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COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 30.jun.2015 às 9:31h

(publicada ontem, no Lance!)

AVANÇO

A formatação de uma liga brasileira de futebol está muito mais próxima do que se imagina, incluída aí a esmagadora maioria dos dirigentes dos grandes clubes do país. Gente séria, capaz e interessada, de diferentes setores de atividade, tem se reunido há meses para conversar sobre os diferentes aspectos da evolução do futebol no Brasil. Dessas discussões surgirá uma proposta que abordará todos os ângulos e será apresentada aos principais interessados, aqueles que deveriam estar empenhados neste processo, mas não fazem ideia de como iniciá-lo: os clubes.

A conjuntura do futebol no Brasil tem revelado a capacidade de descobrir novos subsolos a cada vez que atinge o que parece ser o fundo do poço. A recusa a compreender o significado do 7 x 1 – uma combinação de incompetência generalizada e péssimas intenções – levou a Seleção Brasileira ao estado de penúria exposto pela eliminação na Copa América. Os clubes não conseguem honrar os próprios compromissos, apesar de viver uma era sem precedentes em termos de injeção de receitas. Devem bilhões à União, mas rejeitam as contrapartidas de governança previstas na Medida Provisória do Futebol, porque seus cartolas pretendem continuar a ser os únicos espertos. E como um símbolo desse modo de operar, o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol acaba de completar um mês como hóspede involuntário do governo suíço.

De acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, ainda não conhecemos metade da missa. Mas já temos o suficiente para finalmente dar razão a quem diz que o futebol não é um ambiente recomendável para gente correta. Até pessoas bem intencionadas, bem sucedidas e dotadas de conhecimento e visão se encontrarem para desafiar essa noção e mostrar à indústria do futebol no Brasil o seu próprio futuro. É um futuro baseado na boa gestão, em um calendário coerente, na valorização do produto e de seus verdadeiros proprietários. Um futuro inatingível se o modelo que está aí desde sempre, sustentado por nomes diferentes e práticas iguais, não for dramaticamente reformado.

A viabilidade do futebol no Brasil atravessa um momento decisivo, o que não é necessariamente ruim. Não é complicado perceber a urgência para encontrar um caminho que conduza o produto a um tratamento semelhante ao que se vê nos países onde o futebol prospera. Se por um lado é obrigatório temer as forças do atraso, por outro é fácil identificar quem as representa e por quê. A tarefa mais fácil de todas é concluir que a classe dirigente que se perpetuou em nosso futebol, figura simbolizada à perfeição por Marco Polo Del Nero, não se aproxima das condições para comandar essa transformação.

A boa notícia: enquanto a cartolagem e seus carregadores de malas se preocupam com a manutenção de suas cadeiras e com o repugnante jogo político (levaram uma humilhante caneta durante a semana, em Brasília) que os conserva, há quem esteja de mangas arregaçadas e trabalhando. Mais do que nunca, é hora de torcer pelo avanço.

O QUE É CERTO É CERTO

A Seleção Brasileira jogou até chegar ao gol de Robinho, fruto de um lance tão elogiável quanto, infelizmente, raro. Depois, optou pelo expediente de quem prefere não ser o protagonista que determina o que acontece em campo. Pior: de quem acredita que esse é o caminho que leva à vitória. Dos 14 minutos do primeiro tempo aos 26 minutos do segundo, momento em que o Paraguai empatou, o Brasil se dedicou a especular. Neste período, a seleção paraguaia, cuja composição e forma de atuar não têm nada de especial, foi levada a crer que poderia conseguir seus objetivos. Parte da responsabilidade recai sobre a Seleção Brasileira, que emprestou coragem a um adversário tecnicamente inferior. A busca pela vitória sem jogo é a miragem que continua a iludir os medíocres. Se o resultado é só o que importa, o que sobra quando ele não vem?

PEP GUARDIOLA CHEGOU

por André Kfouri em 29.jun.2015 às 15:02h

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É com enorme satisfação que comunico o lançamento da edição em português de “Herr Pep”, livro de autoria do ex-atleta, jornalista e escritor catalão Martí Perarnau.

