publicidade


COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 02.set.2014 às 7:56h

(publicada ontem, no Lance!)

PEDALADA

Ok, são apenas dois amistosos. E a convocação só aconteceu por causa da lesão de Hulk. Mas o retorno de Robinho à Seleção Brasileira tem de significar algo. Certamente não é a renovação que se espera de um trabalho que começa após uma Copa do Mundo trágica. Não seria assim com um jogador de 30 anos (o segundo mais velho do grupo que estará nos EUA, atrás de Maicon), veterano de dois Mundiais, mas que não esteve no último.

O que une Robinho a Dunga é uma dessas relações especiais que se formam entre um jogador e um técnico. Uma ligação que ignora o tempo, encurta as distâncias e se mantém forte. No dicionário de Dunga, Robinho é sinônimo de comprometimento, um dos termos prediletos do treinador da Seleção. Não há nada que Dunga tenha pedido que Robinho não tenha feito enquanto estiveram juntos. A começar pelo primeiro torneio.

Era 2007 e a Seleção estava reunida em Teresópolis, na antiga Granja Comary. Dunga começava a preparar o time que conquistaria a Copa América da Venezuela, gênese do grupo que acompanhou o técnico até a Copa do Mundo da África do Sul. Nos primeiros dias de concentração, a notícia era a ausência do jogador que seria a referência da principal característica do time. Robinho ajudaria a converter a Seleção em uma equipe letal no contra-ataque.

Mas enquanto o time treinava na serra fluminense, Robinho permanecia na Espanha, com os braços atados a um cabo de guerra entre o Real Madrid, e a CBF. O clube pretendia que Robinho jogasse na última rodada do Campeonato Espanhol, a confederação o queria do outro lado do Atlântico. Robinho chegou a dizer publicamente que sua vontade era estar em campo no jogo que poderia dar – como deu – o título aos blancos. Mas seu agente, Wagner Ribeiro, lembrou que, diferentemente da opção de Kaká e Ronaldinho Gaúcho, Robinho gostaria de disputar a Copa América.

Após bravatas de lado a lado, a CBF capitulou e o atacante foi o último jogador a se apresentar em Teresópolis. O agradecimento pela espera veio no segundo jogo da Copa América, quando Robinho marcou os três gols da vitória sobre o Chile. O resultado restaurou as chances de classificação do Brasil no grupo e aliviou a pressão sobre Dunga, fruto da derrota para o México na estreia.

Não foi a única vez. Pouco mais de um ano depois, em um reencontro com a seleção chilena pelas Eliminatórias para a Copa de 2010, Robinho voltou a resgatar o técnico em situação delicada. Todos os sinais indicavam para a demissão de Dunga caso o Brasil não vencesse em Santiago. Luis Fabiano, com dois gols, foi o grande nome do placar de 3 x 0. Mas Robinho marcou o segundo, no final do primeiro tempo, depois que Ronaldinho perdeu um pênalti.

Nada mais apropriado, portanto, que a segunda passagem de Dunga pela Seleção Brasileira comece com a presença do autor do último gol do time sob seu comando. Naquela fatídica tarde em Port Elizabeth, Robinho encaminhava o Brasil para as semifinais da Copa até a bola parada holandesa fundir os nervos da Seleção. Para o técnico, é como se quatro anos não tivessem existido. Uma pedalada no calendário.

FALAM MUITO

A cada rodada do Campeonato Brasileiro fica mais evidente: fala-se demais com o trio de arbitragem em nossos jogos. Os jogadores precisam entender que esse tipo de pressão pode até desequilibrar decisões a favor de seus times, o que não significa que seja bom. Bom é um campeonato em que árbitros e assistentes fiquem em segundo plano, como prova de trabalho correto e, por isso, discreto. A variação de critérios em um mesmo jogo não é apenas sinal de uma arbitragem tecnicamente fraca. É sinal, também, de intranquilidade. A postura dos jogadores tem muita coisa a ver com o problema.

MAIS

Bonita e bem concebida a faixa em solidariedade a Aranha, antes de Botafogo x Santos: “Somos preto. Somos branco. Somos um só”. Mas mensagens, por mais sensíveis, infelizmente não são suficientes. O ataque ao racismo depende de ação.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 31.ago.2014 às 11:10h

(publicada ontem, no Lance!)

