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COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 31.mar.2015 às 7:52h

(publicada ontem, no Lance!)

8 x 0

A tarde de 28 de junho de 2014 não ficou na história da Seleção Brasileira apenas por uma dramática vitória nos pênaltis sobre o Chile. E nem só por uma bola no travessão, no último minuto da prorrogação, que por pouco não encerrou a Copa do Mundo para os donos da festa. Essas são as lembranças mais sensíveis daquele jogo no Mineirão, talvez as mais marcantes, mas não as mais importantes.

A principal impressão deixada pelo empate em 1 x 1 com os chilenos foi o aviso de que a Seleção não tinha futebol para vencer a Copa em casa, comprovada dez dias depois, no mesmo estádio, de forma vexatória e inesquecível. No segundo tempo do jogo contra os chilenos, o Brasil foi controlado por um adversário tecnicamente inferior e psicologicamente incapaz de se impor. Ficou a assustadora sensação de ter escapado da eliminação, o que teria sido trágico àquela altura mas não tão desvastador quanto o que se deu diante da Alemanha.

Para o Chile, o efeito deveria ter sido o oposto. O Mundial deles acabou naquele sábado, mas a atuação contra o Brasil foi mais do que suficiente para enterrar dúvidas técnicas e bloqueios mentais. Uma seleção formada por jogadores valorizados internacionalmente tinha, enfim, se convertido em um time capaz de competir com qualquer adversário. Mas o primeiro encontro com a Seleção Brasileira desde os pênaltis em Belo Horizonte exibiu antigos traumas e ideias ultrapassadas.

Foi decepcionante ver a seleção chilena executar uma agressiva “operação Neymar” nos primeiros minutos do jogo em Londres. O rodízio de marcação logo passou a um revezamento de faltas mais grosseiras, cujo auge foi alcançado aos 22 minutos, quando Gary Medel se utilizou da panturrilha direita do astro brasileiro para se levantar. Provocação desnecessária, especialmente em um amistoso. Interpretação equivocada do que a Federação Chilena chamou de “la revancha”. O time de Jorge Sampaoli, de potencial coletivo tão interessante, preferiu ser violento como em outras épocas, sinal de que o jogo tomava um caminho desagradável.

Por volta da meia hora, a ola anunciou o desinteresse do público pelo que se fazia em campo no Emirates Stadium. Não seria justo pedir entrosamento e bom jogo ao Brasil, por causa das seis alterações em relação ao time que venceu – e bem – a França três dias antes. Mas a atitude bélica dos chilenos não contribuía. Nada mais tenso aconteceu depois do pisão de Medel em Neymar, o que não garantiu a melhora do produto transmitido em vários países. O único momento mais agudo em todo o primeiro tempo foi um drible de Jefferson em Alexis Sánchez, na pequena área brasileira.

O Chile de Sampaoli apareceu de fato no estádio do Arsenal no segundo tempo, com mais associação e mais controle. Ficou evidente o confronto de propostas e a estratégia da Seleção Brasileira de conter com faltas táticas as evoluções do adversário. O Brasil parou o jogo trinta e duas vezes, um exagero até para quem vê virtude nesse tipo de expediente. Quando Robinho virou a bola para Danilo no lado direito da defesa, aos 27 minutos, a melhor característica do time de Dunga decidiu o amistoso.

A corrida em diagonal de Roberto Firmino se inciou na linha do meio-campo. Na intermediária, ele apontou onde queria receber a bola. O passe de Danilo foi perfeito, assim como o corte no goleiro e a finalização – sem olhar – do jogador do Hoffenheim, que parece ter assegurado sua camisa amarela. O Brasil pós 7 x 1 é fatal no ataque ao espaço, com uma capacidade de transição que faz a bola atravessar o campo em um piscar de olhos. É moderno, eficiente, venceu oito jogos seguidos e certamente satisfaz aqueles que só se importam com placares finais.

COLUNA DOMINICAL 

por André Kfouri em 29.mar.2015 às 10:23h

(publicada ontem, no Lance!)

CHANCHADA

A explicação de André Valentim, procurador do TJD-RJ, para suspender Vanderlei Luxemburgo precisa ser exposta ao ridículo que merece. Não se pode tolerar que um raciocínio tão catastrófico caia em esquecimento por falta de repercussão, pois só dessa maneira o futebol tem alguma chance, um dia, de se livrar desse tipo de dano.