O livro (escrevi uma coluna a respeito, em setembro do ano passado) é um diário da primeira temporada de Guardiola no Bayern de Munique, e uma aula de futebol em todos os seus aspectos.

Trata-se do resultado do maior acesso já permitido por Guardiola a alguém de fora de seu ambiente de trabalho, que revela detalhes interessantíssimos sobre o funcionamento de um time de futebol de alto nível. É dessas leituras que fascinam.

“Guardiola Confidencial”, título da versão disponível no Brasil, chega ao país junto com a Editora Grande Área, novidade no mercado editorial pela missão de disponibilizar as grandes obras sobre futebol escritas em outros idiomas.

O livro será lançado em 14/7, no Museu do Futebol, em São Paulo. O material de divulgação será veiculado nos próximos dias, mas já reserve a data.

Que “Guardiola Confidencial” seja apenas o início de uma nova época nas livrarias brasileiras para quem se interessa por futebol.

Tive o privilégio de escrever o prefácio desta edição e compartilho aqui, por cortesia da editora, o primeiro capítulo do livro.

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Momento 1

O enigma de Kasparov

Nova York, outubro de 2012

Garry Kasparov balançou a cabeça enquanto terminava o prato de salada. Usou as mesmas palavras pela terceira vez: “É impossível”. Já falava comum tom de irritação na voz. Pep Guardiola insistia em lhe perguntar as razões pelas quais considerava ser impossível competir com o jovem mestre Magnus Carlsen, o mais promissor enxadrista do momento.

O jantar transcorria em clima amigável. Guardiola e Kasparov haviam se conhecido semanas antes, e desde o início o técnico catalão demonstrou abertamente seu fascínio pelo grande campeão. Kasparov encarna qualidades que Pep admira profundamente: rebeldia, esforço, inteligência, dedicação, persistência, força interior… Daí o entusiasmo ao conhecê-lo pessoalmente e encontrá-lo para dois jantares, em que conversaram sobre competitividade, economia, tecnologia e, é claro, esporte. Guardiola se afastara da elite do futebol poucos meses antes e começava a gozar de um ano de tranquilidade em Nova York.

Deixara para trás, no FC Barcelona, um período triunfal — o mais brilhante, bem-sucedido e apaixonante da história do clube catalão, talvez inigualável: seis títulos em sua primeira temporada, além decatorze troféus dos dezenove possíveis em quatro anos. Os resultados de Guardiola eram excepcionais. Mas, para alcançá-los, ele havia se esgotado. Exausto e descontente, disse adeus ao Barça antes que os danos provocados fossem irreversíveis. Em Nova York, ele queria começar de novo e viver um ano de paz, esquecimento e tranquilidade. Precisava preencher um reservatório de energia que tinha se esvaziado e passar mais tempo com a família, que pouco via pelos compromissos de trabalho. Sua intenção era conhecer novas ideias e dedicar-se aos amigos. Um deles era Xavier Sala i Martín, professor de economia da Universidade Columbia e tesoureiro do Barça em 2009 e 2010, a última etapa de Joan Laporta como presidente do clube. Sala i Martín é economista de prestígio internacional e um bom amigo dos Guardiola. Morando em Nova York há muito tempo, ele foi essencial para que a família de Pep vencesse algumas reservas em relação à cidade norte-americana: os filhos não dominavam o inglês e Cristina, a esposa, ocupava-se demais com o negócio da família na Catalunha. Assim, não entendiam bem o que Guardiola propunha. Sala i Martín encorajou a família a curtir a experiência de viver em Nova York, que acabou sendo muito melhor do que esperavam.

