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COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 21.mai.2013 às 9:15h

(publicada ontem, no Lance!)

RECOMEÇO

1 – A primeira grande diferença em relação ao jogo de ida é a aparição de Neymar. Apagado (machucado?) no Pacaembu, ele surge na Vila Belmiro como condutor dos movimentos ofensivos do Santos. O que transforma a dinâmica do encontro, também porque o Corinthians não marca no ataque como fez no primeiro jogo. Decide explorar a necessidade do Santos de ser mais ousado.

2 – Enquanto Santos e Corinthians empatam, as faltas ganham. O apito rápido de Guilherme Cereta de Lima faz do árbitro um adversário comum. Dez faltas nos primeiros quatorze minutos. A cada marcação, uma reclamação. Somatória da tensão dos dois times com a tensão de um apitador em sua primeira decisão.

3 – Neymar desequilibrante. Sensacional passe pelo alto, para a entrada em diagonal de Felipe Anderson. Surpreendente, pela inversão de papéis. Prova do arsenal do jovem craque. Cássio impede o gol santista, mas não a impressão de que Neymar está disposto a decidir.

4 – 26′, 1 x 0. Cobrança de falta de Neymar do lado direito, jogada ensaiada. Durval ajeita de cabeça para Cícero concluir. Menção mais do que honrosa para o giro acrobático do santista, que vence Cássio com um chute forte.

5 – 28′, 1 x 1. Danilo estava fora do campo no instante do gol do Santos, em atendimento por causa de um corte na testa. Reapareceu na área com a cabeça enfaixada para empatar o clássico. Jogada de todo o ataque corintiano, que Danilo completa após o rebote de Rafael. Melhor empate do que esse, praticamente imediato, só se fosse no último minuto.

6 – O enfrentamento revela dois times em estágios distintos. O Corinthians ataca inteiro, usando a força e os automatismos de seu conjunto. O Santos ameaça via Neymar, um jogador capaz de representar a totalidade das opções ofensivas de sua equipe.

7 – O travessão é amigo de Rafael. O primeiro tempo não termina com vantagem do Corinthians apenas porque a moldura do gol santista rejeita Paulinho e Danilo.

8 – Joga-se por um gol. O Santos, para garantir a decisão nos pênaltis e gerar uma pressão no final. O Corinthians, para colocar gelo no jogo. O contra-ataque corintiano flerta com o gol do título, em dois lançamentos longos desperdiçados por Edenílson e Romarinho.

9 – Em tese, é um cenário sob medida para o Corinthians, um time que se sente à vontade ao confiar na solidez defensiva combinada com a transição em velocidade. Na prática, o tempo passa e o Santos, sem outra opção, troca precaução por ousadia sem pagar o preço correspondente.

10 – Alexandre Pato em campo. Um gol incrivelmente perdido contra o Boca Juniors, um pedido por mais tempo em campo, e quinze minutos – um por cada milhão de euros investido em sua contratação – para justificar a demanda.

11 – A chegada dos acréscimos significa a impossibilidade de o Santos ser campeão no tempo normal. Santos em ligação direta, Corinthians em modo de manutençã da bola. E Pato perde mais um gol.

12 – Corinthians campeão paulista. Para o clube, é mais um, o vigésimo-sétimo título estadual. Para Tite, é o primeiro. Para o corintiano, é o recomeço de um ano que pode terminar com felicidade.

FRACASSO ESPECIAL

Eis que José Mourinho ostenta o pior desempenho entre todos os técnicos que dirigiram o Real Madrid por pelo menos três anos. A temporada 2012/13 termina sem nenhum troféu valioso, e com a celebração do Atlético de Madrid no gramado do Santiago Bernabéu após a conquista da Copa do Rei. A “estratégia de comunicação” de Mourinho tenta convencer as pessoas de que, com três semifinais seguidas de Liga dos Campeões, a posição do Real Madrid no continente foi restaurada. O argumento não dura nem trinta segundos, especialmente se comparado a técnicos que venceram o torneio pelo clube, com muito menos orçamento e poder.

FESTA

Devemos comemorar a inauguração do estádio mais caro do Brasil, que custou quase 80 milhões de reais a mais do que o dobro do previsto? Devemos comemorar que tudo foi feito com dinheiro do governo? Devemos comemorar que este estádio fica em Brasília?