Vejamos o que declarou o nobre: “Luxemburgo não é dirigente, nem assessor do Flamengo. Ele é o treinador e não tem que se meter nisso. Estamos passando por uma fase complicada pela violência das torcidas e ele diz para darem porrada na federação? Fiz a denúncia e ele será julgado”. A razão de aspas tão preciosas foi a reclamação do técnico do Flamengo em relação ao limite – imposto pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro – de escalação de jogadores de categorias de base em partidas do Campeonato Carioca. “Tem que dar porrada na federação”, disse Luxemburgo.

Deixemos aspectos interpretativos para mais tarde, e nos concentremos na primeira parte do disparate. Alguns questionamentos: quem disse a Valentim que ele está em posição de determinar quais são as pessoas que podem ou não podem falar em nome de um clube? Por que raios ele se julga no direito de escolher quais temas devem ser objeto das declarações de um técnico? Em que local no tempo e no espaço vivem os participantes da comédia que se encena nos tribunais esportivos? Despreparo e prepotência formam uma combinação explosiva.

Mais grave é a distorção da mensagem para justificar a “denúncia”. Não é necessário ser perspicaz para compreender o contexto em que a expressão “dar porrada” foi utilizada. Crítica, não agressão. Qualquer pessoa inclinada a acreditar que o treinador fez um chamado público aos bárbaros organizados para demolir o prédio da FERJ se surpreenderá com o resultado de uma encefalografia. Luxemburgo talvez mereça uma observação por ter sido, digamos, gráfico em sua contestação. Mas a denúncia comprova que interpretar o idioma pode ser um desafio dramático até mesmo para quem se considera intelectualmente privilegiado.

Mais grave ainda, se é que é possível, é a constatação de que tudo se resume a um teatro de baixo nível. A frase de Luxemburgo foi usada de maneira oportunista para permitir um ataque da FERJ no conflito com o Flamengo. Que o movimento se baseie na incompreensão proposital do que o técnico disse apenas revela a ausência de vergonha. Sugerir que o treinador não pode se pronunciar a respeito do regulamento do campeonato estadual funciona como figurante nessa peça barata, que leva a degradação do futebol carioca a um novo patamar. Não que fosse diferente em outras partes, se a situação se apresentasse. Cartolas e tribunais não melhoram conforme o CEP.

O ato final da chanchada se dará quando Luxemburgo for julgado. Será o epílogo de um episódio que exemplifica a equiparação, em credibilidade, dos nossos TJDs às atrações televisivas de luta livre. Encenações que escondem interesses, em um roteiro inacreditável. A diferença é que os tribunais pretendem ser levados a sério.

EXCESSO DE PESO

O jogo contra o San Lorenzo já é suficientemente complicado para carregar um peso extra de pressão. Condicionar a sequência de Muricy Ramalho ao resultado na Argentina joga contra os objetivos do São Paulo, pois relaciona situações que deveriam estar separadas. A avaliação sobre o trabalho de um técnico deve ser feita ao término da temporada, justamente para evitar que o elenco tenha de lidar com essa questão, ou, como já vimos, precipite a troca de comando. Isso não significa insistir em erros, mas estabelecer um ambiente em que um jogo não pode encerrar um trabalho. É uma medida que mantém jogadores, comissão técnica e dirigentes concentrados em suas áreas de atuação, sem a perspectiva de desvios de rota enquanto o time disputa competições. E sem permitir que atletas tenham de salvar o emprego de seu técnico.

CAMISA 12

por André Kfouri em 27.mar.2015 às 7:54h

(publicada ontem, no Lance!)

MOMENTOS

1 – Quantos palmeirenses imaginariam que, antes do clássico completar dez minutos, seu time estaria vencendo e com um jogador a mais? O futebol não tem adversários na arte de tramar o impensável.

2 – Vencendo é modo de dizer, pois o gol de Robinho deveria valer mais. O domínio com o peito e a tentativa da intermediária já estavam programados enquanto a bola vinha na direção dele. E a trajetória do chute foi tão cruel que entrou no gol quase na vertical, como se caísse do céu.

3 – Sim, merece ser a primeira placa do novo estádio.

 Detalhes menos importantes: a bola recuada por Lucão veio quicando, Rogério chutou com a caneleira. Depois, provavelmente não acreditou que seria surpreendido por tamanha preciosidade.

