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CAMISA 12

por André Kfouri em 19.dez.2014 às 8:15h

(publicada ontem, no Lance!)

OSSO

Coube a um jogador argentino marcar o gol que possivelmente uniria o Auckland City aos fenômenos Mazembe e Raja Casablanca. Emiliano Tade, nascido em Santiago del Estero, se viu diante do momento de sua vida no segundo tempo do jogo de ontem contra o San Lorenzo.

A semifinal do Mundial de Clubes da FIFA estava empatada em 1 x 1. Entre o constrangimento e a emergência, os campeões da Copa Libertadores pressionavam com a negligência que caracteriza os times desesperados: correndo riscos em nome de um gol salvador. Os neozelandeses estavam configurados para o contra-ataque e tinham campo para jogar. Aos 31 minutos, uma chance do tamanho da Oceania.

Contragolpe pelo lado direito, três contra um. O passe para o centro foi preciso na direção e na força. Tade acompanhava a jogada, ajeitou para finalizar na saída do goleiro Torrico, e “chutou” com o osso externo do tornozelo esquerdo. A bola voou para longe do gol argentino, carregando consigo a importância de uma virada àquela altura e a estranha sensação que amaldiçoa os que falham quando a sorte lhes sorri.

Dito e feito, claro. O San Lorenzo teve ocasiões ainda no tempo normal, avisos do destino aos semiprofissionais campeões da Oceania. O time do Papa chegou ao segundo gol no primeiro ataque da prorrogação, oferecendo a Francisco um saboroso presente de aniversário de 78 anos. A bola na trave de Torrico, que empataria novamente o jogo, apenas aumentou o tamanho do gol que Tade não fez. Material suficiente para uma vida de sonhos ruins.

O San Lorenzo caminhou de mãos dadas com a decepção que o Internacional e o Atlético Mineiro – únicos sul-americanos eliminados nas semifinais do Mundial de Clubes – experimentaram. Foi salvo por um tornozelo. O futebol e seu incompreensível senso de humor. No rugby, com tradição e favoritismo invertidos, seria um tremendo passeio.

DECISÃO

Chegou o momento. A bancada da bola da Câmara dos Deputados aprovou emenda que beneficia os clubes que devem à União, sem qualquer contrapartida. A Medida Provisória que salva os dirigentes de futebol irresponsáveis chegará à mesa da presidente Dilma Roussef, que terá a oportunidade de honrar o compromisso que estabeleceu com os jogadores. Ou de trai-los.

AH, AS MEDALHAS…

A Confederação Brasileira de Vôlei está envolvida por um escândalo de desvios de verbas, comprovados por um relatório da Controladoria Geral da União. O Banco do Brasil, em medida que merece aplausos, fechou a torneira que enriquece espertos. Atletas estão revoltados, e com toda a razão. Mas Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB, só está preocupado com as medalhas.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 16.dez.2014 às 9:30h

(publicada ontem, no Lance!)

UM TIME?

A contratação de Oswaldo de Oliveira é uma boa notícia ao final de um ano sofrido para o torcedor do Palmeiras. Dois mil e quatorze, o centenário do clube, teve apenas um momento que será lembrado com felicidade: a reinauguração do estádio. A noite que reuniu gerações em torno do orgulho de torcer para o Palmeiras terminou com uma derrota que as amedrontou. O que diz o suficiente a respeito da temporada do time.

Dois mil e quinze começará com a esperança de ser diferente, e a chegada do novo técnico é, por si só, uma garantia de que será. Pode não ser um sonho, porque há muitas circunstâncias envolvidas, mas não será igual. A visão de futebol de Oswaldo e as características que regem sua maneira de trabalhar estão do outro lado do espectro em relação aos treinadores que passaram pelo Palmeiras recentemente. Os times de Oswaldo jogam, e não há nenhum motivo para crer que o Palmeiras sob suas ordens assumirá o caráter receoso que marcou o ano que quase terminou na Série B.

Oswaldo de Oliveira faz parte da família dos “técnicos do sim”. São treinadores que enxergam o futebol como uma conversação para a qual cada um deve contribuir com argumentos sólidos e bem apresentados. Há técnicos que só sabem fazer cara feia e gritar. Polemistas, estão interessados em “vencer” a discussão a qualquer custo, pois imaginam que vitórias os tornam espertos. Oswaldo prefere debater expondo os pilares de sua posição, pois não há virtude maior do que construir algo baseado em convicções.

