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CAMISA 12

por André Kfouri em 21.nov.2014 às 8:24h

(publicada ontem, no Lance!)

CONTEÚDO

1 – A festa na nova casa tinha horário para terminar, o mesmo horário marcado para o jogo começar. O Palmeiras conheceu o dilema dos times que inauguram seus estádios em partidas competitivas, com um adendo: nada na noite de ontem era mais importante do que vencer o Sport.

2 – Para os jogadores, uma noite de trabalho diferente, em que as distrações teriam de ser bloqueadas para não comprometer o principal. Seria absolutamente natural se os nervos escapassem ao controle nos primeiros minutos, mas não foi o que se notou. O defeito foi confundir velocidade – conceito essencial – com pressa. Não existe futebol apressado.

3 – O gol inaugural por pouco não saiu, dos dois lados. Felipe Menezes cabeceou para fora a bola que faria o Allianz Parque respirar fundo. E Danilo cabeceou nas mãos de Fernando Prass a bola que tiraria o ar do estádio. Tudo em um intervalo de quatro minutos.

4 – Constante no primeiro tempo: a participação do torcedor no jogo. Quase sempre empurrando o Palmeiras à frente, vez ou outra reprovando os passes errados e a desorganização do time no último terço do campo.

5 – O zero a zero, nem se fala. Mas a dinâmica do jogo era muito mais interessante para o Sport.

6 – Por volta dos vinte minutos do segundo tempo, a estratégia do visitante – defender, enervar e surpreender – começou a fazer efeito. A inoperância do Palmeiras e a necessidade de vencer colaboraram para diminuir o nível de paciência do público, e o Sport passou a ser assíduo na área de Prass.

7 – Lei do ex: o gol de Ananias vai para os livros como o primeiro de um estádio que já temia pelo pior. É notável como certos jogos assumem um roteiro esperado, como se estivesse no inconsciente de todos os envolvidos e ninguém fosse capaz de reescrevê-lo.

8 – Nos acréscimos, contra-ataque, 2 x 0. Típico.

9 – O Palmeiras precisa ofecerer conteúdo futebolístico para um palco de primeiro mundo. Mas antes, precisa ficar em pé.

SATISFEITOS?

Do pênalti desperdiçado por Jobson ao gol do Figueirense em São Januário, poucos minutos e uma amostra do campeonato do Botafogo. Um time proibido de errar, incapaz de se recuperar, condenado a recorrer a pouco além do profissionalismo e da dignidade. Salvar o Botafogo da Série B parecia uma tarefa milagrosa, agora parece impossível. A diretoria conseguiu.

PARCERIA

A marca que batiza o estádio do Palmeiras usou o twitter para convidar o torcedor para o jogo errado, trocando o Sport pelo Atlético Mineiro. A marca que faz o uniforme do São Paulo distribuiu convites para a “despedida” de Rogério Ceni, sem a concordância do goleiro e do clube. Quando se imaginava que a gestão do futebol já tinha problemas suficientes…

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 18.nov.2014 às 7:15h

(publicada ontem, no Lance!)

ATUALIZAÇÃO: Como você deve saber, muita coisa aconteceu desde a publicação do texto abaixo no jornal e, agora, no blog. Thiago Silva conversou com Dunga e Neymar, disse que foi mal interpretado “pela imprensa” e que sua consciência está tranquila.

Não foi a primeira vez que um jogador deu uma declaração que gerou manchetes, percebeu a repercussão e deu um passo atrás apelando a problemas de interpretação. É típico de quem se arrepende e prefere tentar desdizer o que disse ao invés de se desculpar. No domingo, as palavras de Thiago foram absolutamente claras quanto à mágoa por ter perdido a faixa de capitão sem uma conversa e sobre a sensação de terem lhe tomado algo que lhe pertencia. A volta atrás não fica bem para um ex-capitão da Seleção Brasileira.

Thiago disse ontem que “teve a humildade” de procurar Dunga e Neymar para esclarecer o assunto. Teve a iniciativa, portanto, de fazer exatamente aquilo que, um dia antes, afirmou que não cabia a ele. Parece mais um gesto de controle de danos do que propriamente de humildade, o que compromete sua posição de líder interna e externamente. Como se verá abaixo, a Copa do Mundo já havia oferecido motivos para questionar sua capacidade de liderança.

É sempre saudável quando uma declaração sincera surge neste mundo pasteurizado de posturas protocolares, inofensivas. Pelo mesmo motivo, é decepcionante quando a personalidade que sobrou no início da conversa, fraqueja na hora de sustentá-la.

