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CAMISA 12

por André Kfouri em 17.abr.2015 às 8:26h

(publicada ontem, no Lance!)

PONTUANDO

 Durante 20 minutos, foi um jogo entre iguais em Montevidéu. O Danubio não pareceu o lanterna do grupo e o São Paulo não pareceu o time que o derrotou por 4 x 0 no Morumbi. Equilíbrio inesperado e uma chance para cada lado.

 A articulação ofensiva são-paulina funcionou pela primeira vez quando Ganso deixou Souza em condições de marcar. Torgnascioli impediu um gol de Alexandre Pato pouco depois, quando a dinâmica do jogo começou a se encaixar com o que deve ser um encontro entre esses dois times.

 Quando o árbitro apitou o final do primeiro tempo, a sensação foi de leve superioridade do time brasileiro, insuficiente para classificar de injusto o 0 x 0 parcial. O que saltou aos olhos foi o nível de dificuldade que o São Paulo enfrentou diante de um conjunto muito inferior.

 Aos dois minutos da segunda parte, um gol chocante. O chute de Sosa foi violento, porém reto. Rogério Ceni pareceu surpreso pela velocidade da bola. Ficou a impressão que um goleiro do nível dele deveria ao menos tocá-la.

5 – Para o São Paulo, tão ruim quanto o gol foi sua repercussão no jogo. A vantagem deu ao time uruguaio um motivo a mais para lutar e elevar a temperatura em campo. O São Paulo teria de se transformar para mudar as coisas.

6 – O primeiro passo era jogar um pouco, como se viu no gol de Pato, produto de um excelente cruzamento de Michel Bastos. Uma jogada bem feita e o jogo estava empatado. Quantas mais o São Paulo seria capaz de construir?

7 – Mais uma, bem parecida. Bola de Michel Bastos para o cabeceio de Pato. Torgnascioli apareceu para alterar o final.

8 – Outra, no mesmo molde. De novo Bastos do lado esquerdo, mas agora para o cabeceio do argentino Centurión. Bola na rede lateral, virada são-paulina nos acréscimos.

9 – Faltou muita coisa ao São Paulo no Uruguai. O futebol e a organização para que a distância técnica em relação ao adversário aparecesse. Mas não faltaram os três pontos fundamentais para jogar pela vaga na última rodada.

ATÉ QUANDO?

Fred suspenso, e o TJD da FERJ interfere nas semifinais do campeonato estadual. O fato de – assim como Vanderlei Luxemburgo, também punido – o atacante fazer parte de um clube em conflito com a federação carioca dever ser uma lamentável coincidência. Será assim enquanto os clubes aceitarem que intermediários organizem as competições que disputam. 

FERA

As canetas de Luis Suárez em David Luiz serão lembradas para sempre, mas os dois gols do nove uruguaio na maiúscula vitória do Barcelona sobre o Paris Saint-Germain significam mais. Foram gols de um atacante selvagem, no melhor sentido. Suárez faz parte da classe de jogadores de quem se deve esperar tudo, pois não lhe falta a ambição para fazer tudo.

COLUNA DA TERÇA 

por André Kfouri em 14.abr.2015 às 9:21h

(publicada ontem, no Lance!)

BANDEIRAS

Não há um dirigente de futebol brasileiro em melhor fase do que Eduardo Bandeira de Mello. A gestão do atual presidente do Flamengo caminha para marcar época não só por transformações internas, mas também pelas posturas assumidas com princípios e firmeza, que posicionam o clube como exemplo a ser seguido.

Bandeira de Mello assumiu o Flamengo com o compromisso de reestruturá-lo financeiramente, o que só seria possível por intermédio de medidas antipopulares como o fim dos gastos irresponsáveis com o futebol e um discurso que pedia a paciência do torcedor com a capacidade limitada do time. O plano era basicamente colocar o clube dentro da lei: recolher impostos, honrar compromissos, pagar dívidas e obter as certidões negativas de débito que permitiriam que o Flamengo operasse de forma economicamente viável. O saneamento ainda não está concluído, mas já recebe elogios de dirigentes rivais.

A recente aprovação da versão rubro-negra da Lei de Responsabilidade Fiscal garantiu que a presente administração não será uma aventura de honestidade. Os futuros dirigentes do Flamengo terão de se adequar às novas regras que exigem gestão transparente e determinam punição patrimonial em caso de atos lesivos ao clube. A decisão do Conselho Deliberativo tem tudo para transformar a maneira como o Flamengo é visto por potenciais parceiros comerciais, uma distinção que outros clubes deveriam perseguir.