DANILO, O SÁBIO

por André Kfouri em 20.mai.2013 às 19:42h

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(imagem: Ivan Storti/LANCE!Press)

Antigamente se dizia que jogadores como Danilo “conhecem os atalhos do campo”.

Está na hora de uma atualização.

Danilo e seus semelhantes são jogadores que conhecem as áreas mais valorizadas do campo, e navegam entre elas por estradas bem pavimentadas.

Não há atalhos.

São as estradas que representam a carreira de um futebolista bem sucedido, que entende o futebol como algo superior a todos nós, que se determinou a vencer a seu modo.

Danilo cultiva um tipo diferente de humildade, que só quem presta muita atenção consegue detectar.

Ele não é o sujeito subserviente, que se recolhe diante de quem lhe parece melhor, com um introvertido abaixar da cabeça.

Não. Ele só parece ser assim, à distância.

Ao contrário das aparências, ele é o lutador tinhoso que estuda o oponente em silêncio, alcança o fundo dos seus olhos e identifica o medo que existe em todas as pessoas.

E procede a um nocaute lento, porém impiedoso. Violento, porém majestoso.

Danilo vence porque sua enganosa lentidão é um disfarce para sua eficiência. Porque a frieza que incomoda aos neuróticos é companheira de sua inteligência.

Quando o adversário, aquele que não lhe mostrou respeito, está finalmente no chão, Danilo apenas sorri.

Já reparou como ele reage aos gols que marca?

Não há raiva, não há locura, não há palavrões,

Só felicidade.

É o triunfo dos que jamais dobram as pernas, dos que não aceitam as portas que se fecham, dos que acreditam que não há força capaz de deter o talento.

Danilo sabe o que quer, sabe como encontrar, sabe como chegar.

Sua estrada é feita de sabedoria.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 19.mai.2013 às 11:24h

(publicada ontem, no Lance!)

RINGUE

O dirigente corintiano Roberto de Andrade enriqueceu o debate futebolístico, anteontem, com a versão boleira do “eu não sou preconceituoso, tenho vários amigos negros”.

Em entrevista à Rádio Globo, o diretor de futebol do Corinthians externou seus sentimentos em relação à atuação do árbitro paraguaio Carlos Amarilla no jogo contra o Boca Juniors. “Detesto violência, mas tem hora que parece que não resta outra coisa. Parece que só me restava bater na cara dele. Esse merecia!”, disse.

Registre-se que a declaração surgiu quase vinte e quatro horas depois da eliminação do Corinthians da Copa Libertadores, quando a temperatura do sangue já deveria ter retornado a níveis normais. Não que se deva perdoar que uma frase carregada de tanta infelicidade escape logo depois do jogo, quando custa mais conter os ímpetos. Mas nem a esse atenuante o citado dirigente pode recorrer. A distância entre o fato e o belicismo explícito de Andrade torna difícil crer que não estamos diante de um adepto do pugilato.

O que nos leva à repercussão mais preocupante de uma manifestação como essa. Não é preciso explicar a ninguém que vive o futebol no Brasil sobre o grave problema de violência que enfrentamos. Estimulá-lo é uma irresponsabilidade. Jogadores, técnicos e dirigentes têm obrigação de exercer seu papel no sentido oposto. Acéfalos que de fato agrediriam um árbitro – ou um torcedor adversário, um jornalista ou quem quer que seja – não devem receber esse tipo de aval oficial de um clube.

Mas é preciso oferecer a Andrade o benefício da dúvida. Acreditar que ele realmente não aprova o cenário que aventou, e só o fez por necessidade de posicionar o Corinthians em relação à atuação horrenda de Amarilla no Pacaembu. Outro equívoco. Primeiro porque o comentário sobre bater na cara do juiz paraguaio teve a companhia de uma acusação importante (“Ele veio com uma encomenda: tirar o Corinthians da Libertadores”, disse o cartola, na mesma entrevista). E depois porque o tom incendiário de argumentação não produzirá nada de interessante. Ao contrário.

Suponhamos que Roberto de Andrade saiba de algo que não sabemos, que indique que o Corinthians foi operado na quarta-feira. Imaginemos que se trate de uma retaliação da Conmebol pela forma como o clube se portou depois do episódio da morte de Kevin Espada. De que forma uma bravata serve ao que se pode fazer a respeito?