AMBIENTE

Se a distinta que ofendeu Aranha na noite de quinta-feira o encontrasse na fila do cinema, certamente não o chamaria de macaco. Nem se ele tomasse o lugar dela na hora de entrar na sala. Racista que é, a moça morderia os lábios pela vontade contida de compará-lo a um primata, talvez até dissesse a palavra em baixo tom, mas não se permitiria ser ouvida.

Ela sabe que esse tipo de manifestação é errado, odioso, criminoso. Sabe que se portar dessa maneira pode garantir uma visita ao delegado mais próximo. Basta que alguém tome providências, como aconteceu com o aposentado que, em junho, fez com a atendente de um supermercado carioca exatamente a mesma coisa que a torcedora gremista fez com o goleiro do Santos. Diferentemente do que se viu na Arena do Grêmio, clientes do supermercado chamaram a polícia e o racista foi preso em flagrante.

Não há diferença entre os casos, assim como não há como relativizá-los. A funcionária do supermercado se enganou com um produto, Aranha era o adversário da noite. Ambos foram vítimas da mais abjeta falta de educação. O que separa os eventos é a forma como são vistos ou aceitos. O que produz indignação suficiente para discar 190 – um exemplo de cidadania – nas ruas ou em estabelecimentos, converte-se em cena corriqueira em estádios de futebol.

É o ambiente que permite o abuso, uma vez que imbecis não selecionam onde e quando se comportarão como tais. Imbecis se comportam como imbecis onde e quando esse comportamento é tolerado. Há motivos pelos quais pessoas agem como bestas em estádios. Um deles, provavelmente o principal, é a noção de que nada lhes acontecerá. A indústria do futebol precisa se mobilizar para que se entenda que um estádio não é diferente de uma sala de cinema ou um supermercado.

É preciso conter os imbecis utilizando todos os mecanismos existentes. As leis que regem nossa sociedade e as regras esportivas que preveem punições a clubes. Quando pessoas e instituições forem penalizadas, medidas eficientes serão tomadas para evitar que aconteça de novo. Campanhas no Facebook, camisetas e pulseirinhas podem render boas sensações e algum dinheiro, mas têm o efeito prático de placas de velocidade máxima em estradas sem radares.

Se a moça que chamou Aranha de macaco for responsabilizada pelo crime que cometeu, e a coletividade que frequenta a Arena do Grêmio se sentir prejudicada pelo episódio, comportamentos doentios – e frequentes – como os que vimos na noite de quinta-feira começarão a diminuir. O processo passa pela postura das pessoas que testemunharem esses abusos e pela atitude do clube no sentido de identificar os racistas e impedir que eles retornem. Só o exercício da indignação é capaz de transformar um ambiente permissivo.

O que você faria se, em um restaurante, um idiota na mesa ao lado chamasse o garçom de macaco? Você agiria de outra forma se o mesmo acontecesse com um jogador adversário no estádio em que você vai ver seu time?

AÇÃO

O jogo tem de ser paralisado, o episódio tem de constar na súmula, um boletim de ocorrência tem de ser feito, os meios de comunicação têm de divulgar, repercutir, investigar. Quem realmente quer mudanças não pode economizar em atitudes. E quem pode tomar as providências não tem o direito de fugir das responsabilidades.

OI?

Casos como o de Aranha se avolumam no futebol brasileiro, com os picos e as quedas de repercussão até o esquecimento conveniente. O que a CBF e o Ministério do Esporte fazem a respeito? A inércia revela total ausência de preocupação. Como se nada tivessem a ver com o problema.

UNIÃO

Os jogadores, mais organizados e mobilizados do que nunca em relação a vários temas, também poderiam tratar dessa questão de maneira mais atuante. Tanto no momento em que as ofensas acontecem quanto depois, na hora das declarações e dos repúdios.

CAMISA 12

por André Kfouri em 29.ago.2014 às 7:51h

(publicada ontem, no Lance!)

O TORCEDOR DE TORCIDA

Depois do torcedor de dirigente, aquele sujeito desprovido de capacidade crítica que idolatra e defende com a própria vida alguém que ele julga – sem saber – fazer o bem por seu time, eis que devemos receber com carinho o “torcedor de torcida”.

