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O LINK DA LIGA

por André Kfouri em 21.out.2014 às 22:04h

Quarenta gols (eles estão aqui, jogo a jogo) em oito partidas.

Quarenta! Um recorde na Liga dos Campeões da Uefa, que abriu a terceira rodada da fase de grupos nesta terça-feira.

Em homenagem a um dia especial, trataremos dos jogos por ordem de gols.

Oito gols: além do placar de 7 x 1 (jogo do grupo E) , a vitória do Bayern sobre a Roma teve mórbidas – dependendo do ponto de vista, claro – semelhanças com a surra da Alemanha no Brasil na Copa. O primeiro tempo terminou com 5 x 0 para o visitante, com saraivada de gols (23′, 25′, 30’e 36′) em um curto intervalo.

Neuer, Boateng, Lahm, Müller, Götze (banco no Mineirão) e Dante (banco no Olímpico) estiveram em ambos os jogos e podem dizer isso aos descendentes.

Fabulosa exibição do time alemão (63% de posse, 23 finalizações, 6 faltas cometidas), evocando alusões à lendária Holanda do “futebol total”, que Pep Guardiola classificou como “exageradas”.

Sete gols: o Shakhtar Donetsk mandou 7 x 0 no BATE Borisov (grupo H), também fora de casa. TODOS os gols foram marcados por jogadores brasileiros. Alex Teixeira e Douglas Costa marcaram um cada, e Luiz Adriano, cinco.

Apenas dois jogadores anotaram cinco gols em um jogo da Liga dos Campeões. O outro se chama Lionel Messi.

Sete gols: em Gelsenkirchen, o Schalke venceu o Sporting por 4 x 3, em jogo do grupo G.

O gol da vitória alemã aconteceu nos acréscimos do segundo tempo e foi fruto de um pênalti generosíssimo para o time da casa.

Seis gols: o placar tenístico do dia foi cortesia do Chelsea, que aplicou 6 x 0 no Maribor (grupo G).

O último gol, de Hazard, foi o ponto alto da vitória inglesa. Vale a pena ver o controle ao receber o lançamento pelo alto e a maneira como o belga preparou o chute de pé direito.

Quatro gols: em casa, o Barcelona passou pelo Ajax por 3 x 1 (grupo F) e somou três pontos que se tornaram obrigatórios após a derrota em Paris.

Neymar fez mais um gol com assistência de Messi. Recomendo o passe de Iniesta para Messi, no segundo dos catalães.

Quatro gols: na Rússia, o Manchester City se colocou em situação enrolada no grupo E ao empatar com o CSKA por 2 x 2.

Os ingleses venciam por 2 x 0 e abriram a porta para o empate, que veio em um pênalti duvidoso.

Três gols: vitória do Porto por 2 x 1, em casa, sobre o Athletic Bilbao (grupo H).

Bonita jogada coletiva dos portugueses no primeiro gol. E o goleiro Iraizoz colaborou muito para a derrota do Athletic.

Um gol: no Chipre, o PSG conseguiu a vitória (1 x 0, grupo F) sobre o APOEL graças a um gol acrobático de Cavani, aos 42 minutos do segundo tempo.

Os parisienses lideram o grupo, com um ponto a mais do que o Barcelona.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 21.out.2014 às 6:49h

(publicada ontem, no Lance!)

O SILÊNCIO DOS BONS

Na noite de 13 de novembro do ano passado, o movimento Bom Senso Futebol Clube realizou uma série de protestos na trigésima-quarta rodada do Campeonato Brasileiro. As demonstrações começaram na Arena do Grêmio, onde, antes da partida marcada para começar às 19h30, os jogadores de Grêmio e Vasco apareceram no gramado carregando uma faixa que pedia “um futebol melhor para todos”. Também foi nesta noite que são-paulinos e flamenguistas, por sugestão de Rogério Ceni, chutaram a bola de um lado para outro do campo por quase um minuto, após o apito inicial.

A ideia original era cruzar os braços ou sentar no chão depois que os árbitros ordenassem o começo das partidas, mas a CBF agiu para retaliar os protestos nos jogos das 21h e 21h50. Os quartos-árbitros foram aos vestiários para avisar que quem se recusasse a jogar seria punido com cartão amarelo. Na conversa dos participantes do BSFC via Whatsapp sobre o que fazer, houve quem quisesse suspender a ação, quem pressionasse o grupo para ir em frente, e quem desse ideias, como o capitão do São Paulo. No Maracanã, um outro goleiro manifestou preocupação com seu time.

