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CAMISA 12 

por André Kfouri em 29.mai.2015 às 8:12h

(publicada ontem, no Lance!)

F(utebol) B(em) I(nvestigado)

Imagine-se um cartolão do futebol sul-americano, que sempre tratou o jogo como propriedade particular. Algo como a sua própria máquina de imprimir dólares. Você está hospedado em um hotel cinco estrelas suíço, onde os funcionários o tratam como um chefe de estado. O cheiro e os sons do poder alimentam a sensação de que será sempre assim, pois, afinal, sempre foi.

Até que no raiar de uma manhã de quarta-feira, ao olhar para o criado-mudo para checar que horas são, você se dá conta de que o barulho que o despertou é alguém batendo na porta do quarto. Quem ousa incomodar tão cedo um dos donos do futebol? Irritado, você resmunga alguma coisa. A resposta é suficiente para acordá-lo de vez: é a polícia, trazendo um dia que você jamais imaginou que viveria.

O telefone do quarto toca. É a funcionária da recepção, a mesma que diariamente elogia o penteado de sua mulher. Dessa vez a mensagem tem outro tom: “senhor, estou ligando para dizer que precisamos que abra a porta, ou teremos de derrubá-la”. E assim, sem aviso, você se percebe na cena final de filmes sobre mafiosos, aquela que representa o encerramento de um modo de viver, quando só resta perguntar: “posso me vestir?”.

Os educados policiais suíços explicam o que está acontecendo. Trabalham em cooperação com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, em uma operação coordenada pelo FBI. Há provas, muitas provas contra você, e um mandado de prisão. Seus advogados não podem ajudá-lo agora. Seus amigos não são mais seus amigos. Seu estilo de vida de ordens, excessos e gargalhadas sofreu uma abrupta interrupção. Você terá de ir com eles.

Um carro no subsolo, uma saída discreta, um lençol para evitar a imprensa. São os únicos favores que o estafe que sempre o mimou com delicadas surpresas pode oferecer agora. Eles o querem longe o quanto antes, evitam o contato visual. Você se sente como um fantasma. Em certo aspecto, é no que você se transformou.

AÇÃO

A Polícia Federal esteve ontem à noite nas sedes da Klefer e da CBF, no Rio de Janeiro, com mandados de busca e apreensão de documentos. O envolvimento de dirigentes e empresários brasileiros em crimes descritos no relatório do Departamento de Justiça dos EUA é tão escancarado que as nossas autoridades não podem deixar de agir. Que seja apenas o começo.

COMÉDIA

As notas oficiais divulgadas pela CBF são tão bizarras que sugerem que a comunicação da entidade foi sequestrada por um humorista. A confederação afastou José Maria Marin depois que a FIFA o baniu, e quer se distanciar do cartola preso como se ele vivesse em um passado distante. Seria interessante que alguém no edifício Marin lesse o relatório da investigação.

TÓC, TÓC, TÓC… FBI!

por André Kfouri em 28.mai.2015 às 12:32h

(arte de Mário Alberto, capa do Lance! desta quinta-feira)

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 26.mai.2015 às 7:52h

(publicada ontem, no Lance!)

BEDÉIS

Discussões com árbitros são comuns em jogos de tênis. Discordâncias em relação às marcações do sujeito que ocupa a cadeira costumam girar em torno de problemas oftalmológicos ou déficit de atenção. O tenista sabe que não ganhará o ponto no grito independentemente da consistência de seus argumentos, mas insiste na conversa para aliviar o stress, condicionar as próximas decisões ou apenas irritar aquele que o fez perder a paciência. Nesse último caso, nove entre dez tenistas recorrem a uma lembrança de quem é quem na quadra. Variações da frase “ninguém aqui pagou ingresso para ver você” são campeãs de audiência.

Árbitros brasileiros de futebol têm merecido ouvir repreensão semelhante, especialmente aqueles ainda seduzidos pelo aspecto militar, digamos, do fato de ser a “autoridade máxima em campo”. Poucos espetáculos são mais atrasados do que um árbitro que se comporta como bedel, ainda que alguns tenham alcançado à perfeição os trejeitos, as expressões faciais e as atitudes dos responsáveis pela manutenção da disciplina nos corredores de escolas rígidas. Não por acaso, bedéis foram superados pelo tempo, assim como instituições educacionais que se espelham em quartéis.