Ele aparece nas redes antissociais a cada pesquisa de quantidade de fãs, como a divulgada ontem por este diário, em parceria com o Ibope. Vibra por milhares de semelhantes, chora por pontos percentuais, não dorme por margens de erro. Se os números mostram queda entre aqueles com quem compartilha sentimentos, o torcedor de torcida navega entre a revolta e a depressão que resultam das piores derrotas. Se mostram crescimento, a celebração é comparável a um título inédito.

O torcedor de torcida não faz a mais pálida ideia de como as pesquisas funcionam. Não conhece o conceito de amostragem, não considera as regiões em que o trabalho foi realizado, os grupos etários, nada. Por isso não percebe como é complicado desenhar um retrato fiel do número de torcedores de cada time em um país colossal como o Brasil. Ele só se importa com o resultado final, como se aqueles algarismos fizessem alguma diferença em sua vida.

Há um tipo de torcedor de torcida, exigente e esperto, que se considera entendido no assunto e não, não senhor, não acredita em tudo o que lê. É uma classe vip de torcedor de torcida, que só aceita as pesquisas que mostram o que ele necessita desesperadamente que seja verdade. Se o resultado o satisfaz, os métodos são perfeitos e o instituto responsável é exemplar. Se não, trata-se de trabalho mal feito, mentiroso, desprezível.

O que o torcedor de torcida – vip ou não – precisa saber é que tamanho não é representatividade. Os índices que interessam são os de presença em estádio, audiência de televisão e consumo de marca. O resto é vírgula, casa decimal, sexo dos anjos e pouco senso de ridículo.

ARMADOR

A contratação não concretizada de Ronaldinho Gaúcho expõe o problema de armação no meio de campo que o Palmeiras precisa resolver. O clube estava disposto a uma operação arriscada: esticar seus limites financeiros por um aluguel de quatro meses, porque sabe que não pode contar com a assiduidade de Valdivia e não tem solução interna disponível.

PASSADOR?

A intrigante ida de Douglas para o Barcelona continua a produzir questões. O que o gigante europeu enxergou em um jogador de 24 anos que não chamou a atenção em seu país? As categorias de base do clube não oferecem nenhuma alternativa? Os constantes erros de passe do ex-lateral são-paulino não são uma preocupação para um time que joga como o Barcelona?

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 26.ago.2014 às 0:19h

(publicada ontem, no Lance!)

AUGURI!

Na saída do Morumbi, ele sentiu o ar frio do início da madrugada bater em seu rosto. O desejo de estar em outro lugar, qualquer outro, desde que fosse longe dali, encontrou-se com a necessidade de descobrir como. O plano desenhado para aquela terça-feira era vê-la se transformar em quarta, reviver sem pressa as sensações que o jogo lhe havia proporcionado e, com a ajuda de alguma bebiba que pudesse acalmá-lo, comemorar a classificação inédita de seu time para a final da Copa Libertadores.

O que se colocou entre o sonho e a realidade foi uma força que ele não podia explicar. Ela havia se manifestado por intermédio de jogadores que, durante toda a noite, simplesmente se recusaram a aceitar um desfecho que não lhes servisse. Como se nada pudesse detê-los, vencê-los ou mesmo entendê-los. Se mil gols fossem necessários em apenas um minuto, eles fariam mil e um. E se houvesse um pênalti a ser defendido, no último instante, em cem noites seguidas, a mão direita de um goleiro enorme estaria sempre no lugar preciso. No canto direito baixo, fazendo a bola subir e desaparecer pela linha de fundo. Uma defesa eterna.

Ele era exatamente o passageiro que o taxista oportunista esperava. Alguém disposto a gastar o que fosse para sair dali. Disse para onde ia, não negociou o valor proposto, apenas entrou no banco de trás e torceu para as ruas estarem desertas. Não estavam. Torcedores do outro time preenchiam, a pé, os caminhos ao redor do estádio. Alimentados pelo orgulho que o futebol nos faz experimentar quando a camisa pela qual torcemos é vestida com honra. Energizados pela superação de um rival com os requintes mais saborosos.