O posicionamento a favor da Medida Provisória do futebol, com as devidas contrapartidas para o refinanciamento das dívidas estratosféricas dos clubes, nada mais é do que uma extensão da forma como o Flamengo é gerido hoje. O mesmo se pode dizer em relação ao conflito aberto com a Federação de Futebol do Rio de Janeiro (em que Bandeira de Mello tem a companhia de Peter Siemsen, presidente do Fluminense), uma questão de conceitos irreconciliáveis sobre administração de futebol. A FERJ e seus parceiros representam o anacronismo que faz do futebol brasileiro um gigantesco Parque Jurássico. O futuro inevitável pertence aos clubes, e a seleção natural se encarregará de assegurar a sobrevivência dos que conseguem enxergá-lo.

O último acerto de Bandeira de Mello foi a correção de um erro cometido no ano passado, ainda no início do Campeonato Brasileiro. Jayme de Almeida foi demitido sem saber e descobriu pelos meios de comunicação que não era mais o técnico do Flamengo, uma descortesia da qual o presidente rubro-negro provavelmente se arrepende. Como atitudes valem mais do que palavras, o retorno de Jayme para ser auxiliar de Vanderlei Luxemburgo a partir de amanhã coloca uma camisa do Flamengo sobre o episódio.

Aplaudir dirigentes esportivos é uma tarefa arriscada. A grande maioria pensa e age como políticos, uma caracterização que dispensa explicações em nosso país. Também são numerosos os casos dos que chegam de outros ambientes com plataformas moralizadoras e logo são convertidos em mais do mesmo. Eduardo Bandeira de Mello parece ser diferente. 

DESENHO

Porque até as declarações mais simples precisam ser explicadas a quem não quer entendê-las, Fred precisou falar de novo sobre sua opinião a respeito do fim do Campeonato Carioca e o desemprego de jogadores. É uma questão de calendário, de oferecer trabalho por uma temporada inteira e não apenas por três meses. Esse é o ponto que os defensores do atraso se recusam a discutir. A programação do futebol brasileiro precisa ser reformada, o que inclui, obviamente, uma revisão dos campeonatos estaduais.

MENOS

A propósito: não surpreende que ex-jogadores alienados, hoje comentaristas, se posicionem a favor de modelos falidos. Mas felizmente eles não determinam o que é ou não é notícia, por isso deveriam se preocupar com o ridículo.

COLUNA DOMINICAL 

por André Kfouri em 12.abr.2015 às 10:59h

(publicada ontem, no Lance!)

NÃO PISE NAS FLORES

Durante uma entrevista excêntrica que levantou dúvidas sobre a seriedade de suas palavras, Carlos Miguel Aidar transmitiu uma boa notícia à torcida do São Paulo. Questionado sobre o perfil do técnico que substituirá Muricy Ramalho, o dirigente falou sobre “conhecimento científico”. A declaração sugere que o clube procura um método de trabalho, não apenas um nome para dirigir o time. Não deixa de ser uma mudança de conduta em meio ao carrossel de treinadores que gira incessantemente, acertando aqui e errando ali, conforme circunstâncias cujas explicações compra quem quer.

Se a ideia é mesmo fazer algo diferente, Alejandro Sabella representa um caminho que os outros candidatos ventilados não alcançam. A questão é saber que nível de investimento conceitual o São Paulo está disposto a fazer, especialmente em um momento em que a escolha do próximo técnico não pode ser um passo em falso ou uma experiência efêmera. O futuro será decidido nos próximos dias e é preciso ter coragem não só para escolher, mas também para sustentar a escolha. De nada adiantará contratar Sabella para cogitar sua demissão na primeira série de derrotas, ou na primeira rusga com jogadores refratários ao seu regime, ou no primeiro ano sem títulos.

Marcelo Bielsa – um mestre do ofício, para o qual o futebol brasileiro adoraria estar preparado – costuma dizer que “aquele que cruza o jardim evitando o ângulo de noventa graus chega antes, mas pisa nas flores”. A opção por alguém que pretende fazer o jardim florescer deve estar comprometida com o respeito pelo processo e pelo tempo que ele demanda. Se o objetivo for chegar antes, não é necessário olhar tão longe ou fazer um gesto pretensamente inovador. Basta manter o carrossel em movimento. Os cavalos continuarão subindo e descendo, na coreografia que hipnotiza quem não tem ideais.