A conduta autoritária, que pretende incutir medo, sobrevive no modo de operar de certos apitadores, agora com a orientação específica de repelir com veemência qualquer abordagem mais exaltada de jogadores e técnicos. A chamada “reclamação ostensiva” deve ser reprimida sem economia de energia, de modo a deixar absolutamente claro quem manda naquele quadrado. Como se as regras disciplinares do esporte não fossem conhecidas por todos, como se um árbitro tivesse de fazer cara feia para ser respeitado, como se impedir que sua autoridade seja desafiada – ou que essa impressão seja disseminada – fosse mais importante do que uma atuação que proteja o jogo.

Como já se destacou neste espaço, a pressão sobre a arbitragem é um dos piores vícios do futebol no Brasil. O propalado desejo de que um trio tenha uma boa jornada quase nunca atravessa a linha do gramado. O que se vê é o contrário, em atitudes que evidenciam a intenção de desequilibrar árbitros e assistentes. Não se discute a quantidade de problemas que um apitador tem de administrar durante um jogo, motivo pelo qual a utilização da arbitragem eletrônica é urgente. É um equívoco, no entanto, estimulá-los a atuar como sargentos em comédias de baixo orçamento.

O árbitro enamorado pelo “controle” do jogo ignora que o objetivo deve ser o anonimato. O maior indicativo de uma atuação competente é a quantidade de pessoas que se lembram dele após a partida. E nada pode ser melhor para um apitador do que a fama de discreto. O italiano Pierluigi Collina, o melhor de sua geração e modelo de conduta sóbria, dirigia jogos sorrindo. Jamais foi visto vociferando em campo. Héber Roberto Lopes – que com Collina tem em comum apenas a cabeça raspada – praticamente excomungou o zagueiro tricolor Gum por um pênalti reclamado no jogo contra o Corinthians. Deu medo. Ninguém paga ingresso para ver isso.

NOTINHAS PÓS-RODADA

por André Kfouri em 25.mai.2015 às 9:24h

Os jogos da rodada 3 do BR-15:

* O Vasco (1 x 1 com o Internacional: Nilmar e Lucas – 4.520 pagantes em São Januário) é o único time que só empatou até agora.

* A 3 pontos do topo da classificação, o Inter não se descola em nome da Libertadores.

* A torcida do São Paulo (3 x 0 no Joinville: Dória, Michel Bastos e Alexandre Pato – 12.740 presentes no Morumbi) está mesmo dividida entre Luis Fabiano e Pato?

* Incluindo o Campeonato Paulista, o São Paulo venceu dez jogos seguidos em seu estádio.

* O Grêmio venceu (1 x 0 no Figueirense: Braian Rodríguez – 8.333 pagantes na Arena do Grêmio) a primeira, mas não jogou bem.

* Foi apenas o segundo gol do atacante uruguaio com a camisa tricolor.

* O Goiás (1 x 0 no Palmeiras: Victor Ramos-contra –  37.337 pagantes no Allianz Parque), invicto, é um dos 3 líderes.

* O resultado foi um castigo para o Palmeiras, que jogou para vencer. Futebol.

* O segundo gol do Avaí (2 x 1 no Flamengo: Hugo-2 e Gabriel – 11.918 pagantes na Ressacada) foi irregular. A bola saiu.

* O Flamengo, sem vitória, está no U-4.

* O Atlético Mineiro jogou mais, o Atlético Paranaense venceu (1 x 0: Douglas Coutinho – 13.510 pagantes na Arena da Baixada) em casa.

* Walter foi expulso e a súmula relata ofensas ao árbitro Thiago Duarte Peixoto. Problemas à vista.

* Pouco a dizer sobre o 0 x 0 entre Fluminense e Corinthians (14.932 pagantes no Maracanã), além de uma defesa de Cássio e um inacreditável gol perdido por Guerrero.

* A “lei do ex” prevaleceu na segunda vitória da Chapecoense (1 x 0 no Santos: Apodi – 6.374 pagantes na Arena Condá) em seu estádio.

* Apodi jogou no Santos em 2008.