Lembrou-se do lateral que correu o campo inteiro, não só o lado esquerdo que deveria ocupar, desarmando, criando, atormentando. Aplaudiu, ainda que lhe fosse doloroso, o meia de pé mágico e cérebro superior, arquiteto da virada que conduziu o jogo aos malditos pênaltis. O terceiro gol, marcado pelo volante que surgiu do nada e por pouco não se chocou perigosamente com a trave, talvez fosse a prova de que o destino é mesmo inevitável. Por isso o goleiro invencível saltou para o lado certo na última cobrança. Ele sabia. O futebol também é feito de vitórias que jamais se concretizam, por mais próximas que pareçam.

Lentamente, o táxi se afastou do Morumbi. Lances se repetiam em sua mente como um videotape sem fim. Procurou culpados em seu time, sem sucesso. Os culpados, entre aspas, estavam todos do outro lado. Culpados por excesso de determinação, de obstinação, de suor. Apesar das cicatrizes, até as derrotas mais marcantes podem ser compreendidas quando o adversário tem valores inegáveis, invejáveis. Ele sabia que chegaria ao dia em que poderia arquivar aquela noite e viver em paz. Poderia até perdoar os jogadores que lhe impuseram tristezas profundas.

Quatorze anos depois, as lembranças de uma noite fria de junho continuam intactas. Decoradas pela admiração sem a qual nenhuma rivalidade faz sentido. Longa vida, Palmeiras.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 24.ago.2014 às 10:25h

(publicada ontem, no Lance!)

PLUMAS

Aconteceu um lance no clássico paulista de domingo passado que não recebeu a atenção merecida. O fato de você não se lembrar dele – ou porque lhe passou batido ou porque os resumos do jogo não o incluíram (pelo que a edição de segunda-feira desta coluna se penitencia) – é precisamente o problema central. Um pecado de nossa maneira de ver e debater futebol.

Foi um passe de Ganso para Kaká, nos primeiros minutos do segundo tempo. Ganso recebeu a bola na meia direita, cerca de três metros adiante do grande círculo. Ao ajeitar para o pé esquerdo, viu o companheiro entre os zagueiros palmeirenses. O lançamento passou sobre um deles e encontrou Kaká, já dentro da área, criando a oportunidade para um chute de primeira. Este é exatamente o detalhe que deveria ter sido valorizado: após quicar no gramado, a bola praticamente parou diante de Kaká.

Durante algum tempo, elogios a Ganso foram vistos como insistência de românticos que se recusam a ver o óbvio, ou, pior, defeito de análise de quem não conhece do que fala. Mas depois que o oráculo Tostão escreveu verdades incômodas (aos críticos) a respeito do meia são-paulino, é novamente permitido louvar seu talento sem correr risco de apedrejamento.

O passe para Kaká no Pacaembu não está sozinho. Não foi um evento efêmero. Houve o lançamento para Pato e a assistência para Kardec no empate em 1 x 1 com o Criciúma, exemplos recentes. E a concepção do gol de Luis Fabiano contra o Corinthians, em maio, lance que está na conversa – em igualdade de condições com qualquer outro – sobre o grande passe para gol neste ano no país. Ganso é o único meia brasileiro capaz desse tipo de jogada.

A semana teve outras duas demonstrações fantásticas, no futebol europeu. Uma oferenda de Iniesta para Neymar, no troféu Joan Gamper, e um presente de Fàbregas para Schurrle, na estreia do Chelsea na temporada inglesa. Amostras de que o passe perfeito depende da escolha correta entre pausa e aceleração, o tal controle dos tempos que separa uma tentativa infrutífera de uma bola que chega ao receptor exatamente da maneira que ele necessita. Do lado certo, na altura certa, na velocidade certa. Nem mais, nem menos. Ganso domina todos esses conceitos, mas se assemelha a um pregador em um deserto de ideias associativas.

Se a nova comissão técnica da Seleção Brasileira pretende construir um time que dê as cartas em campo, algo está errado com a convocação anunciada na terça-feira. Entre Luiz Gustavo, Fernandinho, Everton Ribeiro, Philippe Coutinho, Elias, Ramires, Oscar e Willian não há nenhum armador. São todos ótimos em seus papéis, mas falta um jogador de gestão, que saiba identificar o momento do passe vertical. Nenhum time que se organiza por intermédio da posse pode viver sem um.