Sala i Martín também é amigo íntimo de Garry Kasparov. No outono, a família Guardiola convidou o economista para visitar sua casa em Nova York. “Sinto muito, mas esta noite tenho um compromisso: marquei de jantar com o casal Kasparov”, desculpou-se, antes de sugerir a Pep que o acompanhasse. Guardiola ficou encantado com a ideia, assim como o próprio Kasparov e sua esposa, Daria. Foi um encontro fascinante. Não falaram de xadrez nem de futebol, mas de invenções e tecnologia, da coragem de romper paradigmas, das virtudes de não se acovardar diante da incerteza e da paixão. Falaram muito da paixão. Kasparov expôs de forma clara suas ideias pessimistas sobre os avanços tecnológicos. Segundo ele, o mundo está estacionado economicamente porque o potencial tecnológico serve basicamente para jogos e novos inventos não possuem a relevância dos antigos. Na opinião de Kasparov, a invenção da internet não pode ser comparada à da eletricidade — que provocou uma autêntica transformação econômica, permitindo o acesso da mulher ao mercado de trabalho e multiplicando por dois o volume da economia mundial. O ex-campeão mundial de xadrez explicou que a verdadeira influência da internet na economia produtiva, não na financeira, é muito inferior à que teve a eletricidade. Deu como exemplo o iPhone, cuja capacidade processadora é muito superior à dos computadores da Apollo 11, os agc (Apollo Guidance Computer), que possuíam cem vezes menos memória ram que um smartphone atual. Segundo Kasparov, os agc serviram para levar o homem à Lua, mas agora usamos a potencialidade de um telefone celular para matar passarinhos (referindo-se ao game popular Angry Birds). Sala i Martín, um homem de raciocínio prodigioso, assistiu maravilhado à conversa entre Kasparov e Guardiola: “Foi fascinante ver dois homens tão inteligentes improvisando um diálogo sobre tecnologia, invenções, paixão e complexidade”, disse.

O encantamento mútuo foi tamanho que, poucas semanas mais tarde, eles se encontraram para um segundo jantar — ao qual Sala i Martín não pôde comparecer porque estava na América do Sul, mas que teve a presença de Cristina Serra, esposa de Pep. Naquela segunda noite, sim, se falou de xadrez. Guardiola ficou surpreso com a intensidade de Kasparov ao falar sobre o norueguês Magnus Carlsen, visto por ele como o indiscutível futuro campeão mundial — o que de fato aconteceu um ano depois, em novembro de 2013, com a vitória sobre Viswanathan Anand por 6,5 a 3,5. Kasparov rasgou elogios ao jovem mestre (de 22 anos na época), a quem chegou a treinar secretamente em 2009, e também detalhou algumas fraquezas que deveria corrigir se quisesse dominar por completo o mundo do tabuleiro. Foi então que Guardiola perguntou se Kasparov se sentia capaz de vencer o emergente campeão norueguês. A resposta o surpreendeu: “Tenho capacidade para derrotá-lo, mas é impossível”. Guardiola imaginou se tratar de uma frase politicamente correta que continha toda a diplomacia que um homem impetuoso como Kasparov era capaz de demonstrar. E por isso insistiu: “Mas, Garry, se você tem capacidade, por que não conseguiria vencê-lo?”. A segunda tentativa obteve a mesma resposta: “É impossível”. Guardiola é teimoso, muito teimoso, e não largou o osso que Kasparov lhe atirara. Insistiu uma terceira vez, enquanto o enxadrista ia se encerrando cada vez mais em sua concha protetora, os olhos fixos no prato, como naqueles tempos em que precisava defender uma posição frágil no tabuleiro. “É impossível”, voltou a dizer com certo ar de lamúria. Guardiola mudou de tática, afastou o prato de salada, que mal havia tocado, e decidiu esperar outra oportunidade para sondar as razões pelas quais Kasparov se sentia incapaz de vencer o jovem Carlsen. Não só por curiosidade, mas porque tinha consciência de que a resposta podia guardar um dos segredos do esporte de alto nível.

