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PASSAPORTE

por André Kfouri em 19.jun.2013 às 8:57h

No “Linha de Passe” de ontem, na Espn Brasil, o comentarista Leo Bertozzi levantou uma questão interessante.

Ao falar sobre o título, mais um, da seleção espanhola sub-21 no Campeonato Europeu, Leo revelou um exercício feito por ele: quantos jogadores da atual Seleção Brasileira seriam titulares na Espanha (time principal) de hoje?

Thiago Silva?

Marcelo?

Dani Alves?

Neymar?

É meio cruel, eu sei. A Espanha é um time estabelecido e laureado, enquanto o Brasil, este Brasil, está em processo acelerado de construção.

Então me ocorreu algo ainda mais cruel.

Além dos títulos colecionados nos últimos anos (a Espanha é a atual BICAMPEÃ europeia sub-19, sub-21 e adulto, sempre praticando um futebol chato, claro), a seleção espanhola tem feito um trabalho formidável nas categorias de base.

As características do futebol do time adulto também se encontram nas equipes de formação. No caso, é um trabalho de baixo para cima, mas essa é uma outra conversa.

Se é inegável que o período que começou em 2008 se deve à geração de jogadores que conquistou a Copa de 2010, os resultados dos times de base indicam que existem novas safras em amadurecimento.

O tempo dirá.

Enquanto isso, olhe para a foto abaixo:

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(Foto: Jack Guez/AFP)

Aí está o meia hispano-brasileiro Thiago Alcântara, comemorando um dos três gols marcados na final (4 x 2 na Itália) da Euro sub-21.

Agora é tarde, mas Thiago poderia jogar pela Seleção Brasileira.

A história é conhecida: procurado pela Espanha, Thiago teve de tomar uma decisão. Mazinho, pai dele, consultou pessoas na CBF e não sentiu interesse. O resultado está aí em cima.

Como se sabe, Thiago é jogador do Barcelona, mas não está satisfeito. Quer jogar mais, Xavi e Iniesta estão no caminho, é preciso ter uma quantidade de paciência que parece ter se esgotado.

As propostas que chegaram do Manchester United e do Bayern Munique são sedutoras.

Ele pode procurar um novo clube e encontrar mais minutos em campo, mas a situação na seleção permanecerá idêntica à do Barcelona.

Thiago tem qualidade para estar no grupo que virá para a Copa do Mundo no ano que vem, mas dificilmente entre os 11 escolhidos por Vicente Del Bosque.

Seria mais fácil, por ironia, jogar na Seleção Brasileira.

Talvez ele fosse titular no meio de campo de Felipão.

______

PS: O link postado acima é do jogo entre Espanha e Rússia, na Euro sub-21. Veja como os russos pressionam no início, aí se percebem feitos de bobos, desistem e recuam. Não dá para culpá-los.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 18.jun.2013 às 7:30h

(publicada ontem, no Lance!)

COMEÇO

1 – A Copa das Confederações começou com o hino nacional. Menos pela música, mais pela emoção. Emoção que se apoderou de Julio César, um goleiro acostumado a esses momentos, e revelou algo diferente. É interessante perceber como essa novidade – um torneio desse nível em nossos estádios – se reflete nos jogadores brasileiros.

2 – A Copa das Confederações também começou com um gol de sonho. Pela estética e pelo autor. Neymar, aos três minutos. Um gol para declarar o torneio aberto para aplausos, ao contrário do que se deu com Dilma e Blatter, vaiados. Neymar queria fazer exatamente o que fez, e como fez. A maneira como ele ajeitou o corpo para bater na bola é o sinal de grandeza. Confiança e talento.

3 – A Seleção Brasileira respirou fundo e acertou a frequência cardíaca. Como no primeiro quilômetro de uma longa corrida, os passos e o fôlego entraram em sincronia. Um gol no início, ainda mais na estreia, tem esse efeito.

4 – O papel esperado para os japoneses, desorientados pelo fuso horário como deveria estar quem jogou no Catar na terça-feira, era fazer uma reverência e aceitar que a sorte estava decidida. Mas japoneses não são assim.

5 – Jogo controlado pelo Brasil, mas equilibrado pelo Japão, que incomodou em pontadas não muito frequentes, especialmente em cruzamentos. Fred teve um gol roubado pelo goleiro japonês, jogada em que fez tudo certo, do domínio ao chute. Kawashima fez melhor.