Houve um tempo em que o São Paulo parecia ser o único clube brasileiro em que um treinador estrangeiro teria condições de, efetivamente, trabalhar. Não apenas no aspecto esportivo, medido pelo sucesso, mas no sentido de abrir o campo para um outro tipo de visão de futebol. A combinação de estrutura e capacidade administrativa do clube do Morumbi ofereceria as ferramentas e o tratamento adequados. Hoje, por óbvio, essa sensação é tão distante quanto Buenos Aires, motivo que explica o fato de um acerto com Sabella não ser uma garantia. Aidar precisaria ser convencido por seu pessoal de que trazer o argentino é a coisa certa. Se não for por visão, que seja por necessidade.

Alejandro Sabella é o técnico que levou o Estudiantes de la Plata ao título da Copa Libertadores em 2009, vencendo o Cruzeiro, de virada, no Mineirão. No vestiário, pediu aos jogadores “que olhassem para o céu. Eles veriam uma enorme camisa do Estudiantes, encontrariam os ex-campeões, estariam na sala de suas casas. Pedi que saltassem e se agarrassem às estrelas, que levassem a camisa. E disse que essa camisa iria a todas as partes do mundo. Era a camisa deles”.

PARA APLAUDIR

A propaganda continua sendo a alma do negócio e novas formas de aparecer surgem a cada dia. Mas por algum motivo que talvez nunca seja explicado, a marca que está na camisa do Palmeiras achou boa ideia patrocinar os árbitros do torneio do qual o Palmeiras participa, e justamente no momento decisivo. Deixando de lado o que os regulamentos dizem a respeito desse tipo de coisa, provavelmente se trata da “ação de marketing” mais inconveniente dos últimos tempos. Primeiro por envolver o Palmeiras em uma dor de cabeça que o clube não precisa ter, depois por colocar os árbitros dos jogos do Palmeiras sob maior pressão e menor tolerância, e depois por associar a marca a uma situação pouco transparente. A responsabilidade é da Federação Paulista de Futebol, claro, que deveria se preocupar com a imagem de seu campeonato.

CAMISA 12

por André Kfouri em 10.abr.2015 às 7:55h

(publicada ontem, no Lance!)

CIRURGIA

É perturbador perceber que o aspecto mais importante em todo o processo da saída de Muricy Ramalho do São Paulo foi manipulado, como se houvesse razões aceitáveis para negligenciar a saúde de uma pessoa. Pior ainda, o problema pessoal do técnico foi utilizado com interesses que em nenhum momento levaram em conta seu bem estar, em mais um episódio da vida real que dá razão a Frank Underwood: “o caminho para o poder é pavimentado por hipocrisia e vítimas, mas nunca por remorso”.

Desnecessário dizer que alguém que enfrenta um problema de saúde não consegue, por mais dedicado que seja, lidar com o trabalho da maneira devida. No caso de um líder de pessoas, responsável por seu desempenho, as dificuldades são mais numerosas e mais graves. Os que estão abaixo dele o enxergam com complacência, os que estão acima, com compaixão. Mesmo sem intenção, e mesmo que lhe tenham afeição e respeito. Imagine os que não têm. Tais olhares erodem sua posição e o enfraquecem ainda mais. 

No caso de Muricy, os resultados do São Paulo trabalharam para piorar o quadro, tanto o dele quanto o de sua avaliação. Era nítido o abatimento após jogos ruins, retrato que levava à relação imediata com a atuação do time e criava dúvidas a respeito de sua capacidade para reerguê-lo. Muricy passou a ser causa e efeito, alvo fácil no meio de uma batalha política em que não haverá vencedores, rosto que simbolizava um time deprimido e um clube dividido. Até quando ele suportaria?

O golpe final veio depois da derrota para o San Lorenzo, quando se falou em “preservar Muricy”, como se o São Paulo carregasse um técnico incapaz e, em nome de seu passado, o mantivesse no cargo por caridade. Faltou apenas os jogadores dizerem que jogariam por ele”, da forma como se lembra alguém que não está mais por perto. Um treinador conduzido ao máximo grau de fragilização.