Dirigentes de clubes brasileiros, em sua maioria, sofrem de moléstias crônicas. Uma delas é a noção deturpada do que significa representar uma instituição. Muitos agem e se portam como se só devessem satisfação às próprias consciências. Se as declarações de Roberto de Andrade foram resultado de um impulso, o Corinthians deveria corrigi-las. Se foram fruto de uma estratégia pré-concebida, o erro é mais grave.

A arbitragem no futebol sulamericano é um filme de terror de baixo orçamento. Vociferar contra os atores é constrangedor e inútil, apenas alimenta as gargalhadas do diretor. Um clube como o Corinthians tem meios de exigir um elenco de melhor nível, ou não deve mais ir ao cinema.

Até para parecer malvado é preciso ser esperto.

ERRO CERTO

Riquelme falou a verdade quando disse que seu gol no Corinthians não foi intencional. A bola de curva chutada na direção do gol tem o objetivo de criar perigo, caso alguém a desvie ou não. No Pacaembu, a curva “não pegou” e o chute saiu mais alto do que ele gostaria. Se quisesse fazer o gol, Riquelme bateria de um jeito diferente, com o peito do pé, como contra o Grêmio em 2007.

ANO BOM

Contrariando o que se imaginava, o ano não tem sido tão ruim para o palmeirense. A campanha na Copa Libertadores teve exatamente a mesma duração das dos rivais. E o Grêmio, para onde Hernán Barcos se mandou em busca de melhores dias, também ficou nas oitavas. Mas o que interessa – e isso vale para todos – é como o ano termina.

MENTES GÊMEAS

Quando li Valcke (“Não há Copa no Brasil sem São Paulo”), lembrei de Teixeira (“O compromisso da CBF com São Paulo é o Morumbi”).

CAMISA 12

por André Kfouri em 17.mai.2013 às 8:14h

(publicada ontem, no Lance!)

GERENTES

Conversamos com um técnico brasileiro, dos grandes. Ele permanecerá anômimo, por óbvio. O contexto que ele oferece é mais importante do que seu nome.

No ranking das preocupações de um técnico, onde fica o controle do ambiente?

Em segundo lugar. Em primeiro está a qualidade, porque todo trabalho pretende ser vencedor. Mas todos devem estar comprometidos com esse objetivo e para isso o ambiente tem que ser bom. Há muitos interesses em um grupo, muitas insatisfações. Você só consegue comprometer todos se cada um sentir que o técnico é correto, que há respeito e regras. O bom ambiente é mais necessário nos momentos decisivos e difíceis.

Mas e os jogadores especiais? Devem ser tratados de forma distinta?

É preciso ter cuidado. Um técnico não pode transgredir no que é mais importante. Para o jogador diferente, existe o custo benefício. Os outros têm que entender que o custo de correr por ele – e aceitar privilégios – vale pelo benefício que ele traz. Mas existe uma cota mínima que todos têm de pagar. Os diferentes também sabem ser geniais fora do campo. Lideram por vários mecanismos. Mas tudo está ligado ao desempenho em campo.

Esse é o cálculo para decidir se um jogador vale a pena?

Isso. E o duro é que você não pode explicar algumas decisões publicamente. A análise é feita com informações diárias que ninguém tem. O que o grupo quer, como recebe certas situações, como o dia a dia é afetado. Nada disso pode ser divulgado.

Quanto tempo se gasta gerenciando personalidades?

Depende da autoridade do técnico e do respaldo. Às vezes a diretoria toma atitudes erradas que prejudicam o treinador. Temos vários exemplos. Sem dúvida, hoje, treinar o time e fazer as escolhas táticas e estratégicas representam só um terço da rotina. O que deveria ser o principal está tomado por esse outro aspecto, porque sem ele o principal não funciona.

Se fosse o técnico da Seleção, você convocaria Ronaldinho?

(longa pausa) Não.

PRIORIDADE

O Palmeiras não foi eliminado da Copa Libertadores porque Bruno, como já fizeram outros goleiros bons e ruins, já pensava na reposição da bola antes dela chegar. Culpar o goleiro é mais ou menos como culpar o mordomo. Conveniente. O objetivo de fazer uma Libertadores digna foi cumprido. O objetivo de voltar à Série A não pode deixar de ser alcançado.

