabiana Murer use mais varas do que as outras atletas. Não há nada de errado nisso. Errado é obrigar uma saltadora a “se virar”, justamente no ponto mais alto de sua vida esportiva. Também não sei se Fabiana ganharia uma medalha se o problema não tivesse acontecido, mas esse não é o ponto. O ponto é que as condições devem ser iguais para todos. Durante o imbróglio de ontem no Estádio Olímpico, o que eu pensava era o que aconteceria se a vara que sumiu fosse de… Yelena Isinbayeva. Já pensou? O absurdo seria exatamente o mesmo. Mas e o desfecho, seria igual?