5 – A arbitragem só viu o revide de Tolói à cotovelada de Dudu. O cartão vermelho para o zagueiro são-paulino – mais prejudicial do que um gol – é o “prêmio” para quem arrisca o objetivo coletivo em nome de tolices.

6 – Enquanto o São Paulo tentava compreender como o jogo lhe escapou em apenas sete minutos, o Palmeiras desperdiçava ocasiões. O segundo gol foi consequência natural do domínio completo do que aconteceu em campo. 

7 – Na volta dos vestiários, as questões não eram sobre quem ou como, mas quanto. Rafael Marques já pedia a bola na área, ignorado por Carlinhos, quando Zé Roberto a aguardava do lado esquerdo. O voleio terminou na rede do São Paulo, levando o placar ao território da goleada. E havia tempo para mais.

 O jogo foi dramaticamente condicionado pelos acontecimentos dos primeiros minutos, mas faltaram ao São Paulo argumentos para competir durante toda a noite. E neste nível, ainda mais com a rivalidade histórica, deveria ser obrigatório competir sempre. Postura condescendente.

9 – Momento de afirmação de um time que se forma, em contraste com um momento de hesitação de um time que não se encontra. O futebol sempre revela estágios, exige respeito, deixa lições. 

RESPOSTAS

O valor deste clássico não ia além da auto-estima. A palmeirense recebeu uma injeção de estímulos, pelo fim da busca por um resultado que representasse orgulho. A são-paulina sofreu um abalo que se reflete na incapacidade de demonstrar reação. Será interessante observar como ambos responderão aos efeitos do primeiro encontro na nova casa do Palmeiras.

ANEDOTA

Até para um campeonato desmoralizado, é um escárnio que um técnico seja suspenso por causa de uma declaração distorcida pelo tribunal. O contexto em que Luxemburgo usou a expressão “dar porrada” ficou evidente mesmo para quem possui neurônios preguiçosos. Com o argumento de incitação à violência, a FERJ expõe-se ao ridículo. Vejamos como será o julgamento.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 24.mar.2015 às 7:54h

(publicada ontem, no Lance!)

IDA E VOLTA

A reação da cartolagem nacional à medida provisória do refinanciamento das dívidas dos clubes foi exatamente a que se esperava de quem se serve do futebol há décadas. Os presidentes de federações, entidades das quais o esporte não precisa, colaram-se em suas poltronas e bradaram que delas ninguém jamais os afastará. Apelaram até à Constituição Federal, exibindo dramático desconhecimento do assunto.

Por mais repugnante que soe a grita em relação ao que a MP determina sobre alternância de poder (mandatos de até quatro anos, com apenas uma reeleição), não se pode acusar esses dirigentes de incoerência. Ao estender a mão para que clubes eternamente endividados possam se reerguer e devolver à União o que tomaram, o texto apresenta as “condições de pagamento”. Uma delas diz que aqueles que aderirem ao financiamento só poderão disputar competições organizadas por entidades com limites de mandatos. Aí está a origem da dor na lombar de tantos abnegados.

Os clubes do futebol brasileiro devem cerca de 4 bilhões de reais. A MP assinada na última quinta-feira lhes oferece uma sanfona de vinte anos, com abatimentos em juros e multas. As parcelas serão pagas com percentuais do faturamento anual nos primeiros três anos. Depois, pagamentos iguais quase a perder de vista. É um plano de recuperação financeira que se pode chamar de caridoso, única forma de saldar um valor astronômico. Mas a mesma mão que afaga os endividados levanta o dedo para que não ignorem as contrapartidas. Cartolas predadores adoraram as facilidades e odiaram as regras para ter acesso a elas. Típico.

No caso dos dirigentes de federações, os interesses ficaram evidentes quando o alvo das críticas foi o limite de reeleições. Eles até aceitam as medidas saudáveis para os clubes e o rascunho de um ambiente profissional que tenha alguma chance de salvar o futebol brasileiro como produto, desde que possam ficar em seus gabinetes pelo tempo que quiserem. Desde que seus planos de perpetuação não sejam afetados por uma nova maneira de administração, mudança crucial para o avanço do esporte no país.

A nova estrutura proposta pela medida provisória é o primeiro passo na reforma do modelo de gestão CBF-federações-clubes, em que a confederação é um banco, as federações são cartórios e os clubes são perdulários que vivem de fraudar o seguro-desemprego. Aqueles que reclamam ou não compreenderam o impacto do texto ou trabalham pela manutenção deste modelo, que, apesar de trágico, atende aos interesses de muitos.