6 – Parênteses para Luiz Gustavo. O torcedor pode não vê-lo em campo, por causa da discreta eficiência de seu trabalho. Mas o time adversário o vê, e certamente não gosta. Ele é o viabilizador, o que possibilita muito do que seu time faz. Nenhuma grande equipe – algo que o Brasil ainda não é – vive sem um jogador assim.

7 – Mais parênteses, agora para Hulk. A combinação de vigor e dedicação é suficiente para que ele tenha a simpatia do técnico. O chute de perna esquerda, forte e preciso, completa o pacote que ele oferece. Mas Hulk leva algo mais para o campo: a noção de que, por algum motivo, será mais cobrado do que outros.

8 – Paulinho, 2 x 0. O domínio e o giro na área, rápidos, são próprios de jogadores que não precisam atuar longe do gol. Mas Paulinho faz a dupla função parecer simples. Um pouco de humor, nada mais do que isso: Scolari pode estar descobrindo que volante goleador também é bom para o técnico.

9 – O terceiro gol, já com três atacantes na variação treinada nos últimos dias, mostrou que vale a pena ver partidas até o final quando jogadores como Oscar estão em campo. Um presente para Jô aumentar o saldo, pois nunca se sabe quando as contas serão necessárias.

10 – Gramado ruim. Observação obrigatória.

11 – Conclusão: o gol e a atuação de Neymar foram os pontos altos de uma vitória que não pode gerar alta dose de empolgação. Adversário inferior e debilitado. Algumas associações já são visíveis, como Marcelo-Oscar-Neymar. E Dani Alves-Hulk, ainda com certa timidez. A Seleção Brasileira parece uma obra com evolução planejada e cronograma a cumprir.

CARAPUÇA

Dilma Rousseff não apenas permitiu a aproximação de José Maria Marin, que ficou a seu lado no Mané Garrincha, como se confraternizou com o presidente da CBF ao encontrá-lo. Mais um motivo para que as vaias que tomaram conta do estádio tenham sido merecidas. Políticos tradicionais e políticos do esporte têm vida dura nesse tipo de situação, diante de tanta gente. Não é por outro motivo que Ricardo Teixeira as evitava.

PALMATÓRIA

Joseph Blatter também mereceu a reprovação popular, mas o presidente da Fifa já deve estar acostumado. Surpreendente a petulância do cartolão suíço ao dar um pito no público que se manifestava. Blatter perguntou onde estava o fair play. Temos muitas perguntas para ele, se houver interesse em respondê-las.

ATRASO

Em São Paulo, em Brasília e no Rio de Janeiro, a polícia militar foi ao ataque. Carência de neurônios.

ANDREA, ANDRÉS E MANU

por André Kfouri em 17.jun.2013 às 14:54h

Nada mal para um domingo na frente da televisão.

No Maracanã, Balotelli dominou os olhares durante Itália x México.

Mas eu queria falar de Andrea Pirlo.

Menos pelo lindo gol de falta (do qual o goleiro Corona quis participar, ao invés de evitar, recolhendo o braço), mais pela condução de uma Itália que gosta de jogar.

O time de Cesare Prandelli é diferente do que nos acostumamos a ver por causa de Pirlo.

Ele é a etiqueta de qualidade no trato, a conexão entre partes que precisam se associar para que o futebol seja praticado como deve.

Pirlo transporta a Itália do campo de defesa com a elegância dos que se orgulham de seu ofício, com a precisão dos que se aperfeiçoam com o tempo.

Ele declarou que era um privilégio fazer seu centésimo jogo com a camisa da Itália num lugar como o Maracanã, e celebrou com um gol que Zico assinaria.

Em Pernambuco, a Espanha tratou o Uruguai como um grupo de aprendizes, especialmente no primeiro tempo.

Num mundo em que a maioria das seleções procura se adaptar a conceitos semelhantes de jogo, os espanhóis continuam ostentando sua identidade.

Andrés Iniesta, o melhor jogador de meio de campo do mundo, é o grande intérprete de um estilo que encanta e vence.

Há quem não goste, claro.

Assim como há quem vá a um museu e diga que “prefere outro tipo de arte”, sem necessariamente ter ideia do que fala.