Jefferson se preparava para enfrentar a Portuguesa, um jogo que o Botafogo não poderia deixar de vencer. Após passar todo o campeonato entre os primeiros colocados, o time corria o risco de perder o lugar no G-4 na reta final (após empate em 0 x 0, foi o que aconteceu). Os quatro companheiros pendurados com dois cartões amarelos poderiam, por causa dos protestos, deixar o Botafogo em situação ainda mais difícil em relação a uma vaga na Copa Libertadores. O goleiro, membro ativo do movimento de jogadores, não queria que a manifestacão terminasse por prejudicar sua equipe. A solução encontrada foi cruzar os braços antes do apito para não arriscar um cartão.

Este é o jogador que o presidente Maurício Assumpção e o diretor de futebol Wilson Gottardo tentam expor à torcida do Botafogo como um profissional ganancioso e despreocupado com o clube. O crime de Jefferson é não abaixar a cabeça para um cartola que não paga impostos ou salários, muito menos para um projeto de executivo que parece ter esquecido como as coisas funcionam no vestiário. O recente “mal-entendido” sobre a participação de Jefferson no jogo contra o Santos apenas aumenta a vergonha do Botafogo por revelar como as coisas são feitas em um ambiente dito profissional. Assumpção e Gottardo adorariam poder estender ao goleiro o mesmo tratamento que deram a quatro jogadores que também não se calavam. Mas com Jefferson a conversa é diferente.

No sábado, botafoguenses de bem invadiram o Engenhão e ameaçaram os jogadores que defendem o clube sem receber remuneração. Não houve agressão por sorte. Os abnegados protetores da instituição entraram no estádio por um portão que estava aberto, justamente em um sábado, dois dias depois da goleada sofrida para o Santos. Um cenário convidativo. Conhecer as origens desse tipo de “cobrança” não a torna mais palatável. É tão revoltante quanto o silêncio de quem realmente gosta do Botafogo.

RELÓGIO

Primeiro domingo com horário de verão e quatro jogos do Campeonato Brasileiro foram realizados, de fato, às 15h. A CBF realmente vive em outro mundo.

PRAIANO

Santos: oito gols em dois jogos no Pacaembu. Não deve ter sido obra do ar paulistano ou do gramado do estádio municipal, portanto devemos considerar a hipótese de (mais) um time acima da média estar em formação no clube da Vila Belmiro. Futebol de ataque, solto, leve, bonito.

PASSOU

A diferença do Cruzeiro para o segundo colocado aumentou em relação à rodada passada, de seis para sete pontos. E esse era um fim de semana “ruim” para o líder, visitante em Salvador enquanto os principais perseguidores estavam em casa. Internacional e São Paulo trocaram de lugar novamente, dando sequência ao rodízio que impede o estabelecimento de um desafiante. Oportunidade perdida.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 19.out.2014 às 9:14h

(publicada ontem, no Lance!)

OS INTELIGENTES

Nada pode ser menos inteligente do que planejar uma “atuação inteligente” quando se tem a opção de escolher como enfrentar um determinado adversário. A melhor alternativa é sempre jogar e tentar vencer, porque quem não tenta se entrega às circunstâncias, à sorte e, como já vimos tantas vezes, ao oponente.

Quando alguém qualifica uma atuação como “inteligente” (o que normalmente se aplica a jogos fora de casa em confrontos de mata-mata), está falando de um time que se colocou em posição de inferioridade técnica e se dedicou a conter o adversário. Na maior parte dos casos, o time em questão obteve um “excelente empate” ou perdeu de pouco. Note: é raro que a tal “atuação inteligente” seja uma vitória. Se o resultado leva à classificação, o técnico se convence de seus conhecimentos táticos e ganha o rótulo de estrategista. Se não, credita a derrota às “coisas que acontecem no futebol”.

Há encontros em que a diferença de potencial é evidente, o adversário é mais forte e não resta outro caminho a não ser o da abnegação defensiva, em busca de “uma bola” que pode ser decisiva. Não é o caso aqui. Falamos de confrontos equilibrados, em que virtudes e defeitos se aproximam e os elencos permitem diferentes formas de atuação. Por algum motivo, convencionou-se que não jogar é um planejamento que minimiza riscos e revela neurônios. A maioria dos treinadores está mais interessada em evitar que o oponente faça do que em fazer. E se orgulha disso.