DO CONTRA

Desde que perdeu a decisão da Liga dos Campeões em 2008, o Chelsea disputou seis finais: três da Copa da Inglaterra, uma da Liga Europa, uma da Liga dos Campeões e uma do Mundial de Clubes. Só perdeu para o Corinthians no Japão. Os títulos não foram frutos de trabalhos bem planejados e executados. Ao contrário, o Chelsea é a antítese do que se considera correto.

RISCO (MAL) CALCULADO

por André Kfouri em 16.mai.2013 às 14:39h

Sim, chegaremos a Carlos Amarilla em mais alguns minutos.

Mas há muito a ser considerado antes da atuação subversiva do árbitro paraguaio, porque o Corinthians é co-responsável por ela.

E não falo sobre a indicação dele para o jogo, que teria sido obra de dirigentes corintianos.

Falo sobre futebol mesmo. Ou falta dele.

O Corinthians não deveria ter nada a reclamar pela eliminação precoce, além dos próprios defeitos.

Permitiu, na Bombonera e no Pacaembu, que o Boca Juniors construísse o único caminho possível para passar pela eliminatória.

O pecado mais grave foi a postura fria no jogo de ida, quando não teve a capacidade de marcar o gol que encaminharia sua classificação.

Com um 1 x 1 em Buenos Aires, Amarilla poderia ter feito o que bem entendesse ontem – como fez – e o jogo iria para os pênaltis.

Ou, mais provável, já que o Corinthians teria praticamente todo o segundo tempo para fazer um gol, estaria agora nas quartas de final.

Mas esqueça por um minuto o gol que o Corinthians não fez.

A grande prova de que não foi a arbitragem que tirou o campeão da Libertadores é o lance com Alexandre Pato, precisamente aos 30 do segundo tempo.

Não tivesse ele se enrolado com a bola, a um metro da linha, é forçoso considerar a hipótese do Pacaembu empurrar o terceiro gol para dentro, não?

Haveria pelo menos 15 minutos para que isso acontecesse.

De modo que foi o Corinthians que se colocou na posição perigosa de não ter margem de manobra no jogo em casa.

Qualquer coisa que desse errado – um cruzamento que entra no ângulo, erros de arbitragem em ocorrências de gol – seria potencialmente decisiva.

Foi o Corinthians que falhou ao tratar o Boca Juniors como um adversário corriqueiro, talvez por tê-lo vencido na última fase da conquista histórica do ano passado.

O melhor Boca, o pior Boca, qualquer Boca… não faz diferença. Este é um clube que tem a Copa Libertadores gravada em sua carga genética, um clube em que a confiança no sucesso em jogos copeiros é absoluta.

Em qualquer época, com qualquer elenco, contra qualquer adversário, em qualquer lugar.

Um clube em que a confiança em jogos copeiros contra brasileiros, com Bianchi e Riquelme em campo, transborda.

Colocar-se na situação de não poder tomar um gol do Boca Juniors é ficar à mercê de uma “receita de classificação” testada e aprovada ao longo dos tempos. Algo que já vimos e ainda veremos muitas vezes.

Algo que o Corinthians deveria ter evitado a todo custo.

A oportunidade se apresentou na Bombonera, e, por tê-la negligenciado, o Corinthians deve se penitenciar.

Isto considerado, chegamos à arbitragem.

O trio comandado por Amarilla interferiu no resultado do jogo, no primeiro tempo, ao não marcar pênalti de Márin – que já tinha amarelo e seria expulso – e paralisar por impedimento inexistente o lance que terminou com um gol de Romarinho.

O segundo erro, que deve ser creditado ao auxiliar, é ainda mais prejudicial que o primeiro. Porque o gol de Riquelme aconteceu no minuto seguinte.

Independentemente disso, um jogador como Román, com tamanho currículo de vítimas brasileiras na Libertadores, jamais poderia ter sido presenteado com tal liberdade para lançar a bola para a área.

Tenha sido um cruzamento ou não.

Houve mais equívocos? Provavelmente sim. Mas não foram tão danosos ao jogo quanto os dois acima mencionados.

Que só foram tão danosos aos objetivos do Corinthians, porque o próprio Corinthians permitiu.

CONTROLE AMBIENTAL

por André Kfouri em 15.mai.2013 às 9:28h

(o jornal pediu um comentário sobre a convocação para a Copa das Confederações. Na edição de hoje do Lance! você encontra as análises dos colunistas sobre a lista de Scolari)

Sai Ronaldinho, entra Bernard. A substituição exemplifica os conceitos de Scolari na formação de um grupo. O antigo pelo moderno, o rebelde pelo obediente, o talento instável pelo talento emergente.