A Espanha teve a bola por algo entre 72% e 75% do tempo (dependendo da fonte), números absolutamente assustadores para um jogo de competição.

Controlou o encontro e seu destino, como quase sempre.

Implicar com um estilo de jogo capaz de produzir tal superioridade, tendo em conta a quantidade de talento e atributos técnicos necessários para tanto, revela uma certa dose de ignorância.

À noite, em San Antonio, o quinto jogo das finais da NBA poderia sinalizar um caminho escuro para Manu Ginobili.

O jogador dos Spurs parecia experimentar o rápido declínio físico que encerra carreiras esportivas.

Duas conversas com o técnico Gregg Popovich reforçaram a importância do argentino para as pretensões de seu time.

E um lugar entre os cinco titulares dos Spurs lhe deu a injeção de confiança necessária para produzir.

Ginobili fez 24 pontos, os Spurs venceram o Heat por 10 e estão a uma vitória do título.

Manu é um conquistador nato. Triunfou por onde passou. Afundar seu time nas finais da NBA seria um registro anormal em seu currículo.

NOTAS, BRASIL 3 x 0 JAPÃO

por André Kfouri em 16.jun.2013 às 12:06h

(o jornal encomendou notas e comentários para atuações individuais dos jogos do Brasil na Copa das Confederações. Não posso publicá-las aqui logo depois da partida. Escrevo mais sobre a estreia no Lance! de amanhã.)

JULIO CESAR – Muito emocionado durante o hino nacional. Soltou algumas bolas. Uma boa defesa no segundo tempo. 6,5

DANIEL ALVES – Tentou aparecer no apoio, conforme característica e qualidade. Cruzou para o segundo gol. Correto. 6

THIAGO SILVA – Bom primeiro tempo. Nível técnico inquestionável e liderança evidente. A defesa ainda não “clicou”. 6

DAVID LUIZ – Atuação séria, a seu modo. Sem problemas para dar chutões. Defesa sofreu com cruzamentos. 6

MARCELO – Cruzou a bola no peito de Fred, no lance do primeiro gol. No apoio, errático no início, depois melhor. 6

LUIZ GUSTAVO – Aparece pouco, trabalha muito. Papel central na proteção da zaga. Calmo, eficiente, competente. 6,5

PAULINHO – Regularmente bom. Marca e ataca como se fosse fácil. Domínio e giro rápido para fazer o segundo gol. 7

OSCAR – É quem faz o time rodar, mesmo quando não está em seus melhores dias. Passe no vazio para o gol de Jô. 7

NEYMAR – Fez um gol de sonho, aos três minutos de uma estreia. Mais à vontade, envolvido, perigoso. 7

HULK – Fez até mais do que sua obrigação. Dedicado, capaz de oferecer perigo de diferentes maneiras. 6,5

FRED – Passe de peito para Neymar e um gol que o goleiro japonês lhe roubou. Fez tudo certo no lance. 6

LUCAS e HERNANES – Corretos no pouco tempo em que estiveram em campo. 6

JÔ – O que menos jogou, mas o gol é valioso. 7

LUIZ FELIPE SCOLARI – Seu time controlou o jogo do começo ao fim, tranquilo por estar na frente desde o minuto 3. 7

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 16.jun.2013 às 11:13h

(publicada ontem, no Lance!)

BADERNA

Os fins de tarde em São Paulo convidam a uma conversa sobre a Copa do Mundo no Brasil. Uma conversa arriscada. Combinar futebol e política, com as manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus como pano de fundo, tem potencial explosivo semelhante ao das ações da Polícia Militar paulista nos últimos dias. No final, é um erro tremendo.

O discurso do protesto pacífico agredido gratuitamente é infantil. O discurso da borrachada nos vagabundos é repugnante. O discurso que protege a legenda preferida é hipócrita. Cenas como as que vimos anteontem no centro da cidade só acontecem porque são estimuladas pelos dois lados, especialmente pela postura arrogante e ignorante das autoridades, todas elas.

Não há como aceitar os excessos de quem, supostamente, recebeu treinamento para lidar com esse tipo de situação no sentido de controlá-la. A polícia não pode ser promotora da violência, mesmo se estiver diante de agentes que a procurem. O quadro fica mais feio quando se trata da mesma polícia que deveria proteger uma cidade entregue à criminalidade, apenas um de seus inúmeros problemas.