* O líder Sport (1 x 0 no Coritiba: Neto – 12.119 presentes na Ilha do Retiro) não perde em casa há 21 jogos.

* O gramado da Ilha vive seu melhor momento em anos ou é impressão?

* Ao contrário do Internacional, o Cruzeiro (1 x 1 com a Ponte Preta: Charles e Biro-Biro – 9.639 pagantes no Mineirão) segue perdendo pontos para a Copa Libertadores.

* Notável o poder de reação demonstrado pela Ponte até o momento.

COLUNA DOMINICAL 

por André Kfouri em 24.mai.2015 às 10:20h

(publicada ontem, no Lance!)

SENHOR CAPITÃO

Xavi Hernández, o meio-campista que todos os meio-campistas queriam ser, anunciou anteontem que deixará o Barcelona ao final da temporada europeia. O intérprete da mais corajosa, mais difícil e mais valiosa forma de jogar futebol vai encerrar a carreira no Catar, onde também se formará como técnico. Quando chegar o momento da aposentadoria, Xavi merecerá uma coluna – será pouco – que tratará da capacidade de não só controlar seu time, mas também os outros vinte e um jogadores em campo. Esta, por ora, se ocupará de algo que passou quase despercebido em sua entrevista de despedida.

Perguntado sobre a transformação pela qual o Barcelona passou desde a derrota para a Real Sociedad, no dia 4 de janeiro, o capitão minimizou sua atuação em um pacto firmado pelos jogadores para resgatar uma temporada que parecia destinada à mediocridade. “Não sou um bombeiro, não estou aqui para apagar incêndios. Em um vestiário sempre há problemas e o de janeiro foi muito fácil de resolver”, disse. É verdade, o que não significa que a correção de rumo àquela altura não seja interessante, justamente pela simplicidade que desmistifica os momentos em que as vozes mais importantes de um grupo de atletas se fazem ouvir.

No dia seguinte à derrota em San Sebastián, Messi – poupado do jogo pelo técnico Luis Enrique – alegou uma indisposição estomacal para não participar de um treino aberto a torcedores. À tarde, o diretor esportivo Andoni Zubizarreta perdeu o cargo e Carles Puyol anunciou o encerramento de seu período como assistente da diretoria. A crise institucional acompanhou os problemas do time, nenhum tão grave quanto o escancarado descontentamento do jogador sem o qual seria impossível retomar o bom caminho.

De acordo com o jornalista Luis Martín, que cobre o Barcelona para o diário El País, a conversa dos líderes do elenco com Messi não foi um pedido, mas um alerta. Xavi exerceu sua obrigação de capitão. “Temos que resolver isso. Não pode acontecer o mesmo que na temporada passada, e você sabe. Quer que Cristiano volte a ganhar a Bola de Ouro?”, perguntou. A reunião terminou com uma mensagem explícita, comum a tentativas de solucionar problemas em qualquer ambiente: “Leo, não f…”.

A partir de então, Messi reencontrou sua forma genial, o trio de atacantes sul-americanos do Barcelona passou a atormentar os adversários dentro e fora da Espanha e o primeiro troféu de três possíveis já foi conquistado. Tudo com participação limitada de Xavi, um ícone que compreendeu as adaptações necessárias para acomodar as peças ofensivas do time e aceitou um papel secundário em uma campanha que pode marcar época.

Se isso acontecer, a história da temporada terá obrigatoriamente de ser contada com imbróglios políticos, processos judiciais, um ataque irresistível e uma conversa de vestiário que mudou tudo. Na qual o capitão prestes a se despedir fez o que faz em campo: controlou seu time para levá-lo à vitória.

ATENÇÃO

O Cruzeiro se aproximou das semifinais da Copa Libertadores com uma vitória merecida no Monumental de Nuñez. Mas Marcelo Oliveira tem toda razão ao minimizar a vantagem de seu time. As boas equipes argentinas não costumam alterar sua postura quando jogam fora de casa, o que as torna mais perigosas. O River Plate atual é inferior ao time que conquistou a Copa Sul-Americana no ano passado, mas capaz de se classificar no Mineirão, onde o conheceremos melhor. É preciso considerar que os eventos do clássico argentino que não terminou certamente prejudicaram a preparação do River. O que anima em relação ao Cruzeiro é a solidez defensiva, que faz do time mineiro o que menos gols sofreu (4) entre os que sonham com o título continental.