No início da semana passada, o técnico da Seleção Brasileira disse a pessoas próximas que não convocaria Ronaldinho. Isso, importante frisar, foi antes das atuações do meia do Atlético Mineiro contra o São Paulo e o Cruzeiro. Entre os que o ouviram, houve quem imaginasse que duas partidas fossem capazes de fazer o técnico mudar de ideia. Mas Felipão não trabalha assim.

A ausência de Ronaldinho numa lista em que a juventude é evidente também indica que ganhar a Copa das Confederações não é prioridade. Em vez de recorrer à experiência para compor um time mais “preparado” para disputar o torneio em casa, optou-se pelo acúmulo de experiência com vistas ao que é, obviamente, muito mais importante: a Copa do Mundo.

Mas descartar Ronaldinho não é a questão mais interessante da convocação. É Ramires. O fato de ele não aparecer na relação não pode ser explicado com argumentos técnicos. Ramires está em plena atividade no Chelsea, e com destaque. Tudo aponta para o ambiente e para os conceitos de um treinador que não tolera certas posturas. Ramires não se apresentou para jogar o amistoso contra a Itália, em Genebra, por lesão. Dias depois, apareceu no hotel em Londres para uma rápida visita, na véspera do jogo contra a Rússia. Enquanto isso, Lucas, também machucado, fazia tratamento na concentração.

Scolari monta seus grupos com convicções futebolísticas e comportamentais que são conhecidas. Elas podem gerar críticas, mas não surpresas. Ontem foi o dia 1 da “nova família”. Nessa ótica, a lista diz tanto a respeito de quem foi chamado quanto de quem não foi.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 14.mai.2013 às 8:11h

(publicada ontem, no Lance!)

ÂNIMO

1 – O Pacaembu se enche e recebe o melhor Corinthians de 2013. Dinâmico, vibrante, dominante. Uma releitura de atuações do ano passado, que pareciam distantes por causa das diferenças e defeitos do time atual. Um Corinthians estabelecido no gramado e superior em todos os setores e aspectos. Bloqueio alto, linha de zagueiros adiantada, manutenção e circulação da bola em níveis inéditos na temporada.

2 – O Santos não está presente. Sugere ter menos do que 10 jogadores de linha, tamanhas as dificuldades para simplesmente participar do encontro. O time de Muricy é um observador das ações, aparentemente resignado a esse papel secundário. Não é correto dizer que o Santos cedeu a bola ao Corinthians por estratégia, porque não se pode ceder algo que não se tem.

3 – O domínio absoluto só merece uma crítica: gera menos oportunidades de gol do que deveria. Um cabeceio de Paulinho, sozinho, que passa à direita. E um chute cruzado de Emerson Sheik, desviado por Rafael. Este último lance ocorre aos 19 minutos, próximo à altura que costuma encerrar a maioria das blitzes iniciais. Em pouco tempo, veríamos que a pressão do Corinthians não pode ser qualificada desta forma.

4 – 41′, 1 x 0. Bola na área, intervenção de Danilo, que serve Paulinho diante de Rafael. O gol premia o melhor Paulinho de 2013, um jogador que tem lastro para desarmar, colaborar na criação e ainda finalizar movimentos de ataque. Um jogador que, por deficiências individuais e coletivas, ainda não tinha se apresentado de forma tão positiva neste ano.

5 – Com um petardo no travessão, o próprio Paulinho flerta com o segundo gol e caracteriza um primeiro tempo de um time só no clássico. Uma pressão de 45 minutos, sem perda de intensidade ou objetividade. Pressão que não se traduz fielmente pela vantagem de apenas um gol, e deixa uma pergunta: o que sobrou das reservas físicas do time de Tite?

6 – O jogo é mais lento, e mais jogo – no sentido da competição – no segundo tempo. Mas continua a favor do Corinthians na dinâmica e nas chances. Rafael defende com o pé um chute forte de Sheik. Pouco depois, rejeita o mesmo Sheik num lance de olhos nos olhos, mostrando (como Neymar costuma dizer) que é um goleiro superior em jogadas desse tipo.

