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RELEITURA

por André Kfouri em 31.jul.2014 às 10:45h

Minha coluna no Lance! de hoje recupera o trecho em que a jornalista Daniela Pinheiro, em primoroso perfil de Ricardo Teixeira publicado na revista Piauí, descreve a cena em uma mesa de cartolas sul-americanos em um restaurante de Zurique.

Com a morte de Julio Grondona, a mesa ficou vazia.

O monarca do futebol argentino era o último remanescente de acajus em atividade, e no poder, tanto em seu país como na FIFA.

Ricardo Teixeira e Nicolás Leoz, os outros dois comensais daquela noite de verão na Suíça, exilaram-se nos últimos dois anos envolvidos em problemas de saúde e honestidade.

Mas, claro, deixaram “herdeiros” dignos.

A cadeira de Teixeira no Comitê Executivo da FIFA está ocupada desde 2012 por Marco Polo Marin (ou José Maria Del Nero, como queira), legítimo representante da linhagem dos acajus, figura híbrida que acumula as funções de atual, ex e futuro presidente da CBF.

O futebol brasileiro continua guiado pela tintura e pelo ambiente descrito magistralmente por Daniela Pinheiro.

O perfil, feito em julho de 2011, é um texto clássico.

Aqui, um post que fiz à época, com os “melhores momentos”.

Vale a pena ler de novo.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 29.jul.2014 às 8:10h

(publicada ontem, no Lance!)

ESPERTOS

O presidente do Botafogo, Maurício Assumpção, representa à perfeição a classe dirigente dos clubes do futebol brasileiro. Ele é o rosto, o cérebro e os membros do tipo de executivo que toma decisões em nome de instituições centenárias onde está de passagem, personificando a falta de capacidade, vergonha e escrúpulos.

Esse gênero de dirigente é responsável pelo estado de penúria dos nossos clubes, por ações e omissões que caracterizam gestões prejudiciais do ponto de vista interno e também no aspecto do comportamento coletivo que os clubes deveriam assumir em prol da valorização e da governança do produto que possuem.

No Botafogo, Assumpção tomou medidas que não protegem os melhores interesses da coletividade, vendeu uma falsa ideia de saúde financeira, tentou se associar a parceiros dos quais deveria manter distância. Junto com seus pares nos grandes do Rio, em 2011, sabotou o que poderia ser um avanço na comercialização dos direitos de televisão do Campeonato Brasileiro utilizando um discurso individualista. Hoje, com as receitas bloqueadas, Assumpção tenta sequestrar o governo federal com a ameaça de retirar o Botafogo do Campeonato Brasileiro por não conseguir honrar compromissos. Que esperto.

O debate sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte é um momento crucial para o futebol no país. O governo terá obrigatoriamente de escolher um lado no cabo de guerra que opõe jogadores e dirigentes. Se a presidente Dilma Rousseff aprovar o projeto de lei como é hoje, perdoará os cartolas ao lhes oferecer um salvo-conduto para continuar agindo da mesma maneira. Cartolas como Maurício Assumpção, que não coram diante da desfaçatez que sugerem.

Neste aspecto, é alarmante o comportamento do secretário de futebol do Ministério do Esporte, Toninho Nascimento, que pareceu à vontade para fazer o jogo da cartolagem ao dizer, na última sexta-feira, que o governo “tem pressa. Esperamos aprovar a lei até setembro porque tem clubes que não chegam até fim do ano se a lei não sair”. É o tipo de demagogia que se espera ouvir de alguém como Assumpção, não de um jornalista experiente que deveria saber com o que, e com quem, está lidando.

Os cartolas querem que o governo – e você – acredite que os clubes precisam ser salvos do inferno. No processo, dívidas que são fruto da mais pura irresponsabilidade serão refinanciadas. A julgar pela declaração de Nascimento, o secretário já foi convencido.

O governo não deve ter pressa alguma. A presidente Dilma Rousseff também recebeu os representantes do Bom Senso Futebol Clube e ouviu deles que não aprove o projeto de lei sem a devida discussão. Os avanços no futebol brasileiro estarão em perigo se a cartolagem for agraciada com mais um socorro da União, disfarçado de resgate dos clubes. É preciso ser muito ignorante, ou muito mal intencionado, para acreditar nesse embuste.

Quanto a Maurício Assumpção, que ele honre o que diz e tire o Botafogo do Campeonato Brasileiro. Vejamos se a ameaça passa de fanfarronice de quem perdeu qualquer constrangimento.