Ao final, uma aproximação de Dunga teria resolvido a questão antes mesmo de seu nascimento. Antecipar situações dessa natureza faz parte do trabalho diário de qualquer administrador de pessoas, um aspecto essencial da rotina de um técnico. Só conversas honestas resolvem problemas e diferenças de visão, ainda que haja quem prefira o silêncio que esconde feridas, sem curá-las.

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FERIDA

Está aberta a primeira crise da nova administração da Seleção Brasileira. Três dias antes do último amistoso do ano, por causa da braçadeira de capitão. O problema que a precipitação do comando quase criou no episódio do corte de Maicon, em setembro, instalou-se agora com Thiago Silva, por mais uma demonstração de inabilidade da comissão técnica.

Com Maicon – que descumpriu regras internas, falha grave – bastava manter a discrição e não mais convocá-lo. O recado ao grupo seria o mesmo e todos os boatos maldosos gerados à época teriam sido evitados. Os danos foram mínimos porque o lateral veterano saiu calado e, por sua idade, não está incluído nos planos para o futuro. Thiago? Thiago pode chegar a mais uma Copa em alto nível e até outro dia tinha as palavras “melhor zagueiro do mundo” acopladas a seu nome. E o principal: o ex-capitão da Seleção tornou a situação pública, durante viagem à Europa.

Novamente, a questão não é a decisão tomada, mas como. A escolha do capitão de um time de futebol é prerrogativa do técnico, com base nas dinâmicas que observa e na hierarquia que pretende estabelecer. É por isso que as opções devem ficar claras para todos, principalmente para os envolvidos. Thiago Silva foi o capitão da Seleção Brasileira por três anos, incluindo uma Copa do Mundo em casa. Dunga não tem a menor obrigação de manter a faixa em seu braço, mas não há o que justifique fazer a mudança sem conversar com o zagueiro.

Dunga usou a braçadeira em duas Copas do Mundo, sabe exatamente o que o adereço significa. Mais: por seu conhecido perfil, sabemos como ele valoriza o papel de liderança que cabe ao capitão. Por essa ótica, as “falhas” de Thiago Silva durante o Mundial certamente incomodaram mais ao atual técnico da Seleção. Enquanto muitos observadores podem ter achado inapropriado o choro de Thiago antes da estreia, ou a recusa a bater e assistir aos pênaltis contra o Chile, Dunga enxergou tais atitudes como traições aos mandamentos da irmandade dos capitães.

Do ponto de vista estritamente técnico, Thiago Silva não fez uma Copa pior do que seu companheiro de zaga, David Luiz. Mas a imagem de um líder sentado na bola, de costas para a área em que o Brasil tentava evitar a eliminação precoce aparece mais rápido na busca. Ter ficado fora do jogo contra a Alemanha por um cartão amarelo tolo também não ajuda. É perfeitamente compreensível a preferência de Dunga por Neymar, cuja compostura sugere um jogador mais maduro e experiente do que a idade indica.

A exposição pública de um assunto de grupo agrava a posição do zagueiro do PSG no ambiente da Seleção. Thiago não nasceu ontem, sabe que não recuperará seu lugar no time ou a faixa de capitão pela via da reclamação externa. Ao contrário, o risco é perder ainda mais espaço. Mas sua reação poderia ter sido prevenida por Dunga com uma conversa rápida e explicativa.

Difícil entender por que a comissão técnica permitiu um problema como esse, no apagar do ano. A não ser que, assim como Maicon, Thiago Silva esteja descartado.

TRÊS TOQUES

FUTURO

Em esportes coletivos, quase tudo é uma questão de concorrência. Se a oferta na posição é pobre, até os maiores pecados podem ser perdoados.

FALTA POUCO

Xeque-mate no Campeonato Brasileiro. Balde de gelo na concorrência, gelo no chope da torcida do Cruzeiro. Demonstração de coragem e controle após a derrota no jogo de ida da Copa do Brasil e um primeiro tempo irreconhecível na Vila Belmiro. O desinteresse do Santos deve ser considerado, mas o líder não tem nada com isso. O bicampeonato passa a ser questão de dia e local.

RESGATE

O gol que preservou as chances de classificação do Corinthians à Copa Libertadores foi produto de um passe (de pé direito, o “ruim”) de Danilo e um cabeceio de Renato Augusto. No caso do primeiro, mais uma contribuição de técnica e visão. No caso do segundo, a celebração da sequência sem lesões. A reunião resgatou o time de um péssimo empate.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 16.nov.2014 às 11:10h

(publicada ontem, no Lance!)

ATRASADOS

Um dos sintomas do atraso do futebol no Brasil estava estampado na tela da televisão na noite de quarta-feira. Os dois principais eventos do esporte no país, concorrendo pela audiência, exatamente no mesmo horário. E com um agravante que não pode ser desprezado: o controle remoto teve de escolher entre um jogo que poderia ter impacto na corrida pelo título do Campeonato Brasileiro e, simplesmente, a primeira partida da final da Copa do Brasil.