LIQUIDAÇÃO

O que se diz sobre o planejamento de um time que se desmancha após ser eliminado de uma competição em maio?

CAMISA 12

por André Kfouri em 22.mai.2015 às 8:39h

(publicada ontem, no Lance!)

ÚLTIMO FÔLEGO

1 – Interessante postura inicial do Internacional no El Campín, com a primeira linha de pressão sobre a bola mais adiantada do que se poderia supor fora de casa e na altitude de mais de 2.600 metros.

2 – Não era o posicionamento de um time que pretendia convidar o Independiente Santa Fe ao ataque e se aproveitar de um descuido. A ideia de Diego Aguirre era desarticular o jogo colombiano.

3 – O Inter também não demonstrava nenhuma intenção de conservar energia nas alturas de Bogotá, como ficou claro a cada gesto de D’Alessandro estimulando Lisandro López e Eduardo Sasha a incomodar a saída de bola dos colombianos.

4 – Domínio inofensivo do Santa Fe, com posse mas sem perigo. O Inter conseguiu finalizar duas vezes nos minutos finais do primeiro tempo, altura do jogo em que, não por coincidência, a marcação colombiana exagerou na violência.

5 – A marca dos vinte minutos do segundo tempo trouxe lances mais agudos: duas bolas na trave do Internacional, frutos de jogadas aéreas. O cansaço passou a ser mais um adversário do time gaúcho, com alguns jogadores visivelmente em outra marcha.

6 – Nilmar em campo, no lugar de Eduardo Sasha. Opção solitária de velocidade, risco de punição para um Santa Fe cada vez mais próximo do gol de Alisson. Por volume ofensivo e número de ocasiões, o time colombiano merecia a vantagem quando o encontro chegou aos últimos quinze minutos.

7 – Castellanos salvou o Santa Fe quando Nilmar escapou livre e surgiu na área. O goleiro antecipou a cavadinha, resvalando na bola com força suficiente para evitar o gol.

8 – Aguirre trancou o Inter para defender o 0 x 0, mas a marcação de escanteio falhou nos acréscimos. Alisson não teve chance contra o cabeceio de Mosquera.

9 – Em dezenove encontros de mata-mata entre brasileiros e colombianos na Copa Libertadores, nossos clubes perdem por dez a nove. Em casa, o Internacional terá todas as chances de igualar esse histórico.

OXIGÊNIO

A queda de desempenho do Internacional foi brutal na última meia hora em Bogotá. Perdeu lucidez, a marcação afrouxou, cometeu mais erros. É o que acontece com quase todos os times não adaptados à altitude quando entram na reserva de energia. O gol sofrido no final provavelmente teve o componente da exaustão que prejudica, também, a concentração.

CONCURSO

Depois do gol contra produzido por Matías Rodríguez e Erazo, sábado passado, na vitória do Coritiba sobre o Grêmio, parecia impossível acontecer um lance mais bizarro nesta temporada. Mas os botafoguenses Émerson e Diego Giaretta elevaram o quesito a outro patamar no empate de ontem com o Figueirense. A moda pegou, mas não será fácil superá-los.

COLUNA DA TERÇA 

por André Kfouri em 19.mai.2015 às 11:02h

(publicada ontem, no Lance!)

GALINHA DOURADA

O trecho mais interessante da excelente reportagem do jornalista Jamil Chade (publicada na edição de sábado de “O Estado de S. Paulo”) sobre a negociação dos amistosos da Seleção Brasileira não é o que expõe as minúcias dos contratos milionários. É o que revela em que tipo de ambiente a camisa mais famosa do futebol mundial tem seu destino traçado e alugado, sempre levando em conta, acima de qualquer outro aspecto, os valores e as comissões.