De formas diferentes, as duas últimas Copas do Mundo mostraram que a circulação da bola é a ferramenta mais eficiente para dominar o jogo e desorganizar o adversário. Jogadores que transformam pedras em plumas, como Ganso, são necessários a este modelo de futebol.

EMBLEMA

Independentemente do motivo e das pessoas envolvidas, um jogador que se comporta como um delinquente em redes sociais deve ser punido por seu clube e obrigado a se retratar. Não é uma questão de correção política ou cultura de desculpas vazias. Jogadores não têm obrigação de ser modelos para ninguém, mas devem saber que representam os clubes pelos quais atuam quando se manifestam publicamente. Além disso, seria interessante que conseguissem dizer o que pensam com um mínimo de argumentação.

SOZINHOS

Por falar em delinquentes, não falta uma vírgula ao texto que Fred publicou a respeito dos “torcedores” do Fluminense que agiram como arruaceiros no desembarque dos jogadores no Rio de Janeiro. O que falta são dirigentes de clubes com coragem para enfrentá-los. Os jogadores já perceberam que estão sozinhos na defesa da própria integridade.

CAMISA 12

por André Kfouri em 22.ago.2014 às 7:32h

(publicada ontem, no Lance!)

SONHO RUIM

Com todo o respeito à opinião de Alexandre Gallo, existem, sim, sonhos maiores do que o ouro olímpico. E mesmo que o coordenador das categorias de base da CBF esteja falando apenas sobre seu objetivo como técnico do time que disputará os Jogos de 2016, a medalha de ouro não deveria ser elevada ao Santo Graal.

O exagero que se comete em relação ao “único título que a Seleção Brasileira não tem” é só mais um aspecto do materialismo que conduziu ao 1 x 7, reflexo do “sonho do hexa” frustrado, complexo de quem quer ter em vez de ser. A dois anos das Olimpíadas do Rio de Janeiro, busca-se uma conquista, não um time.

Jamais ter ganhado o torneio olímpico de futebol não faz falta à Seleção Brasileira. Nem ao currículo da camisa e nem à memória emocional de quem se importa com ela. E quanto maior o investimento de recursos e expectativas, como a convocação de jogadores acima da idade para aumentar a possibilidade de vitória, maior é a decepção com um evento que deve ser encarado como um meio.

Gallo foi o responsável pelo último exercício de supervalorização da medalha que os argentinos ganharam duas vezes nos últimos dez anos. Nos estádios da Copa, ninguém os ouviu cantar sobre os feitos alcançados em Atenas e Pequim. A Espanha venceu em Barcelona 92, conquista que não se compara ao período que teve início dezesseis anos depois.

O ouro no futebol em 2016 não terá significado em si. A não ser que seja conquistado por uma equipe que colabore para a recuperação dos conceitos que a Seleção Brasileira deve exibir, será apenas um objeto de metal. O grande sonho deve ser um time, e aqui estamos falando, claro, da Seleção principal.

Quanto aos conceitos, obviamente não se trata de retornar no tempo até 1970 ou 1982. Não é assim que o Brasil de 2014 deveria jogar. O Brasil de hoje deveria jogar como a Alemanha, mas melhor. Esse foi o sonho que os alemães tiveram quando perderam para a Espanha em 2008.

TOQUE

A ideia de jogo que se planeja é mais importante do que os nomes incluídos na primeira convocação de Dunga. Mas é necessário observar a ausência de passadores em um meio de campo repleto de condutores de bola. Qualquer ideia que deixe de priorizar a posse e o passe estará errada. E se não há jogadores disponíveis, a base precisa formá-los. Base serve para isso.

BRIGA

É deprimente que ainda se tenha de conviver com o conflito entre a Seleção e os clubes. A “regra” dos dois convocados de cada time não melhora o humor de ninguém. O Cruzeiro, por exemplo, ficará sem seus dois melhores jogadores. Fidelizar o torcedor é missão impossível quando os amistosos da CBF prejudicam os campeonatos dos clubes brasileiros.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 19.ago.2014 às 7:48h

(publicada ontem, no Lance!)