NOTA DO BLOG: Por iniciativa do secretário de futebol do Ministério do Esporte, conversei ontem por telefone com Toninho Nascimento. Ele quis esclarecer que sua declaração sobre “a pressa” em aprovar o projeto se deu pelo fato de o ministério estar trabalhando nisso há um ano e meio. Nascimento concorda que a questão deve ser discutida com a sociedade, e aguardava, ontem à tarde, uma correspondência do Bom Senso Futebol Clube com sugestões. O secretário não vê com bons olhos o “radicalismo” (termo usado pelo próprio) que tem caracterizado a discussão, opondo dirigentes e jogadores. Nascimento entende que é possível chegar a um texto que contemple as principais – não todas – necessidades de todos, incluindo CBF e governo. De minha parte, reafirmei a Nascimento, a quem agradeço o contato e a oportunidade, a posição que a coluna acima expressa. A reforma que o futebol brasileiro urgentemente necessita depende de um gesto firme do governo quanto ao modo como nossos clubes são administrados.

OPORTUNIDADE

Repetindo o que escrevemos aqui: os clubes devem mais de 5 bilhões de reais à União, que pode se considerar proprietária de todos eles. Não há nenhuma razão para que o governo se impressione com o discurso hipócrita dos cartolas. Ao contrário, é preciso falar alto com quem sonega e aproveitar a oportunidade para transformar o futebol brasileiro. O ministro do esporte, Aldo Rebelo, tem falhado gloriosamente nesta tarefa.

EXPLICAÇÃO?

O advogado de Dunga informa que o técnico da Seleção Brasileira jamais trabalhou como agente ou empresário de jogadores. Mas confirma que Dunga se envolveu na negociação de Ederson, em 2004, como alguém que apenas aproximou as partes. Parece um desses casos em que o animal tem o corpo de uma girafa, o tamanho de uma girafa, as cores de uma girafa, se comporta como uma girafa, mas não, não é uma girafa.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 27.jul.2014 às 11:29h

(publicada ontem, no Lance!)

O NOVO DUNGA

Os últimos dias serviram para que conhecêssemos um novo Dunga. Novo no sentido de ser diferente do que pensávamos conhecer. Por intermédio de reportagens do Espn.com.br e da Folha de S.Paulo, fomos apresentados a um Dunga ativo nos negócios do futebol, que lucra com transferências de jogadores, que movimenta cifras no exterior, que se utiliza de empresas off-shore, que é cobrado pela Receita Federal brasileira.

Mas o próprio Dunga nega a existência desse intermediário revelado pelas histórias publicadas com fartura de detalhes e documentos. O recém-empossado técnico da Seleção Brasileira desmente seu papel como agente em um dos casos e, no outro, considera-se perseguido (um padrão de comportamento?) pela Receita. Em ambos, tornou-se público um traço da personalidade do treinador: a generosidade.

De acordo com a Folha, há indícios de que Dunga não pagou impostos sobre uma quantia movimentada fora do Brasil em 2002. A Receita Federal suspeita que operações financeiras fantasmas foram utilizadas para justificar um depósito de 270 mil dólares, não declarado, feito pelo Jubilo Iwata em uma conta de Dunga. O técnico alega que se trata do pagamento, em espécie, de um empréstimo concedido por ele ao clube japonês.

Na reportagem do site da ESPN também consta um empréstimo feito pelo atual técnico da Seleção. A história desnuda a participação de Dunga na transferência de 75% dos direitos econômicos do meia Ederson, do RS Futebol Clube para a empresa Image Promotion Company (IPC), em 2004. Documentos atestam uma comissão de pouco mais de 400 mil reais. Dois anos mais tarde, o IPC adquiriu os 25% restantes em uma operação de 575 mil dólares na qual Dunga aparece como autor do crédito para os representantes do RS Futebol Clube. Segundo Dunga, a quantia foi emprestada por ele ao IPC.

Desde que tudo seja feito em concordância com as leis, não há nada de errado na atuação de Dunga como intermediário em negociações de jogadores (ou como socorro financeiro a clubes de futebol e empresas que representam atletas) durante o período anterior a seu primeiro trabalho como técnico da Seleção Brasileira, quando estreou na profissão. Mas Dunga sempre declarou manter-se afastado dos tentadores negócios do futebol, aparentemente para sustentar uma postura ética que, agora, está em xeque.