A inclusão das contrapartidas foi uma vitória importante, uma vez que os textos anteriores pareciam ter sido escritos pelas cartolas das quais o futebol brasileiro precisa ser protegido. Mas o jogo decisivo – e por isso muito mais difícil – será disputado no Congresso Nacional, onde políticos a serviço da estrutura que gerou uma dívida praticamente impagável não terão vergonha de defender o atraso. 

BARCELONA X REAL MADRID

O maior clássico do mundo teve um público de quase cem mil pessoas no Camp Nou, número assustador para o futebol de hoje. Apesar de sofrer o primeiro gol, o Real Madrid controlou as ações e foi mais perigoso por cerca de uma hora. A atuação fabulosa de Piqué manteve o Barcelona no jogo após o gol de empate, criado por um toque magistral de Benzema para Cristiano Ronaldo. Tudo mudou quando Luis Suárez recolocou os catalães o comando, com um controle inacreditável ao receber lançamento de Daniel Alves. Com espaço, o trio de atacantes do Barcelona criou e perdeu tantas ocasiões que pareceu não levar o jogo a sério. Notáveis, ao final, a postura agressiva do Real Madrid enquanto esteve melhor, e o alto índice de passes errados do Barcelona quando o jogo se abriu para ser decidido. Um comportamento pouco característico até para o time atual, menos associado.

COLUNA DOMINICAL 

por André Kfouri em 22.mar.2015 às 9:12h

(publicada ontem, no Lance!)

ABUSO DE PODER

As imagens dos dribles de Lionel Messi viajaram o mundo virtual nos últimos dias, desde que o melhor jogador do planeta (por favor, não percamos tempo discutindo esse tema, ok?) fez a bola passar pelo vão das pernas de três adversários do Manchester City, na quarta-feira passada. Uma das vítimas foi Fernandinho, dispensado durante uma dessas arrancadas da esquerda para o meio que Messi registrou no cartório do futebol. Outra foi Milner, convidado a se retirar do gramado em um lance no campo de defesa do Barcelona. A terceira foi Demichelis, na origem de um contragolpe.

Eles não foram os únicos. Os mais atentos lembrarão que Messi deu o mesmo tratamento a David Silva quando os times se encontraram em Manchester, no final de fevereiro. O jogo estava no início, o Barcelona já vencia por 1 x 0, o City ainda marcava alto. Após uma bola recuperada na frente da própria área, Messi tratou de organizar o setor. Silva tentou pressioná-lo e foi fintado como quem ouve: “saia”. Repetindo: estamos falando de David Silva, um jogador capaz de passar a bola pelo buraco de uma agulha. O problema é que Messi aplica canetas em sereias.

Caneta, rolinho, ovinho… caño ou túnel em Espanhol, nutmeg em Inglês. Termos que identificam o assédio moral em um jogo de futebol. Entre as várias formas de evitar um marcador e conservar a bola, essa é a única que envia uma mensagem adicional aos adversários, ao público, aos companheiros e, claro, principalmente ao pobre coitado que acabou de ser lembrado da hierarquia presente: você não merece estar no mesmo gramado que eu. A simples anotação mental de que é necessário fechar as pernas já é suficiente para tirar um jogador da partida por alguns minutos.

O exemplo serve para aterrorizar os que testemunharam a cena e se imaginaram sofrendo o mesmo abuso. Na jogada do gol do Barcelona no Camp Nou, o horror de ser humilhado ficou evidente na maneira como Kolarov apenas observou Messi durante todo o movimento. Desde o domínio, quando o defensor sérvio se colocou mais à direita, para forçar Messi na direção da linha lateral. Messi fez a bola passar por baixo da própria pernaKolarov teve de se ajustar e imediatamente decidiu que era prudente não se aproximar tanto. O que permitiu que o gênio levasse a bola ao ataque, parasse, ajeitasse para o pé esquerdo e criasse o gol para Rakitic foi uma perturbação que todos conhecemos: o medo.