Chade nos contou sobre uma reunião na sede da Federação Paulista de Futebol, no início de maio de 2012, na qual Marco Polo Del Nero mostrou ao empresário Marcel Figer uma cópia traduzida do contrato sigiloso entre a CBF e a ISE, detentora dos direitos sobre os amistosos da Seleção. Figer havia solicitado a gentileza a fim de elaborar uma proposta em nome da Kentaro, empresa interessada em assumir a comercialização dos jogos. A reportagem informa que Figer “aproveitou um momento em que Del Nero se ausentou para fotografar cada uma das páginas, no intuito de encaminhá-las à Kentaro”. Pelo que se percebe, a confidencialidade dos acordos da CBF com seus parceiros – algo absolutamente normal, registre-se -, evocada sempre que se pede transparência em relação aos negócios envolvendo a Seleção Brasileira, não serve para situações em que outras empresas se apresentam acenando com mais dólares.

Como se sabe, não faltam patrocinadores à CBF. A galinha dos gols de ouro é extremamente lucrativa para a confederação e para as marcas que a ela se associam, entre as quais estão algumas das empresas mais conhecidas do Brasil. Mas a cena descrita por Jamil Chade na sede da FPF desnuda um modo de agir que, ainda que não surpreenda a ninguém tendo em vista os atores mencionados, deve ao menos incomodar quem tem de lidar com os donos da Seleção Brasileira de futebol. Confidencialidade que só se aplica a um lado não sugere uma relação honesta.

A questão principal não é quanto a CBF, as empresas associadas, os empresários e os intermediários lucram com as apresentações da Seleção pelo mundo. Nem mesmo as cláusulas que estabelecem que alterações nas convocações precisam ser submetidas ao consentimento dos organizadores. O que se discute é a quem pertence o time que representa o futebol brasileiro, e qual é o propósito de sua existência. O leitor que entende que a Seleção é um produto de uma empresa privada cujo objetivo é fazer shows internacionais por cachês cada vez mais valiosos não deve se preocupar, pois é nisso que a CBF se empenha. Já quem pensa que a camisa amarela deve ter uma relação íntima com o torcedor brasileiro e honrar as qualidades que um dia a caracterizaram certamente se alarma ao perceber no que a Seleção se transformou. Nesse caso, o “como” é igualmente inquietante.

Na tentativa de responder ao conteúdo da matéria do “Estadão”, a CBF se esforçou mais em atentar contra a credibilidade de seu autor do que em defender a forma essencialmente mercantil com que administra o time que simboliza o futebol do país. Uma postura patética, mas coerente com as práticas expostas na reportagem.

FANTASIA

A punição ao Boca Juniors é algo que só se compreende no mundo da CONMEBOL, entidade que não conhece limites na capacidade de causar danos ao futebol. Argumenta-se com o ineditismo de um clube eliminado da Copa Libertadores por um problema relativo à segurança, como se casos passados não merecessem tal medida. La Bombonera não ter sido proibida de receber jogos internacionais enquanto o Boca não apresentar planos para impedir o que aconteceu na semana passada é uma irresponsabilidade que, em essência, autoriza a violência. Como fazê-lo (se é que alguém oferece essa questão seriamente)? Evitar que a mais violenta organizada do time ocupe uma área em que se pode encostar no túnel do vestiário visitante já é um começo. O Boca Juniors tem responsabilidade no episódio, pelo qual recebeu uma pena formal.

NOTINHAS PÓS-RODADA

por André Kfouri em 18.mai.2015 às 9:44h

A segunda rodada do BR-15:

* A amostra pode ser insuficiente, mas o Coritiba (2 x 0 no Grêmio: Thiago Galhardo e Matías Rodríguez-contra – 11.785 pagantes no Couto Pereira) se mostra um time melhor do que a campanha no estadual sugeria.

* Provavelmente não veremos um gol contra tão bizarro neste campeonato.

* O Goiás (2 x 0 no Atlético Paranaense: Bruno Henrique-2 – portões fechados no Serra Dourada) vai somando pontos cruciais.

* Um gol de Walter, no segundo tempo, foi mal anulado pela arbitragem.

* O Corinthians (1 x 0 na Chapecoense: Fábio Santos – 10.144 presentes na Fonte Luminosa) é o único time com 6 pontos, o que, obviamente, não quer dizer muita coisa neste momento.

* O que diz mais é o fato de a vitória ter sido fruto de um gol ocasional.

* Geuvânio e Lucas Lima, destaques da vitória do Santos (1 x 0: Geuvânio – 7.246 pagantes na Vila Belmiro) sobre o Cruzeiro.

* A Copa Libertadores segue roubando pontos do bicampeão brasileiro, zerado no campeonato.