CRUEL

1 – Valdivia começou o clássico como se fosse seu primeiro jogo em três meses pelo Palmeiras. Incomodando o lado direito da defesa do São Paulo, com a disposição um ponto acima do que é seu normal. Quando o meia chileno chama a atenção pelo aspecto motivacional, cabe a pergunta sobre como sua atuação será afetada.

2 – Ganso, Kaká, Pato e Kardec juntos. Combinação que sugere movimentação constante, rodízio de posições e caos no sistema de marcação adversário. Precisa ser mais do que uma sugestão.

3 – Valdivia substituído antes dos vinte minutos. A mão na parte de trás da coxa direita e a reclamação de tontura configuraram um enigma. O depoimento do médico do Palmeiras não esclareceu o motivo da saída, ao contrário. Essa é a questão com Valdivia, seja quando o assunto é sua assiduidade em campo ou seu destino de férias: nunca se sabe.

4 – Passe virou artigo de luxo no Pacaembu, como se os dois times tivessem recebido ordens expressas de não dar sequência às próprias ideias. E como ambos carecem de ideias, o chamado futebol associativo não tem chances. Número de oportunidades de gol no primeiro tempo: zero. A maior parcela de culpa é do São Paulo, que tem mais a oferecer.

5 – Uma triangulação entre Fábio, Ganso e Pato construiu o gol do São Paulo. Imprudência do goleiro palmeirense, inteligência e eficiência da dupla são-paulina. O toque de primeira de Ganso não só criou o gol para Pato como impediu que o atacante se colocasse em impedimento. O bom futebol é feito de coisas simples.

6 – O pênalti marcado para o Palmeiras será o assunto da semana. Chute na direção do gol, defensor de frente para o lance, braço descolado do corpo. As opiniões que formamos após as repetições e as imagens frisadas são questão de um segundo, ou menos, para o árbitro. Enquanto o recurso de vídeo servir apenas para criar polêmicas e esculachar a arbitragem, não avançaremos.

7 – Kaká encontrou uma marcha acima e o São Paulo se insinuou, mas pecou ao finalizar. O Palmeiras encontrou a coragem dos desesperados e foi à luta, com o pouco que tem. O jogo melhorou, justamente por deixar de ser uma sequência de frases interrompidas e passar a ser um debate.

8 – Valdivia deixou o Pacaembu antes do final do jogo. Perguntado sobre o que aconteceu, disse: “também não sei”. Volte ao item 3.

9 – O clássico, empatado, entrou no território em que a vitória depende da disposição de correr riscos e do irônico balanço entre sorte e azar. Não é exagero dizer que o segundo gol esteve em pés palmeirenses pelo menos duas vezes. Defeitos técnicos o impediram. Quando é assim, um time só pode reclamar das próprias falhas.

10 – E como se fosse uma punição, o Palmeiras perdeu com um gol marcado pelas costas de seu goleiro, no rebote da própria defesa e da trave, no final do jogo. Na súmula, Alan Kardec, o atacante que trocou de lado, aparecerá como autor. Cruel.

11 – A vitória do São Paulo acalmou as aquietações que ganharam volume desde a noite de quarta-feira, mas fez pouco mais do que isso. A distância entre poder e fazer continua grande.

SUPORTE

Gareca contratou estrangeiros para poder trabalhar e ter suporte no grupo que deve acreditar nele. O problema é que o time precisa de tempo e tranquilidade, mais escassos a cada rodada. A sorte do Palmeiras no ano de seu centenário depende de como o comando reagirá às pressões para demitir o técnico. Que outro treinador será melhor para dirigir a equipe que o argentino montou?

CONVENIÊNCIA

Em entrevista à revista Época, falando sobre Neymar, Dunga disse que “para ter carimbo de craque, tem de ter o carimbo de campeão do mundo nas costas”. Como se o futebol fosse um esporte individual ou se o resultado coletivo fosse o único critério para escolher o lugar de cada jogador na história. Por essa ótica, Lionel Messi não é craque. Cristiano Ronaldo não é craque. Zico, Sócrates e Falcão não foram craques. Mas Dunga foi, claro. Que conveniente.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 17.ago.2014 às 11:10h

(publicada ontem, no Lance!)

