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COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 28.out.2014 às 6:59h

(publicada ontem, no Lance!)

O PIOR DO FUTEBOL

Na sexta-feira, antevéspera do segundo turno das eleições, o prédio da Editora Abril em São Paulo experimentou um dia comum na vida das sedes de clubes de futebol brasileiros. Vandalismo, depredação e pixações foram os meios pelos quais “idealistas” expressaram descontentamento com a revista Veja, editada pela Abril. Qualquer semelhança com “Por amor ou por terror”, “acobou a paz” (sic) ou “diretoria safada” não é mera coincidência.

A campanha política de 2014 converteu-se em um jogo entre times rivais no qual se privilegiou o que há de pior no futebol. O que chamamos de sociedade revelou-se incapaz de valorizar a importância do processo democrático, revestindo-o de intolerância e ódio, tal qual nos acostumamos a ver não só entre torcidas organizadas, mas também entre gente que se tem como cidadãos esclarecidos e bem educados.

O nível rasteiro dos debates na televisão, nos quais a candidata e o candidato (eles não têm nome?) se especializaram em argumentar com versões de “o seu escândalo é mais cabeludo do que o meu”, remete às discussões entre dirigentes adversários que vez por outra acontecem e estimulam os confrontos dos bandos que matam e morrem por seus clubes. Exemplos da mais pura incapacidade de dialogar.

O jogo político também tem seus “bambis” e “gambás”, as turmas que não podem se encontrar e enxergam o “outro lado” como representante de tudo o que existe de errado. Uma generalização tacanha de parte a parte que transforma todos os eleitores de Dilma Rousseff em socialistas que gostariam de viver em Cuba; e todos os simpatizantes de Aécio Neves em defensores do retorno dos militares. Os analfabetos e os acadêmicos, os pobres engajados e os ricos alienados, “nós” e “eles”. Seria menos preocupante se fosse apenas preconceito.

Os rótulos colados no adversário somam-se a um nível de auto-engano que beira a alucinação. Pois o petista – até aquele que gostaria de ver uma república chavista no Brasil – se enxerga como um libertador da opressão das elites, enquanto o tucano – até aquele que votaria nos Bolsonaros – crê ser um catedrático em administração pública. É óbvio que há cabeças elevadas dos dois lados da arquibancada, mas elas foram sufocadas pelos bagrecéfalos que vão ao estádio para brigar.

Há uma impressão positiva de que nunca se falou tanto em política no Brasil, quando, de fato, o que se fez foi atacar e desqualificar quem pensa diferente. Se é um efeito colateral de uma democracia que ainda engatinha, é o caso de perguntar se existe chance para infância, adolescência e amadurecimento. O pós-eleição começa hoje e será caracterizado por um ambiente semelhante, estimulado pelo comportamento raivoso de quem não está no poder. Seria rigorosamente igual se os grupos estivessem em posições invertidas.

Houve um vencedor no jogo, mas o país perdeu as eleições. (em tempo: este colunista não votou nem em Dilma e nem em Aécio, por crer que nenhum deles merece ser depositário de confiança ou esperança.)

BEST SELLER

Algúem está escrevendo um livro sobre a temporada do Botafogo? Existe material para mais de um. A decência dos jogadores em meio à barbárie gerencial é o pano de fundo para uma história comovente. Tensão, intriga, vilões e heróis bem definididos. Claro que se o time escapar da Série B o final será mais agradável. Mas com ou sem rebaixamento, não se pode escapar da verdade. Tomara que a ideia esteja em curso, e que a trajetória de um grupo que teve a própria diretoria como oponente seja documentada.

BOLA INTELIGENTE

O chute de Danilo que empatou o clássico paulista não só sairia pela linha de fundo se não desviasse em Juninho, como encontrou a única fresta por onde passar, entre Fernando Prass e a trave. Algumas bolas têm olhos. Outras têm olhos, GPS embutido e sensores de obstáculos. É loucura responsabilizar Prass pelo gol.