Para quem acredita que esse tipo de coisa não existe no nível mais alto do futebol, a presença de Pep Guardiola ao estádio funciona como esclarecimento. O técnico que elevou Messi à sua melhor versão não deveria se impressionar com um drible no campo de defesa. Mas a reação de Guardiola à caneta em Milner não deixa dúvidas: olhos arregalados pelo espanto e mãos cobrindo o rosto, como quem não crê no que viu. O atual técnico do Bayern sabe que um drible como esse é uma declaração.

Não falta a Lionel Messi a capacidade para distribuir rolinhos em todos os jogos, sejam quais forem os adversários. O fato de não fazê-lo sempre revela que sua mente genial entende que é uma maldade reservada para certas ocasiões e oponentes. E a ausência de firulas indica a intenção não de provocar risos, mas estabelecer castas que alguns insistem em questionar. O que é um equívoco quase tão grande quanto deixar as pernas afastadas diante dele.

CAMISA 12

por André Kfouri em 20.mar.2015 às 7:56h

(publicada ontem, no Lance!)

PERSISTENTE

1 – Tudo seria diferente se o primeiro minuto do jogo terminasse com o placar já alterado pelo São Paulo. Se o cabeceio de Michel Bastos encontrasse a linha do gol um palmo para a direita. No caminho da bola, a trave fez mais do que evitar o 1 x 0.

2 – Não há como dizer se a vantagem seria definitiva, mas é certo que o jogo não seria mais o mesmo. O lamento por um quase-gol tão cedo é que ele obrigaria o San Lorenzo a acionar seu plano B. O time argentino teria de dar um passo à frente.

3 – A jogada terminou sendo prejudicial ao São Paulo por causa de um acidente com Alexandre Pato. Enquanto observava o desfecho do lance, o atacante torceu o tornozelo direito sozinho. Substituído aos dezessete minutos, por Centurión.

4 – O ímpeto inicial expirou naturalmente. O São Paulo conservava a bola com altos índices, mas não castigava o adversário por falta de soluções nas proximidades da área. Quando os argentinos se acomodaram no Morumbi, o gol de Rogério correu mais riscos.

5 – Ganso e o dilema do passe. Supõe-se que ele tem a chave para abrir defesas herméticas como a do San Lorenzo, mas a cada bola que não passa, o perigo do contragolpe aumenta. Ao mesmo tempo, um time não pode depender de um momento de brilho de um de seus jogadores.

6 – As linhas achatadas do atual campeão da América aguardavam o São Paulo, para cortar os circuitos e se servir do espaço. Armadilha antiga, tantas vezes bem sucedida. Outro cabeceio na trave (Luis Fabiano) e um gol de Centurión mal anulado por impedimento prolongam o 0 x 0.

7 – Barrientos falha em um momento inevitável: um contra-ataque bem construído. Dentro da área, o chute termina nas mãos de Rogério. Um lance para ser lembrado no avião.

8  Aos 44, mais uma prova de que este jogo devolve o que tira. Michel Bastos, o mesmo jogador do cabeceio na trave no primeiro minuto, começou e concluiu a jogada do gol da vitória. De cabeça, claro. 

VOLTANDO

O Atlético Mineiro volta da Colômbia com três pontos sem os quais não teria muito mais o que fazer nesta Copa Libertadores. Ao derrotar o Independiente Santa Fé, que venceu nas duas primeiras rodadas, o time de Levir Culpi retorna à disputa por uma vaga na próxima fase. O resultado deve colaborar para que o Atlético recupere o nível do ano passado.

CRUEL

A classificação do Barcelona para as quartas-de-final da Liga dos Campeões veio com mais uma atuação magistral de Lionel Messi. Além do lançamento que criou o gol de Rakitic, Messi ofereceu um seminário de dribles que atordoaram os jogadores do Manchester City. Quando alguém como ele se propõe a esse tipo de lance, o futebol tem momentos de assédio moral.

PRESENÇA

por André Kfouri em 18.mar.2015 às 10:23h

Um rápido comentário sobre a vitória do Corinthians (2 x 1 no Danubio: Guerrero, Felipe e Barreto) no Uruguai. 

Foi precisamente no momento mais complicado do jogo que o time de Tite elevou seu nível e se impôs na casa de um adversário, sim, bastante inferior. 

O Danubio era mais perigoso no início do segundo tempo, com a típica agressividade de mandante que dura alguns minutos. O pênalti em Elias deu ao Corinthians a chance de ficar em vantagem quando era mais pressionado. Renato Augusto bateu porque o primeiro cobrador, Fábio Santos, não estava em campo. 