Porque além de agir em desacordo com o que disse, Dunga tenta discutir com os documentos que comprovam seu envolvimento na transferência dos direitos de Ederson, uma atitude intrigante diante da clareza das evidências. Por que a relutância em admitir algo que se deu quando ele ainda não era técnico?

O pós-Copa da CBF continua a nos surpreender, como essas produções de baixo orçamento que se superam em bizarrices a cada cena. Podemos ter um ex-agente como técnico da Seleção, chefiado por um ex-agente como coordenador, chefiado por figuras que explicam tudo. E a sensação é de que estamos no começo do filme.

GESTÃO

É possível imaginar a sequência se desenvolvendo na mente das pessoas que tomam decisões no Flamengo. Ao analisar a necessidade de substituir Ney Franco, todos compartilhavam uma certeza: não contratar Vanderlei Luxemburgo. O passar das horas trouxe as negativas das opções preferidas, a pressão aumentou por causa da horrorosa gestão do problema de André Santos, e Luxemburgo se transformou no gigantesco elefante cor de rosa no canto da sala. Deve ser empolgante contratar um treinador dessa forma.

DIVIDIDA

O debate sobre a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte obriga a presidente Dilma Roussef a escolher um lado: o dos jogadores ou o dos cartolas. Se aprovar o projeto como está, como quer o subserviente Ministério do Esporte, Dilma ficará com os cartolas. Que a presidente cumpra a promessa de reformar o futebol no Brasil e saiba escolher.

ATUALIZAÇÃO – Dunga publicou um esclarecimento em seu site, na tarde de ontem. O advogado do técnico da Seleção Brasileira diz que ele nunca trabalhou como “agente, procurador ou empresário de jogador de futebol”. Mas admite que Dunga participou do negócio envolvendo o meia. De acordo com a explicação, Dunga apenas aproximou as partes que fizeram a negociação, e por isso recebeu a comissão.

CAMISA 12

por André Kfouri em 25.jul.2014 às 8:56h

(publicada ontem, no Lance!)

REQUENTADO

Dunga voltou. O verbo deve ser lido em seu sentido literal, para o técnico e o que sua presença significa para a Seleção Brasileira. Um retorno ao passado que deveria ter permanecido onde estava. Uma involução, se é que isso era possível para um time que, há duas semanas, passou a maior vergonha de sua história.

A entrevista coletiva de anteontem apresentou o mesmo Dunga que deixou a CBF há quatro anos. Os mesmos conceitos mal formados, a mesma coerência equivocada, os mesmos argumentos confusos e a mesma visão turva do que a Seleção Brasileira deve ser. Sobre certos temas, como a Copa do Mundo que terminou há pouco, o técnico revelou um nível de desinformação assustador.

O problema de Dunga é o que o move: a ira que se apoderou dele em 1990, que se mostrou mais forte do que nunca com a Copa em suas mãos em 1994, que impede que ele compreenda por que o time de 1982 é lembrado com mais saudade do que o que foi campeão nos Estados Unidos. Que faz com que toda pergunta seja ouvida como provocação e toda crítica, interpretada como perseguição.

Mas há problemas mais graves. Em pleno pós 1 x 7, a Seleção foi entregue ao técnico que declarou que a nostalgia do futebol atraente era um complô idealizado pelos europeus, para que o Brasil continuasse perdendo. Imagine a duração das gargalhadas de espanhóis e alemães ao ouvirem tal preciosidade.

O futebol ordinário exibido pelo Brasil de Scolari no Mundial em casa só tem um atenuante: o pouco tempo de trabalho, cerca de um ano e meio. Times que jogam demandam longa maturação, como tudo o que é bom em qualquer área. Times que só sabem lutar e correr – o equivalente futebolístico do fast-food – ficam prontos mais rápido.

Com Dunga, apesar do prazo generoso, o máximo que se pode esperar é um macarrão instantâneo. Um clone do time de 2010. Muito menos do que a Seleção Brasileira tem obrigação de ser, mesmo que ganhe a Copa de 2018.

EQUÍVOCOS…

É terrível a confusão de conceitos. A Seleção Brasileira não precisa ganhar a qualquer custo ou ser um time que transpire sangue. Esse é o caminho dos que não têm nada mais a oferecer. O que o Brasil tem de fazer é jogar futebol coletivo, com superioridade técnica, criatividade e coragem. Contamos nos dedos os países que podem sonhar este sonho.