O ÚLTIMO DÉRBI

por André Kfouri em 27.out.2014 às 6:42h

(o jornal pediu um texto sobre o “último” Palmeiras x Corinthians disputado no Pacaembu. Publicado ontem, no Lance!)

ATÉ UM DIA

O velho Pacaembu é o denominador comum deste dérbi de 97 anos de vida. Não se conta a história quase centenária de encontros entre Palmeiras e Corinthians sem citar o estádio que os recebeu, provavelmente pela última vez, neste sábado. Como um senhor elegante e sorridente, de braços abertos por vê-los de novo, sem se importar com a incerteza do futuro.

Do primeiro clássico ali, em 1940, ao jogo que comemorou o quarto centenário de São Paulo; do tetracampeonato brasileiro do Palmeiras ao pentacampeonato do Corinthians, o Pacaembu se emocionou com gerações de torcedores que aprenderam a conhecer e viver este jogo quase sempre no mesmo lugar. Na linha do tempo do clássico, o Pacaembu representa uma era.

O dérbi “derradeiro” deste sábado não teve o brilho de outros tempos, reflexo direto do padrão de desempenho de ambos os times. Os gols do empate em 1 x 1 foram reveladores: Wesley errou a finalização que se ofereceu para Henrique aumentar sua conta pessoal; e o chute de Danilo sairia pela linha de fundo se não desviasse nos glúteos de Juninho. No futebol, o que começa com defeito por vezes termina bem.

Gols à parte, é preciso registrar a compostura do Palmeiras em boa parcela do tempo em que esteve no comando do marcador, jogando melhor. A pressão do Corinthians no segundo tempo foi acompanhada do risco inerente, simbolizado pelo chute rasteiro de Wesley, na trave. O empate – premiado pela sorte, sim – foi merecido pela presença constante no campo contrário, apesar das poucas ocasiões. Um resultado apropriado para a despedida do Pacaembu, pois em momentos dessa natureza ninguém fica feliz.

Com a Arena Corinthians e o Allianz Parque disponíveis, não haverá razão para o dérbi voltar ao velho estádio. E mesmo se acontecer por algum motivo imprevisível, uma época se encerrou ontem na história conjunta de dois rivais. Corintianos e palmeirenses não disseram adeus ao amigo de longa data, o que tem seu lado bom. O senhor bem vestido e simpático estará sempre ali, satisfeito por revê-los.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 26.out.2014 às 9:15h

(publicada ontem, no Lance!)

O BONÉ

Os repórteres Bernardo Itri e Marcel Rizzo, ambos da Folha de S. Paulo, nos apresentaram anteontem os códigos de conduta impostos pela comissão técnica aos jogadores da Seleção Brasileira. O boné foi expulso.

É, o boné. Não é permitido usar boné ao servir a Seleção. Chinelos, brincos e outros acessórios, assim como telefones celulares e demais brinquedos eletrônicos também estão proibidos nas concentrações. As regras determinam ainda que o time todo deve fazer refeições no mesmo horário, algo perfeitamente normal, mas batem continência ao militarismo que encanta certos comandantes ao obrigar os jogadores a aguardar que o capitão se levante da mesa. Aí todos podem ir, em fila de dois, cantando o hino nacional (ok, essa última parte não está na cartilha).

Normas de comportamento em elencos de clubes e seleções sempre existiram. As mencionadas não foram criadas por Gilmar Rinaldi e Dunga. De acordo com os próprios, eles apenas sugeriram “algumas coisas novas para o bom convívio”. O banimento do boné deve ser uma das novidades, pelo incômodo de ambos com o adereço com o “#ForçaNeymar” que os jogadores usaram antes do fatídico 1×7. Dunga e Rinaldi entendem que era o “soldado que iria para a guerra” – no caso, Bernard – quem deveria ser fortalecido pelo grupo. Ao que parece, para evitar que aconteça de novo, tira-se o sofá, quer dizer, o boné.