Os poderes constituídos parecem não compreender os danos causados ao que chamam de “produto”, provavelmente porque a nomenclatura, usada em tom mercadológico esnobe, se sobrepõe ao conhecimento. Os interesses imediatos estão à frente do cultivo do valor de atrações que não podem ser conflitantes. É claro que não surpreende, pois, afinal, falamos de um ambiente em que a Seleção Brasileira é um problema com o qual os clubes precisam lidar, situação comprovada pelo alívio do torcedor quando lê a convocação e não vê o nome de um jogador de seu time.

A concorrência entre Atlético Mineiro x Cruzeiro e São Paulo x Internacional se deu também no plano da repercussão de falhas da arbitragem em lances determinantes em ambos os jogos. O encontro no Horto “venceu”: Luan estava impedido no primeiro gol e houve um pênalti de Jemerson no segundo tempo. No Morumbi, o gol de Paulão para o Inter foi marcado em flagrante posição irregular. Mais do mesmo.

Resista à tentação de analisar as discrepâncias entre as jogadas, ou o peso que um gol irregular tem em um confronto de ida e volta que vale taça. Se o que se busca é a lisura do placar, qual é a diferença entre um impedimento de dez centímetros ou um metro? Há uma questão mais importante que precisa ser discutida urgentemente (e aqui o problema não é exclusivo do futebol brasileiro, claro): pede-se aos árbitros e assistentes que tomem decisões para as quais seres humanos não estão capacitados. O auxílio da tecnologia à arbitragem é a única – repetindo: única – forma de garantir que o resultado de uma partida refletirá o que aconteceu em campo. Os três lances ocorridos na quarta-feira foram imediatamente detectados pelas imagens da televisão. As marcações poderiam ter sido corrigidas de forma a proteger os jogos.

Sérgio Corrêa da Silva, presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, é um enamorado confesso do erro humano no futebol. O presidente da UEFA, Michel Platini, também é. Eles devem ter arrancado cabelos quando um clássico recente do Campeonato Inglês teve um gol validado – corretamente, é óbvio – pela tecnologia e ninguém foi para casa reclamando. Seja por sobrevivência ou interesses, o avanço provoca calafrios em almas presas ao atraso.

Árbitros de futebol, até os mais competentes e íntegros, não são super-homens. Lances de gol devem ser revisados por vídeo. Técnicos devem ter direito a desafiar marcações do trio de arbitragem. Com a aplicação dessas medidas, os dois jogos da noite de quarta-feira teriam gerado apenas conversas sobre futebol.

LIMPEZA

A FIFA divulgou um relatório sobre a investigação da escolha da Rússia e do Catar como sedes das duas próximas Copas do Mundo. De acordo com o documento, não foram encontradas provas de suborno ou pactos para votos no processo, o que enterra a possibilidade de uma nova eleição. Mas o autor da investigação, Michael Garcia, declarou que o relatório divulgado contém “numerosas representações errôneas dos fatos e conclusões”. Garcia disse que pretende recorrer ao Comitê de Ética da FIFA, o equivalente a um ambulatório em uma casa funerária. Não se deve subestimar a capacidade da FIFA de rir de quem a leva a sério.

ROMÂNTICO

O “noticiário” sobre a vida amorosa do presidente da CBF comprova que enquanto houver gente disposta a se expor de maneira constrangedora, haverá espaço para esse tipo de exposição. E vice-versa. Ambos os lados deveriam ser mais cuidadosos.

CAMISA 12

por André Kfouri em 14.nov.2014 às 6:59h

(publicada ontem, no Lance!)

INVERSÃO

1 – O gol no início, antes dos dez minutos, não surgiu de uma pressão incontrolável, como até se poderia esperar. O Atlético não foi o “galo doido” que sabe ser, mas um time que atacou com sobriedade nos primeiros movimentos. Gol de jogada aérea com atacantes posicionados, uma das marcas atleticanas.

2 – O detalhe que ajuda a explicar o gol: Mayke era o marcador de Luan na área. Enquanto a primeira bola entrou e saiu, o lateral cruzeirense acompanhou o recuo de Luan para evitar o impedimento, mas sempre à frente do atacante atleticano. Veio o cruzamento de Marcos Rocha e Mayke marcou a bola, permitindo a antecipação. Foi exatamente ao tomar a frente de seu marcador que Luan ficou em posição irregular.

3 – O Cruzeiro absorveu o golpe sem se desestabilizar, mas não foi capaz de jogar como prefere. Não foi apenas o planejamento de jogo do Atlético que prevaleceu na primeira metade, mas a personalidade de time mandante também. Como se o Cruzeiro não estivesse à vontade, ainda que não tenha sofrido tanto.