José Mourinho é o paradigma dessa forma de enxergar o jogo. Talvez por isso lembramos de seus títulos, não de seus times. E esquecemos dos troféus que ele deixou de conquistar mesmo manejando elencos de inegável talento, como se deu em seu período à frente do Real Madrid. De toda forma, o português, posicionado entre os principais técnicos do mundo, certamente está satisfeito com seu currículo. Aqueles que jamais chegarão a semelhante patamar podem dizer o mesmo?

A postura do Atlético Mineiro no confronto com o Corinthians, pela Copa do Brasil, deixou lições valiosas para os estrategistas e os que optam por especular. O que ficará na memória é a partida no Mineirão, os 4 x 1 de virada e contornos épicos. Mas não devemos ignorar o que aconteceu no primeiro jogo. Mesmo perdendo por 1 x 0, o Atlético não deixou de jogar em São Paulo. Levou o segundo gol em uma falha pouco característica do goleiro Victor, na jogada seguinte a uma bola na trave que significaria o empate e transformaria o cenário. Essas, sim, são coisas que “acontecem no futebol”.

Na volta, foi a vocação do time dirigido por Levir Culpi que produziu a segunda maior demolição futebolística que vimos no Brasil em 2014, por coincidência no mesmo estádio. Um tributo à importância da coragem, a ter a bola e gerar momentos. Pois esse é o comportamento que aumenta as chances de coisas boas acontecerem, por menos prováveis que sejam, independentemente do local, do placar e do tempo que resta.

Quem quer algo na vida tem de buscar. Quem quer algo no futebol tem de jogar. Quantas chances o Corinthians teve após o gol de Guerrero no Mineirão?

RARO

O gol de Paulo Henrique Ganso contra o Huachipato é o gol de um jogador incapaz de lances mundanos, comuns. Não se deve esperar dele uma batida na bola do jeito “mais fácil”, Ganso não possui esse tipo de referência. É por isso que o chute chapado de primeira, de fora da área, no canto, imediatamente chama a atenção. Coisa para poucos. E é normal que um jogador como ele divida opiniões. São numerosos os encantados pelo futebol feio.

DEMOLIDORES

O presidente do Botafogo dispensou os jogadores que incomodavam por reclamar dos atrasos nos pagamentos. O diretor de futebol se desentendeu com o goleiro, jogador da Seleção Brasileira. Enquanto isso, o time, quase indigente, se arrasta em um calvário que dificilmente escapará da Série B no ano que vem. É muito mais do que gestão predatória, é uma clínica gratuita de como destruir um clube histórico no futebol do Brasil.

CAMISA 12

por André Kfouri em 17.out.2014 às 9:15h

(publicada ontem, no Lance!)

CORAGEM É TUDO

1 – Antes que fosse possível dizer qualquer coisa a respeito do jogo, Paolo Guerrero alterou novamente o placar do confronto entre Corinthians e Atlético Mineiro. Um gol e meio na Arena Corinthians, outro gol no Mineirão. Fator de desequilíbrio.

2 – O replay confirmou: méritos de Guerrero à parte, Jemerson tem obrigação de fazer melhor o papel dele no lance.

3 – O gol corintiano eliminou a possibilidade de uma decisão por pênaltis, diminuindo ainda mais as chances do Atlético. No lugar de fazer dois gols, os mineiros agora precisavam do dobro. O “eu acredito” ainda não tinha se deparado com uma missão tão difícil.

4 – O empate saiu quando o Atlético era só pressão e o Corinthians tentava jogar longe da própria área. Luan cabeceou como se fosse invisível, o que dá a medida da colaboração da defesa paulista.

5 – E Guilherme – inexplicavelmente solto e fonte dos melhores momentos de seu time – virou o placar com um chute desviado. Meia hora de jogo, e o Atlético voltou a precisar de “só” dois gols.

6 – No primeiro minuto do segundo tempo, Cássio tomou de Maicosuel o gol que provavelmente levaria à classificação atleticana. Lindo passe de Diego Tardelli, ativo como se não tivesse cruzado o mundo para jogar no Mineirão.

7 – Quando parecia que a marcação do Corinthians tinha se acertado e o passar do tempo jogava a favor, Guilherme surgiu livre na área para fazer o terceiro. Aos 29 minutos, o tamanho do trabalho do Atlético se mostrava drasticamente reduzido.

8 – E a noção de que o Corinthians – um time que crê saber se proteger – jamais levaria quatro gols estava por um fio. Ou por mais uma falha em uma noite sofrível no aspecto defensivo.

9 – Falha que veio em um escanteio e permitiu um toque desajeitado de Edcarlos, bola que assumiu uma trajetória estranha até a rede de Cássio. Absolutamente merecida passagem do Atlético às semifinais, mais um tributo à importância da coragem no futebol.