Nesta situação, a decisão sobre o batedor normalmente é de Tite. Dois ou três jogadores estão preparados para a tarefa, à espera de uma ordem do técnico. Apesar das condições abaixo das ideais de Renato Augusto, a opção por ele foi correta pois a lesão no tendão não compromete a estabilidade ou o movimento do chute. Renato, simplesmente, errou. 

Paolo Guerrero poderia ter batido e aberto o placar, como se deu sete minutos após o pênalti, em jogada com Fágner pelo lado direito. 

O que Fábio Santos não pôde fazer por estar em recuperação de cirurgia, Guerrero fez no jogo em que voltou de suspensão. Mas o mais importante foi a postura do Corinthians logo depois que a bola chutada por Renato Augusto passou por cima do travessão: em vez de entrar em modo de proteção de um empate que não seria de todo ruim, intensificou a procura da vitória que manteve a campanha perfeita na fase de grupos da Copa Libertadores. 

Não se pode perder de vista, porém, que o Danubio é  um time frágil e o Corinthians que venceu o São Paulo na abertura do torneio ainda não voltou a se apresentar. 

O MONEYBALL NO FUTEBOL HOLANDÊS

por André Kfouri em 17.mar.2015 às 21:08h

O AZ Alkmaar anunciou nesta terça-feira a contratação de Billy Beane como “consultor de alta performance e inovação”. Beane é o gerente geral do Oakland Athletics, clube da Major League Baseball, que inspirou o livro “Moneyball” e o filme estrelado por Brad Pitt.

O interesse de Beane pelo futebol é antigo e conhecido por quem está familiarizado com sua história. Ele se apaixonou pela Premier League inglesa em 2003 (curiosamente o ano em que “Moneyball” foi lançado), quando levou sua mulher para passar o aniversário dela em Londres.

Desde então, acompanha o futebol inglês com a atenção de um fã, gravando jogos quando não pode assisti-los ao vivo. Não por acaso, admira a maneira como o Arsenal é administrado e dirigido por Arsène Wenger, com quem mantém contato ocasionalmente. 

Em conversa com o jornal “The Guardian”, no ano passado, Beane disse que adoraria trabalhar como executivo para um clube da Premier League após o final de seu contrato com o Oakland A’s, em 2019. Apesar da presença de empresários americanos como donos de clubes ingleses, que por motivos óbvios gostariam de aplicar as formas de detectar valor com as quais Beane revolucionou o beisebol nos Estados Unidos, a notícia de hoje mostra que é o futebol holandês quem verá o início dessa transição.

E não é nenhuma supresa que o AZ Alkmaar seja o clube em que esse processo começará. O quadro de profissionais que comanda o AZ é formado por ex-atletas de diferentes modalidades, em um ambiente que estimula o pensamento criativo como forma de diminuir as distâncias de orçamento. O clube investe em análise de dados e estatísticas de desempenho, de maneira semelhante à retratada em “Moneyball”. 

Esse tipo de gestão começou com Toon Gerbrands, que atuou como executivo no clube de Alkmaar de 2002 a 2014, quando foi contratado pelo PSV Eindhoven. Gerbrands foi jogador e técnico de vôlei. Foi ele o treinador que conduziu a seleção holandesa ao título europeu em 1997. 

O atual diretor geral do AZ é Robert Eenhoorn, que construiu sua carreira como jogador de beisebol. Entre 1994 e 1997, Eenhoorn jogou no New York Yankees e no Anaheim Angels. Sua passagem pelos Yankees deixou uma informação histórica: ele foi o último jogador a ser escalado como shortstop antes da estreia de Derek Jeter. Jeter, como se sabe, ocupou a posição de 1995 até se aposentar ao final da última temporada. Eenhoorn retornou a seu país para ser jogador e técnico da seleção holandesa de beisebol, classificando o time para os Jogos Olímpicos de 2004 e 2008. Ele começou a trabalhar no AZ no ano passado.

O americano Earnie Stewart, atual diretor técnico do AZ, foi jogador profissional de futebol na Holanda (onde nasceu, filho de um oficial da força aérea dos EUA e sua mulher holandesa) e depois na MLS. Stewart disputou a Copa do Mundo de 1994 pela seleção americana, marcando o gol da vitória sobre a Colômbia, na fase de grupos.