Essas diferenças aparecem quando encontramos times que só sabem competir explorando as imperfeições do rival. Comportam-se como animais oportunistas que, incapazes de caçar, especializam-se em roubar a presa abatida pelo mais forte e mais corajoso. Para cada time de futebol que não consegue sair jogando com a bola dominada desde trás, há um técnico que finge esquecer que seu trabalho é, também, ensinar. Desenvolver movimentos para ir da defesa ao ataque sem se desfazer da bola é um dos princípios básicos do futebol, mas existem aqueles que os abandonam para não correr riscos. A isso se dá um nome: medo.

Os times de Oswaldo não praticam futebol medroso, independentemente do orçamento. Mas é claro que a matéria-prima é determinante para o produto final. A obrigação de quem está acima do técnico é dar a ele a possibilidade de construir um time, o que depende de recursos e conhecimento. Se as informações que saem de dentro do Palmeiras são verídicas, não existe apenas a intenção de investir em jogadores, mas o dinheiro para fazê-lo também está disponível.

Em 2014, a impressão de que Valdivia é um jogador decisivo foi exagerada pela solidão do chileno. Seus companheiros lhe entregavam a bola com um pedido de socorro. Bom para ele, ruim para todos. Valdivia será realmente um fator de desequilíbrio quando, e se, estiver em campo com regularidade, e for parte de movimentos ofensivos que não terminem nele. Oswaldo de Oliveira já deve estar pensando em como.

MURO

David de Gea foi o melhor jogador em campo no clássico de ontem entre Manchester United e Liverpool. O goleiro espanhol deu uma clínica de como defender lances à queima-roupa, fazendo o suficiente sem tentar fazer muito. De Gea diminui a distância para o atacante, usa os braços e pernas para fechar possíveis rotas da bola, e espera o contato. Não tenta adivinhar ou se antecipar à finalização, apenas dificulta ao máximo a tarefa do rival. Para cada um dos três gols que o Manchester United marcou, De Gea fez pelo menos uma defesa decisiva.

AGUARDE

Está difícil atravessar o final do ano enfrentando a abstinência de futebol? Não se preocupe. Daqui a pouco é Natal, depois Ano-Novo, e, quando você menos esperar, a bola estará rolando de novo nos emocionantes campeonatos estaduais. Toda a pujança dos times do interior, os estádios lotados a cada visita dos clubes grandes, uma festa…

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 14.dez.2014 às 10:19h

(publicada ontem, no Lance!)

PRESENTE

Abaixo, trecho de uma coluna publicada neste espaço, pouco mais de um ano atrás:

“O Pacaembu lhe agradeceu, cantou seu nome e, tão importante quanto, não lhe disse adeus. Como se estivesse evidente, ainda que seja difícil entender, que o melhor para as partes agora seja uma separação temporária. O Corinthians se encontra no final de um ciclo e Tite talvez não seja a pessoa indicada para fazer a reforma que dará início ao próximo. Mas não resta dúvida de que a relação que se criou nas últimas três temporadas é do tipo que não se encerrará enquanto Tite estiver trabalhando. Daqui a algum tempo, ele se transformará em um fantasma constante para colegas em má fase no clube”.

O tema do texto era o último jogo de Tite como técnico do Corinthians e as impressões deixadas pela forma como o casamento de três anos terminou. À época, não se poderia imaginar que o treinador passaria um ano sabático e retornaria ao mesmo lugar, algo raro até em um mercado de pouca renovação e muita rotatividade. Haverá quem diga que o plano era exatamente esse, esquecendo-se que o futebol não aceita um exercício de futurologia tão preciso.

No intervalo de um ano, Tite descansou e investiu tempo, dinheiro e energia na própria carreira. Teve de resistir ao desejo de retomar a única rotina que conhece, ao final do primeiro semestre, quando os dias passavam e as possibilidades oscilavam entre o que não era concreto e o que não interessava. Entreteve-se com a Copa do Mundo no Brasil, tratada como um prolongamento da imersão a que se impôs em busca de atualização. Lidou com a frustração por não ser escolhido para substituir Luiz Felipe Scolari, oportunidade que alimentava e à qual fez jus.

Quando o Campeonato Brasileiro entrou em seu último terço, Tite avaliou o patamar profissional que alcançou e decidiu que não mais aceitaria a incumbência de salvar times que não montou. Durante o período, praticamente todos os clubes que precisaram de um técnico, ou que estudaram a ideia de mexer no comando, entraram em contato. Em meses de coleta de informações e aprendizado, talvez o mais valioso tenha sido saber esperar.