10 – Mano vai dançar?

É MUITO GOL

Os quarenta gols de Neymar pelo Brasil não devem ser subestimados porque ele vive na era da Seleção garota de programas, que joga com mais frequência, onde pagarem. Outros atacantes são contemporâneos dele e não têm quarenta gols. É ridículo “culpar” Neymar por circunstâncias que fogem ao controle dele. E não se trata de comparar carreiras ou importância.

OVNI

A aparição do drone que provocou a interrupção de Sérvia x Albânia, pelas Eliminatórias da Euro 2016, vai gerar uma epidemia de eventos semelhantes, não só em jogos de futebol. A Liga Inglesa já demonstrou preocupação com a possibilidade de objetos voadores aparecerem sobre os estádios do país. Não falta gente desmiolada com vontade de imitar o que houve em Belgrado.

JOGAR É PRECISO

por André Kfouri em 16.out.2014 às 16:02h

O momento crucial do jogo de ontem no Mineirão foi justamente o que sugeriu que tudo estava acabado: os segundos após o gol de Paolo Guerrero.

Na contabilidade de cada time, dois raciocínios opostos.

O Corinthians, orgulhoso de sua capacidade defensiva, concluiu que jamais levaria quatro gols em um jogo só.

O Atlético, condicionado a acreditar sempre, pôs-se novamente a desafiar as probabilidades.

Um time passou a trabalhar para que o jogo terminasse logo. O outro, para que a noite fosse longa. O resultado final não foi um acidente ou obra do acaso.

O futebol é um jogo feito do confronto de ideias e ações, mas acima de tudo é um choque de posturas. O que se faz de um lado do campo determina o que acontece do outro. Atitude é tão importante quanto os demais aspectos.

Neste jogo, pode-se vencer de diferentes maneiras, conceitos e planos. Mas nunca se vence sem coragem. O placar de 4 x 1 a favor do Atlético se explica, também, pela forma como o time mineiro se entregou ao jogo, o contrário do que o Corinthians fez.

Não gosto de recorrer a exemplos que evoquem violência, mas não encontrei comparação melhor: o Corinthians se comportou como menino gordinho e tímido que sofre bullying na escola. As histórias que vemos nos filmes mostram que ele passa o dia levando tapas na cabeça, tem seu lanche roubado e o material violado. Até que, no fim da tarde, chega ao próprio limite, ergue o moleque folgado e o joga a cinco metros de distância.

A diferença é que o Corinthians continuou levando tapas até o final da noite, sem responder. Trêmulo, assustado, cabisbaixo.

A épica atuação do Atlético foi uma homenagem ao espírito livre, ao futebol de ataque, aos times que querem jogar.

Que sirva de lição para quem pensa que outros caminhos podem levar ao mesmo lugar.

O Corinthians se juntou à fila das equipes dissimuladas que decidem especular a partir de um placar que lhes interessa, e terminam duplamente derrotadas. Primeiro, pelo adversário. E depois pelo jogo que ousaram renegar.

O futebol devolve aquilo que você lhe dá.

O Atlético deu tudo.

O Corinthians, nada.

As decisões foram tomadas quando um time, em vantagem por 3 x 0, se considerou vencedor de um confronto que ainda estava em disputa.

O outro, à beira do precipício, resolveu lutar.

Um deles está vivo.

 

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 14.out.2014 às 8:00h

(publicada ontem, no Lance!)

SURPRESA

“O contragolpe é como o amor, se encontra. Não é possível planejá-lo. Planejar o contragolpe é uma bobagem, porque o contragolpe aparece, surge, não se prevê”.

O conceito é um presente de César Luis Menotti, dono de um cérebro privilegiado a quem o futebol bem jogado deve esta e muitas outras reuniões de palavras. O pensamento acima nos ajuda a compreender um dos mistérios do Campeonato Brasileiro de 2014: o time que é capaz de vencer o líder e, três dias depois, perder para o lanterna.

Além da vitória sobre o Cruzeiro e da derrota para o Botafogo, outros dados exemplificam a campanha bipolar do Corinthians. O desempenho contra rivais tradicionais e adversários que habitam a mesma região da tabela é indicativo de uma equipe que não se incomoda com os chamados “jogos grandes”. Mas o inventário de encontros com os piores times da tabela é constrangedor: nenhuma vitória em oito jogos contra Botafogo, Criciúma, Bahia, Coritiba, Vitória e Atlético Paranaense.