Teun de Nooijer, ídolo da seleção holandesa de hóquei na grama, trabalha no AZ Alkmaar como manager. Considerado o Pelé de seu esporte, ele tem quatro medalhas olímpicas no currículo: ouro em 1996 e 2000, prata em 2004 e 2012. O AZ o contratou após sua aposentadoria no hóquei, em 2014, para colaborar com o desenvolvimento de jovens jogadores.

Billy Beane prestará sua consultoria sem sair de casa, nos EUA, mas fará visitas frequentes a Alkmaar. O clima de trabalho no AZ promete alimentar ainda mais sua paixão pelo futebol.

(O blog agradece ao jornalista Joost de Jong por algumas informações contidas neste post)

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 17.mar.2015 às 10:06h

(publicada ontem, no Lance!)

BOM FUTEBOL

A coluna agradece ao jornalista Alexandre Lozetti, cujo excelente trabalho frequentou por tanto tempo as páginas deste diário, pela sugestão do tema. No sábado à tarde, tão logo o Arsenal marcou o primeiro gol contra o West Ham, Lozetti foi ao twitter para observar: “Gol do Arsenal sai após troca de passes que os times brasileiros, em geral, só conseguem fazer até a intermediária. Perto da área, nunca”, escreveu.

O gol foi uma maravilha. Triangulação de seis passes entre Ozil, Ramsey e Giroud, que terminou com o chute forte do francês rumo à rede lateral. A combinação não apenas chegou perto da área como a invadiu em toques de primeira que a defesa do West Ham não pôde acompanhar, da mesma forma que se viu nos outros dois gols da vitória do time dirigido por Arsène Wenger, por 3 x 0. Os lances estão disponíveis online, se você ainda não os viu.

Uma busca rápida por jogadas semelhantes construídas por times brasileiros nos tempos recentes não produz resultados numerosos. O segundo gol do Corinthians no jogo contra o Criciúma, na última rodada do Campeonato Brasileiro do ano passado, é um exemplo: cinco passes entre Fábio Santos, Guerrero, Danilo e Renato Augusto, antes da finalização cruzada, quase sobre a linha da pequena área, do jogador que iniciou a trama. Certamente houve outros, que marcam justamente por fugir à regra que se estabeleceu no futebol brasileiro. Os gols bonitos por aqui quase sempre são fruto de qualidade individual, não de trabalho coletivo.

Por outro lado, temos uma vasta coleção de gols gerados por jogadas ensaiadas de bola parada, ou pelo aproveitamento da “segunda bola como parte da estratégia ofensiva. É evidente a insistência em formas menos trabalhosas de chegar ao objetivo, como se jogar este jogo fosse uma questão de custo e benefício. Proliferam as posturas conservadoras que se concentram em minimizar a possibilidade de sofrer um gol para, posteriormente, acreditar na probabilidade de marcá-lo. É a aplicação de uma tese que se contenta com pouco e deixa um aspecto essencial do jogo nas mãos do acaso, pois se baseia na capacidade de desequilíbrio de um ou outro jogador privilegiado.

Há uma outra tese que serve como muleta para os desleixo com o futebol coletivo: a de que a carência de material humano impede que se tente, ao menos, formar times que se associem na fase ofensiva. É simplesmente mentira. Cada treinador tira de seu time aquilo que trabalha, não apenas “o que pode”. O Rayo Vallecano, equipe espanhola formada por jogadores que precisam de crachá, é um modelo de futebol bem jogado graças à obstinação de seu técnico, Paco Jémez, por conceitos que a maioria opta por ignorar. Querer jogar bem é uma questão de escolha.

O curioso é que até em lugares de orçamento generoso e nomes estrelados, há quem eleja a pobreza como alicerce do jogo. São os chamados “planejamentos inteligentes”. A queda do Chelsea na Liga dos Campeões é uma ilustração perfeita. Em casa, vencendo e com um homem a mais, vítima de dois gols de escanteio. Em algum lugar, o futebol ri de quem o desdenha.

SEM SENTIDO

Fim de semana sem clássicos em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Times grandes envolvidos em jogos que importam pouco, pois a roda dos campeonatos estaduais precisa continuar girando. As fórmulas mirabolantes, o tamanho exagerado e a simulação de interesse passam longe de qualquer discussão. Prefere-se debater o sistema de disputa do Campeonato Brasileiro.