Os chefes da Seleção Brasileira alegam que havia clamor popular para uma repaginação na imagem do time, o que soa estranho. Entre os pecados apontados no time de Scolari, não se tem notícia de referências a brincos e chinelos. O treinador e o coordenador técnico não precisam usar razões misteriosas para justificar medidas que têm prerrogativa para aplicar. De toda forma, em um ambiente em que se acredita que o prestígio da Seleção foi reconstruído nos últimos amistosos, nada deveria nos surpreender.

O problema não é o rigor disciplinar, mas o que se quer alcançar. Pep Guardiola é um dos técnicos mais rígidos do futebol mundial. Nos anos de Barcelona, mandava os assistentes telefonarem para os jogadores pontualmente à meia-noite, para garantir que estavam em casa. Autorizava quais compromissos comerciais os atletas poderiam cumprir, quando e como. Fiscalizava descanso e alimentação – continua assim no Bayern – com obsessão científica. Métodos que talvez impressionem quem imagina a forma de trabalhar do catalão com o único prisma do estilo de seus times. A questão é que a “cartilha” de Guardiola protege o desempenho. Ele não liga para bonés.

Já o quartel de Dunga e Rinaldi está preocupado com a percepção externa de jogadores que usam, sim, bonés, brincos e outros acessórios. Costumes que montam a imagem de “futpopbolistas” (direitos autorais: Washington Olivetto) que são. Tosá-los na Seleção não terá impacto em suas personalidades ou na era em que vivem, e ainda pode lhes ser prejudicial.

A propósito: seria interessante saber o que dizem as novas normas da Seleção sobre interações grosseiras com o banco de reservas adversário.

CAMISA 12

por André Kfouri em 24.out.2014 às 6:51h

(publicada ontem, no Lance!)

DIGA-ME O QUE SENTES

Imagine se os eleitores brasileiros fossem surpreendidos, quando chegassem aos locais de votação no próximo domingo, pela informação de que não escolheriam políticos para ocupar cargos públicos. Em vez de votar, deveriam responder a duas questões: 1) você se interessa por futebol?; 2) você considera a CBF uma vergonha?

Teríamos um mapa da opinião pública brasileira a respeito da entidade que controla o futebol no país, especialmente entre os setores da população que acompanham o esporte. Saberíamos o que o torcedor “comum” pensa a respeito de um campeonato que ignora os compromissos das seleções nacionais, enfraquecendo clubes em jogos importantes, às vezes decisivos.

Com a CBF na chamada pauta nacional, conheceríamos a impressão que a sociedade tem do inoxidável Marco Polo Marin, veríamos se as pessoas em geral estão de acordo que, “mais do que nunca”, a Seleção Brasileira recuperou o prestígio abalado na Copa do Mundo. Como você, que por estar com este diário em mãos provavelmente consome futebol de alguma forma, responderia à questão número dois?

Cada um opina conforme as informações de que dispõe, e, neste campo, os jogadores possuem uma experiência particular por lidar diretamente com a CBF durante o transcorrer de suas carreiras. Seria valioso escutá-los. Ocorre que o STJD, esse coletivo de presunção tão bem comparado (em termos de importância, pelo jornalista Márvio dos Anjos) a uma assembleia condominial, entende que jogadores de futebol não podem criticar a confederação.

Em sessão na tarde de ontem, o Pleno do STJD condenou Émerson Sheik – entre outras infrações – por dizer que a CBF é uma vergonha. O tribunal entendeu que a declaração do ex-jogador do Botafogo teve “claro conteúdo intimidatório e desrespeitoso”. Lamentável exagero. Quem se considera defensor das leis deveria garantir a Sheik o direito de se expressar.

CINCO

Além do atacante Luiz Adriano (ex-Internacional, hoje no Shakhtar Donetsk), apenas um jogador conseguiu marcar cinco gols em uma partida da Liga dos Campeões da UEFA: Lionel Messi. Mas só o brasileiro fez quatro gols no primeiro tempo. Que as coisas tenham a importância devida, mas, se fosse simples, haveria outros nomes na lista. E se vale para aplaudir Messi…

1 x 1

Gol do Palmeiras aos 43 minutos do segundo tempo no Mineirão, e quem quer ver disputa pelo título se convenceu de que o Cruzeiro havia aberto a porta, de novo. Empate, justíssimo, nos acréscimos e a sensação se modificou. Mesmo? No primeiro jogo da tabela considerada “fácil” até o fim do campeonato, o líder deixou de ganhar dois pontos em casa. Alguém se habilita?