Enquanto isso, o Corinthians retrocedeu. Não teve capacidade de organização para dar prosseguimento aos anos mais gloriosos de sua história, mesmo que não lhe faltasse nada em termos estruturais. Com as possibilidades de receita que o estádio representa, a manutenção de um time dinástico era uma questão de gestão. Os equívocos foram tão evidentes que o panorama político do clube tornou-se um filme de baixo orçamento, com atores desqualificados e enredo sofrível. Nesse contexto, o quarto lugar no Campeonato Brasileiro e a consequente chance de disputar a Copa Libertadores permitem ao menos dizer que 2014 não foi um ano perdido.

A coluna de dezembro do ano passado terminava com a seguinte frase: “Tite voltará”. Era apenas uma sensação, claro. Agora, com o retorno iminente, o que parece é que ele jamais se ausentou.

AJUSTE

A primeira proposta do Corinthians para Tite foi de 400 mil reais por mês. A negociação deve ser concluída em torno dos 500 mil, valor menor do que Tite recebia em sua última passagem. A indústria do futebol percebeu que a megalomania dos salários precisa acabar, mas o mercado continuará a sorrir para os mais valorizados. Como contexto, um salário de 100 mil reais por mês é considerado baixo para técnicos dos principais clubes do país.

CORAGEM

Palmas ao posicionamento público de Murilo Endres e Bruno Rezende no caso dos desvios de verbas na Confederação Brasileira de Vôlei. Denúncias como essas são frequentes no esporte no país, mas nem sempre se vê atletas demonstrando a coragem de enfrentar quem manda e desmanda. Importante ressaltar, também, a medida saudável de um patrocinador (Banco do Brasil) que suspendeu pagamentos por causa das irregularidades apuradas.

CAMISA 12

por André Kfouri em 12.dez.2014 às 9:14h

(publicada ontem, no Lance!)

DIRETORIA

Quem viu a entrega da taça do Campeonato Brasileiro ao Cruzeiro, no domingo passado, talvez tenha percebido a presença de um homem vestindo uma camisa azul e usando óculos, no pódio, junto aos jogadores. Ele tinha uma faixa adornando o peito e uma medalha pendurada no pescoço. Era um dos mais sorridentes, aplaudia efusivamente, demonstrava genuína felicidade.

Fábio, o capitão cruzeirenese, foi buscar o troféu, mas não o ergueu imediatamente. Após colocá-lo no chão para que os jogadores fizessem uma saudação, o goleiro chamou todos para o gesto final. Antes, porém, convidou o homem de azul a tocar a taça. Não era um companheiro machucado ou um ex-jogador identificado com o clube. Era o diretor de futebol do Cruzeiro, Alexandre Mattos.

O que parece uma cena comum é um testemunho do espaço ocupado por um executivo, não apenas aceito como solicitado a participar de um momento que pertence aos atletas. Jogadores de futebol são zelosos na proteção ao próprio território. Não frequentam escritórios e não toleram a aparição de estranhos no vestiário. A hora de levantar um troféu é deles. A deferência dos cruzeirenses a Mattos significa que ele é “um deles”.

Alexandre Mattos é o nome em maior evidência por ter montado o time que conquistou dois campeonatos brasileiros seguidos, mas há outros profissionais de alto perfil cujos serviços são disputados por clubes como se fossem jogadores. Rodrigo Caetano, para citar um deles, foi apresentado pelo Flamengo nesta semana como o primeiro reforço para o próximo ano. O que dá a medida de como o mercado os valoriza.

Mattos está de saída do Cruzeiro por divergências com seus superiores. Os pedidos dos jogadores para que reconsidere a decisão não devem impedir a mudança de prefixo de seu telefone celular. Se for trabalhar no Palmeiras, que não esconde o interesse, encontrará um ambiente que carece urgentemente de alguém como ele.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 09.dez.2014 às 9:47h

(publicada ontem, no Lance!)

SEGUNDA CHANCE

1 – Havia gente chorando aos onze minutos de jogo no Allianz Parque. Do apito inicial àquela altura, o Palmeiras não tinha encontrado meios para ser superior a um adversário com média de idade de categoria de base, e perdia por 1 x 0. O jogo mal começara e já se via assombrado pela sensação de que o rebaixamento estava decretado.