Se você acredita que tudo é por causa de 20 centavos, interrompa a leitura. A palavra que melhor define os serviços públicos em São Paulo é colapso, e isso não aconteceu no dia em que o aumento das tarifas foi anunciado. O transporte na principal cidade do Brasil é uma das faces da carência generalizada que viaja pelo país e convive com a megalomania dos estádios, com as manobras de mobilidade urbana, com a farra da bola de uma Copa feita por muitos para poucos. Uma Copa que chama o torcedor às ruas, mas prefere o cidadão dormindo.

Não haverá Copa das Confederações na cidade dos protestos abafados com tiros nos olhos de repórteres e cacetadas em transeuntes. Mas o torneio nem começou e a miséria dos serviços que prestamos já se fez presente em outras partes. No Rio de Janeiro, levaram os italianos para treinar no Engenhão, interditado desde 26 de março. O Uruguai não conseguiu fazer um treino em Recife, porque choveu demais. Há problemas de entrega de ingressos e credenciais em todas as sedes.

Como evento teste, um dos objetivos é descobrir o que não vai bem. Falhas fazem parte do processo, ainda mais para quem é organizador de primeira viagem. Mas o “imagina na Copa” ganha contornos fantasmagóricos quando lembramos que trinta e dois times estarão presentes daqui a um ano. Tal nível de dificuldade para tratar com apenas oito não é inspirador.

Muito mais grave, porém, é o nível de agressividade da polícia de São Paulo para tratar com manifestantes e quem estiver por perto, seja por obrigação ou azar. A destruição do patrimônio alheio – um crime – vira pretexto para uma inaceitável isenção de responsabilidades. Todos são convertidos em baderneiros, até a PM.

O governador promete “apurar abusos”. O prefeito conclui que “protocolos não foram observados”. No Rio, o prefeito disse que se mata se o Brasil perder a final da Copa para a Argentina. E o secretário-geral aceita um chute na bunda se as coisas derem errado.

Chute na bunda? A PM de São Paulo é boa nisso.

ACERTO

Curiosa a trajetória recente de Luiz Antonio Venker Menezes, o novo técnico do Flamengo. No Corinthians, Mano Menezes; na Seleção Brasileira, Brother Menezes: agora, Merrrmão Menezes. O Flamengo entregou seu projeto de recuperação ao treinador certo. Mano é experiente e bem sucedido na condução desse tipo de trabalho.

TESTE

A Seleção Brasileira finalmente começará a competir neste sábado. A Copa das Confederações nos mostrará algo sobre o estágio em que o time se encontra. Conquistá-la, além de não parecer um bom presságio, não tem alto valor esportivo. Na relação entre desempenho e resultado, o que importa é o primeiro.

RADAR

Dilma Rousseff e José Maria Marin devem se encontrar logo mais, na cerimônia de abertura da Copa das Confederações. O Governo Federal tem mantido o presidente da CBF à distância. Atenção ao comportamento da presidenta.

CAMISA 12

por André Kfouri em 14.jun.2013 às 7:26h

(publicada ontem, no Lance!)

SIMULADOR

Muito tempo atrás, durante a gravação de um programa de televisão, o meia Alex disse uma dessas frases que permanecem na memória de jornalistas. O jogador que hoje está no Coritiba falava sobre o período em que trabalhou no Palmeiras, com Luiz Felipe Scolari.

“O que ele faz no treino acaba acontecendo no jogo”, disse Alex, ao responder a uma pergunta que investigava as conexões necessárias entre um treinador e seus jogadores. O comentário se referiu ao técnico que Alex conheceu entre 1997 e 2000, por isso é importante estabelecer o contexto. Scolari pode ainda ser assim, ou o futebol e o tempo podem ter determinado o prazo de validade do depoimento.

A resposta será conhecida em campo, quando a Seleção Brasileira estiver efetivamente competindo. Teremos um primeiro momento de observação a partir de sábado, na Copa das Confederações, ainda que o torneio seja muito menos importante para os outros participantes. Todos estão num estágio de desenvolvimento, no sentido da formação de time, adiantado em relação ao Brasil. E o papel de seleção anfitriã amplia a responsabilidade, a pressão e a necessidade de mostrar serviço.