O OUTRO LINK DA LIGA (e a Seleção passou…)

por André Kfouri em 23.out.2014 às 12:57h

O fechamento da terceira rodada da UCL não chegou à metade dos gols do dia anterior, histórico.

Dezenove gols (aqui) foram marcados nesta quarta-feira.

Houve até um 0 x 0, veja só, entre Mônaco e Benfica, no principado (jogo do grupo C).

Na outra partida da chave, o Leverkusen recebeu e venceu o Zenit por 2 x 0.

Os gols alemães saíram em um intervalos de apenas cinco minutos, no segundo tempo.

No grupo A, goleada do Atlético de Madrid sobre o Malmo: 5 x 0 no Vicente Calderón.

Todos os gols dos vice-campeões foram marcados no segundo tempo do jogo.

Em Atenas, o Olympiacos venceu a Juventus por 1 x 0, complicando a vida dos italianos no grupo.

Boa trama do ataque grego na jogada do gol, com inversão de lado que iludiu a defesa da Juve.

Grupo B: Em uma noite festiva em Sofia, o Ludogorets se tornou o primeiro time búlgaro a vencer um jogo de Liga dos Campeões: 1 x 0 no Basel.

Os suíços jogaram com um homem a menos desde os 18 minutos do primeiro tempo.

O Real Madrid foi a Anfield e maravilhou o mítico estádio inglês: 3 x 0 no Liverpool, um baile.

Cristiano Ronaldo marcou o primeiro gol dos espanhóis, exibindo sua classe de exímio finalizador. Foi o septuagésimo gol do astro português pela UCL, um a menos do que o recorde do torneio, estabelecido por Raúl.

Pelo grupo D, um gol de Podolski nos acréscimos valeu uma vitória fora de casa ao Arsenal: 2 x 1 no Anderlecht.

Comemoração do aniversário de 65 anos do técnico Arsène Wenger.

Também como visitante, o Borússia Dortmund levou o Galatasaray para a escola com uma goleada por 4 x 0.

Marco Reus jogou demais. Veja o terceiro gol dos alemães.

A Liga dos Campeões volta nos dias 4 e 5 de novembro.

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A Seleção Brasileira foi convocada hoje para os amistosos de novembro (Turquia e Áustria).

Nenhum jogador que atua no Brasil foi chamado, o que significa que seu clube não será prejudicado pelos compromissos comerciais da CBF.

A seleção sub-21 também refez sua convocação com o mesmo critério, liberando o santista Gabriel e o atleticano Carlos para jogar pela Copa do Brasil.

Notícias que trazem alívio a clubes e torcedores, como se a Seleção Brasileira fosse um desastre natural.

É em algo assim que a CBF e seu calendário de competições transformaram a camisa amarela.

 

 

 

O LINK DA LIGA

por André Kfouri em 21.out.2014 às 22:04h

Quarenta gols (eles estão aqui, jogo a jogo) em oito partidas.

Quarenta! Um recorde na Liga dos Campeões da Uefa, que abriu a terceira rodada da fase de grupos nesta terça-feira.

Em homenagem a um dia especial, trataremos dos jogos por ordem de gols.

Oito gols: além do placar de 7 x 1 (jogo do grupo E) , a vitória do Bayern sobre a Roma teve mórbidas – dependendo do ponto de vista, claro – semelhanças com a surra da Alemanha no Brasil na Copa. O primeiro tempo terminou com 5 x 0 para o visitante, com saraivada de gols (23′, 25′, 30’e 36′) em um curto intervalo.

Neuer, Boateng, Lahm, Müller, Götze (banco no Mineirão) e Dante (banco no Olímpico) estiveram em ambos os jogos e podem dizer isso aos descendentes.