4 – Um gol do mandante no jogo de ida está muito longe de decidir um confronto de cento e oitenta minutos. Mas determina posturas que podem ser, sim, decisivas. Como o avanço do Cruzeiro na procura da igualdade e os riscos que o acompanham.

5 – O gol de Dátolo não se explica dessa forma, porque o Cruzeiro não conseguiu proteger a própria área nem com a defesa em ordem. O 2 x 0 nasceu de um lateral cobrado por Marcos Rocha com escala em Carlos. Um caso típico de quem sabe o que vai acontecer mas não sabe como se defender.

6 – Toque de mão de Jemerson dentro da área, com todos os pré-requisitos de pênalti. Somado ao gol em impedimento, o Cruzeiro pode se considerar prejudicado em dois lances importantes. Mais uma oportunidade para os críticos da tecnologia louvarem o charme do erro humano no futebol.

7 – Atlético em posição inversa à que se acostumou. Mas muito mais confortável, claro.

ESCURIDÃO

O nome do sucessor de Roberto Dinamite na presidência do Vasco da Gama diz o suficiente sobre a gestão do ídolo, agora de legado manchado. Observando as opções nos processos eleitorais de Corinthians e Palmeiras, especialmente aquelas que podemos chamar de “baixo clero”, percebe-se o drama administrativo que prossegue assolando o futebol brasileiro.

CAMINHO

Que o quarto gol da Seleção Brasileira contra a Turquia – muito mais pela construção do que pelo desfecho – seja o que a comissão técnica enxerga como mais importante em termos de desenvolvimento do time. Associação, circulação da bola, ofensividade. No restante, é evidente que vencer amistosos é satisfatório e permite trabalhar com tranquilidade.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 11.nov.2014 às 6:42h

(publicada ontem, no Lance!, obviamente antes do último impasse entre os dirigentes, que voltaram a considerar o absurdo da torcida única)

IR E VER

Faz uma década que um dos maiores jogos de futebol do mundo foi vetado para os torcedores do time visitante. Políticos, autoridades e dirigentes argentinos confessaram-se incompetentes para organizar o principal evento esportivo do país em 2004, quando Boca Juniors e River Plate se encontraram nas semifinais da Copa Libertadores da América. Em nome da segurança que são incapazes de oferecer, os responsáveis decidiram eliminar uma parte do espetáculo.

Naquele ano, nenhum torcedor do Boca Juniors pôde ver o gol de Tevez ou a defesa de Abbondanzieri nas cobranças de pênaltis no Monumental de Nuñez. E se viu, estava infiltrado entre “inimigos” e não pôde celebrar, o que obviamente corrompe a experiência de torcer. Não fosse a televisão, a comemoração que gerou a expulsão de Tevez por imitar o bater de asas de uma galinha (em alusão pejorativa à torcida do River) seria uma lenda alimentada por fotografias e pelas versões, nem sempre coincidentes, de quem estava no estádio.

Buenos Aires voltará a ver dois superclássicos nos próximos dias 20 e 27, pelas semifinais da Copa Sul-Americana, e a única afirmação que se pode fazer de antemão é que os jogos terão apenas público local. Não se pense, porém, que serão noites sonolentas para as forças de segurança. Efetivos de mais de dois mil policiais têm sido frequentes nos encontros entre Boca e River nos últimos anos, mostra do aparato que se tem de montar para garantir que tudo corra bem mesmo sem a presença de torcedores visitantes.

É animador saber que as finais da Copa do Brasil não seguirão o (mau) exemplo do futebol argentino, e, ao contrário do que temos acompanhado recentemente nos clássicos entre Cruzeiro e Atlético Mineiro, torcedores de ambos os times poderão ir ao Independência e ao Mineirão. Mesmo que a decisão tenha sido tomada em um ambiente de pouco entendimento entre os dirigentes dos clubes de Belo Horizonte, muito pior teria sido permitir que partidas históricas – provavelmente as maiores entre esses rivais, em todos os tempos – fossem realizadas com restrição de público. O futebol é um jogo entre dois times que só existem por causa das pessoas que os sustentam.

Acostumamo-nos no Brasil a clássicos disputados em estádios neutros e cargas de ingressos divididas. Uma configuração “democrática”, que já nos proporcionou ambientes espetaculares, mas que não se aplica a situações como a que discutimos aqui: jogos de ida e volta em estádios diferentes. É preciso respeitar os interesses esportivos e econômicos que fazem com que um clube queira jogar em sua casa, mesmo que isso signifique que menos pessoas terão acesso ao evento. É assim em todos os lugares onde o futebol é importante. O que não se pode aceitar é torcida única, um passo perigoso na direção do impensável: o futebol sem público.