2 – No mesmo intervalo, o Atlético Paranaense criou um gol em contra-ataque que Gabriel Dias evitou quando a bola não poderia avançar mais um palmo. E marcou um gol no escanteio subsequente, com um cabeceio de Ricardo Silva sem marcação. Como naqueles sonhos em que não conseguimos nos mexer, por mais que tentemos, o Palmeiras era o retrato da impotência.

3 – Além do cronômetro do jogo, uma contagem de minutos bem mais urgente se instalou: o tempo que o Palmeiras tardaria para dar sinal de pulso e avisar que estava em campo. Provavelmente os minutos mais decisivos do ano inteiro. Para conter as lágrimas que continuavam a cair, não demorou muito. Empate com Henrique, de pênalti (corretamente marcado), aos dezoito.

4 – Primeiro gol do Palmeiras em seu novo estádio. Uma nota histórica que fica para outro momento.

5 – A igualdade permitiu que o Palmeiras mantivesse um mínimo de sanidade em campo. Em termos de dinâmica, porém, era o mesmo time desorganizado das últimas rodadas. E com falhas defensivas tão gritantes que as investidas do Atlético continuaram a criar problemas para Fernando Prass. Não é exagero afirmar que o goleiro palmeirense impediu dois gols no restante do primeiro tempo.

6 – Valdivia demorou a voltar do vestiário, gerando dúvidas se continuaria no jogo. Por estranho que pareça, a maior contribuição do chileno não era técnica, mas comportamental. Valdivia não era o sopro de clareza em um time confuso. Mas uma amostra de postura em um time reticente. Foi recebido com palmas ao reaparecer no gramado. Em momentos de desespero, as pessoas se agarram àquilo que lhes traz conforto.

7 – O Palmeiras passou a ser mais perigoso a partir da metade da segunda parte. Um bom passe de Valdivia para Cristaldo deixou o argentino em condições de marcar. Se faltou qualidade para o gol do alívio, ao menos a bola passava mais tempo longe da área de Prass. O jogo caminhava para o final, dominado pelo temor de um gol tardio e trágico. Em São Paulo ou em Salvador.

8 – Apito final. O ano do centenário do Palmeiras terminou com um empate em casa em um jogo decisivo. Mas ainda faltavam dois minutos de angústia, pois o Vitória lutava – ou deveria lutar – por sua permanência na Série A, no Barradão. O destino do Palmeiras já não lhe pertencia.

9 – Thiago Ribeiro nunca vestiu a camisa palmeirense, mas poderá dizer aos netos que marcou um gol pelo clube. Não foi um gol sem importância. A vitória do Santos em Salvador foi comemorada no Allianz Parque, um presente inesperado nos últimos segundos de um ano que poderia não terminar.

10 – As pessoas que conduziram o Palmeiras a tal ponto não têm o que celebrar. Só a agradecer pela segunda chance que receberam.

MOSTRUÁRIO

O enrosco entre o São Paulo e a Pênalti teve várias repercussões negativas para os dois lados e para a relação entre eles, mas pelo menos uma muito agradável para a empresa: a ideia inicial era vender cerca de 25 mil camisas “da despedida” de Rogério Ceni. Até o fim da semana passada, as vendas do produto já se aproximavam do dobro. É evidente que os equívocos não foram planejados, mas tiveram um papel importante na divulgação da peça.

SÁBIO

Algumas frases de César Luis Menotti, em valiosa entrevista à última edição da revista El Gráfico: “Na mesa dos grandes , Pelé é o melhor. Quando falo de futebol, eu o tiro da lista, porque era um extraterrestre”; “Guardiola foi um furacão devastador. Arrasou com todas as fraudes e as mentiras. Arrasou-as de tal maneira que agora até os italianos querem ter a bola e jogar. O único que a cada dia joga pior é o Brasil”.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 07.dez.2014 às 9:36h

(publicada ontem, no Lance!)

FUTEBOL DE ALUGUEL

É sempre arriscado fazer elogios a um dirigente esportivo brasileiro. Para usar uma expressão educada, digamos que a classe é carente de credibilidade. A taxa de conversão de boas intenções – quando existem – em práticas abomináveis é alta, o que transforma o aplauso em ingenuidade na melhor das hipóteses. Na pior, em cumplicidade imperdoável.