A subjetividade de argumentos como o da motivação distinta para enfrentar seus semelhantes não explica o que o Corinthians deixa de fazer contra equipes menores e piores. Difícil crer que um time que tem objetivos e vive sob pressão escolha jogos para se empenhar em um campeonato em que todas as rodadas têm o mesmo valor. Seria, antes de qualquer outra consideração, um sinal de falta de inteligência.

É mais provável encontrar a resposta ao procurar os tipos de jogo com que o Corinthians se depara em cada situação. A dificuldade para iniciar, desenvolver e concluir movimentos ofensivos é evidente contra equipes que recuam para proteger a própria área. Assim como o apetite para aproveitar espaços e erros de adversários que correm riscos ao atacar. Nada no futebol acontece por um motivo apenas, mas parece claro que o Corinthians assumiu o caráter contragolpeador em que se sente mais confortável e se mostra mais competitivo. Talvez não tenha sido uma escolha, mas uma contingência. Em qualquer caso, o preço a pagar é o mesmo.

Times que “optam” pelo contra-ataque dependem de que o contrário lhes ofereça campo. Quando a oferta não é feita espontaneamente, a única maneira de encontrar o espaço é obrigar o oponente a alterar sua postura. E a única forma de fazer isso é marcar um gol. O dilema do Corinthians está justamente aí: como fazer o gol que deixará o jogo à sua feição. É indiscutível o problema de confiabilidade do time nesta questão, intimamente ligada aos pontos deixados em campo em jogos que deveria vencer.

O mais curioso é que há um mistério dentro do mistério. O clássico contra o São Paulo, no mês passado, não é consistente com os padrões de atuação do Corinthians no campeonato. O time igualou o marcador duas vezes, fazendo-se protagonista até mesmo quando o rival recuou em vantagem. E venceu com um lance construído contra uma defesa posicionada. Acaso ou semente?

Voltando a Menotti: “Em qualquer jogo, é fundamental a surpresa, o engano. E o contragolpe é isso: surpresa. Um time apenas contragolpeador não existe”.

TEM CAMPEONATO?

A manchete da rodada não é apenas a goleada que o Flamengo aplicou no líder do BR-14. Pela primeira vez no campeonato, o Cruzeiro deixou de vencer o jogo seguinte a uma derrota. A recuperação imediata após resultados ruins era uma das marcas da campanha do atual campeão. Agora, com o Internacional a seis pontos (e o São Paulo a sete) e uma visita ao Vitória no próximo fim de semana, veremos como o Cruzeiro lida com o tipo de situação contra a qual parecia ter imunidade. Tanto Inter (Corinthians) quanto São Paulo (Bahia) jogarão em casa na jornada 29.

SORRISO FÁCIL

O Brasil venceu a Argentina, que tinha goleado a Alemanha no início de setembro. Foi o suficiente para o pachequismo enterrar o 1 x 7 e declarar a recuperação do prestígio da Seleção Brasileira. Por um lado, é confortante perceber como há quem se contente com tão pouco.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 12.out.2014 às 10:27h

(publicada ontem, no Lance!)

100 DIAS…

… Entre o inferno e as nuvens. Que Amyr Klink nos perdoe pela adaptação do título do formidável livro que relata sua travessia do Atlântico em um barco a remo. Porque estamos falando de outra viagem. Uma viagem em que não há heroísmo ou mesmo coragem: a trajetória da Seleção Brasileira de futebol, de Belo Horizonte a Pequim. Do Mineirão ao Ninho de Pássaro. Do purgatório imposto pelos alemães ao oxigênio contaminado imposto pelos chineses.

E os argentinos? Bem, obviamente este texto foi escrito antes do jogo deste sábado, portanto não há aqui uma tentativa de prever o futuro. E com o máximo respeito ao que disseram os jogadores brasileiros nos últimos dias, qual é a diferença entre vencer, empatar – e ganhar ou perder nos pênaltis – ou perder o “Superclássico das Américas”? Dependendo do seu regime de despertar aos sábados, que pelo menos o Brasil tenha jogado bem. Ou esteja jogando bem. Ou jogue bem.

Convenhamos, a chance não é generosa. Além das dificuldades de sempre (poucos treinos, pouco entrosamento, etc…), eis que esta edição chinesa do “Superclássico” oferece outros perigos ao bom futebol. O fuso-horário é cruel, a qualidade do ar é imprópria até para baratas, o gramado é grosseiro e o caráter competitivo do encontro só permite três substituições. Condições que elevam o “resultadismo” à máxima potência e evocam as raízes mais profundas do “futebol moderno”, seja lá o que isso for.