… E MAIS EQUÍVOCOS

Defensores ardorosos do futebol de resultados ignoram que, em toda as competições, alguém sempre vence. Que se vencer é só o que interessa, nada resta quando o vencedor é outro. E que perder tentando exibir sua melhor versão é triste, mas perder usando um disfarce horroroso para esconder sua verdadeira identidade é muito pior. A maior vergonha está aí.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 22.jul.2014 às 10:17h

(publicada ontem, no Lance!)

PROCESSO DE SELEÇÃO

A oportunidade foi perdida. Seja qual for o nome apresentado amanhã pela CBF, a chance de iniciar o projeto de recuperação da Seleção Brasileira foi desperdiçada pelas pessoas que se consideram suas proprietárias. Não teremos nada a agradecer aos alemães pela exposição de nosso colossal atraso, pois continuamos a tomar decisões como se soubéssemos o que estamos fazendo.

O Brasil foi varrido da Copa do Mundo em seu próprio quintal no dia 8 de julho. O novo técnico será anunciado menos de duas semanas depois. É muito pouco tempo para fazer uma escolha de tamanha importância, que pede avaliação criteriosa das opções e elaboração minuciosa do que se pretende alcançar, quando, e como. Negligenciar as etapas obrigatórias de um processo de decisão bem informado é próprio de amadores, para usar um termo polido. Irresponsáveis, em português mais claro.

A eleição do próximo treinador da Seleção Brasileira deveria ser a conclusão de uma pesquisa feita com todo o capricho e nenhuma pressa. O momento era propício e os recursos estão à disposição. A CBF tinha o dever de reunir um grupo de ex-jogadores (três, para que houvesse votação em questões duvidosas) que estivessem antenados com o que se faz de mais moderno no futebol pelo mundo e determinar a eles o comando da operação.

Este grupo teria o tempo que considerasse necessário para fazer uma lista de candidatos, dentro e fora do Brasil. Os nomes escolhidos seriam consultados a respeito do interesse e disponibilidade para assumir o cargo. Aos que quisessem participar do processo, um plano de trabalho seria encomendado e uma entrevista agendada para que os treinadores apresentassem de que forma pretendem conduzir a Seleção Brasileira ao futebol de hoje. Enquanto isso, sem pressão, Gallo assumiria o time como interino.

Os candidatos seriam avaliados com base em critérios objetivos: filosofia de jogo, sistema, variações táticas, equipe de trabalho, aproveitamento e desenvolvimento de jogadores da base, métodos de treinamento, normas disciplinares, relacionamento com clubes e com a imprensa (porque é necessário representar a Seleção de maneira adequada). Aos estrangeiros, o nível de conhecimento do futebol brasileiro seria medido e levado em conta.

Aspectos subjetivos como “ele é linha-dura” ou “vai recuperar nossa auto-estima” e conceitos rudimentares como “precisamos privilegiar o coletivo para que o talento individual faça a diferença” não seriam abordados pois, afinal, estamos tratando do futuro técnico da Seleção Brasileira de futebol. E porque é exatamente esse patamar de primitivismo que proporcionou a fatídica tarde em que, por clemência do adversário, o Brasil não levou dez gols em uma semifinal de Copa do Mundo.

Ao final dos encontros e das deliberações, o melhor plano seria escolhido e um contrato oferecido ao técnico que possuísse as habilidades para executá-lo. E só aí uma entrevista coletiva seria marcada para apresentá-lo. É o tratamento que a Seleção Brasileira – e quem se importa com ela – merecia, negado pelo anacronismo de seus donos.

ARROTO

Um equívoco grave foi cometido na quinta-feira passada, no instante em que Gilmar Rinaldi declarou que não se pensava em técnico estrangeiro na Seleção. Em apenas uma resposta, os principais treinadores de futebol do mundo foram retirados do cenário. Isso não é trabalhar pelos melhores interesses da Seleção Brasileira. E é um triste sinal da soberba que reina na CBF.

SOBREVIVENTES

Não há técnicos de futebol no Brasil, mas técnicos de resultados. A culpa não é apenas deles, pois o calendário e o ambiente em que trabalham só lhes permitem sobreviver a cada rodada. Os técnicos brasileiros não treinam times, só preparam jogos. Também não desenvolvem jogadores, só os utilizam e os recuperam. Aí está uma das interseções entre a Seleção e o futebol no país. A Seleção Brasileira precisa de um técnico de futebol. Dunga, favorito aparente, está muito longe dessa qualificação.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 20.jul.2014 às 11:33h

(publicada ontem, no Lance!)