Para não pisar nesse território pantanoso, e também não cometer a injustiça de permitir que uma declaração importante fique sem a devida repercussão, o caminho seguro é elogiar a mensagem. Pois: o presidente do Vitória, Carlos Falcão, concedeu uma entrevista exemplar à ESPN na última quinta-feira. Em poucos minutos, solicitou o retorno dos clássicos regionais às últimas rodadas do Campeonato Brasileiro e, com firmeza, abordou o recorrente tema das malas brancas.

“Enquanto eu for presidente do Esporte Clube Vitória, isso não vai acontecer. Nem aceitaria e puniria jogadores do meu clube que aceitassem. Os jogadores do Vitória têm que jogar pelo Vitória. Têm que receber premiações que sejam combinadas com o Vitória”, disse Falcão, acrescentando ter conhecimento de que o incentivo financeiro de clubes interessados está disseminado no futebol. A posição do dirigente baiano não dá margens a dúvidas: ele condena e repudia a promiscuidade entre clubes. Se foi uma simulação de postura, uma embalagem sem conteúdo, há registro com vídeo e áudio.

O assunto ressurge nas rodadas finais de campeonatos, acompanhado de toda sorte de defesas e subterfúgios. Há quem ceda ao desespero de relativizações que acalmam a alma e relacione a mala branca à gorjeta, ou seja, uma bonificação para alguém que fez bem o próprio trabalho. Infantilidade que não resiste a trinta segundos de argumentação: além da relação ser diferente, alguém já ofereceu gorjeta para que um garçom servisse outra mesa? O exemplo da gratificação por serviço prestado existe no futebol na forma do “bicho”, o prêmio por vitória ou por objetivos alcançados, pago pelo clube aos jogadores como uma remuneração adicional, além do salário previsto em contrato. O envolvimento de terceiros é imoral e ilegal.

Em que outra área de atividade se aceita que um funcionário receba dinheiro de um concorrente? Excetuando os casos de jogadores emprestados que têm salários, ou parte deles, pagos pelo clube proprietário de seus direitos (situação incluída nas negociações de atletas entre instituições, algo inerente ao esporte profissional), esse tipo de prática corrompe a forma como clubes e jogadores de futebol devem se relacionar. Alguém dirá que o vestiário pode não ser informado sobre a origem do “incentivo”, o que, além de ingênuo, não é solução para o problema central.

Quem aceita dinheiro de terceiros para vencer um jogo não está muito distante de, um dia, quem sabe, dependendo da situação, aceitar dinheiro para empatar. Não vai prejudicar ninguém, vai? E se for para perder? É difícil encontrar as linhas que determinam a conduta dos que se comportam como mercenários. E o fato de algo ser frequente não significa que seja certo.

EDUCAÇÃO

Programar clássicos para as últimas rodadas é uma medida que ao menos diminui a possibilidade de atuações manchadas. Estabelecer punições para malas voadoras, como a CBF fez constar em seu regulamento de competições para 2015, é o mínimo que se espera de quem pretende organizar campeonatos sérios. A origem do problema, que nenhuma regra esportiva tem a capacidade de evitar, é a índole de quem se envolve em tramas inconfessáveis por dinheiro. Muitas vezes por ausência de princípios, algumas por ausência de coragem. Cada aparição de um jogador na televisão, sorrindo e dizendo que não vê nenhum problema em receber dinheiro de outro clube, deveria ser sucedida por atitudes internas de companheiros e superiores no sentido de esclarecer o assunto e apontar o equívoco. Há muito de falta de educação nesse tipo de discurso.

CAMISA 12

por André Kfouri em 05.dez.2014 às 7:28h

(publicada ontem, no Lance!)

MINHA CASA, MINHA VIDA

Em “Scorecasting”, intrigante livro lançado em 2011 (tema de uma coluna publicada neste espaço) com o objetivo de investigar mitos relacionados a diversos esportes, dois autores americanos abordaram as vantagens dos times mandantes em jogos de futebol. O resultado da análise de resultados de quarenta campeonatos em vinte e quatro países mostrou que o time que joga em casa vence, em média, 63% das vezes.

Este foi o exato percentual de vitórias dos mandantes na Premier League inglesa nos dez anos anteriores ao lançamento do livro. Na Série A italiana, o índice ficou em 64,3%, enquanto na Liga Espanhola, em 65,7%. É possível que algo tenha mudado de lá para cá, mas o achado mais importante foi uma assustadora consistência dos percentuais ao longo dos tempos, em competições de níveis diferentes e países distintos.