É uma das expressões prediletas de Dunga, repetida ontem em sua entrevista coletiva pré-jogo. Seria menos preocupante se fosse apenas um problema de vocabulário, mas, como sabemos, é muito mais grave. É uma maneira de ver o futebol que não detecta o vasto território entre vitória e derrota e confunde o que as pessoas que gostam do jogo querem ver. “Se eu quisesse agradar a vocês, diria que vou pra cima”, disse o técnico, na mesma entrevista. Quantos enganos em uma frase curta.

Dunga faz parte de um coletivo de treinadores que criou a meia-verdade de que a Copa do Mundo não apresentou nada de novo. A porção verídica do conceito não exige visão tática além do alcance: realmente não presenciamos uma revolução. Mas os 50% mentirosos pretendem convencê-lo de que os times mais elogiados apenas fizeram bem aquilo que é configuração padrão. Como se a Alemanha não tivesse se notabilizado por um jogo de posse, passe e movimentação constante. A receita não é nova, mas é resultado de uma escolha que poucos fizeram.

Insistir na inexistência dessa escolha é o expediente dos que não querem ser cobrados pelas próprias. Porque é fácil se explicar por intermédio do deserto de ideias que se apoderou do “futebol moderno”. Se faço o que todo mundo faz, não posso estar errado. O insucesso se deverá à falta de sorte, aos mistérios do futebol, ou, na pior das hipóteses, ao “apagão”. Enquanto isso, investiremos nas jogadas de bola parada e na noção de que “não estamos aqui para dar espetáculo ou show, mas para vencer”, como avisou Neymar.

ANIVERSÁRIO

Antes que você aponte o equívoco nas contas: os cem dias do epitáfio do Mineirão só se completarão no dia 16. E, sim, ainda haverá um amistoso contra o Japão – terça-feira, em Cingapura – antes disso. Mas a transcendência de um Brasil x Argentina justifica a antecipação da data comemorativa relativa à pior derrota da história do futebol no Brasil. Uma gigantesca oportunidade perdida para tratar do que somos e do que queremos ser. Quem toma decisões está satisfeito.

FÓRMULA

Além do próprio desempenho, o Cruzeiro caminha para o bicampeonato brasileiro também porque nenhum concorrente se estabeleceu. As ameaças, se é que podemos chamá-las assim, surgiram em um rodízio de perseguidores que não sustentaram o ritmo. O Cruzeiro pode ser dar ao luxo de sofrer derrotas esporádicas, característica dos times que conquistam campeonatos.

CAMISA 12

por André Kfouri em 10.out.2014 às 7:42h

(publicada ontem, no Lance!)

SEM ESCALAS

Os documentos revelados pelo repórter Rodrigo Mattos, em seu blog no portal Uol, sobre as negociações entre a família de Neymar e o Barcelona, ajudam a explicar a preferência do atacante pelo clube catalão. Usado publicamente para prevenir investidas de outras partes, o “sonho de jogar ao lado de Lionel Messi” estava acompanhado de um acordo pelo qual os pais do atacante lucraram mais do que o Santos.

O acordo e os valores eram conhecidos. O que os papéis expostos por Mattos desnudam são os mecanismos que permitiram que uma empresa negociasse a transferência de um jogador cujos direitos pertenciam ao clube em que ele atuava. Um compromisso não esportivo firmado entre a companhia dos pais de Neymar e o Barcelona, com o intuito de proteger o clube de uma provável acusação de aliciamento do atleta em desrespeito às regras da FIFA. Como se sabe, a transação é objeto de investigação no Brasil e na Espanha.

Como ilustração, volta à superfície uma anedota conhecida nos dois países: o período de mais de duas semanas, em maio de 2013, em que dois emissários do Real Madrid tentaram desviar a transferência de Neymar para o futebol espanhol. Em vão. A presença dos enviados no Brasil contava com a bênção do Santos, mas se viu impotente diante dos documentos que hoje conhecemos, coordenadas de uma viagem só de ida e sem escalas para o Camp Nou.

Nem mesmo a opulência do Real Madrid foi capaz de resolver a questão. Orientados por Florentino Pérez a insistir na contratação junto ao pai de Neymar, mesmo após transmitirem a informação de que seria impossível, os emissários chegaram a apresentar uma oferta que emudecia os valores do acerto com o Barcelona. De acordo com pessoas bem informadas sobre as conversas, o clube merengue se dispôs a pagar a multa de 40 milhões de euros, dar 50 milhões à empresa dos pais de Neymar e mais 30 milhões ao Santos. Mas Neymar queria jogar com Messi. O Real Madrid foi atrás de Gareth Bale.