Muricy será operado e ficará bem, felizmente. O clube que ele deixou também precisa de cirurgia.

MICRO-ONDAS

Muricy vinha dizendo a pessoas próximas que, pela primeira vez na carreira, tinha perdido a vontade de ir trabalhar. Calcule o que isso diz a respeito do ambiente no São Paulo, transformado a ponto de repelir um técnico que sempre se orgulhou de sua relação com o clube. Já seria suficientemente abominável se ele não estivesse doente.

CIDADÃO

Um clube do tamanho do Flamengo precisa ser e dar exemplo. A mudança no estatuto que submete os dirigentes do Rubro-negro a regras de responsabilidade fiscal é uma valiosa contribuição da gestão atual ao futebol brasileiro, e coloca o Flamengo do lado certo de uma luta importantíssima. Que a decisão tomada na noite de terça-feira seja seguida por outros clubes.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 07.abr.2015 às 8:09h

(publicada ontem, no Lance!)

DOIS TEMPOS

1 – Foram cerca de quinze minutos de equilíbrio em Itaquera, tempo que o Corinthians demorou para entender a marcação alta feita pelo Santos, e identificar as rotas para evitá-la. A proposta santista para os movimentos iniciais claramente falhou.

- O bloqueiteoricamente deveria começar com Ricardo Oliveira e Robinho pressionando a bola perto da área, mas os atacantes santistas – que dispensam elogios como geradores de perigo – apenas ocupavam espaços. Quando o Corinthians acertou a saída, passou a controlar o clássico.

- O maior domínio foi simbolizado por um lance em que quem brilhou mais foi o goleiro do Santos. Após o chute de Renato Augusto bater na trave esquerda, Vladimir conseguiu voltar para defender, com um tapa, o cabeceio de Guerrero no rebote. A bola bateu no travessão e se ofereceu novamente para o peruano, que concluiu para mais uma defesa de Vladimir. Renato Augusto surgiu na área para tentar o gol no rebote, mas a bola subiu demais.

4 – A arena antecipou o gol quatro vezes, a trave e Vladimir a mantiveram em silêncio. Menção honrosa para a ação de Werley, que dificultou a finalização de Guerrero após a bola voltar do travessão. Vladimir dificilmente conseguiria defender um segundo cabeceio. Werley lhe comprou tempo.

5 – Renato Augusto e Jadson criaram ocasiões para Guerrero marcar. O goleador corintiano não finalizou como deveria em ambas. Se o futebol premiasse o merecimento, o Corinthians terminaria o primeiro tempo vencendo.

6 – Como terminou, porque David Braz perdeu o tempo da bola erguida na área por Jadson e Felipe não o perdoou. O zagueiro do Corinthians tem boa impulsão e bom cabeceio. Ajudado pela marcação, desviou exatamente como queria. Necessário frisar que o detalhe que permite o gol é a falha individual, motivo pelo qual tanto se reclama de gols sofridos em jogadas de bola parada, exaustivamente treinadas por todos os times.

7 – Marcelo Fernandes decidiu mexer para a frente, trocando Elano por Geuvânio. O Santos demorou um minuto para responder. Bonita jogada da direita para esquerda, até o cruzamento de Chiquinho para Ricardo Oliveira se antecipar à marcação e empatar. Oliveira não precisa de mais do que uma oportunidade.

8 – O Corinthians caiu muito após o gol. A diminuição de intensidade pareceu ter origem física, o que é facilmente explicável. Obrigatório registrar o crescimento do Santos em jogo e iniciativa. A postura mais cautelosa do primeiro tempo não teve o impacto defensivo desejado e comprometeu o futebol solto que o time habitualmente joga. A formação da parte final foi mais compatível com as características dos principais jogadores santistas.

9 – Empate coerente com o que o jogo mostrou. O Corinthians certamente lamenta, pela diferença de desempenho e pelo número de chances não aproveitadas na primeira metade por Paolo Guerrero, em tarde errática. O Santos não necessariamente se satisfaz com um ponto, mas sim com o que produziu após o intervalo.

COLUNA DOMINICAL 

por André Kfouri em 05.abr.2015 às 12:58h

(publicada ontem, no Lance!)