Fabulosa exibição do time alemão (63% de posse, 23 finalizações, 6 faltas cometidas), evocando alusões à lendária Holanda do “futebol total”, que Pep Guardiola classificou como “exageradas”.

Sete gols: o Shakhtar Donetsk mandou 7 x 0 no BATE Borisov (grupo H), também fora de casa. TODOS os gols foram marcados por jogadores brasileiros. Alex Teixeira e Douglas Costa marcaram um cada, e Luiz Adriano, cinco.

Apenas dois jogadores anotaram cinco gols em um jogo da Liga dos Campeões. O outro se chama Lionel Messi.

Sete gols: em Gelsenkirchen, o Schalke venceu o Sporting por 4 x 3, em jogo do grupo G.

O gol da vitória alemã aconteceu nos acréscimos do segundo tempo e foi fruto de um pênalti generosíssimo para o time da casa.

Seis gols: o placar tenístico do dia foi cortesia do Chelsea, que aplicou 6 x 0 no Maribor (grupo G).

O último gol, de Hazard, foi o ponto alto da vitória inglesa. Vale a pena ver o controle ao receber o lançamento pelo alto e a maneira como o belga preparou o chute de pé direito.

Quatro gols: em casa, o Barcelona passou pelo Ajax por 3 x 1 (grupo F) e somou três pontos que se tornaram obrigatórios após a derrota em Paris.

Neymar fez mais um gol com assistência de Messi. Recomendo o passe de Iniesta para Messi, no segundo dos catalães.

Quatro gols: na Rússia, o Manchester City se colocou em situação enrolada no grupo E ao empatar com o CSKA por 2 x 2.

Os ingleses venciam por 2 x 0 e abriram a porta para o empate, que veio em um pênalti duvidoso.

Três gols: vitória do Porto por 2 x 1, em casa, sobre o Athletic Bilbao (grupo H).

Bonita jogada coletiva dos portugueses no primeiro gol. E o goleiro Iraizoz colaborou muito para a derrota do Athletic.

Um gol: no Chipre, o PSG conseguiu a vitória (1 x 0, grupo F) sobre o APOEL graças a um gol acrobático de Cavani, aos 42 minutos do segundo tempo.

Os parisienses lideram o grupo, com um ponto a mais do que o Barcelona.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 21.out.2014 às 6:49h

(publicada ontem, no Lance!)

O SILÊNCIO DOS BONS

Na noite de 13 de novembro do ano passado, o movimento Bom Senso Futebol Clube realizou uma série de protestos na trigésima-quarta rodada do Campeonato Brasileiro. As demonstrações começaram na Arena do Grêmio, onde, antes da partida marcada para começar às 19h30, os jogadores de Grêmio e Vasco apareceram no gramado carregando uma faixa que pedia “um futebol melhor para todos”. Também foi nesta noite que são-paulinos e flamenguistas, por sugestão de Rogério Ceni, chutaram a bola de um lado para outro do campo por quase um minuto, após o apito inicial.

A ideia original era cruzar os braços ou sentar no chão depois que os árbitros ordenassem o começo das partidas, mas a CBF agiu para retaliar os protestos nos jogos das 21h e 21h50. Os quartos-árbitros foram aos vestiários para avisar que quem se recusasse a jogar seria punido com cartão amarelo. Na conversa dos participantes do BSFC via Whatsapp sobre o que fazer, houve quem quisesse suspender a ação, quem pressionasse o grupo para ir em frente, e quem desse ideias, como o capitão do São Paulo. No Maracanã, um outro goleiro manifestou preocupação com seu time.

Jefferson se preparava para enfrentar a Portuguesa, um jogo que o Botafogo não poderia deixar de vencer. Após passar todo o campeonato entre os primeiros colocados, o time corria o risco de perder o lugar no G-4 na reta final (após empate em 0 x 0, foi o que aconteceu). Os quatro companheiros pendurados com dois cartões amarelos poderiam, por causa dos protestos, deixar o Botafogo em situação ainda mais difícil em relação a uma vaga na Copa Libertadores. O goleiro, membro ativo do movimento de jogadores, não queria que a manifestacão terminasse por prejudicar sua equipe. A solução encontrada foi cruzar os braços antes do apito para não arriscar um cartão.