ANTIQUÁRIO

Um trecho da entrevista coletiva de anteontem na sede da CBF impressionou pelo potencial aflitivo. José Maria Marin, um dos presidentes da entidade, entrou em um loop de longos minutos para dizer apenas que seu respeito por Felipe Scolari (ele ignora o “Luiz”) tinha aumentado durante a Copa do Mundo. Até o ex-técnico da Seleção Brasileira deve ter se incomodado.

É preciso respeitar Marin e reconhecer um inegável feito: jamais um dirigente personificou tão perfeitamente o futebol de seu país. Ver Marin remete ao alemão Cornelius Gurlitt, o colecionador que mantinha em seu apartamento em Munique um tesouro secreto de obras de arte adquiridas durante a Segunda Guerra Mundial. Gurlitt nunca trabalhou, se comunicava por cartas escritas com canetas-tinteiro e foi ao cinema pela última vez nos anos setenta. Além da nacionalidade, há uma diferença clara entre eles: Gurlitt morreu em maio passado, aos 81 anos.

O futebol brasileiro precisa ser recuperado e a Seleção, atualizada. São processos diferentes, interligados por decisões políticas, mudanças estruturais e um planejamento de longo prazo que exige novos métodos e ideias. É obrigação da CBF estar à frente dessa reforma. Um cenário absolutamente impossível enquanto a tomada de decisões estiver nas mãos de Marin. Ou nas de Marco Polo Del Nero, cuja postura taciturna se assemelha à da aranha que usa a sombra de sua vítima para se proteger do calor.

A única preocupação deles é manter a caixa registradora faturando. Enquanto a Seleção Brasileira for tratada como garota de programas da CBF, nenhuma goleada será suficientemente humilhante (lembre-se que a eleição na confederação foi antecipada, para que a Copa não atrapalhasse o projeto de poder). Mais botox, implantes maiores, saias menores e, lógico, celular sempre ligado. A revolução que poderia fazer com que nos recordássemos do dia 8 de julho de 2014 como um início não lhes passa pela cabeça. Steve Jobs não conseguiria marcar uma reunião com essas figuras, se fosse vivo.

A apresentação de Gilmar Rinaldi simula eficiência e exime os dirigentes de suas responsabilidades. A posição de coordenador de seleções demanda proximidade do jogo, do campo, para diferenciar o que é moderno do que já passou. Noção que não se adquire com turnês pelos melhores CTs de clubes europeus ou assistindo a treinos de técnicos de vanguarda. Todos os treinadores da Seleção Brasileira viajam, vão a jogos, conversam. Nem o discurso é novo.

Mas como seria novo, com quem está no comando? O doloroso loop de Marin para falar de seu respeito por Scolari preocupou pela repetição e provocou alívio quando terminou. Mais ou menos como a surra que a Seleção Brasileira levou da Alemanha em Belo Horizonte. Entre os que não entram em campo, todos os envolvidos na eterna tragédia já não estão mais por perto. Mas Marin continua decidindo e falando nas “cinco estrelas da nossa camisa”, enquanto vê as horas em um relógio de bolso e pede uma ligação para a telefonista.

RISCO

É ruim, sim, o fato de Gilmar Rinaldi passar de agente de jogadores a coordenador de seleções. O anúncio de que a carreira anterior se encerrou no momento em que ele aceitou o convite da CBF não é nada mais do que uma obrigação. Mas ao mesmo tempo em que não há razões para suspeitar da idoneidade de Rinaldi, há que se ponderar que o risco do conflito evidente deveria ser evitado. Se Rinaldi fosse o único profissional no Brasil capacitado para exercer a função, com trabalhos conhecidos e aplaudidos na área, seu currículo talvez justificasse a escolha. Mas o ex-agente é uma interrogação como coordenador, e ainda carregará a bagagem dos negócios do futebol para uma posição que exige credibilidade.

CONTRA

A porta fechada a um treinador estrangeiro, logo de saída, já é um gol contra de Gilmar Rinaldi. Na pesquisa sobre nova metodologia, técnicos de fora deveriam ser considerados.

CAMISA 12

por André Kfouri em 18.jul.2014 às 9:48h

(publicada ontem, no Lance!)

SILÊNCIO. MENOTTI FALANDO.