Recuperando a frase de Alex, o amistoso contra a França produziu um bom resultado. Além da vitória, o roteiro dos dois primeiros gols. Tanto a bola resgatada no campo do adversário, por Luiz Gustavo, quanto o contra-ataque iniciado por Paulinho, com uma opção de cada lado, foram movimentos treinados durante a semana anterior em Goiânia. Nada revolucionário, claro. Mas os jogadores – e quem prestou atenção no que foi trabalhado – perceberam.

Se aspectos treinados continuarem a se materializar nos jogos do Brasil, duas situações serão prováveis: 1) jogadores da Seleção se sentirão, em relação a seu técnico, da forma como Alex se sentiu há cerca de 15 anos; e 2) Scolari mantém as qualidades daquele treinador.

Os objetivos da Seleção Brasileira dependem destas questões.

TROCA

O discurso de recuperação da empatia entre a Seleção Brasileira e a torcida não é compatível com o que vem sendo feito pela CBF. Em casa, o contato dos jogadores com o público deveria ser estimulado, respeitando, é claro, as necessidades de quem está trabalhando. Esconder a Seleção e depois cobrar apoio incondicional nos estádios não é uma boa ideia.

TEMPO

Em teoria, a parada das competições para a realização da Copa das Confederações é boa para todos. Descanso e tempo para trabalhar não atrapalham ninguém. Mas os times que foram eliminados da Libertadores, especialmente o Corinthians, agradecem imensamente a oportunidade. Outro que precisa se recompor é o Atlético Mineiro, sonhando com a América.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 11.jun.2013 às 8:22h

(publicada ontem, no Lance!)

AMOSTRA

1 – Há algo positivo em enfrentar a França. Trata-se de uma seleção que não tem as cicatrizes que normalmente se nota em adversários do Brasil. Os franceses se lembram da camisa amarela e encontram boas sensações. Em tese, é um oponente que pensa primeiro em jogar seu jogo, o que é sempre elogiável.

2 – Também há algo positivo em ver a Seleção se apresentar no Rio Grande do Sul. Lá não se tem registros do infame “sou brasileiro, com muito orgulho…”.

3 – Mas esta França não peca apenas no traje azul neném que não faz jus às suas cores. Sem seis titulares em relação à escalação da última partida de competição que disputou (Espanha, em Paris, pelas Eliminatórias Europeias), é um time que não tem o suficiente para, como dissemos há pouco, pensar primeiro em jogar seu jogo.

4 – Quem faz isso é o Brasil, que consegue manter a bola no campo de ataque e rondando a área de Lloris. Mas mesmo após um período de trabalho caracterizado como “intenso” em Goiânia, não há automatismos que permitam ao time romper as últimas linhas francesas.

5 – A “bola para Fred na área” se converte em principal movimento ofensivo da Seleção Brasileira. É pouco. Sim, Fred está lá para isso e tem justificado sua presença com gols em todos os jogos em que foi escalado por Scolari. Mas é interessante que ele seja uma das opções, não a única. Também é interessante que a bola o encontre em condições de finalizar.

6 – Antes dos dez minutos do segundo tempo, Fred (fora da área) aciona Oscar numa jogada que inverte todos os conceitos, menos um: a retomada de bola na intermediária adversária, que está na origem de tantos gols. Intervenção de Luiz Gustavo, ainda que possa ter sido faltosa. 1 x 0.

7 – Luiz Gustavo é quem faz mais da oportunidade recebida. Sério no cumprimento de suas funções, o jogador do Bayern Munique certamente satisfaz um técnico que sabe o que quer de seus volantes.

8 – A entrada de Fernando no lugar de Oscar libera Paulinho para agradar quem gosta de volantes goleadores. Mas é com uma bola recuperada na defesa que o corintiano cria o contra-ataque do segundo gol. Hernanes, para delírio da imprensa. 2 x 0.

9 – Assim como aproveitou os treinos para perder peso e reencontrar a forma, Marcelo lucra no amistoso. Muito superior a qualquer obstáculo que a França pudesse usar para tentar contê-lo, soma pontos para ser a escolha de Felipão para a esquerda. É dele a jogada que termina no pênalti convertido por Lucas. 3 x 0.