Este é o jogador que o presidente Maurício Assumpção e o diretor de futebol Wilson Gottardo tentam expor à torcida do Botafogo como um profissional ganancioso e despreocupado com o clube. O crime de Jefferson é não abaixar a cabeça para um cartola que não paga impostos ou salários, muito menos para um projeto de executivo que parece ter esquecido como as coisas funcionam no vestiário. O recente “mal-entendido” sobre a participação de Jefferson no jogo contra o Santos apenas aumenta a vergonha do Botafogo por revelar como as coisas são feitas em um ambiente dito profissional. Assumpção e Gottardo adorariam poder estender ao goleiro o mesmo tratamento que deram a quatro jogadores que também não se calavam. Mas com Jefferson a conversa é diferente.

No sábado, botafoguenses de bem invadiram o Engenhão e ameaçaram os jogadores que defendem o clube sem receber remuneração. Não houve agressão por sorte. Os abnegados protetores da instituição entraram no estádio por um portão que estava aberto, justamente em um sábado, dois dias depois da goleada sofrida para o Santos. Um cenário convidativo. Conhecer as origens desse tipo de “cobrança” não a torna mais palatável. É tão revoltante quanto o silêncio de quem realmente gosta do Botafogo.

RELÓGIO

Primeiro domingo com horário de verão e quatro jogos do Campeonato Brasileiro foram realizados, de fato, às 15h. A CBF realmente vive em outro mundo.

PRAIANO

Santos: oito gols em dois jogos no Pacaembu. Não deve ter sido obra do ar paulistano ou do gramado do estádio municipal, portanto devemos considerar a hipótese de (mais) um time acima da média estar em formação no clube da Vila Belmiro. Futebol de ataque, solto, leve, bonito.

PASSOU

A diferença do Cruzeiro para o segundo colocado aumentou em relação à rodada passada, de seis para sete pontos. E esse era um fim de semana “ruim” para o líder, visitante em Salvador enquanto os principais perseguidores estavam em casa. Internacional e São Paulo trocaram de lugar novamente, dando sequência ao rodízio que impede o estabelecimento de um desafiante. Oportunidade perdida.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 19.out.2014 às 9:14h

(publicada ontem, no Lance!)

OS INTELIGENTES

Nada pode ser menos inteligente do que planejar uma “atuação inteligente” quando se tem a opção de escolher como enfrentar um determinado adversário. A melhor alternativa é sempre jogar e tentar vencer, porque quem não tenta se entrega às circunstâncias, à sorte e, como já vimos tantas vezes, ao oponente.

Quando alguém qualifica uma atuação como “inteligente” (o que normalmente se aplica a jogos fora de casa em confrontos de mata-mata), está falando de um time que se colocou em posição de inferioridade técnica e se dedicou a conter o adversário. Na maior parte dos casos, o time em questão obteve um “excelente empate” ou perdeu de pouco. Note: é raro que a tal “atuação inteligente” seja uma vitória. Se o resultado leva à classificação, o técnico se convence de seus conhecimentos táticos e ganha o rótulo de estrategista. Se não, credita a derrota às “coisas que acontecem no futebol”.

Há encontros em que a diferença de potencial é evidente, o adversário é mais forte e não resta outro caminho a não ser o da abnegação defensiva, em busca de “uma bola” que pode ser decisiva. Não é o caso aqui. Falamos de confrontos equilibrados, em que virtudes e defeitos se aproximam e os elencos permitem diferentes formas de atuação. Por algum motivo, convencionou-se que não jogar é um planejamento que minimiza riscos e revela neurônios. A maioria dos treinadores está mais interessada em evitar que o oponente faça do que em fazer. E se orgulha disso.