DEMOROU

Se as palavras não tivessem aparecido em uma publicação oficial, seria obrigatório investigar se Joseph Blatter foi sequestrado e substituído por um impostor. No caso, um impostor com uma visão muito mais moderna e benéfica para o futebol. Eis que a última edição da revista semanal da FIFA traz, em coluna assinada pelo presidente, uma chocante revelação: “(…) a ajuda tecnológica pode nos ajudar a avançar no futebol. Por isso eu gostaria de trazer outra ideia, conforme sugeri no Congresso em São Paulo, em 11 de junho: a opção de desafios de vídeo para técnicos no caso de decisões duvidosas”.

Blatter abriu seu texto com um comentário sobre o sucesso da utilização da tecnologia de linha de gol na Copa do Mundo. “Será introduzida nas principais ligas cedo ou tarde”, escreveu. Depois abordou o spray de espuma que desaparece após o árbitro marcar o local das infrações e a distância da barreira, que será adotado nesta temporada na Inglaterra, França, Espanha e Itália. Na esteira das inovações, o cartola-mor se manifestou a favor do recurso de vídeo durante jogos.

“O medo de que essa inovação pode alterar o caráter do jogo não tem fundamento, desde que essa ajuda técnica seja tratada com cuidado e com restrições adequadas”, opinou Blatter. “Estou falando de até dois desafios por jogo por técnico, com o máximo de quatro por jogo”, explicou.

De acordo com o presidente da FIFA, os desafios só poderiam ser feitos quando o jogo estivesse paralisado por uma marcação da arbitragem, para não causar interrupções adicionais e não atrapalhar o fluxo da partida. Ele citou o exemplo das paradas técnicas para reidratação e descanso que aconteceram por causa do calor durante o Mundial do Brasil, sem impedir que o torneio fosse considerado “a melhor Copa do Mundo da história”.

Blatter parece ter se convencido da necessidade de evoluir. Suas posições estavam alinhadas com tolices sobre a proteção do “aspecto humano” do jogo ou, pior, com o argumento intelectualmente falso sobre o futebol ser igual em todas as partes do mundo, encanto que seria quebrado por recursos tecnológicos que não são financeiramente acessíveis a todos os campeonatos. “Eu mesmo rejeitei as ajudas tecnológicas no passado. Mas não há por que se apegar a posições ou princípios entrincheirados”, reconheceu.

O final do texto transmite a mensagem mais importante, do ponto de vista de quem deve estar preocupado com a imagem e a credibilidade do jogo. “Nosso objetivo tem de ser tornar o futebol mais transparente e digno de crédito, e auxiliar os árbitros em sua difícil tarefa”, concluiu Blatter, em frase que certamente será recebida com alívio por profissionais de arbitragem ao redor do mundo. Os homens de preto finalmente podem sonhar com o dia em que não serão mais os únicos bobos do futebol.

Claro que a opinião do presidente da FIFA não é uma garantia. Propostas como essa precisam da aprovação do International Board. Até quando os guardiões das regras do futebol se manterão contra a lisura do resultado de campo?

PARA TRÁS

Por aqui, o vício do retrocesso se mostra poderoso. Volta Dunga, volta mata-mata, volta lei do passe… As figuras que tomam decisões no futebol brasileiro são capazes de todo tipo de artimanhas para fugir das próprias responsabilidades e camuflar a péssima gestão que representam.

JOVEM

As duas primeiras atuações de Robinho pelo Santos, ainda aquém das melhores condições físicas, comprovam o que tantos se recusam a ver. É consideravelmente mais fácil jogar nas competições brasileiras, em comparação com os principais campeonatos da Europa. Além da distância técnica, o futebol no Brasil oferece um luxo que faz toda a diferença: o espaço. A generosidade local foi aliada até de quem retornou em clara curva descendente, o que não parece ser o caso de Robinho. O santista dá indícios de ser um desses jogadores para os quais a idade não importa.

CAMISA 12

por André Kfouri em 15.ago.2014 às 8:08h

(publicada ontem, no Lance!)