É ótimo que atleticanos e cruzeirenses possam acompanhar seus times nos estádios rivais, um direito que torcedores do Boca Juniors e do River Plate perderam há dez anos.

ENTENDAM-SE

A fundação de uma liga de clubes é urgente não apenas para tirar o futebol brasileiro das mãos anacrônicas da CBF ou organizar o calendário com um mínimo de razoabilidade. É necessário que dirigentes de clubes façam parte de um organismo que exija de todos a mesma conduta. Só esse tipo de estrutura seria capaz de governar desavenças, desde picuinhas infantis a questões sérias como o acesso do público a decisões como a da Copa do Brasil. A partir disso, talvez um dia cartolas brasileiros percebam que estão do mesmo lado da mesa, até quando se enfrentam por um título.

PEQUENO SUSPENSE

Até os treze minutos do segundo tempo no Mineirão, a possibilidade de que o Campeonato Brasileiro tivesse um novo líder No próximo fim de semana era real. Mas não se poderia imaginar uma derrota do Cruzeiro, em casa, para o Criciúma. Olho nas próximas duas rodadas.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 09.nov.2014 às 9:10h

(publicada ontem, no Lance!)

COPA DE MINAS

Há uma diferença fundamental entre ter esperança e ter fé. A esperança aceita a existência da dúvida; a fé, não. Para quem tem fé, acreditar não é torcer. É saber. Dizem que a fé é como a eletricidade. Você não pode vê-la, mas pode ver a luz. E se pode ver a luz, não precisa entender como a lâmpada acendeu. O processo deixa de ter importância diante do resultado que confirma aquilo em que se acredita. Aquilo que se sabe que acontecerá.

O Atlético Mineiro e os atleticanos nos ensinam a crer. O “eu acredito” é mais do que uma demonstração de confiança, é uma comprovação do mistério da fé. Não há conotação religiosa aqui, pelo menos não no sentido eclesiástico, ainda que seja comum as pessoas conferirem à relação com o time de futebol que escolheram um caráter espiritual, em que forças superiores estão em ação.

Quando essas pessoas testemunham eventos como as viradas que eliminaram Corinthians e Flamengo, elas não têm escolha a não ser se sentir parte de algo que está acima de todos nós. Contra o Corinthians, o gol que convenceu o Mineirão foi o terceiro, de Guilherme. Contra o Flamengo, a taxa de conversão era tão alta que o empate, autoria de Carlos, foi a gênese do efeito dominó. Ninguém se surpreendeu quando Maicosuel virou o jogo, e o que veio depois pareceu obedecer a uma ordem pré-estabelecida.

Também há uma diferença fundamental entre times que querem ser e times que são. É mais do que a questão proposta por Shakespeare, pois não se trata de um pensamento sobre o desconhecido, mas da distância que separa os campeões dos sonhadores. Times que querem ser muitas vezes parecem ter encontrado o caminho da consagração. Times que são o constroem.

O Cruzeiro é, e será, enquanto houver tempo para um gol decisivo, até que o último apito soe e determine a troca de guarda. A hierarquia do futebol determina que times como o Cruzeiro não podem ser descartados antes de estar enterrados e relegados ao passado. Enquanto o Cruzeiro estiver em campo e lutando, uma das leis não escritas do esporte deve ser respeitada: jamais subestime o coração de um campeão.

O segundo gol cruzeirense contra o Santos, na noite de quarta-feira, é um exemplo da diferença entre os campeões e os pretendentes. Não houve perdão para a bola que espirrou na defesa santista e se apresentou a Willian. Um gol que não poderia ser desperdiçado foi executado com a frieza de um legista. Três conferidas na posição de Aranha calibraram a conclusão calculista, no exiguo alvo entre o goleiro e a trave.

O Cruzeiro talvez seja o time mais extenuado do país. A maneira como vence demanda enorme despesa de energia. Mas a personalidade competitiva é notável, como se viu na Vila Belmiro. Perdendo por 3 x 1, fora de casa, o cenário estava pronto para uma despedida honrosa da Copa do Brasil. Seria até providencial para concentrar esforços na proteção da vantagem que pode valer o segundo título seguido no Campeonato Brasileiro. Mas os campeões de verdade não negociam oportunidades.

O time que duvida do impossível e o campeão que se recusa a ir embora, a caminho da mãe de todas as finais. Não poderia ser melhor.