10 – Vinte e um anos sem vencer os franceses chegam ao final em Porto Alegre. Primeira vitória do Brasil sobre uma seleção campeã de mundo desde 2009. Os desfalques da França não podem ser desconsiderados.

11 – Conclusão: a missão de superar adversários fechados será constante na Copa das Confederações, torneio muito mais importante para a Seleção Brasileira do que para os demais participantes. Mau primeiro tempo do time considerado titular, abaixo do que mostrou no domingo passado contra a Inglaterra. O primeiro gol abriu o jogo e a fase de substituições terminou por evidenciar a superioridade do Brasil. Vitória merecida, resultado um tanto largo.

ALVO

Aos olhos da torcida, ao que parece, Neymar entra em campo com a obrigação de resolver todos os problemas. É até um exagero em relação ao tradicional “cobra-se mais de quem pode dar mais”. Neymar não está em seu melhor momento, mas deve acompanhar o caminhar do time. Bom ver que ele não se abate. Melhor, ainda, lembrar que Neymar tem idade para disputar três Mundiais. Interessante tema para conversas com Messi.

NATURAL

Ao considerar a evolução da Seleção e o tempo que resta para a estreia na Copa das Confederações, Felipão disse na entrevista coletiva que “a natureza não dá saltos”. Exato. Este é precisamente o problema central. E em comparação aos principais candidatos ao título mundial no ano que vem, o atraso do Brasil em termos de formação de uma equipe é evidente. Até a Copa do Mundo, será preciso dar uns pulinhos.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 09.jun.2013 às 12:21h

(publicada ontem, no Lance!)

TRÊS TÉCNICOS

Um demitido, um pressionado e um preocupado.

O demitido é Jorginho, cujo trabalho no Flamengo não completou três meses. Pode ser um caso de despreparo para assumir uma posição tão significativa. Pode ser a forma reticente com a qual ele manejou o time durante os jogos. Mas antes de tudo é uma questão de incompatibilidade, pela qual o treinador não é o maior responsável.

As condições existentes no Flamengo para a travessia da temporada não permitem que se pense grande. Qualquer discurso que não seja o da campanha digna, com a metade da tabela como alvo, gera a ilusão de uma capacidade que o elenco atual não possui. E o encontro do que se vende com o que se entrega é quase sempre um acidente com vítimas.

É difícil de acreditar, mas o Flamengo não tem orçamento, hoje, para construir um time competitivo no Campeonato Brasileiro. A obrigação da diretoria que assumiu o clube em janeiro é uma gigantesca obra de saneamento que impõe restrições financeiras, realidade que não comporta uma equipe superior. Se o plano de reestruturação avançar em 2013, o resultado ao final do ano será mais importante do que a colocação do time na tabela. Desde que seja na Série A, meta que o próximo técnico precisa abraçar.

O pressionado é Ney Franco, derrotado em casa pelo Goiás na noite em que o Morumbi, ou pelo menos uma parte dos que lá estiveram, pediu Muricy Ramalho. O atual técnico do São Paulo faz parte de uma lista de nomes que parecem ter sido eleitos por falta de opções. Além de não ser a melhor maneira de iniciar uma relação, é garantia de contratempos quando o humor sofre. Foi o que se deu na quarta-feira, é o que se dará de agora em diante. Roteiro que costuma terminar em distrato.

O protesto que vem da arquibancada nem sempre é sábio e com frequência tem o patrocínio de interessados. Os apupos e as críticas não são agradáveis, mas não representam o verdadeiro problema de Ney Franco. É a falta de sustentação em seu próprio vestiário que o ameaça. Quase todos os técnicos lidam com insatisfações, claro. O problema é quando a balança pende para o lado negativo.

O preocupado é Tite, no comando de um Corinthians cada vez mais distante do que lhe fez forte. Não, Tite não corre riscos ou enfrenta problemas de ambiente. Vive situação completamente oposta nos dois casos. Mas seu time tem lhe convidado a reflexões intrigantes. A falta de apetite está apenas ligada à motivação? Quantos gols Alexandre Pato ainda perderá? Por que, na derrota para o Cruzeiro, a configuração de contra-ataque se transformou em total desprezo pela bola?