Abaixo, a tradução de quatro parágrafos da coluna escrita por César Luis Menotti para o diário argentino “Página/12” (o texto está aqui, na íntegra). É uma aula:

“Para o futebol alemão, é uma honra ter conseguido este título, porque é o produto de uma ideia que foi desenvolvida com o tempo. Uma ideia que se fez forte em sua concepção e suas convicções, apesar de não ter ido bem em algumas instâncias anteriores, porque o futebol é um jogo e às vezes não ganha o melhor.”

“Mas a Alemanha é uma equipe muito generosa em seu jogo, uma equipe que baseia seu potencial na manutenção da bola. A posse não é uma estratégia, mas o lugar desde onde se geram situações na zona de definição. A Alemanha entende o futebol como um compromisso com seu público, com o cenário, com o espetáculo, com a bola como base cultural de seus movimentos, e isso é o que é preciso destacar. Algo que tínhamos nós, os sul-americanos. Isto é algo que eles seguramente estão herdando, daquele Brasil de 70, daqueles futebolistas argentinos que passearam pelo mundo com qualidade, técnica e manejo da bola. Tudo isso está neste novo cenário para o futebol alemão.”

“(…) quero dizer umas palavras sobre o que aconteceu com a seleção brasileira. Eu venho insistindo há muitos anos que o Brasil estava ‘desculturizando’ seu jogo. No dia em que o Brasil não encontrou os resultados que sua grande equipe merecia, como aconteceu em 82 e 86, começou a jogar para outra coisa. Me dói muito, porque o futebol brasileiro nos deleitou historicamente com seus grandes jogadores.”

“Felizmente, a equipe alemã campeã do mundo deixou profundos e sérios ensinamentos para o mundo do futebol. Não é verdade que somente ganham os que defendem ou os que lutam ou os que goleiam. Cada um joga como quer, mas também são campeões do mundo os que sabem jogar muito bem o futebol como equipe.”

Nada a acrescentar. Apenas a agradecer.

SOFÁ

É um equívoco tratar a escolha do próximo técnico da Seleção Brasileira como a solução para o problema simbolizado pelo “epitáfio do Mineirão”. Independentemente do nome e do passaporte do novo treinador, ou do novo coordenador técnico, nada mudará enquanto a Seleção for apenas uma máquina de fazer dinheiro para a CBF. Simulação de eficiência, nada mais.

AGENDA

O comando da CBF deveria investir tempo e dinheiro – ambos abundantemente disponíveis – na elaboração de um plano de recuperação do futebol no Brasil. A edição de ontem deste diário levantou pontos importantes a serem considerados. Há gente técnica com preparo, conhecimento e disposição para ajudar. Os dinossauros sabem quem são essas pessoas.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 15.jul.2014 às 11:17h

(publicada ontem, no Lance!)

GOLtze

1 – O pré-jogo indicava o encontro de um exército de arquitetos com a orquestra desafinada de um solista extraordinário. O futebol associado, em que se ataca e defende como um corpo único, contra o jogo de compactação na defesa e ilusão no ataque.

2 – O plano alemão: controlar, envolver, superar. O argentino: suportar, surpreender, machucar. Ter a bola na maior parte do tempo é arriscado e exige excelência técnica. Não tê-la é perigoso e demanda concentração permanente. Em ambas as propostas, uma falha pode significar o fim.

3 – Kroos, jogador fabuloso pelo vício de tomar decisões corretas, nega a própria natureza e oferece a Higuaín o instante da imortalização. O chute é defeituoso, a bola sai pela linha de fundo, marcada pelo tipo de ocasião que não costuma aparecer duas vezes.

4 – Messi flutua pelo gramado, alheio ao que se passa quando a bola é alemã. Ele tem licença para se comportar assim porque se chama Messi e porque é capaz de criar problemas a cada vez que é acionado. E é exatamente o que ele faz na final da Copa do Mundo, motivo pelo qual um país inteiro assiste e crê.

5 – Um cabeceio na trave de Howedes mostra como jogos assim vivem no limite. Um gol não apenas mexe no placar como altera totalmente o comportamento de quem se defende. O zero a zero é a manutenção das posturas e da dinâmica.

6 – Messi lançado na área, encontro com o destino. O cérebro do gênio ordena o pé esquerdo a procurar a rede lateral do canto oposto, como já vimos um milhão de vezes. Os mesmos centímetros que costumam ser aliados decidem tratá-lo com ironia. A sensação é de ter visto um pedaço da história que não foi escrito.