7 – Neymar em campo. Somente aos 26 minutos do segundo tempo surgem a velocidade e a qualidade de Neymar. Lançado em contra-ataque, ele impõe o caos na defesa corintiana até o chute de Cícero, desviado por Cássio e sua trave direita. Uma amostra do perigo que o Santos pode causar.

8 – 29′, 2 x 0. Outra bola que teima em não sair da área do Santos. Corpos no chão num lance de fliperama (pinball, claro) que se oferece para Paulo André chutar no reflexo. Distância no placar que absolutamente merecida e condizente com o jogo.

9 – 37′, 2 x 1. Distância que dura pouco. O cabeceio de Durval bate no travessão e entra. Em ciscunstâncias semelhantes, Cássio havia impedido um gol de Neymar pouco antes.

10 – O resultado anima o Santos para a volta na Vila, no domingo. A atuação anima o Corinthians para a visita do Boca, na quarta-feira.

FUTEBOL

Uma das grandes imagens do futebol nos últimos tempos aconteceu em Portugal, no sábado, nos acréscimos do clássico entre Porto e Benfica. O time da capital foi ao Porto com dois pontos de vantagem sobre o rival. Mas um gol do brasileiro Kelvin, após o tempo regulamentar, virou o jogo (2 x 1) e as possibilidades de título. Tão logo a bola entrou, o técnico benfiquista Jorge Jesus caiu de joelhos no gramado, rosto consumido pela mais evidente expressão de dor. Segundos antes, Jesus e seu time estavam em posição privilegiada. Um gol e tudo se inverteu. Isto é o futebol e, até hoje, o ser humano não inventou nada parecido.

CAMPEÃO

Bonito ver a felicidade de Alex, brilhante e decisivo na conquista de seu primeiro título paranaense pelo Coritiba, clube que o revelou. Alex tinha outras opções ao retornar da Europa. Escolheu o Coritiba para viver momentos como o deste domingo.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 12.mai.2013 às 10:27h

(publicada ontem, no Lance!)

É A POSSE

O afastamento de Jorge Henrique não foi uma decisão intempestiva de Tite e da diretoria do Corinthians. Os episódios antiprofissionais do atacante são antigos, remontam à época em que o técnico era Mano Menezes. No segundo semestre de 2009, em virtude de atuações decisivas nos títulos da Copa do Brasil e do Campeonato Paulista, Jorge Henrique mereceu e depois deslumbrou-se com um aumento salarial. Passou a agir como se treinar fosse uma opção. De lá para cá, alternou fases boas e ruins fora do campo.

Já sob Tite, ele não pode reclamar de punição sem aviso, tantos foram os conselhos que recebeu de companheiros para não acabar por comprometer a própria carreira. O Corinthians tem um grupo capaz de se regulamentar quando percebe desvios de comportamento, sejam eles de conduta externa ou interna, como no caso do descontentamento de Emerson Sheik com seus minutos em campo, resolvido momentaneamente. Quem chega a ponto de ser disciplinado de cima para baixo, como Jorge Henrique e, há mais tempo, Chicão, é porque ultrapassou várias camadas de proteção.

Perder Jorge Henrique prejudica o Corinthians no ponto de vista tático, especialmente num momento de decisão, mas os maiores problemas estão mais relacionados ao jogo em si. Quem observa o time não demora a notar uma clara diferença em relação ao ano passado: falta pressão no nascimento de jogadas do adversário. Mas este é o sintoma. A doença é um decréscimo na capacidade de manter a bola, que altera a dinâmica das posses e sobrecarrega Paulinho, Ralf e o sistema defensivo.

Alguns fatores contribuem para um time mais verticalizado e, por consequência, mais vulnerável. A idade de alguns jogadores, como Danilo, Fábio Santos e Alessandro é um deles. A lesão de Renato Augusto, outro. A baixa produção de Douglas, mais um. Juntas, tais circunstâncias produzem uma equipe que ataca com menos elaboração e expõe seus dois volantes a um constante ioiô entre as duas metades do campo.

Essa maneira de jogar não é, necessariamente, um problema para a decisão do Campeonato Paulista, que começa amanhã. Corinthians e Santos entram na final em igualdade de condições. As dificuldades serão maiores na próxima quarta-feira, quando o Boca Juniors virá ao Pacaembu com vantagem de um gol, ostentando a picardia que o caracteriza neste tipo de situação. Para construir o resultado que lhe transportaria para as quartas de final, sem depender da sorte ou da improvável colaboração do adversário, o Corinthians terá de gerar jogo como fez em 2012.