José Mourinho é o paradigma dessa forma de enxergar o jogo. Talvez por isso lembramos de seus títulos, não de seus times. E esquecemos dos troféus que ele deixou de conquistar mesmo manejando elencos de inegável talento, como se deu em seu período à frente do Real Madrid. De toda forma, o português, posicionado entre os principais técnicos do mundo, certamente está satisfeito com seu currículo. Aqueles que jamais chegarão a semelhante patamar podem dizer o mesmo?

A postura do Atlético Mineiro no confronto com o Corinthians, pela Copa do Brasil, deixou lições valiosas para os estrategistas e os que optam por especular. O que ficará na memória é a partida no Mineirão, os 4 x 1 de virada e contornos épicos. Mas não devemos ignorar o que aconteceu no primeiro jogo. Mesmo perdendo por 1 x 0, o Atlético não deixou de jogar em São Paulo. Levou o segundo gol em uma falha pouco característica do goleiro Victor, na jogada seguinte a uma bola na trave que significaria o empate e transformaria o cenário. Essas, sim, são coisas que “acontecem no futebol”.

Na volta, foi a vocação do time dirigido por Levir Culpi que produziu a segunda maior demolição futebolística que vimos no Brasil em 2014, por coincidência no mesmo estádio. Um tributo à importância da coragem, a ter a bola e gerar momentos. Pois esse é o comportamento que aumenta as chances de coisas boas acontecerem, por menos prováveis que sejam, independentemente do local, do placar e do tempo que resta.

Quem quer algo na vida tem de buscar. Quem quer algo no futebol tem de jogar. Quantas chances o Corinthians teve após o gol de Guerrero no Mineirão?

RARO

O gol de Paulo Henrique Ganso contra o Huachipato é o gol de um jogador incapaz de lances mundanos, comuns. Não se deve esperar dele uma batida na bola do jeito “mais fácil”, Ganso não possui esse tipo de referência. É por isso que o chute chapado de primeira, de fora da área, no canto, imediatamente chama a atenção. Coisa para poucos. E é normal que um jogador como ele divida opiniões. São numerosos os encantados pelo futebol feio.

DEMOLIDORES

O presidente do Botafogo dispensou os jogadores que incomodavam por reclamar dos atrasos nos pagamentos. O diretor de futebol se desentendeu com o goleiro, jogador da Seleção Brasileira. Enquanto isso, o time, quase indigente, se arrasta em um calvário que dificilmente escapará da Série B no ano que vem. É muito mais do que gestão predatória, é uma clínica gratuita de como destruir um clube histórico no futebol do Brasil.

CAMISA 12

por André Kfouri em 17.out.2014 às 9:15h

(publicada ontem, no Lance!)

CORAGEM É TUDO

1 – Antes que fosse possível dizer qualquer coisa a respeito do jogo, Paolo Guerrero alterou novamente o placar do confronto entre Corinthians e Atlético Mineiro. Um gol e meio na Arena Corinthians, outro gol no Mineirão. Fator de desequilíbrio.

2 – O replay confirmou: méritos de Guerrero à parte, Jemerson tem obrigação de fazer melhor o papel dele no lance.

3 – O gol corintiano eliminou a possibilidade de uma decisão por pênaltis, diminuindo ainda mais as chances do Atlético. No lugar de fazer dois gols, os mineiros agora precisavam do dobro. O “eu acredito” ainda não tinha se deparado com uma missão tão difícil.

4 – O empate saiu quando o Atlético era só pressão e o Corinthians tentava jogar longe da própria área. Luan cabeceou como se fosse invisível, o que dá a medida da colaboração da defesa paulista.

5 – E Guilherme – inexplicavelmente solto e fonte dos melhores momentos de seu time – virou o placar com um chute desviado. Meia hora de jogo, e o Atlético voltou a precisar de “só” dois gols.

6 – No primeiro minuto do segundo tempo, Cássio tomou de Maicosuel o gol que provavelmente levaria à classificação atleticana. Lindo passe de Diego Tardelli, ativo como se não tivesse cruzado o mundo para jogar no Mineirão.