Não deve ser fácil manter um time continuamente disposto aos “sacrifícios” inerentes ao sucesso. No caso de grupos que já o saborearam, as cotas permanecem as mesmas, mas parecem maiores. Há quem precise ser relembrado, quem tenha de ser provocado e os que não podem mais ser recuperados. Não é por outro motivo que vencedores seriais são tão raros.

Em sua própria dialética, Tite enfrenta um problema de sustentabilidade. A parada para a Copa das Confederações lhe deve fazer bem.

CAMALEOA

A mudança estética da bola usada na Copa do Brasil e no Campeonato Brasileiro deu errado. É difícil ver a redonda alaranjada, principalmente à noite e em gramados mais escuros. É quase uma camuflagem. Bolas coloridas são úteis em campos cobertos pela neve. Em nosso país, são tão necessárias quanto um par de esquis.

VIBRANTE

Com um chute forte de fora da área, e parceria do goleiro Ricardo Berna, Alex ajudou o Coritiba a vencer o Fluminense ao marcar seu gol número 400. Não consta que nenhum deles tenha sido comemorado com dancinhas.

ENGENHOSO

E o Estádio “Olímpico” João Havelange, o Encrencão, ficará dezoito meses interditado para reparos. Feche os olhos e imagine os envolvidos, todos eles, em sonoras gargalhadas. É exatamente o que está acontecendo. Só R$ 400 milhões foram gastos ali. Seis anos depois, já está na hora de gastar mais.

CAMISA 12

por André Kfouri em 07.jun.2013 às 8:28h

(publicada ontem, no Lance!)

LATERAL

O que estimula Jorge Henrique a afirmar que sai do Corinthians pela porta da frente são os títulos que ele ajudou a conquistar. Não foram poucos, desde a fase de reconstrução operada por Mano Menezes, até o período de ouro em 2011 e 2012, com Tite.

Houve ocasiões em que sua contribuição suplantou a etiqueta de “jogador tático”, como os gols marcados nas finais da Copa do Brasil de 2009. Mas se a questão for escolher o momento que identifica sua passagem pelo Corinthians, a decisão do Mundial de Clubes será difícil de superar.

Ninguém pode afirmar que o Corinthians teria vencido o Chelsea sem a participação estratégica de Jorge Henrique. Provavelmente não. Naquela noite em Yokohama, as funções defensivas que poucos atacantes aceitam desempenhar foram executadas quase à perfeição. O curioso é que ele esteve perto de não ser escalado.

No último jogo antes da viagem ao Japão, derrota para o time reserva do São Paulo por 3 x 1, Jorge Henrique deixou a pior das impressões. Sua expulsão por tentar chutar Casemiro após uma disputa de bola não prejudicou o time apenas no clássico. Preencheu com intranquilidade um dia que deveria ser inspirador. Companheiros e comissão técnica notaram.

Tite o deixou fora da estreia contra o Al Ahly, mas decidiu considerá-lo para ser titular no jogo do título mundial. A escalação de Jorge Henrique foi tema de conversas com jogadores e diretoria.

Uma parcela da conquistas estará sempre com ele. Já a forma como deixou o Corinthians vai além das repetidas indisciplinas e, no último caso, da tentativa de ludibriar a todos.

O comportamento de Jorge Henrique na reapresentação dos jogadores após a eliminação na Copa Libertadores decepcionou seus ex-companheiros, que, a respeito de seu afastamento, nada disseram que pudesse desaboná-lo. A postura jocosa, como se fosse um dia normal, gerou os olhares típicos de situações em que nada precisa ser dito.

CONFLITOS

Equivocado e condenável, por parte de todos os envolvidos e sob qualquer aspecto, o acerto entre Neymar e Barcelona feito em 2011. Um jogador de futebol sob contrato receber dinheiro de outro clube é inadmissível. Parabéns aos jornalistas que fizeram seu trabalho. E um bom dia aos ofendidos que, entre ser enganados ou informados, preferem a primeira opção.

AFLITOS

Menos de dez mil torcedores são-paulinos pagaram ingresso para ver o time jogar contra o Goiás, no Morumbi. Alguns gritaram o nome de Muricy Ramalho ao final da derrota por 1 x 0. O São Paulo está desorientado desde que demitiu o mesmo Muricy, em 2009. Vive de trabalhos interrompidos, feitos por técnicos que o clube parece contratar a contragosto.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 04.jun.2013 às 7:46h

(publicada ontem, no Lance!)