Só com percentuais de posse de bola mais generosos – e objetivos – será possível controlar a partida nos dois lados da bola, o que aproximaria o Corinthians de suas pretensões. Outra característica do conjunto que eternizou a temporada passada era a segurança que fazia o torcedor crer que o time poderia não vencer um jogo, mas também não o perderia. Sensação que ainda não se apresentou em 2013.

Não há momento mais apropriado do que o atual para voltar no tempo. A questão é como.

INTERPRETAÇÃO DE DRIBLE

No segundo tempo do recital oferecido pelo Atlético Mineiro, na quarta-feira, Ronaldinho Gaúcho fez uma jogada “de melhor do mundo” rente à linha lateral. Constrangedora sequência de dribles ilusionistas que, se encontrassem um gol – quase aconteceu – ao final do lance, o Independência certamente seria interditado por excesso de emoção. Foi uma aparição que reuniu magia e perigo, espetáculo e competição, nada que merecesse uma caracterização negativa. As declarações de jogadores do São Paulo em referência ao que teria sido “menosprezo” por parte de Ronaldinho são deprimentes. Um futebolista tem três opções ao se ver diante de uma ameaça dribladora: 1) aplaudi-lo, o que não seria muito profissional; 2) desarmá-lo, exibindo a própria qualidade; e 3) quebrá-lo, e lidar com as consequências. Passar recibo sentimental não é aceitável.

CAMISA 12

por André Kfouri em 10.mai.2013 às 8:54h

(publicada ontem, no Lance!)

SENHORES

Sempre vi um pouco de Telê Santana em Alex Ferguson. O olhar repleto de sabedoria, o mau humor perfeccionista, o mastigar eterno de um chiclete ou coisa que o valha.

O semi-sorriso de Telê no Japão, enquanto Raí corria para comemorar seu gol contra o Barcelona, é Ferguson puro. Está tudo ali: a alegria contida, porque nada é definitivo; o semblante que revela o pensamento longe, em algo mais importante; as palavras (“não te falei, meu filho?”) que não precisam ser ditas.

Vi Sir Alex duas vezes, em decisões de Champions League. Na primeira, em 2008, a madrugada moscovita já marcava quase 3h30 do dia seguinte à conquista do Manchester United nos pênaltis, contra o Chelsea. Ele passou apressado pela zona mista, carregando seu paletó. Aos pedidos de uma palavra, respondeu com duas, balançando a cabeça: “muito cansado”. Não duvido que, apesar da felicidade, o homem tenha dado uma bronca em seu time pela demora para ganhar o título. Não há sentido em chegar ao hotel com o dia amanhecendo.

Na segunda, após a aula do Barcelona em Wembley, dois anos atrás, Ferguson reconheceu seus erros ao dizer algo como “fazia tempo que não levávamos um baile assim”. Nobre como só ele.

Como Ferguson, Telê se equivocava, sabia ser teimoso e chato quando queria. Mas não havia como duvidar de suas intenções ou suspeitar de seus conselhos. Ou, ainda, criticar sua ideia de futebol.

Tipos assim parecem carregar os segredos do jogo no bolso. Devemos prestar atenção quando eles falam, desfrutar do conhecimento que estão dispostos a transmitir, descobrir formas de admirá-los mesmo quando a empatia não é automática.

De certa forma, gente como Telê e Ferguson são o futebol. Sem eles, o que sobra são famintos midiáticos, ensimesmados, que pretendem nos convencer de que partidas começam a ser vencidas na sala de imprensa.

Longa vida a Sir Alex.

PALMAS

Um aplauso a Rodrigo Caetano, Abel Braga e a todos os envolvidos na decisão tomada pelo Fluminense de dar suporte ao jovem Michael. Emocionantes as declarações de Abel no sentido de “adotar” o jogador. Que Michael receba a ajuda de especialistas e compreenda a importância do momento que vive. E que outros clubes, em situação semelhante, façam o mesmo.

MAIS PALMAS

Outro aplauso aos vereadores do Rio de Janeiro que apresentaram um projeto de lei para substituir o nome do Engenhão. Sai João Havelange, entra João Saldanha. Saem a política e a corrupção, entra o futebol. Mas devo insistir: que a troca aconteça apenas depois da reabertura do estádio. Enquanto estiver interditado, que o nome de Havelange permaneça.