Os autores desmentiram “fatos” como o conforto por jogar em um estádio conhecido ou o impacto da torcida a favor, e concluíram que o fator decisivo pró-mandante é o comportamento da arbitragem. Por essa ótica, tanto faz o Palmeiras jogar contra o Atlético Paranaense no Allianz Parque, no Pacaembu ou, que seja, na Arena Corinthians. A probabilidade de vitória seria a mesma (levando em conta a média do campeonato) em qualquer estádio em que o Palmeiras fosse mandante.

Ocorre que os números do Campeonato Brasileiro de 2014 são bem diferentes: 51,9% dos jogos foram vencidos pelo time da casa, quase uma moeda jogada para o alto. E no caso específico do Palmeiras, o número cai para apenas 38,8%, o que ajuda a entender o risco de queda para a Série B na última rodada.

Não há um estudo conhecido sobre “chance de vitória para um time ameaçado pelo rebaixamento, em seu segundo jogo em uma nova casa”. Se houvesse, a amostra seria insuficiente para gerar conhecimento. O que se sabe é que, no grande esquema das coisas, o estádio escolhido para mandar um jogo não tem qualquer influência sobre o resultado final.

VAIDADE

O que se pode discutir é se o Palmeiras deveria ter reinaugurado seu estádio neste campeonato, sob risco de ser rebaixado. Talvez fosse mais prudente não expor o time a um “jogo de festa, com obrigação de vitória”, como se viu contra o Sport. Sempre que um dirigente – qualquer um – disser que “não tem a vaidade” de fazer algo, estará confirmando o contrário.

INTRANQUILIDADE

Agora, na última rodada, a pressão e as dificuldades serão as mesmas, independentemente do local. E é compreensível que se tenha preocupações com a segurança, pela reação da torcida a um resultado trágico. Seria muito melhor se os jogadores soubessem que teriam apoio e compreensão até o final, mas esse é um quadro utópico no futebol brasileiro.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 02.dez.2014 às 6:45h

(publicada ontem, no Lance!)

PLANTÃO

A fachada da Clínica e Maternidade Suizo Argentina, no centro de Buenos Aires, foi redecorada naqueles dias de abril de 2004. A parede da entrada principal transformou-se em um gigantesco mosaico de fotografias, desenhos e cartazes. Flores e velas adornavam as imagens, conferindo à obra um caráter fúnebre. À noite, o tom amarelado das chamas iluminava a vigília de quem não dava atenção a nenhum outro tema. No prédio em frente ao hospital, uma bandeira estirava-se para o lado externo da sacada: “Fuerza D10S”.

Diego Armando Maradona estava internado. Com o coração afetado por uma sobredose de cocaína, equilibrava-se entre a vida e a morte na unidade de terapia intensiva, fazendo um país temer por sua partida aos 43 anos. Havia gente de todas as idades e todas as partes da Argentina na calçada, o que obrigou a colocação de grades na avenida para evitar que o trânsito fosse bloqueado. A garoa e o frio não os incomodavam. Ao contrário, estimulavam-nos a cantar as músicas que homenagearam Maradona nos estádios onde ele jogou. No quarto andar da clínica, sedado e em estado crítico, Don Diego nada podia ouvir.

As informações do boletim médico traduziam desespero. Maradona havia sido entubado por apresentar insuficiência respiratória, era mantido vivo por um respirador mecânico. Cada hora era crucial. Na vigília, fãs se apegavam à mão de Deus. Jornalistas se concentravam ao lado da porta, no aguardo de notícias e esperando pelo pior. A Argentina se preparava para perder, velar e enterrar seu mais célebre esportista, idolatrado pela genialidade que o distanciou dos mortais e pelas fraquezas que o aproximaram de todos nós.

O plano era fazer uma reportagem sobre a morte iminente de Maradona. Visitar o estádio do Argentinos Juniors, origem de sua carreira no futebol, e o do Boca Juniors, onde a maior torcida da Argentina se apaixonou por ele. O roteiro também incluía o Luna Park, casa de espetáculos onde Maradona se casou em 1989 e provável local de seu velório, e o cemitério La Chacarita, descanso final de algumas das maiores personalidades do país. Entrevistas foram marcadas e gravadas com Quique Wolff e Roberto Perfumo, ambos preocupados, mas extremamente gentis para falar sobre Maradona, o ícone, e Diego Armando, o homem. Relatos que contribuíram para a compreensão da relação dos argentinos com um futebolista extraordinário, adoração que supera cores de camisas e falhas pessoais.