7 – É incalculável o impacto da ausência de Dí Maria no momento do jogo em que a Argentina precisa se soltar. Messi pede por um parceiro que não está em campo.

8 – Os alemães, como se sabe, são diferentes. Parece que o empate os incomoda e o passar do tempo os aflige, mas eles operam de outra maneira. Podem perder, mas não negociam suas convicções. Continuam controlando, criando e correndo riscos. O que mantém a decisão interessante e aberta até os minutos finais.

9 – Prorrogação na final (pela terceira Copa seguida). Tensão prolongada para duas nações. Mais trinta minutos de futebol para o resto de nós. E ainda assim será pouco.

10 – Haveria um palácio à espera de Rodrigo em todas as cidades argentinas. Mas ele falha diante de Neuer.

11 – A FIFA autoriza a arbitragem a abolir o cartão vermelho, sob o insustentável argumento de não interferir em decisões. Método que faz pior, ao estabelecer um ambiente em que a violência é tolerada e quem quer jogar é punido. A Argentina bate como lhe convém.

12 – Gotze! Vinte e dois anos e um golaço na final da Copa, no Maracanã. Talvez um dia, quando voltar a sentir o chão sob seus pés, ele consiga compreender o que fez.

13 – Venceu a melhor seleção do mundo. A que mais jogou e mais aproveitou esta Copa. É ótimo quando o futebol é justo, quando o trabalho mais competente prevalece, quando uma ideia de jogo produz um título.

PASSAR É PRECISO

A vitória da Alemanha também é a vitória do passe, o fundamento-pai do futebol. Este jogo foi feito para ser jogado de alguma forma, e os alemães decidiram jogá-lo por intermédio da rápida circulação da bola e da elaboração. Todos os homens de meio de campo constroem. Há aí uma clara mensagem para os que pretendem ganhar sem jogar. Especialmente os que o fazem por opção.

CICLO ENCERRADO

A Seleção Brasileira ganhou apenas três jogos na Copa do Mundo. Um deles, a estreia, com decisiva influência da arbitragem. Outro contra o bizarro time de Camarões, já desclassificado. E outro contra a Colômbia, em que, apesar da postura competitiva no primeiro tempo, mostrou mais brutalidade do que futebol e sofreu muito para conservar o resultado. Em sete jogos, o time que se orgulhava de sua defesa sofreu quatorze gols. Não há qualquer argumento aceitável para a manutenção da comissão técnica.

 

GOLtze

por André Kfouri em 14.jul.2014 às 14:12h

(o texto abaixo encerrou as edições de ontem e hoje do SportsCenter, da ESPN Brasil)

Há algo marcante sobre estar presente a uma final de Copa do Mundo: a impressão de que o resto do planeta simplesmente não existe.

Tudo se resume àquele estádio, àquele gramado, e o que se vê, se ouve, se sente.

É o que nos relembra por que amamos este jogo e não somos capazes de abandoná-lo nem quando ele nos maltrata.

A maravilha do futebol não está na vitória ou na celebração. O que nos conecta e nos aprisiona é a sensação quase palpável de que estamos vivos.

Não existe nada tão poderoso.

O eterno Maracanã nos ofereceu mais uma tarde de vida. O encontro de um divertido exército de arquitetos com uma orquestra ruidosa a serviço de um solista magnífico.

A inflexível organização alemã foi prejudicada por imprevistos. Os europeus tiveram de recorrer ao improviso que serviu bem aos argentinos, menos organizados e alimentados pelo instinto e pela ilusão que tem o nome de Messi.

Ele teve seu encontro com o destino dentro da área, quando o pé esquerdo procurou a rede lateral, como já vimos um milhão de vezes.

Os centímetros que costumam ser seus aliados decidiram tratá-lo com sarcasmo. E o gênio sentiu o mesmo que nós: um pedaço da história que se apagou antes de ser escrito.

Um pensamento que vai persegui-lo, pois jogos como esse não terminam nunca. Mas Messi não será o único.

A Argentina esteve dolorosamente próxima de um paraíso improvável.

Um lugar que estava reservado a um garoto levado ao campo para ser o escolhido. Para experimentar um segundo que vale uma existência. Para ser imortal aos vinte e dois anos.

Talvez um dia, quando conseguir sentir o chão sob seus pés, Mario Gotze compreenda o que fez. Talvez ele seja capaz de se recordar do que saboreou em uma fração de tempo que não dura quase nada, mas significa tudo.