TEMPESTADE PERFEITA

Enquanto o Corinthians fazia com o Danubio o que bons times devem fazer com adversários frágeis, os gols de Paolo Guerrero atuavam como um gigantesco elefante cor-de-rosa passeando pela Arena em Itaquera. À diferença de situações semelhantes, em que as pessoas fingem que um tema desagradável não existe até que se torne inevitável, todos os presentes – e mais a população que acompanhava o jogo pela televisão – tinham exata noção do que os eventos significavam.

Cada gol do atacante peruano desempenha um papel na complicada renovação de seu contrato com o Corinthians. É um estranho caso em que o que é bom para o time pode não ser tão bom para o clube, em termos de negociação, porque o valor de Guerrero sobe conforme o torcedor comemora, tanto no ponto de vista financeiro quanto no aspecto emocional. A conexão do herói de Yokohama com a torcida do Corinthians caminha para um momento definitivo, cuja sensibilidade só pode aumentar.

De sua parte, Guerrero tem conseguido se manter imune aos efeitos do debate. Ele obviamente sabe que o bom desempenho o beneficiará de uma maneira ou de outra, mas também sabe que, quanto maior for sua influência no sucesso que o Corinthians experimenta neste início de ano, mais dramático será um eventual encerramento de sua passagem pelo clube. Em campo, tem superado o que normalmente se espera de um camisa 9, exercendo funções defensivas de acordo com as necessidades que se impõem, como se deu quando o Corinthians perdeu Gil no último clássico com o São Paulo. Na quarta-feira, Guerrero foi visto na lateral-esquerda, marcando um jogador do Danubio até as proximidades da linha de fundo. No final do jogo.

Estamos assistindo a um choque entre a identificação de um jogador com uma camisa e a fria realidade dos negócios do futebol. Um conflito que se desenvolve com o jogador em ação e seu clube lidando com dificuldades financeiras tão sérias que a folha de pagamento está atrasada. Em uma época em que a responsabilidade da gestão esportiva está em discussão no âmbito nacional, o caso de Guerrero se aproxima de uma tempestade perfeita: o Corinthians não tem condições de acomodá-lo em seu orçamento, mas não pode permitir que ele vá embora.

Uma amostra da vida sem o peruano foi exposta no período de sua suspensão por três rodadas da Copa Libertadores. Com Danilo disfarçado de atacante, o Corinthians empatou com o Once Caldas em Manizales, venceu o São Paulo em Itaquera e o San Lorenzo em Buenos Aires. As atuações e os resultados não devem esconder que uma coisa é ficar sem Guerrero por três jogos, outra é ficar sem ele. Enquanto prefere não se envolver publicamente em um assunto particular de um dos atletas que comanda, Tite tem comentado com seus próximos sobre a preocupação de perder o artilheiro.

Em breve, os gols de Paolo Guerrero chegarão à mesa de negociações, onde seus representantes possuemquase a totalidade do poder de barganha. O destino de uma temporada que parece promissora certamente será afetado pelo desfecho da conversa.

DEU LIGA

O movimento iniciado no Rio de Janeiro pelos presidentes do Flamengo e do Fluminense começa a se alastrar. Coritiba, Paraná e Atlético Paranaense, unidos, também conversam sobre a criação de uma liga de clubes independente da federação local. E consideram procurar o Flamengo e o Fluminense para “fazer alguma coisa juntos”, de acordo com o presidente do Atlético, Mário Celso Petraglia. No Paraná e no Rio fala-se em “situação irreversível”, prova de que a indignação dos clubes com o falido modelo de gestão das federações é capaz de levá-los a superar as questões que, até hoje, os impediram de sentar à mesma mesa e defender interesses comuns. A ruptura que já deveria ter acontecido há muito tempo, por visão e inteligência, pode acontecer agora por sobrevivência. Vejamos como se comportam os demais clubes.

CAMISA 12

por André Kfouri em 03.abr.2015 às 10:11h

(publicada ontem, no Lance!)

SUPERIOR

1 – O primeiro gol era o maior problema a ser resolvido em uma noite de vitória obrigatória. Não existem resultados descartáveis enquanto há objetivos a perseguir. Abrir a porta contra o Danubio faria do time uruguaio um visitante dócil em Itaquera.

2 – De Renato Augusto para Emerson Sheik do lado esquerdo, e dele para Guerrero, fechando para marcar. Grande defesa de Torgnascioli. Eram oito minutos, era o primeiro gol.