Fazia só quatro meses que Pep abandonara o comando do Barça, depois de construir um cartel de vitórias único e inimaginável. Tinha deixado o clube porque se sentia vazio, desgastado, esgotado, incapaz de levar mais glórias a uma equipe que havia se fartado de tantas conquistas. Foi o primeiro e único na história do futebol a conseguir os seis títulos possíveis em uma mesma temporada. Mas Guardiola renunciou ao Barça por esgotamento e agora, já renovado e recuperado, ciente de que a energia voltava ao seu corpo — e, sobretudo, à sua mente —, via-se diante de um dos grandes mitos do esporte, o qual lhe repetia sem hesitar que ainda possuía as capacidades para vencer, mas que era impossível fazê-lo. Sentiu curiosidade, é lógico. O enigma de Kasparov continha muito mais que uma anedota para contar aos netos; nele se encontrava a resposta para o que Guardiola desejava saber há muito tempo: por que se desgastara tanto no Barça? E, principalmente, como evitar tanto desgaste no futuro?

Se eu tivesse que definir Pep Guardiola, diria que ele é um homem que duvida de tudo. A origem dessas dúvidas não é a insegurança nem o medo do desconhecido: é a busca da perfeição. Ele sabe que alcançá-la é impossível, mas a persegue do mesmo modo. Por isso, muitas vezes tem a sensação de que seu trabalho está inacabado. Guardiola é obcecado pelas dúvidas. Acredita que só pode encontrar a melhor solução depois de examinar todas as opções. Lembra, nesse aspecto, o mestre enxadrista que analisa todas as jogadas possíveis antes de realizar o movimento seguinte. A obsessão por esclarecer as dúvidas é um traço da essência de Pep, capaz de dar voltas e mais voltas em torno de qualquer assunto que envolva o jogo antes de tomar uma decisão.

Quando estuda como encarar uma partida, ele não duvida da vocação do seu time: todos ao ataque, com a bola e para ganhar. Mas esses são conceitos muito amplos, e Guardiola desenha com traços finos. Suas grandes ideias são imutáveis, contudo se compõem de muitas pequenas ideias, que ele vai destrinchando na semana que antecede a partida. Pensa e repensa sobre a escalação, a entrada de um jogador em vez de outro, os movimentos que cada atleta fará em função do adversário, a sintonia de algum jogador com um companheiro, como trabalhar as linhas da equipe diante do ataque inimigo…

A mente de Guardiola se parece com a do enxadrista que calcula e analisa todos os movimentos, próprios e do adversário, para antecipar mentalmente o desenvolvimento da partida. Jogue contra quem jogar, a preparação será idêntica: não haverá um segundo de descanso até que ele estude e avalie todas as opções. E quando terminar, voltará de novo a todas elas. É o que Manel Estiarte, seu braço direito no Barça e no Bayern, chama de “lei dos 32 minutos”, em alusão à dificuldade de fazer Pep se desconectar do futebol. Estiarte emprega todos os recursos ao seu alcance para de vez em quando conter a obsessão do treinador e obrigá-lo a se distrair, mas sabe por experiência própria que a distração não dura mais de meia hora: “Você o leva para comer em um restaurante para que se esqueça do futebol, mas depois de 32 minutos já vê que ele começa a divagar. Os olhos miram o teto, ele faz que sim com a cabeça, diz que está escutando, mas não olha pra você, já está pensando outra vez no lateral esquerdo do time adversário, nas coberturas do volante, nos apoios ao ponta… Passou meia hora e ele volta a suas digressões internas”, explica Estiarte.

Se os jogadores estiverem fechados com ele, se o Bayern o apoiar, Guardiola não se desgastará tanto com a tensão causada pela análise constante das variáveis. Às vezes, Estiarte o manda embora de Säbener Straβe, a cidade esportiva do Bayern, para que ele se desconecte. Nesses dias, Guardiola volta para casa e passa um tempo com os filhos, brinca com eles, mas meia hora depois vai até um canto que preparou no final de um corredor, que não chega sequer a ser um quarto pequeno, e recomeça suas divagações. Passaram-se 32 minutos e é preciso repassar novamente todas as dúvidas, apesar de ser a quarta vez no dia em que as examina.