CASA NOVA, ERROS ANTIGOS

1 – Antes de qualquer coisa, entremos num acordo: faz mais sentido analisar a Seleção Brasileira com base naquilo que ela pretende ser, não naquilo que se pretende que ela seja. Os conceitos não mudarão até a Copa do Mundo, de modo que ignorar essa realidade é elocubrar sobre um time que não existe.

2 – Outro lembrete: o pedido de paciência feito por Scolari antes do jogo será necessário contra a maioria dos adversários. Paciência é uma virtude de diversas utilidades. Por vezes, nos ensina a manter a calma diante de equipes fechadas atrás da linha da bola. Noutras, a não esperar futebol de alta qualidade de quem não quer oferecê-lo. Que seja só o primeiro caso.

3 – A Inglaterra veio ao novo Maracanã para deixar a bola com o Brasil. Historicamente, é assim que os ingleses se sentem mais confortáveis. Assim procuram vencer jogos em que a sensação é a de que terminarão derrotados. Pode-se criticá-los por várias razões, mas não por querer ser o que não são.

4 – Posse de bola só se traduz em vantagem técnica quando é uma ferramenta para impôr o jogo ao adversário. Quando é estéril, gera falsa impressão de superioridade, exatamente o que oponente deseja. A tarefa dos times que controlam a posse é criar um número de chances de gol que seja condizente com o domínio das ações.

5 – Por volta dos 35 minutos de jogo, o Brasil goleia por 15 x 0 nas finalizações. Mas perigo, mesmo, só em duas ocasiões com Neymar: uma diante de Joe Hart e outra de fora, em que a bola que buscava o ângulo sai por muito pouco. Um chute defeituoso de Hulk provoca pedidos tímidos pela presença de Lucas. A solicitação de paciência foi atendida por pouco mais de meia hora.

6 – As entradas de Marcelo e Hernanes configuram a Seleção Brasileira para seu modo de ataque declarado. Pouco depois, Lucas confirma a intenção. A qualidade do chute de longe de Hernanes derruba a defesa inglesa. No rebote, Fred faz o que faz melhor: aproveita-se de seu senso avançado de posicionamento para marcar. Curioso que ele tenha sido acionado pelo travessão e não por um companheiro.

7 – Chamberlain é a resposta de Hodgson para não perder. Um arremate desviado pela zaga brasileira e um cabeceio que passa à direita de Julio Cesar revelam o crescimento da ousadia inglesa. Rooney e Lampard participam da construção do empate, chute preciso do jogador que entrou para transformar o técnico em sábio.

8 – O gol de Rooney, em chute que desvia e entra no ângulo, faz ecoar o grito de “England!” no novo Maracanã. Um sentimento constrangedor o acompanha, pela iminência de mais um resultado ruim contra uma seleção considerada grande.

9 – Paulinho, 2 x 2. Porque “a imprensa” adora volante que faz gol.

10 – Conclusão: domínio e alguma eletricidade no primeiro tempo, com Neymar envolvido (no melhor sentido) e Fred desperdiçado. Bom início de segundo tempo, pelo ímpeto e a utilização de jogadores de caráter ofensivo. Depois, queda de energia e desempenho que a Inglaterra explorou a seu estilo. Resultado coerente com o jogo.

11 – PS: é bom ver a Seleção Brasileira jogar no Maracanã.

PORTA ABERTA

Ótima ideia do Santos de tentar trazer Marcelo Bielsa para trabalhar no Brasil. O argentino é um treinador de futebol, no sentido literal da expressão. Tem método, caráter e obstinação. Representaria uma novidade saudável e uma influência positiva no futebol brasileiro. Ao final, depende dele, pois certamente haverá opções para continuar na Europa. Mas Bielsa não pensa e não age como a maioria. Tomara que dê certo.

INTERVALO

A Copa Libertadores só volta em julho e a questão é a quem a longa pausa será mais prejudicial. Temos um “intruso”, o Independiente Santa Fé; um argentino tradicional, o Newell’s Old Boys; uma camisa respeitável, o Olimpia; e um brasileiro virtuoso, o Atlético. O palpite aqui é que a parada ajudará o time de Cuca a reencontrar a forma e a postura. Será pior para quem surfava o momento, como o Newell’s.