3 – O cartão amarelo que Sheik tomou aos dezoito minutos foi benevolente com a falta que ele cometeu. O risco de expulsão fez lembrar Guerrero contra o Once Caldas, na fase preliminar. E naquele jogo o Corinthians vencia quando perdeu um jogador.

4 – O zero a zero persistia até Cristian González ofender Elias com um insulto racista, enquanto o jogo aguardava a cobrança de uma falta perto da área uruguaia. Jadson colocou a bola no ângulo, e Elias a levou de presente para o zagueiro que o deixou transtornado. Toma.

5 – Melhor foi o que Elias fez na jogada do segundo gol, surgindo pelo meio para receber o passe de Jadson e superar seu marcador. Cruzamento na cabeça de Guerrero, que havia pedido a bola para cabecear no canto.

 E se ainda havia algo para o Danubio fazer na Arena Corinthians, vinte segundos após a volta dos vestiários mostraram que não. Outro gol de Guerrero, e o jogo passou a ser um gerador de saldo para o líder do grupo dois da Copa Libertadores.

7 – O quarto gol, mais um do peruano, foi uma injeção de brutalidade no Danubio. Ouvir a torcida gritando olé não teve um efeito calmante nos uruguaios, que seguiram disputando a partida não como se tivessem chance de vencê-la, mas com o sangue de quem sabe que a chance inexiste.

 Era o tipo de jogo que Sheik abraça, sorrindo. Tite teve de tirá-lo de campo para protegê-lo. Os minutos finais de um encontro resolvido não valem o risco de um jogador importante se machucar.

9 – Adversário inferior, distância estabelecida. 

TÍMIDO

O São Paulo não fazia uma partida elogiável em Buenos Aires, mas também não sofria até a metade do segundo tempo epoderia se aproveitar da necessidade do San Lorenzo de buscar a vitória. lençol de Cauteruccio em Rafael Tolodecidiu um jogo em que talvez tenha faltado a ambição de dar um passo na direção da vaga em vez de apenas proteger o empate.

UM ERRO

É confortável apontar uma falha individuacomo causadora da derrota, e ignorar o que o São Paulo deixou de fazer para decidir a própria sorte na Argentina. Está nos pés de cada time minimizar o papel do acaso no resultado, se bem que o termo nem cabe aqui porque o lance do gol do San Lorenzo foi belíssimoA questão é permitir que um erro seja fatal.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 31.mar.2015 às 7:52h

(publicada ontem, no Lance!)

8 x 0

A tarde de 28 de junho de 2014 não ficou na história da Seleção Brasileira apenas por uma dramática vitória nos pênaltis sobre o Chile. E nem só por uma bola no travessão, no último minuto da prorrogação, que por pouco não encerrou a Copa do Mundo para os donos da festa. Essas são as lembranças mais sensíveis daquele jogo no Mineirão, talvez as mais marcantes, mas não as mais importantes.

A principal impressão deixada pelo empate em 1 x 1 com os chilenos foi o aviso de que a Seleção não tinha futebol para vencer a Copa em casa, comprovada dez dias depois, no mesmo estádio, de forma vexatória e inesquecível. No segundo tempo do jogo contra os chilenos, o Brasil foi controlado por um adversário tecnicamente inferior e psicologicamente incapaz de se impor. Ficou a assustadora sensação de ter escapado da eliminação, o que teria sido trágico àquela altura mas não tão desvastador quanto o que se deu diante da Alemanha.

Para o Chile, o efeito deveria ter sido o oposto. O Mundial deles acabou naquele sábado, mas a atuação contra o Brasil foi mais do que suficiente para enterrar dúvidas técnicas e bloqueios mentais. Uma seleção formada por jogadores valorizados internacionalmente tinha, enfim, se convertido em um time capaz de competir com qualquer adversário. Mas o primeiro encontro com a Seleção Brasileira desde os pênaltis em Belo Horizonte exibiu antigos traumas e ideias ultrapassadas.

Foi decepcionante ver a seleção chilena executar uma agressiva “operação Neymar” nos primeiros minutos do jogo em Londres. O rodízio de marcação logo passou a um revezamento de faltas mais grosseiras, cujo auge foi alcançado aos 22 minutos, quando Gary Medel se utilizou da panturrilha direita do astro brasileiro para se levantar. Provocação desnecessária, especialmente em um amistoso. Interpretação equivocada do que a Federação Chilena chamou de “la revancha”. O time de Jorge Sampaoli, de potencial coletivo tão interessante, preferiu ser violento como em outras épocas, sinal de que o jogo tomava um caminho desagradável.