Por tudo isso, a resposta de Garry Kasparov era tão importante. Daí vinha sua insistência em resolver o enigma. Por que um mestre lendário como Kasparov, cujas capacidades são excepcionais, considerava impossível derrotar um rival? Foram Cristina e Daria, as esposas, as rainhas daquele tabuleiro nova-iorquino, que desvendaram o enigma. Levaram a conversa novamente para o rumo da paixão, desse ponto passaram à exigência e ao desgaste emocional e, por fim, desembocaram na concentração mental. “Talvez seja um problema de concentração”, sugeriu Cristina. Daria deu a resposta: “Se fosse só uma partida e durasse apenas duas horas, Garry poderia vencer Carlsen. Mas não é assim: a partida se prolongaria por cinco ou seis horas, e ele não quer viver outra vez o sofrimento de passar tantas horas seguidas com o cérebro funcionando a todo vapor, calculando possibilidades sem descanso. Carlsen é jovem e não tem consciência do desgaste que isso provoca. Garry tem, e não gostaria de voltar a passar por isso durante dias a fio. Um conseguiria se manter concentrado por duas horas; o outro, por cinco. Por isso seria impossível ganhar”.

Naquela noite, Guardiola dormiu pouco e pensou muito.

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COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 28.jun.2015 às 11:29h

(publicada ontem, no Lance!)

SOCORRO AO JOGO

O fato de um drible de Neymar gerar mais indignação do que uma cafajestagem de Gonzalo Jara revela o suficiente sobre certa maneira de ver futebol. Ou de não ver. Critica-se – no caso da tentativa de carretilha do astro brasileiro em um jogo entre Barcelona e Athletic Bilbao – uma “demonstração de falta de respeito” com o adversário como se fosse um crime, justifica-se o uso de violência para “punir um firuleiro”, mas louva-se – no caso da mão boba de Jara contra Cavani, em Chile x Uruguai, seguida de vergonhosa simulação de agressão – “a esperteza” do chileno, que levou à expulsão de um importante jogador rival.

Afastadas as análises antropológicas do assédio sofrido por Cavani, e suas repercussões no universo machista do futebol, tenta-se concluir que humilhar um oponente com uma exibição de requinte técnico é ruim para o jogo. Mas fazer o mesmo com a combinação de um dedo na bunda e ludíbrio ao árbitro é uma estratégia elogiável do ponto de vista competitivo. Tudo por causa da existência de códigos de conduta em campo que são aplicados conforme o olhar e as convicções – se é que esse é um termo preciso – de cada um. Em resumo: aceita-se tudo em nome da vitória, menos um drible espetacular. Que miséria.

Vivemos em uma era em que os raros times que se dedicam à forma mais difícil de jogar futebol – manutenção da posse, superioridade técnica, jogo posicional e ataque elaborado – terminam por ser responsabilizados por tudo o que acontece no gramado. Como se os caminhos de um jogo de futebol dependessem apenas de quem demonstra iniciativa, ou como se fosse simples derrubar sistemas de marcação semelhantes a fortalezas em volta da grande área. Aqueles que tentam e não têm sucesso são criticados por “falta de objetividade”. Os que não tentam, não jogam, não se envergonham e conquistam um zero a zero são aplaudidos por “atuar de acordo com suas possibilidades”. Em nenhum outro esporte é tão fácil se fazer de vítima.

O mais triste em relação à manobra traiçoeira de Jara é que ela manchou uma atuação estupenda do Chile. Seu time encaixotou os uruguaios no campo de defesa desde o primeiro minuto, aproximou-se da inacreditável marca de 80% de posse de bola, teve em Valdivia um – surpreendente – gestor de jogo com clareza e decisões corretas, e caminhava para furar o bloqueio de um conjunto de especialistas defensivos. Uma vitória chilena alcançada sem trapaça seria mais uma prova de que equipes que se negam a jogar, de fato, pedem para perder. Mas Jara presenteou os resultadistas com um argumento valioso, pois nem mesmo um time que fica com a bola por apenas 20% do tempo merece ser derrotado por um embuste.

Chile x Uruguai foi um encontro de exemplos. De ataque, de defensivismo e de como os destinos de um jogo não podem ficar nas mãos de apenas uma pessoa. Há muito superados pela dinâmica do futebol, os olhos do árbitro são facilmente enganados por quem não se importa em vencer sem escrúpulos. O jogo não pode continuar tão desprotegido.