CHAPÉU

O acréscimo de informações sobre esta história aumenta o tamanho da questão que ela impõe: se é permitido que um clube adquira os direitos de um jogador de outro clube, por intermédio de uma relação não esportiva, os regulamentos da FIFA para transferências não servem para nada. De fato, neste cenário, nenhum contrato firmado entre um jogador e um clube vale.

CANETA

Há uma outra pergunta, menos importante: quem é o cérebro por trás da operação que levou Neymar para o Barcelona? Há quem diga que o pai do atacante não dispõe do conhecimento legal e da engenhosidade necessários para formatar uma transação desse nível. Neste caso, o prato teria sido oferecido pronto, e quente. Era só assinar e se preparar para responder as perguntas inevitáveis.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 07.out.2014 às 8:39h

(publicada ontem, no Lance!)

REELEIÇÃO

Em campeonatos disputados em sistema de pontos corridos não há finais. A não ser que, por conspiração cósmica, um jogo tenha a capacidade matemática de decidir o título para ambas as equipes em campo (motivo para suicídio em massa dos detratores do formato). O que não significa que não haja partidas de caráter decisivo, que moldam o rumo da disputa e aproximam times do título. Quem pensa que a esses encontros falta alguma coisa, pelo fato de não serem eliminatórios ou não colocarem um troféu em jogo, precisa rever conceitos a respeito do que um campeonato deve ser.

Cruzeiro x Internacional foi uma dessas partidas. De um ponto de vista, preferido por quem gostaria de ver o atual campeão brasileiro desafiado no caminho para o bi, era a chance única do Inter ficar a três pontos do líder à custa apenas do próprio esforço. Ao mesmo tempo, para o Cruzeiro, o jogo representava a oportunidade de afastar ainda mais o adversário que o perseguia. E na comparação entre o prêmio que a vitória significava, para um e para outro, o Cruzeiro tinha muito mais a ganhar se terminasse o sábado com três pontos somados: a noção de que o título estava mais perto.

Do apito ao intervalo, só os mineiros jogaram de acordo com a importância da ocasião. Linhas adiantadas e pressão permanente, uma estratégia de ataque disfarçada de defesa agressiva. Quando a perseguição à bola é feita de forma coordenada nas proximidades da área contrária, o objetivo principal não é o desarme, mas o gol. Marcelo Moreno e Willian cercaram Aránguiz na linha da meia-lua, provocando o erro que criou o 1 x 0. O segundo gol foi produto da visão de Éverton Ribeiro e da pane da defesa colorada, congelada enquanto Marquinhos apareceu para concluir. O Cruzeiro é um dos raros times brasileiros que, em vantagem, não trabalham para trancar jogos. É uma distinção honrosa.

O encontro só teve a verve esperada quando os times voltaram do vestiário, o visitante totalmente transformado em personalidade, disposto e ousado apesar do perigo e do tamanho da montanha que pretendia subir. O lindo gol de Alex confirmou a sensação de porta aberta que o pênalti perdido por Willian deixou. Três minutos separaram os lances que transformaram o placar, o ambiente e o restante do segundo tempo, disputado como um palanque em que só havia espaço para um dos candidatos. O Cruzeiro assegurou que não seria ofuscado em seu próprio território.

Foi a quarta vitória cruzeirense na rodada seguinte a um empate, e a diferença que poderia cair para três pontos inchou para o triplo. O que diminuiu na noite de sábado foi o risco do Cruzeiro não conquistar o campeonato. A esperança da concorrência depende agora de pelo menos três resultados ruins dos mineiros, derrotados apenas quatro vezes em vinte e seis rodadas. Não é um cenário em que se pode apostar. Se o jogo no Mineirão foi o último debate entre os principais candidatos, todas as pesquisas apontam para a reeleição do Cruzeiro.

APERTO

A distância do décimo colocado (Goiás) ao lanterna (Coritiba) do Campeonato Brasileiro é de sete pontos. Do décimo à zona de rebaixamento, seis. Ainda haverá muito sofrimento e contas a fazer até o dia sete de dezembro.