TEMPLO

É fabuloso o currículo do novo Mineirão, estádio que recebeu Brasil x Chile, o “1 x 7” e os dois raios que o Atlético Mineiro providenciou na Copa do Brasil. O histórico provavelmente teria mais duas noites épicas se ambos os jogos finais acontecessem lá, mas o drama e a emoção na partida de volta estão assegurados.

CANSAÇO

Não se deveria esperar que os times chegassem ao final da temporada no esplendor físico, especialmente aqueles que disputam duas competições. Mas o número de lesões musculares que temos visto na reta decisiva revela um nível de desgaste que não é normal, algo que o planejamento do calendário deveria contemplar. É estranho que os responsáveis pela programação de competições do futebol brasileiro não percebam que o desempenho das equipes é seriamente afetado. Ou, se percebem, que nada façam a respeito.

CAMISA 12

por André Kfouri em 07.nov.2014 às 10:08h

(publicada ontem, no Lance!)

CREIA

1 – A fixação do Atlético pela bola alta na área e a opção do Flamengo pelo campo de defesa. Os primeiros gestos no Mineirão evidenciaram os padrões de atuação de cada time, posturas totalmente opostas e igualmente erradas.

2 – A insistência na jogada aérea é uma aposta no erro defensivo. Expediente que pode levar à vitória em noventa minutos, mas um tanto arriscado para um time que precisa de pelo menos dois gols. O caminho não é a repetição, mas a variação.

3 – A reclusão no próprio campo é um pedido para sofrer. Faz sentido se for o primeiro estágio de uma estratégia para surpreender, mas não serve apenas como mecanismo defensivo. O Flamengo pouco cruzou a linha média, não incomodou o Atlético, não avisou Victor que estava ali.

4 – Meio primeiro tempo passou assim. Atlético por cima, Flamengo atrás. Mas o futebol tem algo de jogo de varetas: um movimento diferente pode precipitar uma nova sequência. A jogada de duas fintas na área e uma finalização na trave, de Tardelli, pode ter sido esse movimento.

5 – Pois não demorou para Everton, atrevido, superar a marcação tripla e disparar um chute cruzado que tirou o ar do Mineirão. Conforto extra para o Flamengo, sina do Atlético.

6 – Faltava ao time de Levir Culpi a organização que Guilherme assinou contra o Corinthians. A bola continuou a sobrevoar a área do Flamengo, dando trabalho e nada mais. Até que a zaga rubro-negra falhou. Carlos tocou para a rede sem ser contestado, revivendo a mania atleticana de acreditar.

7 – Quarenta e cinco minutos para mais três gols. Chão que o Atlético já pisou, filme que o Flamengo já viu. Futebol de coração e fé, aspectos tão caros ao jogo quanto técnica ou tática.

8 – Maicosuel, minuto 12, 2 x 1. Você acredita?

9 – Esse ruído que você ouviu é Luxemburgo gritando para o Flamengo jogar. Mas o time não oferece tanto.

10 – Dátolo, minuto 36, 3 x 1. Acredite.

11 – Luan, minuto 39, 4 x 1. Inacreditável Galo!

OFERTA

O apelido de “Yaya Talisca” deve ser entendido como mais uma dessas comparações exageradas. Mas o sucesso do jovem brasileiro no Benfica é real. Talisca tem 20 anos, poderia ser um prospecto para o futuro da Seleção Brasileira. Mas o nível de suas atuções no meio de campo justifica uma chamada de Dunga para o time principal, que não tem um jogador como ele.

INTERESSA?

Meias criativos com passaporte brasileiro são raridade no futebol de hoje. Não que Talisca seja, já, a solução para um problema evidente. Mas o fato de oferecer uma possibilidade, uma alternativa, poderia ser verificado. A questão é se existe a intenção de construir um time que jogue e faça o próprio caminho. As últimas convocações sugerem que não.

O LINK DA LIGA

por André Kfouri em 05.nov.2014 às 10:07h

Após uma noite com 27 gols marcados (aqui estão eles em um só link, mas jogo a jogo), dois clubes já estão classificados para a fase de mata-matas da Liga dos Campeões da UEFA: Real Madrid e Borussia Dortmund.

Os espanhois venceram o Liverpool por 1 x 0 em Madri, placar que pouca gente cogitou ao conhecer a escalação com a qual os visitantes iniciaram o jogo. O técnico Brendan Rodgers enviou um claro sinal de que tinha aberto mão da possibilidade de somar pontos no Bernabéu, deixando vários titulares no banco por causa do jogo contra o Chelsea, no fim de semana, pelo Campeonato Inglês.

O clima de goleada não se confirmou e, apesar da evidente superioridade, o Real Madrid até correu alguns riscos.

No outro jogo do grupo B, o Basel goleou o Ludogorets em casa por 4 x 0, assumiu o segundo lugar e, ao contrário do Liverpool, pode crer em uma vaga nas oitavas de final.