Dois dias depois da internação de emergência e dos prognósticos sombrios, boas notícias começaram a sair da Clínica Suizo Argentina. Maradona voltou a respirar com as próprias forças após cinco dias na UTI, e seguiu melhorando até deixar o hospital. A reportagem foi exibida, mas limitou-se a mostrar como os argentinos viveram aqueles dias de ansiedade. Obituários, homenagens e programas especiais preparados por meios de comunicação de todo o mundo estão, felizmente, arquivados desde então.

É possível que um jornalista estrangeiro tenha uma história parecida a contar sobre os últimos dias de plantão por causa de Pelé, internado em São Paulo. Ainda que os casos não sejam semelhantes em gravidade. Longa vida aos gênios do futebol, sempre.

EM CASA

No dia em que dispensou quatro jogadores do Botafogo, o ex-presidente Maurício Assumpção disse que assumia a responsabilidade pela decisão pessoal que tomou. Nunca saberemos se, com os dispensados em campo, o time conseguiria evitar o rebaixamento que se confirmou ontem. Há pessoas que vivem o dia a dia do Botafogo que entendem que sim. O que sabemos é que, felizmente para o clube e seus torcedores, Assumpção não está mais em posição de prejudicar o Botafogo. Mas a obra de sua gestão ficou completa neste domingo, e a responsabilidade que ele afirmou assumir jamais lhe será cobrada.

AGENDA

Problema a ser resolvido: a última rodada do Campeonato Brasileiro prevê Corinthians e Palmeiras jogando no mesmo dia e no mesmo horário, em São Paulo. Partidas relevantes, que devem mobilizar as duas torcidas. Riscos anunciados que devem ser evitados.

ATUALIZAÇÃO: Como se sabe, decidiu-se ontem à tarde que Corinthians x Criciúma será no sábado.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 30.nov.2014 às 10:59h

(publicada ontem, no Lance!)

TÉCNICO DO SIM

Levir Culpi. Se trocarmos os “i”s por “a”s, teremos “levar culpa”. É a sina dos técnicos, os primeiros na linha de comando e na linha de cobrança, as primeiras vítimas de ambientes em que o resultado tem mais valor do que o processo.

Johan Cruyff costuma dizer que existem técnicos de futebol e técnicos de títulos. É um conceito auto-explicativo que revela diferenças de visão de jogo e de mundo, distâncias entre os treinadores que experimentam e treinadores que exploram, métodos baseados na coragem e no receio. Para compreender o conceito, é necessário identificar a linha que separa vencer e jogar bem.

Em que grupo incluímos Levir? No grupo dos técnicos que nem sempre conseguiram, mas sempre tentaram, incutir em seus times a necessidade de jogar, aspecto anterior à importância de ganhar. O futebol é um jogo temperamental, indomável, que nem sempre contempla aqueles que investem na construção de uma equipe. Os técnicos que o fazem sorrindo, como Levir, estão mais expostos às intempéries do que os que os cuidam primeiro da própria sobrevivência.

Levir Culpi é um bem humorado em um mundo ranzinza, o que o converte em teimoso. Em seu livro, se proclama “burro com sorte”, característica dos que não se levam tão a sério e não supervalorizam o que não podem controlar. Suas entrevistas ao longo desta temporada conseguiram simplificar a rotina de comandar um clube grande no futebol brasileiro, por intermédio de declarações honestas e ausência de presunção. Aplauso obrigatório, apenas por isso.

Levir foi sincero até ao falar sobre o encontro que produziu o Atlético Mineiro campeão da Copa do Brasil. Em vez de subir no palanque e propagar variações táticas visionárias, ele confessou não saber explicar o casamento com os jogadores, a criação de um ambiente virtuoso e a aparição de um time exuberante. É evidente a responsabilidade de um técnico quando essa reunião acontece e dá frutos. Levir Culpi apenas não se enxerga como o autor de uma obra fantástica, inalcançável para os menos dotados. Mais aplausos, por favor.

Se o Atlético Mineiro não tivesse conquistado a Copa do Brasil, não deixaria de ser um time inovador no comportamento ofensivo, sua principal marca. Um time que agride o adversário com vários jogadores em constante troca de posição, e faz a bola circular com velocidade no campo contrário. Um time que corre riscos e não se furta a acionar sua reserva de confiança, alimentada a cada passo à frente, sejam quais forem as dificuldades. Não se vê o Atlético tratar um jogo de futebol como se fosse um filme desinteressante.