BORRACHA

Antes mesmo da apreciação da assembleia condominial chamada STJD, o caso de Petros já produziu um absurdo que tem tudo para expor o futebol brasileiro ao ridículo internacional. O adendo do árbitro Raphael Claus à súmula de Santos x Corinthians, após ver o lance pela televisão e mudar seu conceito sobre o que houve em campo, pode contribuir para a interrupção da carreira de um jogador por seis meses.

O precedente a ser aberto dependendo da decisão dos humoristas do tribunal é perigoso. Se o “comentário do dia seguinte” for aceito, todos os árbitros brasileiros estarão autorizados a retocar suas súmulas com ajuda do videotape. Faltas não marcadas podem gerar cartões amarelos, amarelos podem se converter em vermelhos, e empurrões que escaparam aos olhos da arbitragem podem se tornar motivos para suspensões de cento e oitenta dias. Calcule o que isso significa.

O noticiário informa que Claus foi orientado a “corrigir” o que escreveu na súmula para evitar que ele próprio fosse punido. Difícil compreender por quê. O árbitro estava de costas, foi abalroado por Petros sem ter ideia do que acontecia, razão pela qual não tinha como julgar se a ação foi proposital ou um acidente. As mesmas imagens que complicam o meia corintiano isentam Claus de qualquer falha. Ele comprovadamente não viu.

Usar o recurso de vídeo para suspender um jogador que deu uma cotovelada na boca de um adversário, em um gesto indiscutível de briga de rua, é uma coisa. Já aconteceu até em Copa do Mundo. Alterar o que está escrito na súmula, extraindo conclusões do replay para modificar decisões tomadas em campo, é uma barbaridade inaceitável.

A ironia desse episódio é a possibilidade de consagrar a tecnologia como auxílio ao árbitro, mas não em questões técnicas, muito mais importantes. Anular um gol de mão inicialmente validado, e mudar o resultado de um jogo, pode ser traumático. Mas ao menos seria justo.

SURTO

Petros cometeu um erro. Encostar no árbitro é um pedido para ser punido. Mas condená-lo como quem agarrou o apitador pelo pescoço e lhe quebrou o nariz com uma cabeçada é brigar com a realidade. Tanto quanto dizer que o encontrão em Claus foi sem querer. Que as excelências estejam em um bom dia e o suspendam por três jogos. E que ele se comporte.

GÊNIOS

O Botafogo é tão bem administrado que, quando apareceu um dinheiro para honrar os salários de jogadores, a diretoria rachou o time entre os que receberam e os que não. Não é espetacular? Sabe-se lá como, os jogadores vinham mantendo um bom ambiente de trabalho, mesmo de graça. Mas a genialidade da cartolagem conseguiu acabar com isso também.

GANHAMOS

por André Kfouri em 14.ago.2014 às 9:51h

IMG_1950.JPG

Essa foto parece ter sido retirada da cena de um filme. De certo modo, foi.

O filme da conquista da primeira Copa Libertadores pelo San Lorenzo.

Na imagem, o técnico Edgardo Bauza e o vice-presidente Marcelo Tinelli compartilham o troféu, um instante carregado de simbolismo.

Não me aprofundei sobre o conceito de Tinelli – famosíssimo apresentador de televisão na Argentina – como dirigente. Não sei se ele trouxe práticas oxigenadas para o futebol ou se é uma embalagem diferente para o mesmo produto de sempre.

Esta é uma conversa para outro dia.

Hoje o momento é de celebração para um torcedor do San Lorenzo que se envolveu na vida do clube, se tornou dirigente em 2012 e pôde “tocar a Copa”.

A Copa que seu clube esperou por décadas, finalmente entregue pelo técnico que a conquistou, na festa que comemorou a noite inesquecível.

Troféus como o da Libertadores preservam o amadorismo que o futebol perdeu, carregam os sonhos que o futebol continua a proporcionar, armazenam os sentimentos que são mais importantes do que as forças que tentam sufocá-los.

Apesar de tantos pesares, há algo puro e nobre no gesto de erguê-los, na expressão dos privilegiados para os quais esses objetos representam trabalho, sacrifício e ilusão. Não duvide que essas pessoas existem.

A foto acima capta todas as metáforas que fazem o futebol valer a pena.

“Aqui está. É nossa”.


.