PACHECOS…

Diego Costa, aquele atacante que o pachequismo rotulou como refugo sem vê-lo jogar, já tem nove gols marcados em sete rodadas do Campeonato Inglês. Sua transição do Atlético de Madrid para o Chelsea dispensa argumentos como “adaptação a um novo clube e um novo país”, o que comprova sua qualidade como jogador e questiona a conduta da CBF quando Costa finalmente optou por jogar na seleção espanhola. A quem o vaiou nos estádios brasileiros durante a Copa do Mundo, porque não soube compreender uma decisão profissional à qual todos temos direito, só resta aplaudi-lo discretamente, torcendo para que ninguém veja.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 05.out.2014 às 12:16h

(publicada ontem, no Lance!)

A ÚLTIMA NOITE

Você conversa com Abel Braga e imediatamente começa a imaginar o tamanho da distância que separa a opinião pública do dia a dia de um time de futebol. É uma realização semelhante à de quem tenta enxergar as entranhas de uma equipe utilizando como instrumentos apenas os números de seu desempenho. Times são seres vivos, que se desenvolvem e se transformam, e que nem sempre revelam o que há por baixo da epiderme.

“Aquele foi um momento de pressão, sim, mas só de fora para dentro”, diz o técnico do Internacional, referindo-se ao período de vinte dias em que seu time somou três pontos em quinze possíveis no Campeonato Brasileiro (entre as rodadas 16 e 20) e se viu eliminado pelo Bahia na Copa Sul-Americana. “Entre nós estava tudo bem, porque eu tenho um grupo muito forte no aspecto humano”, acrescenta. Enquanto parecia que o Inter estava prestes a devolver Abel ao mercado, o técnico encontrava suporte nos jogadores sob seu comando.

Ao falar sobre a natureza da convivência no atual vice-líder do BR-14, Abel relembra os tempos em que trabalhou no Belenenses de Portugal, no início da década de 90, e no Fluminense, especialmente em 2012. “Era um ambiente realmente familiar. A gente se reunia para jantar de forma espontânea. Esse grupo que eu tenho hoje é muito assim”, conta. Um grupo que encontrou os mecanismos para se levantar e substituir o São Paulo como competidor mais próximo do Cruzeiro. Situação que proporciona ao campeonato uma noite como a de hoje, no Mineirão.

“Uma das características mais fortes do meu time é a cobrança interna”, diz Abel. “Às vezes os jogadores ficam inibidos, não falam. Aqui é diferente, eles conversam muito e se cobram para corrigir o que está errado”. O bom relacionamento permitiu a ascensão de um jovem como Eduardo Sasha, autor de três dos últimos sete gols do Internacional. Para a preocupação de Abel, Sasha não jogará mais na temporada por causa de uma lesão no tornozelo direito que precisou de correção cirúrgica. Um baque para o momento de evidente aceleração do time, vencedor de quatro jogos nas últimas cinco rodadas.

Abel tem se empenhado para que o Inter pratique um futebol de ataque, ainda que tal postura possa erguer algumas sobrancelhas no Sul brasileiro, sempre orgulhoso – por estilo – de suas tradições defensivas. O aspecto humano volta à cena quando o treinador relata a surpresa com que seu time recebeu a ordem de esperar o Palmeiras, no encontro da décima-oitava rodada. “Eles me perguntaram: como assim, esperar, professor? E eu disse que a gente tinha de explorar a situação do Palmeiras”, diz Abel. “A nossa vocação é ofensiva”.

Está aí um dos mais interessantes ingredientes do jogo desta noite. Como o Internacional tentará aproveitar a oportunidade de emocionar o campeonato, o que só acontecerá se vencer em Belo Horizonte. Esperando o Cruzeiro? “Se eu esperar o Cruzeiro, eu vou perder”, crava Abel. “E eu não quero ser mais um. Eu vou jogar, vou fazer a coisa diferente”, promete.

NERO

Só mesmo no futebol brasileiro se aceita que um devedor de salários e sonegador de impostos, confesso, conceda uma entrevista coletiva e fale como dono de um clube de cento e dez anos de vida. É um escândalo que Maurício Assumpção siga dando ordens no Botafogo, e que essas ordens sejam, como foram, dispensar jogadores que não recebem a remuneração que lhes é devida. O que sobrará do Botafogo após a passagem do cartola incendiário? A responsabilidade também é daqueles que o mantém na cadeira.

GIGANTE

Não há como medir o tamanho do gol que Fabinho Alves, da Chapecoense, deixou de fazer no começo do segundo tempo do jogo contra o Palmeiras. Praticamente sem goleiro, quando o placar no Pacaembu era 1 x 0 para time catarinense. A chance perdida é mentora intelectual dos gols que viraram o placar para o Palmeiras, um resultado gigantesco.