INVASÃO

Sérgio Corrêa da Silva, comandante da arbitragem brasileira, divulgou problemas pessoais como possíveis explicações para as atuações equivocadas de Sandro Meira Ricci. Um absurdo e uma covardia. Se o presidente da Comissão de Arbitragem entende que um árbitro não está em condições de fazer seu trabalho, seja qual for o motivo, que não o escale enquanto não se convencer do contrário. Desrespeitar a privacidade de uma pessoa de forma a tentar justificar seu desempenho é inaceitável. Mesmo porque, como o próprio Corrêa da Silva deixou claro, ele não tinha autorização de Sandro Meira Ricci para tocar no assunto.

TELONA

Inevitável: o escândalo na FIFA vai virar filme, com produção de Ben Affleck e Matt Damon e ênfase na vida de Chuck Blazer, o excêntrico cartola americano que trabalhou para o FBI. Certamente fará mais sucesso do que o filme encomendado por Joseph Blatter.

NO LANCE! DE HOJE

por André Kfouri em 25.jun.2015 às 10:35h

(CAMISA 12, publicada hoje, no Lance!)

CAFAJESTES

Às vésperas do segundo jogo das finais da Copa Libertadores de 2000, contra o Boca Juniors, circulou entre os jogadores do Palmeiras uma informação assustadora: uma arbitragem favorável no Morumbi dependia do pagamento de 200 mil dólares. A quantia garantiria a colaboração do árbitro paraguaio Epifanio González, escalado para a finalíssima.

O Palmeiras não pagou. Mas não demorou para que se instalasse, dentro de campo, uma sensação estranha. A atuação de González na noite de 21 de junho, diante de 75 mil pessoas, foi dessas que chamam a atenção de quem acompanha futebol pela tendência a escolher um lado. Jogadores palmeirenses – pelo menos dois, de forma inconfundível – se lembram de ouvir González dizer que “não marcaria nada” a favor do time brasileiro.

Aos 3 minutos e meio de jogo, um gol de Palermo foi mal anulado por González, que apontou impedimento de Arruabarena. Além de o lateral (atual técnico do Boca) estar na mesma linha do último defensor do Palmeiras, a bola foi tocada por Galeano, não por Riquelme. Mas o responsável pela marcação foi o auxiliar. A decisão de González que marcou a partida foi deixar de apitar um claro pênalti de Samuel em Asprilla, no início do segundo tempo. Ao receber um passe de Euler, diante do gol vazio, o atacante colombiano do Palmeiras foi empurrado pelo zagueiro que teria longa carreira na Europa.

Como se sabe, o jogo terminou em 0 x 0 e o Boca foi campeão nos pênaltis. Na semana em que a divulgação de uma conversa telefônica de Don Julio Grondona lançou suspeitas sobre a arbitragem de Carlos Amarilla em um Corinthians x Boca Juniors, em 2013, é impossível acreditar que se trata de um episódio isolado. Histórias semelhantes à da final da Libertadores de 2000 ganham força pelo continente.

Os dois últimos presidentes da CONMEBOL estão presos. As escutas telefônicas de Grondona exalam o mau cheiro da cafajestagem que sempre gerou desconfiança. A entidade que controla o futebol na América do Sul precisa ser refundada.

DONO…

Por décadas, Julio Grondona tratou o futebol como se fosse uma fazenda de sua propriedade. Em sua última coluna para o site Canchallena (canchallena.lanacion.com.ar), o jornalista Ezequiel Fernández Moores revela uma história que aconteceu em 2010, por ocasião de um amistoso entre Irlanda e Argentina. Grondona prometeu a Joseph Blatter levar Messi a Dublin…

… DA BOLA

… como parte da “indenização” pela mão de Henry que tirou a Irlanda da Copa do Mundo da África do Sul. Mas Messi estava em pré-temporada na China e o Barcelona pediu um seguro de 5 milhões de dólares para cedê-lo. Não havia como pagar, mas mesmo assim Messi viajou e jogou. Grondona deu 10 mil dólares a cada jogador irlandês para que nenhum deles o machucasse.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 23.jun.2015 às 8:57h

(publicada ontem, no Lance!)