FIQUE EM CASA

Um comentário sobre o Fla-Flu das manifestações políticas, infelizmente em clima de confronto de torcidas organizadas: o sujeito que vai às ruas defender o golpe militar é um recordista em iluminação. Não percebe que corre o risco de ser detido por apologia ao crime em um país democrático. Não se dá conta do tamanho da incoerência, da insensatez, da miséria ideológica. Isso não é exposição de insatisfação, é redefinição de imbecilidade.

COLUNA DOMINICAL 

por André Kfouri em 15.mar.2015 às 11:02h

(publicada ontem, no Lance!)

APARÊNCIAS

O São Paulo divulgou uma nota à imprensa na manhã de ontem, cuja tradução desmente suas poucas linhas. E não, não estamos falando da expressão em Latim (“interna corporis”) que conclui a mensagem, recurso desnecessário em um comunicado que pretende esclarecer e, ao final, faz exatamente o oposto.

Deixemos de lado o refinamento do texto e tratemos de seu objetivo, pois é aí que as coisas se complicam e as posturas de um comando desencontrado se chocam com a realidade da qual é impossível escapar. Vir a público, por escrito, para garantir que o emprego de Muricy Ramalho está seguro até seria compreensível – e útil – se o próprio técnico não tivesse manifestado sua preocupação. Mas já seria mau sinal. A partir do momento em que uma entrevista coletiva abre a janela para um ambiente conturbado, as palavras oficiais perdem o valor.

Porque a nota nada mais consegue do que admitir os problemas internos, confirmar as análises feitas por jornalistas que têm informações e, com o carimbo presidencial, dividir com o torcedor (não o torcedor de dirigente, pois este não tem capacidade neurológica para compreender) o fato de que a posição de Muricy é frágil. E não só porque o time não tem o desempenho que deveria. Se no passado recente o CT estava protegido do que acontecia nos corredores do Morumbi para que não fosse atingido pelos estilhaços de uma guerra política, hoje os morteiros do estádio estão direcionados ao local de trabalho do time.A mudança de conjuntura faz pouca diferença dentro do departamento de futebol, pois, ali, fala-se a mesma língua (obviamente não é Latim).

A possibilidade de demissão de Muricy Ramalho não é uma questão de “informações, entrevistas, notícias e interpretações distorcidas e contraditórias”, como diz a nota emitida pelo São Paulo. É um movimento considerado e discutido pelo presidente Carlos Miguel Aidar, em diferentes ocasiões e com diferentes interlocutores, desde o início do segundo semestre do ano passado, quando as dificuldades financeiras do clube levaram Aidar a qualificar o treinador como “muito caro”. Os motivos dançam conforme a música, mas a ideia permanece, apesar das visitas ao CT e das frases em papel timbrado. Das formas de lidar com boatos, a mais segura de todas é não criá-los. Depois, não alimentá-los. O presidente do São Paulo cometeu ambos os equívocos, e agora aciona o controle de danos enviando um recado público a seu próprio técnico.

trecho mais sincero do comunicado divulgado ontem é o final: “Que cessem, pois e definitivamente, especulações de desentendimentos, dúvidas, controvérsias e mesmo de eventuais divergências”. O curioso é que se trata de um pedido vindo da origem do problema, e de quem tem à mão todas as ferramentas para silenciá-lo. No círculo que mais importa, a mensagem do presidente foi lida com um meio sorriso e um balançar de cabeça, o que é pior do que reprovação. É quase deboche. Se você tem a necessidade de dizer a todos que nunca traiu sua mulher, é porque já traiu. Se não traiu, não precisa divulgar a própria fidelidade.

CALORIAS

A boa forma de Cássio, evidente neste início de temporada, tem um componente extracampo. Desde o período de férias, Tite conversa com seu goleiro sobre a importância da alimentação correta. O sofrimento pela privação – Cássio é o que se chama de “bom garfo” – é recompensado pela maior mobilidade, especialmente nos movimentos laterais. O goleiro já percebeu a diferença, algo fundamental para entender a insistência de Tite como mais do que formalidade.

PRESIDENTE

Para ler com bom humor: a exemplo do que já se fez em algum momento por todos os times de futebol, parece claro que o Santos optou pela autogestão do vestiário. A realidade financeira contribuiu para apontar a solução momentânea, em que a diretoria permitiu que o grupo de jogadores extrapolasse seu campo de atuação. Neste cenário, Robinho tem justificado os valores que recebe, sejam quais forem.