O Borussia Dortmund fez 4 x 1 no Galatasaray, dando prosseguimento à fase bipolar que atravessa. Muito mal no Campeonato Alemão, muito bem na Liga dos Campeões.

Também pelo grupo D, um jogo surpreendente em Londres. Arsenal e Anderlecht empataram em 3 x 3, depois que os ingleses abriram 3 x 0 .

Grupo A: o Atlético de Madrid foi à Suécia e venceu o Malmo por 2 x 0. Bonito gol de Koke, de calcanhar.

Em Turim, a Juventus se viu em posição desesperadora ao levar o segundo gol do Olympiacos, já no segundo tempo. Mas virou com dois gols em dois minutos e manteve suas chances.

Em seu centésimo jogo de UCL, Andrea Pirlo comemorou com um gol. Adivinhe como.

O Leverkusen se aproximou de uma das vagas do grupo C ao vencer o Zenit, na Rússia, por 2 x 1.

Em Lisboa, o fenômeno Talisca cresceu ainda mais após o gol do brasileiro, já no final do jogo contra o Mônaco, dando a vitória ao Benfica por 1 x 0.

Mais oito jogos acontecem hoje. Cinco times (Barcelona, Paris, Chelsea, Bayern e Porto) podem terminar a noite classificados.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 04.nov.2014 às 7:50h

(publicada ontem, no Lance!)

VENTILADOR

Uma reportagem publicada na edição de ontem do jornal New York Daily News reverbera no submundo do esporte, em diferentes modalidades e fusos-horários. O americano Chuck Blazer, ex-manda-chuva da CONCACAF e ex-membro do Comitê Executivo da FIFA, trabalha desde 2011 como informante de uma investigação do FBI, a polícia federal dos Estados Unidos. Dirigentes esportivos que estiveram com Blazer durante os Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, devem ter sentido a espinha congelar ao saber, agora, que as conversas foram registradas por um gravador disfarçado de chaveiro, que Blazer usou a mando dos agentes federais.

Chuck Blazer é um desses personagens que nos convencem que a arte imita a vida. Durante quinze anos como secretário-geral de Jack Warner, ex-presidente da CONCACAF, ele levou uma vida de extravagâncias bancada pela entidade, seja com dinheiro desviado em comissões por contratos de televisão e marketing, seja com “verbas de representação” usadas para despesas pessoais que não conheciam limites. De acordo com a reportagem do diário nova-iorquino, as faturas de um cartão de crédito usado por Blazer totalizaram 29 milhões de dólares em um período de sete anos. Parte do montante foi reembolsada pela CONCACAF. A confederação que controla o futebol na América Central e no Caribe também pagava o aluguel de 18 mil dólares mensais do apartamento em que Blazer morava, localizado na Quinta Avenida em Nova Iorque, anexo a um flat de 6 mil dólares por mês onde viviam seus gatos.

Morbidamente obeso, Blazer transitava por Manhattan guiando um desses carrinhos para pessoas desabilitadas. O Daily News conta que foi em um desses passeios que, ao entrar em um restaurante sofisticado em uma noite de novembro de 2011, ele foi abordado por agentes do FBI armados de documentos que comprovavam sonegação fiscal por mais de dez anos. Entre ir para a prisão ou colaborar com as autoridades, ele concordou em trabalhar como testemunha e delator em casos contra peixes maiores no ecossistema do futebol mundial, o que obviamente envolve a FIFA. Segundo a reportagem, Blazer entregou aos agentes uma lista com os nomes de quarenta e quatro dirigentes esportivos que o FBI deveria investigar, incluindo o cartola dos cartolas, Joseph Blatter.

O jogo da traição em nome da sobrevivência não é estranho para Chuck Blazer. Foi durante o escândalo de suborno que retirou o catarino Mohammed bin Hammam do mapa, em 2011, que a associação entre Blazer e Warner terminou. Com envelopes contendo 40 mil dólares, o ex-presidente da CONCACAF tentou comprar os votos de dirigentes caribenhos – para bin Hammam, então adversário de Blatter – na eleição para a presidência da FIFA. Um dos cartolas agraciados botou a boca no trombone. Blazer percebeu o ventilador ligado e denunciou seu chefe à FIFA, o que levou à desgraça de Warner e ao banimento de bin Hammam.

Aos 69 anos, pesando 204 quilos e em tratamento para um câncer de cólon, Chuck Blazer coleta provas para o FBI. Corruptos do futebol mundial não devem ter passado um fim de semana divertido.

PAPO

A reportagem do New York Daily News informa que Chuck Blazer convidou dirigentes de diversos países para reuniões em um hotel cinco estrelas em Londres, pago pelo FBI. Mas não revela com quem ele se encontrou durante os Jogos de 2012. Essa é uma das perguntas sobre a investigação.