Por volta da meia hora, a ola anunciou o desinteresse do público pelo que se fazia em campo no Emirates Stadium. Não seria justo pedir entrosamento e bom jogo ao Brasil, por causa das seis alterações em relação ao time que venceu – e bem – a França três dias antes. Mas a atitude bélica dos chilenos não contribuía. Nada mais tenso aconteceu depois do pisão de Medel em Neymar, o que não garantiu a melhora do produto transmitido em vários países. O único momento mais agudo em todo o primeiro tempo foi um drible de Jefferson em Alexis Sánchez, na pequena área brasileira.

O Chile de Sampaoli apareceu de fato no estádio do Arsenal no segundo tempo, com mais associação e mais controle. Ficou evidente o confronto de propostas e a estratégia da Seleção Brasileira de conter com faltas táticas as evoluções do adversário. O Brasil parou o jogo trinta e duas vezes, um exagero até para quem vê virtude nesse tipo de expediente. Quando Robinho virou a bola para Danilo no lado direito da defesa, aos 27 minutos, a melhor característica do time de Dunga decidiu o amistoso.

A corrida em diagonal de Roberto Firmino se inciou na linha do meio-campo. Na intermediária, ele apontou onde queria receber a bola. O passe de Danilo foi perfeito, assim como o corte no goleiro e a finalização – sem olhar – do jogador do Hoffenheim, que parece ter assegurado sua camisa amarela. O Brasil pós 7 x 1 é fatal no ataque ao espaço, com uma capacidade de transição que faz a bola atravessar o campo em um piscar de olhos. É moderno, eficiente, venceu oito jogos seguidos e certamente satisfaz aqueles que só se importam com placares finais.

COLUNA DOMINICAL 

por André Kfouri em 29.mar.2015 às 10:23h

(publicada ontem, no Lance!)

CHANCHADA

A explicação de André Valentim, procurador do TJD-RJ, para suspender Vanderlei Luxemburgo precisa ser exposta ao ridículo que merece. Não se pode tolerar que um raciocínio tão catastrófico caia em esquecimento por falta de repercussão, pois só dessa maneira o futebol tem alguma chance, um dia, de se livrar desse tipo de dano.

Vejamos o que declarou o nobre: “Luxemburgo não é dirigente, nem assessor do Flamengo. Ele é o treinador e não tem que se meter nisso. Estamos passando por uma fase complicada pela violência das torcidas e ele diz para darem porrada na federação? Fiz a denúncia e ele será julgado”. A razão de aspas tão preciosas foi a reclamação do técnico do Flamengo em relação ao limite – imposto pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro – de escalação de jogadores de categorias de base em partidas do Campeonato Carioca. “Tem que dar porrada na federação”, disse Luxemburgo.

Deixemos aspectos interpretativos para mais tarde, e nos concentremos na primeira parte do disparate. Alguns questionamentos: quem disse a Valentim que ele está em posição de determinar quais são as pessoas que podem ou não podem falar em nome de um clube? Por que raios ele se julga no direito de escolher quais temas devem ser objeto das declarações de um técnico? Em que local no tempo e no espaço vivem os participantes da comédia que se encena nos tribunais esportivos? Despreparo e prepotência formam uma combinação explosiva.

Mais grave é a distorção da mensagem para justificar a “denúncia”. Não é necessário ser perspicaz para compreender o contexto em que a expressão “dar porrada” foi utilizada. Crítica, não agressão. Qualquer pessoa inclinada a acreditar que o treinador fez um chamado público aos bárbaros organizados para demolir o prédio da FERJ se surpreenderá com o resultado de uma encefalografia. Luxemburgo talvez mereça uma observação por ter sido, digamos, gráfico em sua contestação. Mas a denúncia comprova que interpretar o idioma pode ser um desafio dramático até mesmo para quem se considera intelectualmente privilegiado.

Mais grave ainda, se é que é possível, é a constatação de que tudo se resume a um teatro de baixo nível. A frase de Luxemburgo foi usada de maneira oportunista para permitir um ataque da FERJ no conflito com o Flamengo. Que o movimento se baseie na incompreensão proposital do que o técnico disse apenas revela a ausência de vergonha. Sugerir que o treinador não pode se pronunciar a respeito do regulamento do campeonato estadual funciona como figurante nessa peça barata, que leva a degradação do futebol carioca a um novo patamar. Não que fosse diferente em outras partes, se a situação se apresentasse. Cartolas e tribunais não melhoram conforme o CEP.