SEGUNDO TEMPO, INDEPENDÊNCIA

por André Kfouri em 08.mai.2013 às 23:29h

Atlético Mineiro 4 x 1 São Paulo

1 – Frenético Mineiro. Blitz feroz nos primeiros segundos do jogo. Duas chances evidentes antes do cronômetro marcar dois minutos. Pressão que reúne a adrenalina, o barulho e a velocidade com que a bola chega ao gol são-paulino. Não é correto dizer que o visitante sentiu o golpe, porque o jogo mal tinha começado. Não houve mudança de comportamento. O árbitro apitou, a bola chegou à área de Rogério e de lá não saiu.

2 – Uma aparição de Ganso na área obriga Victor a usar os pés. Falsa sugestão de que o jogo passou a ser disputado por duas equipes. Engano. O Atlético não está instalado no campo de ataque, mas controla tudo o que acontece no Independência. A um São Paulo de posses curtas, resta tentar converter em calma uma tempestade assustadora. Em vão. Tardelli e Bernard são velozes demais.

3 – O Atlético agride como uma série de ondas num dia de ressaca. O São Paulo tem apenas o tempo suficiente para erguer a cabeça acima da superfície, antes que uma nova montanha de água desabe. E o perigo vem de todas as formas. De trás, pelo chão, com os volantes mineiros ultrapassando as linhas de pressão sobre a bola. De perto, com o alto volume de desarmes na metade do campo. E de longe, com a já tradicional bola longa de Victor em ligação direta.

4 – 17′, 1 x 0. De Victor para o campo de ataque, a ideia é que Jô “quebre” a bola para um dos atacantes. A jogada do gol não se desenvolve assim. Mas a bola encontra Tardelli no lado direito. O passe para Bernard liga o alarme na defesa do São Paulo. A sobra para Jô é aproveitada com um petardo.

5 – Em oportunidades construídas, o primeiro tempo termina com 5 x 1 a favor do Atlético. Pelo volume, pareceu até mais.

6 – A primeira obrigação do São Paulo era entrar em estado de amnésia induzida. Esquecer onde estava, como estava e quanto estava. Recomeçar do zero em busca de no mínimo dois gols improváveis. Mesmo se conseguisse alcançar tal desprendimento, teria de lidar com um adversário superior e longe, longe de estar satisfeito. Nem nos piores cenários os planos tricolores consideravam o que se passaria no segundo tempo.

7 – 17′, 2 x 0. Mesmo minuto do primeiro gol, e mesmo autor. A zaga são-paulina perde Jô na linha do impedimento. Jô não perde a chance de iniciar a festa. O placar encerra o confronto, mas não o jogo. O Atlético tem outras intenções.

8 – 19′, 3 x 0. Nocaute. Mais uma bola que vem do campo de defesa, e Rafael Tolói resolve participar do ataque do Atlético. Não percebe Tardelli, em altíssima velocidade, passar por ele em direção à área. Cabeceia na medida para a intervenção do atacante, antes de Rogério. O jogo entra oficialmente no território das goleadas, opõe euforia e depressão com contornos claros.

9 – 23′, 4 x 0. De batido a abatido, o São Paulo perambula no Independência à espera do fim do sofrimento. Mas, além de ser muito cedo para a rendição, o Atlético está se divertindo. Começa o show estético de Ronaldinho, que jogava muito bem mas com certa discrição. Ele ganha no ombro de Wellington e aciona o artilheiro da noite. Triplete de Jô.

10 – 30′, 4 x 1. O São Paulo chega a um gol que será pouco lembrado. Luis Fabiano.

11 – Aparição de Ronaldinho melhor do mundo. Sequência de fintas humilhantes na lateral do campo, uma delas para Douglas jamais esquecer. Outra finta na área, e o gol não sai por pouco. Magia.

12 – Majestoso Atlético. Entre dois times grandes do futebol brasileiro, é um dos jogos mais unidimensionais dos tempos recentes. Um Atlético dominante em todos os ângulos. Vibrante e brilhante. Um São Paulo superado, subjugado, entregue. Não houve competição no Independência nesta quarta-feira. Houve uma exibição de um excelente time de futebol.