O mérito de Levir Culpi é não ter medo de levar a culpa, postura de quem trabalha como vive. Seus interlocutores dizem que ele menciona ideias diferentes quando fala sobre projetos profissionais. Quer ser treinador em países onde o futebol ainda precisa se desenvolver, ou comentarista em um canal de televisão. Fica a esperança de que não se mexa, aqui é onde mais faz falta.

HEGEMÔNICO

Assim como a política, o futebol é um campo fértil para declarações desavergonhadas. Marco Polo Del Nero concebeu mais uma durante a semana. “Não podemos mudar. O nosso futebol é o melhor do mundo. (…) Nós continuamos com a hegemonia do futebol no mundo”, disse o futuro presidente da CBF, em um evento da confederação no Rio de Janeiro. Não é necessário raciocinar muito para descobrir por que Del Nero pinta um quadro surrealista sobre o futebol brasileiro, ou por que insiste em manter as coisas como elas são e estão. O que espanta é a falta de contestação, esse ambiente que permite que o futebol brasileiro tenha donos. Quantos presidentes de clubes concordam com a visão de Del Nero? Quantos estão interessados em levar o futebol no Brasil ao patamar de organização que ele merece?

CAMISA 12

por André Kfouri em 28.nov.2014 às 7:06h

(publicada ontem, no Lance!)

IRRETOCÁVEL

1 – A ideia de que o Atlético Mineiro não se resumiria a proteger sua vantagem se confirmou desde os primeiros minutos. Duplamente óbvio: como pedir a este time que seja o que não é? Por que motivo o Atlético cometeria o erro que suas vítimas cometeram?

2 – Aos olhos de um observador desinformado, o Atlético parecia o time que precisava de gols. Duas ocasiões preciosas em meia hora de jogo. O Cruzeiro, sem conseguir cuidar bem da bola, jogava como se o placar fosse dele.

3 – Uma desatenção da zaga atleticana criou um gol para Ricardo Goulart. Após a finalização, os jogadores reservas do Cruzeiro levaram as mãos à cabeça. Goulart tranquilizou todos os peladeiros de fim de semana. Menos os que torcem para o Cruzeiro, claro.

4 – Jesús Dátolo chutou por cima o rebote de uma ótima defesa de Fábio (impedindo um gol de Maicosuel), lance que sugeriu a impressão de que o Atlético começava a exagerar no desperdício. Mas o cruzamento do argentino para o gol de Diego Tardelli foi estupendo.

5 – O Cruzeiro não deu nenhum chute no alvo durante o primeiro tempo de um jogo em que, inicialmente, precisava fazer dois gols. No intervalo, a conta subiu para quatro. Impossível? Sem finalizações na direção certa, sim.

6 – Sessenta minutos, e Victor poderia não estar ali. O torcedor canta, o time tenta, mas todos no Mineirão sabem que a montanha é alta demais. No segundo tempo do último jogo importante do ano, a temporada e o título brasileiro assegurado no domingo cobraram seu preço.

7 – O Atlético percebeu um adversário impotente e passou a dosar sua bateria. A diferença física entre os dois times ficou maior até do que o placar agregado. Quando o Cruzeiro finalmente acertou o gol, o resultado do jogo já não faria diferença no resultado da decisão.

8 – Expulsão tola de Leandro Donizete, único jogador pilhado em uma noite leal entre dois rivais sanguíneos.

9 – Irretocável Copa do Brasil do Atlético campeão.

GERÊNCIA

Os desentendimentos entre os dirigentes atleticanos e cruzeirenses desprestigiaram uma decisão inédita e inesquecível. Polêmicas relacionadas ao acesso do público ao Independência e ao Mineirão puniram a razão de ser do espetáculo e produziram dois estádios com lugares disponíveis. A CBF fingiu que nada aconteceu, irresponsabilidade ainda mais grave.

ABSOLUTO

Nos jogos em que estabeleceu novos recordes de gols na história do Barcelona, do clássico entre Barcelona e Real Madrid, da Liga Espanhola e da Liga dos Campeões da Uefa, Lionel Messi marcou três vezes. Um hábito assustador para quem tem 27 anos e, em tese, muitas temporadas em alto nível no futuro. Ainda vamos falar, e ouvir falar, muito de Messi.