7 – Quando parecia que a marcação do Corinthians tinha se acertado e o passar do tempo jogava a favor, Guilherme surgiu livre na área para fazer o terceiro. Aos 29 minutos, o tamanho do trabalho do Atlético se mostrava drasticamente reduzido.

8 – E a noção de que o Corinthians – um time que crê saber se proteger – jamais levaria quatro gols estava por um fio. Ou por mais uma falha em uma noite sofrível no aspecto defensivo.

9 – Falha que veio em um escanteio e permitiu um toque desajeitado de Edcarlos, bola que assumiu uma trajetória estranha até a rede de Cássio. Absolutamente merecida passagem do Atlético às semifinais, mais um tributo à importância da coragem no futebol.

10 – Mano vai dançar?

É MUITO GOL

Os quarenta gols de Neymar pelo Brasil não devem ser subestimados porque ele vive na era da Seleção garota de programas, que joga com mais frequência, onde pagarem. Outros atacantes são contemporâneos dele e não têm quarenta gols. É ridículo “culpar” Neymar por circunstâncias que fogem ao controle dele. E não se trata de comparar carreiras ou importância.

OVNI

A aparição do drone que provocou a interrupção de Sérvia x Albânia, pelas Eliminatórias da Euro 2016, vai gerar uma epidemia de eventos semelhantes, não só em jogos de futebol. A Liga Inglesa já demonstrou preocupação com a possibilidade de objetos voadores aparecerem sobre os estádios do país. Não falta gente desmiolada com vontade de imitar o que houve em Belgrado.

JOGAR É PRECISO

por André Kfouri em 16.out.2014 às 16:02h

O momento crucial do jogo de ontem no Mineirão foi justamente o que sugeriu que tudo estava acabado: os segundos após o gol de Paolo Guerrero.

Na contabilidade de cada time, dois raciocínios opostos.

O Corinthians, orgulhoso de sua capacidade defensiva, concluiu que jamais levaria quatro gols em um jogo só.

O Atlético, condicionado a acreditar sempre, pôs-se novamente a desafiar as probabilidades.

Um time passou a trabalhar para que o jogo terminasse logo. O outro, para que a noite fosse longa. O resultado final não foi um acidente ou obra do acaso.

O futebol é um jogo feito do confronto de ideias e ações, mas acima de tudo é um choque de posturas. O que se faz de um lado do campo determina o que acontece do outro. Atitude é tão importante quanto os demais aspectos.

Neste jogo, pode-se vencer de diferentes maneiras, conceitos e planos. Mas nunca se vence sem coragem. O placar de 4 x 1 a favor do Atlético se explica, também, pela forma como o time mineiro se entregou ao jogo, o contrário do que o Corinthians fez.

Não gosto de recorrer a exemplos que evoquem violência, mas não encontrei comparação melhor: o Corinthians se comportou como menino gordinho e tímido que sofre bullying na escola. As histórias que vemos nos filmes mostram que ele passa o dia levando tapas na cabeça, tem seu lanche roubado e o material violado. Até que, no fim da tarde, chega ao próprio limite, ergue o moleque folgado e o joga a cinco metros de distância.

A diferença é que o Corinthians continuou levando tapas até o final da noite, sem responder. Trêmulo, assustado, cabisbaixo.

A épica atuação do Atlético foi uma homenagem ao espírito livre, ao futebol de ataque, aos times que querem jogar.

Que sirva de lição para quem pensa que outros caminhos podem levar ao mesmo lugar.

O Corinthians se juntou à fila das equipes dissimuladas que decidem especular a partir de um placar que lhes interessa, e terminam duplamente derrotadas. Primeiro, pelo adversário. E depois pelo jogo que ousaram renegar.

O futebol devolve aquilo que você lhe dá.

O Atlético deu tudo.

O Corinthians, nada.

As decisões foram tomadas quando um time, em vantagem por 3 x 0, se considerou vencedor de um confronto que ainda estava em disputa.

O outro, à beira do precipício, resolveu lutar.

Um deles está vivo.