* Pouco a dizer sobre o 0 x 0 entre Figueirense e Vasco (11.004 pagantes no Orlando Scarpelli), além de ter sido o segundo empate sem gols do campeão carioca.

* Não se notou qualquer abatimento na atuação do Atlético Mineiro (4 x 1 no Fluminense: Jemerson-2, Dátolo, Luan e Fred – 11.958 pagantes no Mané Garrincha), no primeiro jogo após a eliminação na Libertadores.

* Victor fez apenas uma defesa no jogo, o que diz o suficiente sobre a atuação do Fluminense.

* O Flamengo encontrou o empate (2 x 2 com o Sport: Diego Souza, Élber, Canteros e Éverton – 28.794 pagantes no Maracanã) nos acréscimos, aproveitando uma situação incomum.

* Diego Souza vestiu as luvas por causa da lesão de Magrão, e não teve chances de defender o chute de Éverton.

* Concentrado na Libertadores, o Internacional (1 x 0 no Avaí: Vitinho –  15.752 presentes no Beira-Rio) fez 3 pontos importantes em casa.

* Vitinho marcou apenas 4 minutos depois de entrar em campo.

* O placar da vitória da Ponte Preta (1 x 0 no São Paulo: Renato Cajá – portões fechados no Moisés Lucarelli) foi enganoso.

* A Ponte deveria ter vencido por diferença maior.

* Pouco a dizer sobre o 0 x 0 entre Joinville e Palmeiras (portões fechados na Arena Joinville), além do fato de o Palmeiras completar o oitavo jogo sem vitória no Campeonato Brasileiro.

COLUNA DOMINICAL 

por André Kfouri em 17.mai.2015 às 11:40h

(publicada ontem, no Lance!)

BOZOS

O futebol sul-americano exibiu todas as suas doenças na noite de quinta-feira, quando deveria mostrar ao mundo um de seus encontros mais tradicionais. Boca Juniors e River Plate não chegaram ao segundo tempo na Bombonera, em mais um exemplo da capacidade de contaminação de uma sociedade corrompida, como tão bem descreveu o jornalista argentino Leandro Fernández em sua conta no Twitter: “Não, não é ‘um idiota’ que entrou com gás. É um clube cúmplice. É a polícia que se presta. É um sistema arruinado”.

As palavras aplicam-se ao continente e aumentam em gravidade conforme a importância do futebol em cada país (o que não significa, aos que sofrem de dramas de interpretação, que tais barbaridades só aconteçam nesta parte do globo. Esta coluna se ocupou recentemente de distúrbios ocorridos no futebol europeu, com espanhóis e holandeses), conjuntura da qual o Brasil não escapa. Enquanto o espetáculo de selvageria e descontrole atingia níveis calamitosos em Buenos Aires, cretinos nacionais irrecuperáveis infestavam as redes antissociais com saudações ao que julgam – em uma demonstração de esforço neurológico – ser “o verdadeiro futebol”.

A distorção do exercício de torcer, a incompreensão do significado de rivalidade e a glorificação da intolerância conduziram o futebol a um buraco de excremento no qual um certo tipo de miserável se sente à vontade. Não se trata do bandido organizado que vai ao estádio para matar ou morrer, minoria que representa o extremo. Não é o excluído, o que vive à margem. É o ignorante que tem acesso, tem escolhas e opta por ser um imbecil. É o tolo que acha que formula conceitos e pontos de vista sob os quais um ataque de gás de pimenta (há quem diga que também se usou ácido) a jogadores adversários é algo que “faz parte” do futebol. É o abençoado pela inclusão digital que supõe que “chuuupaaaa! kkkkkkkkkk” é uma forma de comunicação.

Essas figuras não são produtos das nossas carências, mas agentes delas. Alimentam o lodo que permite que os políticos do esporte e as “autoridades” sigam distribuindo cinismo e negligência. Em uma afronta à capacidade de constrangimento, o secretário de segurança da Argentina, Sergio Berni, declarou que a organização do clássico no estádio do Boca Juniors “foi um êxito”. Além da violência contra os jogadores do River Plate no túnel que leva ao gramado, um drone decolou de dentro da Bombonera com uma provocação ao time visitante. Políticos vivem em outra dimensão.