GUIA

A vida de milionário glutão de Blazer é um exemplo de como é fácil enriquecer no comando de entidades esportivas, especialmente no futebol, que movimenta as cifras mais superlativas. Blazer e Warner – assim como os brasileiros João Havelange e Ricardo Teixeira – renunciaram a seus postos no Comitê Executivo da FIFA para evitar que fossem expulsos, o que nada altera em termos de reputação. Em seu perfil no site da FIFA, o americano revela idolatria por um ex-dirigente que conhecemos bem: “um símbolo majestoso de elegância em nosso esporte, Dr. João Havelange”.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 02.nov.2014 às 8:53h

(publicada ontem, no Lance!)

GASOLINA

Por alguns minutos após o gol de Willian na quarta-feira, quem estava assistindo a Cruzeiro x Santos teve a clara sensação de que o “melhor time do Brasil” tinha recuperado o sentido prático da expressão. O Santos curtia a depressão pós-gol sofrido que atinge quase todos os times, Éverton Ribeiro encontrava frestas na entrada da área de Aranha, a torcida do campeão brasileiro cantava no Mineirão.

De fato, todo o primeiro tempo do jogo de ida das semifinais da Copa do Brasil poderia ter sido usado como prova do retorno do Cruzeiro. Em postura e desempenho, foi a versão brasileira do que os melhores times do mundo costumam fazer. Defesa alta, adversário confinado em seu próprio campo, controle da posse e dos movimentos. E o que mais aproxima o time dirigido por Marcelo Oliveira do que se considera um diferencial no futebol de hoje: circulação rápida da bola, com troca de posição constante.

O Santos recebia tratamento vip do time que lidera o Campeonato Brasileiro a caminho do segundo troféu, não do time que somou apenas 50% dos pontos que disputou no segundo turno. O contraste em campo fazia crer que a equipe de azul funcionava em uma rotação superior, a melhor impressão possível para o torcedor ressabiado pela diminuição do ímpeto nos jogos recentes nas duas competições. Por algum motivo, ou vários, a impressão não voltou do vestiário.

Na obra completa do que se viu no segundo tempo, quando o Santos foi mais atuante e mais perigoso, é preciso considerar o declínio fisico do Cruzeiro (claro, é obrigatório mencionar o gol mal anulado de Ricardo Goulart, mas o ponto aqui não é o resultado do jogo). Até quem não presta atenção pôde detectar a queda na rotação, problema que Oliveira tentou remediar com substituições. Em comparação com a primeira metade, parecia que o Cruzeiro operava em meia-fase.

O aspecto físico pode ser a última esperança dos times que pretendem desafiar o líder nos últimos quilômetros da maratona. Do segundo ao quinto colocados, nenhum terá a oportunidade de tirar pontos do Cruzeiro em confronto direto. De modo que o trabalho – estamos falando de cinco pontos, no momento – teria de ser terceirizado. A tabela reserva um par de jogos em que o risco e a energia negativa enviada pelos concorrentes serão altos.

Não por acaso, são duas partidas fora de Belo Horizonte, em sequência. Nas rodadas 34 e 35, o Cruzeiro visitará o Santos e o Grêmio. Os jogos estão marcados para os dias 16 e 20 de novembro, posicionados entre as finais da Copa do Brasil (12 e 26/11). São as duas únicas ocasiões em que uma derrota do líder pode ser considerada resultado normal. Finalizado o jogo na Arena do Grêmio, se não houver emoção no topo da classificação, o Cruzeiro muito provavelmente não será mais alcançado.

Os dois Cruzeiros que vimos na noite de quarta-feira indicam que Marcelo Oliveira pode estar trabalhando como os engenheiros de equipes de Fórmula 1: calculando o consumo de combustível para cruzar a linha de chegada em primeiro lugar.

SÓCIOS

A CBF informa que se irritou com as condições dos gramados em que a Seleção Brasileira foi obrigada a jogar os últimos amistosos, nos Estados Unidos, na China e em Cingapura. Avisa que “não fará mais negócios” com a empresa que adquiriu os direitos de organização dos jogos se o problema não for solucionado. Atentos, pois, aos amistosos deste mês.

TACKLE

Que o tempo não apague o registro: a arrancada de Gabriel, criador do pênalti que gerou o segundo gol do Flamengo contra o Atlético Mineiro, é uma das grandes jogadas individuais do ano no futebol brasileiro. Força, habilidade, personalidade. Um lance para ficar na memória, até pela forma pouco usual – no futebol – como foi interrompido por Josué (o volante do Atlético deve gostar de futebol americano).