DIFÍCIL

1 – Robinho herdou o lugar de Neymar, mas não a faixa de capitão da Seleção Brasileira. Miranda foi o escolhido, prova de que Thiago Silva recomeçou realmente do zero com Dunga.

2 – Gol do ex-capitão, com apenas 8 minutos de jogo. Finalização de meia habilidoso, ou de atacante dotado de boa técnica. A defesa venezuelana provavelmente não acreditou no perigo oferecido por um zagueiro, na marca do pênalti.

3 – Vai tomar no c…! Porra! Vai se f…! Ca…! Comemoração temática.

4 – Brasil no controle. Da bola, das ações, do adversário. Exatamente o que se deveria esperar de um encontro com a Venezuela. Mas as situações de maior perigo insistiam em nascer de jogadas de bola parada.

5 – Dunga salientou a necessidade de homens para vestir a camisa da Seleção neste momento delicado. Ocorre que jogos de futebol são vencidos por times. Contra a Venezuela, o Brasil se assemelhou a um, em que pese a distância em relação ao que deveria ser.

6 – Primeiro tempo monótono. Seria injusto esperar uma atuação vistosa de um time que até agora não mostrou soluções ofensivas, mesmo contra um adversário frágil. Também seria injusto depositar a ausência de atrações apenas na conta do Brasil, pois há dois times em campo e a Venezuela não se interessou em jogar.

7 – Willian é um jogador intrigante. A cada vez que toca na bola, está tudo ali: a técnica, as ideias e a visão para dominar partidas. Mas algo surge no caminho, como se suas ordens fossem outras.

8 – Por pouco o ex-capitão não vai à rede novamente. Não por coincidência, em outra cobrança de escanteio. Os venezuelanos não tinham respostas para a bola aérea.

9 – Enfim uma jogada coletiva, com inversão de lado de Robinho até Willian ser acionado por Filipe Luis na esquerda do ataque. A finta, a aceleração, o passe com o lado externo do pé direito para o gol de Firmino, detalhes de um lance merecedor de elogios.

10 – Bastou um pequeno passo à frente, um esboço de disposição para atacar, e a Venezuela sofreu um gol no espaço que ofereceu. Um presente à natureza reativa da Seleção de Dunga.

11 – David Luiz no lugar de Firmino. Marquinhos no de Robinho. E o Brasil terminaria o jogo com quatro zagueiros em campo. É necessário o registro de algo tão incomum.

12 – O gol da Venezuela, no rebote de uma bonita cobrança de falta de Arango, conferiu interesse aos minutos finais. Mais um e a seleção vinho tinto conseguiria a classificação, eliminando a Colômbia. Com uma frota de zagueiros no time, restou ao Brasil se defender e correr.

13 – O retrato do final do jogo foi um chutão de Elias para o outro lado do gramado, onde não havia nenhum jogador vestido de amarelo. Por algum motivo, nada mais espanta. Nem o sofrimento.

14 – Haverá os satisfeitos, pois “o objetivo foi alcançado”. E haverá os não consideram uma classificação para as quartas de final da Copa América como “um objetivo” para a Seleção Brasileira. O Paraguai espera. Depois, passando, Argentina ou Colômbia. Prepare-se.

ERRO

A entrada de Marquinhos para jogar como lateral-direito não é uma invencionice. Mas foi uma substituição prejudicial ao funcionamento da Seleção, que perdeu a capacidade de manter a posse e se colocou em risco.

ESPERANÇA

É grande a dívida dos principais favoritos teóricos desta Copa América. Talvez a da Argentina seja a maior de todas, pela quantidade de nomes à disposição e as atuações irregulares até agora. O Uruguai é uma decepção, a Colômbia só ganhou do Brasil, o Chile é quem mais se aproximou do que pode fazer. O mata-mata em jogo único não costuma produzir times mais soltos, mas a falta de sentido em especular pode nos mostrar partidas melhores.