Em muitos casos, atletas também. O comportamento dos jogadores do Boca Juniors durante o período de mais de uma hora que se levou para suspender o jogo foi triste. Alguns chegaram a ensaiar um processo de aquecimento, enquanto colegas de profissão lidavam com as consequências do gás de pimenta. Ainda pior: ao perceber os jogadores do River Plate ilhados no gramado, não ocorreu a nenhum xeneize acompanhá-los na saída, o que obviamente evitaria agressões. E quando não se imaginava que o nível de companheirismo pudesse baixar, o goleiro Orión liderou uma saudação à torcida do Boca, na noite em que um jogo foi interrompido por abuso do público.

Acontece de tudo no quintal da Conmebol, uma entidade estacionada no tempo, o que há de mais próximo de uma republiqueta latino-americana em que canastrões acima do peso e desprovidos de senso de ridículo agem como ditadores. Não é coincidência: a Copa Libertadores é feita à essa imagem e semelhança. Na Argentina fala-se em eliminação do Boca Juniors desta edição da Libertadores, suspensão da próxima e proibição de jogos na Bombonera em competições internacionais por dois anos. Qualquer punição aquém dessa será a vitória da vergonha e dos incapazes de pensar.

CAMISA 12 

por André Kfouri em 15.mai.2015 às 8:16h

(publicada ontem, no Lance!)

ENFERMO

1 – Paolo Guerrero levou um cartão laranja, aquele que vale expulsão se o árbitro estiver de mau humor, com um minuto de jogo. Enorme risco, indicativo de vontade demais, algo tão prejudicial quanto vontade de menos.

2 – Ataque contra defesa até os vinte minutos em Itaquera. A bola quase não visitou o campo de defesa do Corinthians, que tentou contornar o bloqueio paraguaio na frente da área com jogadas pelos lados. Duas ocasiões claras, nenhum gol.

 O domínio prosseguiu até o final do primeiro tempo, mas com menos intensidade e menos organização. Mais uma oportunidade com Guerrero, que facilitou a defesa do goleiro Aguilar. Pouco para o que a noite pedia. O Corinthians parecia querer empurrar a bola para dentro do gol paraguaio, em vez de decifrar o labirinto de pernas que o protegia.

4 – Intervalo, 0 x 0. Em quarenta e cinco minutos, há tempo de sobra para fazer ao menos dois gols. Mas é como um piscar de olhos quando se joga errado. Muita energia, pouca clareza, uma relação que Danilo poderia alterar.

5 – Fábio Santos foi expulso aos 7 minutos, justamente quando o time começava a trocar passes com mais profundidade. Talvez o cartão vermelho direto tenha sido muito rigoroso, mas, de novo, um jogador do Corinthians correu um risco desnecessário. A vaga passou a depender de um milagre.

 Metade do segundo tempo. Número de ameaças ao gol do Guaraní: 

7 – Jadson expulso, merecidamente, aos 24 minutos. Cerca de 40 mil corintianos assistem ao completo colapso de um time que se esqueceu de jogar futebol.

8 – Quarta-feira, 13: uma noite de terror em Itaquera.

9 – O gol de Fernández materializou o inimaginável: a eliminação com derrota, a terceira seguida na Libertadores, encerrando a longa invencibilidade em casa. O Corinthians é um paciente enfermo cujo diagnóstico pode até ser conhecido, mas ainda não foi divulgado. Lembra aqueles casos de pessoas famosas em que se tenta esconder do público que a doença é grave.

MERECIDO

O São Paulo deu um chute certo ao gol do Cruzeiro no jogo em Belo Horizonte. Uma declaração inequívoca de falta de intenções em uma partida em que um gol marcado muito provavelmente encerraria o confronto. O time mineiro teve iniciativa, volume ofensivo e ocasiões, de forma que não seria uma injustiça se a vaga fosse decidida no tempo normal. 

FORTE

A noite de ontem foi saborosa para palmeirenses, que viram os dois rivais se despedirem da Copa Libertadores. Mais ainda para cruzeirenses, que celebraram a própria classificação e a queda do Atlético Mineiro. Mas acima de tudo para colorados, pois o Internacional se solidificou como o time brasileiro do momento, quando atua com sua formação ideal.