E Gotze se lembrará que no dia em que esteve no centro do mundo, quando nenhum outro lugar existia e nada mais importava, ele se sentiu vivo.

Mario Gotze viverá para sempre.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 13.jul.2014 às 8:52h

(publicada ontem, no Lance!)

NEO

“É o mundo que foi colocado

diante dos teus olhos, para cegá-lo

da verdade.”

O futebol brasileiro precisa tomar uma decisão. É uma escolha semelhante à que Morpheus ofereceu a Neo, em “Matrix”: um copo d’água e duas pílulas de cores diferentes. A pílula azul, que mantém tudo como está, um mundo sintetizado em que nada é real e cada um acredita no que lhe convém. E a pílula vermelha, que desvenda o que existe de fato, por mais incômodo que seja.

A pílula azul é a falácia dos minutos de apagão, da ausência de Neymar e Thiago Silva, da entrada de Bernard como opção treinada, da goleada circunstancial, das coisas que não têm explicação, do caminho certo, da motivação como única mensagem, do hexa que está chegando, do com brasileiro não há quem possa, da mão na taça, da mística da amarelinha.

A pílula vermelha é o diagnóstico dos anos de atraso, da ausência de um time, da necessidade de variações de sistema, da goleada que se explica porque tudo o que acontece em um jogo de futebol tem um motivo, da perda total de rumo, da urgência do trabalho de formação de jogadores e técnicos, da importância de jogar este jogo, da noção de que não só não somos os melhores como estamos distantes deles, da mão na consciência, do zelo pela amarelinha.

O argumento de que o que houve no Mineirão foi um acidente é o recurso dos preguiçosos e desprovidos de vergonha. Um discurso que cai bem aos ouvidos do pachequismo ignorante disseminado pelas redes antissociais. Única forma de desviar o constrangimento e proteger os privilégios, os acessos, a cara de tolo e as orelhas grandes. Último refúgio de quem não entendeu absolutamente nada do que viu, porque já não tinha compreendido o que o Barcelona impôs ao Santos em dezembro de 2011.

Mas há remédio para quase todos os males, não há? A esta altura, já circulam pela internet várias análises táticas sobre a absoluta demolição que o Brasil sofreu em pés alemães na terça-feira. São verdadeiras necropsias, que expõem a indigência coletiva e os equívocos individuais que caracterizaram uma atuação fantasmagórica.

Algo que precisa ficar explicitamente claro: os 7 x 1 não representam apenas a pior derrota da história da Seleção Brasileira, mas o resultado mais trágico da história do futebol no Brasil. Nada tão devastador se passou neste país (que os pachecóides ainda imaginam que seja “o do futebol”) desde que Charles William Miller nos fez a cortesia de desembarcar por aqui com uma bola de futebol na bagagem, há exatos cento e vinte anos.

Em agosto de 2011, a Alemanha venceu o Brasil por 3 x 2 em um amistoso em Stuttgart. O segundo gol alemão, produto de uma triangulação entre Kroos, Klose e Goetze, exibiu o abismo cronológico dos trabalhos em curso nas duas seleções. Pois pelo menos três dos sete gols em Belo Horizonte foram ainda mais cruéis. O abismo se transformou em um buraco negro.

É hora de escolher a pílula vermelha, arregaçar as mangas e ir ao trabalho. Mas antes é preciso encontrar Neo.

PENSE

Perguntas a quem compra a conversa do apagão: se em vez de autorizar clemência no segundo tempo, Joachim Low tivesse ordenado mais cinco gols, o que teria acontecido? Seria outro apagão? Então, por favor, pare.

TIRANOSSAURO

Para que o dia 8 de julho de 2014 ficasse ainda mais tenebroso, Cafu foi convidado a se retirar do vestiário que é sua casa por um dinossauro egresso da ditadura brasileira. Cafu, três finais de Copa do Mundo no peito, é “pessoa estranha” ao ambiente da Seleção. O dinossauro, não. O futebol brasileiro é isso e continuará assim enquanto sua estrutura não for eviscerada da mesma forma que os alemães fizeram com o time em campo.

RISCO

E não, o assunto não morrerá. Não, os 7 x 1 não serão apagados pelo tempo. Não, a alegria não voltará. A depressão pós-Copa, um fato comprovado, desta vez será mais grave. A indústria do futebol no Brasil está ameaçada.


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