O ato final da chanchada se dará quando Luxemburgo for julgado. Será o epílogo de um episódio que exemplifica a equiparação, em credibilidade, dos nossos TJDs às atrações televisivas de luta livre. Encenações que escondem interesses, em um roteiro inacreditável. A diferença é que os tribunais pretendem ser levados a sério.

EXCESSO DE PESO

O jogo contra o San Lorenzo já é suficientemente complicado para carregar um peso extra de pressão. Condicionar a sequência de Muricy Ramalho ao resultado na Argentina joga contra os objetivos do São Paulo, pois relaciona situações que deveriam estar separadas. A avaliação sobre o trabalho de um técnico deve ser feita ao término da temporada, justamente para evitar que o elenco tenha de lidar com essa questão, ou, como já vimos, precipite a troca de comando. Isso não significa insistir em erros, mas estabelecer um ambiente em que um jogo não pode encerrar um trabalho. É uma medida que mantém jogadores, comissão técnica e dirigentes concentrados em suas áreas de atuação, sem a perspectiva de desvios de rota enquanto o time disputa competições. E sem permitir que atletas tenham de salvar o emprego de seu técnico.

CAMISA 12

por André Kfouri em 27.mar.2015 às 7:54h

(publicada ontem, no Lance!)

MOMENTOS

1 – Quantos palmeirenses imaginariam que, antes do clássico completar dez minutos, seu time estaria vencendo e com um jogador a mais? O futebol não tem adversários na arte de tramar o impensável.

2 – Vencendo é modo de dizer, pois o gol de Robinho deveria valer mais. O domínio com o peito e a tentativa da intermediária já estavam programados enquanto a bola vinha na direção dele. E a trajetória do chute foi tão cruel que entrou no gol quase na vertical, como se caísse do céu.

3 – Sim, merece ser a primeira placa do novo estádio.

 Detalhes menos importantes: a bola recuada por Lucão veio quicando, Rogério chutou com a caneleira. Depois, provavelmente não acreditou que seria surpreendido por tamanha preciosidade.

5 – A arbitragem só viu o revide de Tolói à cotovelada de Dudu. O cartão vermelho para o zagueiro são-paulino – mais prejudicial do que um gol – é o “prêmio” para quem arrisca o objetivo coletivo em nome de tolices.

6 – Enquanto o São Paulo tentava compreender como o jogo lhe escapou em apenas sete minutos, o Palmeiras desperdiçava ocasiões. O segundo gol foi consequência natural do domínio completo do que aconteceu em campo. 

7 – Na volta dos vestiários, as questões não eram sobre quem ou como, mas quanto. Rafael Marques já pedia a bola na área, ignorado por Carlinhos, quando Zé Roberto a aguardava do lado esquerdo. O voleio terminou na rede do São Paulo, levando o placar ao território da goleada. E havia tempo para mais.

 O jogo foi dramaticamente condicionado pelos acontecimentos dos primeiros minutos, mas faltaram ao São Paulo argumentos para competir durante toda a noite. E neste nível, ainda mais com a rivalidade histórica, deveria ser obrigatório competir sempre. Postura condescendente.

9 – Momento de afirmação de um time que se forma, em contraste com um momento de hesitação de um time que não se encontra. O futebol sempre revela estágios, exige respeito, deixa lições. 

RESPOSTAS

O valor deste clássico não ia além da auto-estima. A palmeirense recebeu uma injeção de estímulos, pelo fim da busca por um resultado que representasse orgulho. A são-paulina sofreu um abalo que se reflete na incapacidade de demonstrar reação. Será interessante observar como ambos responderão aos efeitos do primeiro encontro na nova casa do Palmeiras.

ANEDOTA

Até para um campeonato desmoralizado, é um escárnio que um técnico seja suspenso por causa de uma declaração distorcida pelo tribunal. O contexto em que Luxemburgo usou a expressão “dar porrada” ficou evidente mesmo para quem possui neurônios preguiçosos. Com o argumento de incitação à violência, a FERJ expõe-se ao ridículo. Vejamos como será o julgamento.