INVASÃO

Dos oito técnicos que ainda disputam o título, cinco são argentinos: Gerardo Martino (Argentina), Ramón Díaz (Paraguai), Ricardo Gareca (Peru), José Pekerman (Colômbia) e Jorge Sampaoli (Chile).

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 21.jun.2015 às 12:23h

(publicada ontem, no Lance!)

VIDAL PASSOU A SE SENTIR TOTAL

Arturo Vidal estava ao lado de sua Ferrari recém-destruída, descontrolado pela realização do que tinha acontecido e pela implicação imediata do acidente em uma rodovia de acesso a Santiago: a estrela da Juventus e do Chile não conseguiria retornar à concentração de sua seleção no prazo estabelecido. O sargento Osvaldo Pezoa Collao, de 41 anos, notou o hálito característico de quem consumiu álcool e explicou a Vidal que teria de prendê-lo.

“Vocês são uns vendidos”, disse Vidal, logo após proferir uma expressão (“pacos culiaos”) usada para ofender policiais. “Sou Arturo Vidal, o jogador da seleção chilena”, continuou, antes de desferir um soco na altura do peito do sargento, que imediatamente solicitou ajuda pelo rádio. Vidal foi levado ao hospital para ser examinado e depois à delegacia onde permaneceu até a tarde do dia seguinte.

Os detalhes da interação entre um dos mais populares jogadores de futebol do Chile e os policiais que atenderam à ocorrência que ele provocou constam do relatório das autoridades, divulgado ontem por meios de comunicação do país. São informações que conferem outro contexto ao episódio, mesmo levando em conta a frase que teve maior destaque desde a última terça-feira: “Pode me prender, mas você vai cagar com todo o Chile”.

As reações de Vidal expuseram os conceitos invertidos que fazem parte do cotidiano dos famosos, reflexos diretos do que se chama de “cultura da celebridade”. Há quem pense que o mundo e as outras pessoas existem para escolher uma de apenas duas possibilidades: reverenciá-los ou deixá-los em paz. O problema é que esse tipo de personalidade também pretende determinar quando é a hora da reverência e a hora da privacidade. É precisamente neste momento que a realidade lhes apresenta um conflito com o qual não sabem lidar.

É cristalino que o sargento que prendeu Vidal estaria, de fato, “cagando com todo o Chile”, se o deixasse ir, em troca de uma camisa assinada e um par de ingressos para o próximo jogo da seleção. Mas este é um raciocínio aparentemente inatingível para alguém que, ao saber que seria detido por dirigir embriagado, acha que é uma boa ideia agredir o policial prestes a conduzi-lo à delegacia. Quando um ídolo e um cidadão que descumpre a lei são a mesma pessoa, a esperança do restante da sociedade é que os encarregados de aplicá-la saibam fazer a distinção. Além agir exemplarmente no local do acidente, os policiais chilenos não deixaram de relatar no boletim de ocorrência o comportamento que deve complicar a situação de Arturo Vidal na Justiça.

O que certamente não os impedirá de celebrar gols de Vidal nesta Copa América. Nesse caso, a mesma distinção entre ídolo e cidadão deve ser feita, só que no sentido oposto. Mas um pensamento irônico deve ter atravessado a mente do sargento Collao durante a tarde de quarta-feira passada, quando Vidal chorou diante das câmeras de televisão, pediu desculpas e disse que só poderia se redimir conquistando o título do torneio.

DEBATE

Jorge Sampaoli se viu em situação tão ou mais desconfortável que o sargento Collao. Para o técnico da seleção chilena, anfitriã da Copa América, a distinção é ainda mais difícil. Diante da decisão sobre o que fazer em relação a Vidal, Sampaoli entendeu que não havia motivo para cortá-lo de seu grupo. O episódio provoca um debate no país. É certo que as atitudes do jogador no momento da prisão não o ajudam nem entre os que são favoráveis à manutenção dele no time.

MARCO

Corajosa e necessária atitude da diretoria do Flamengo, manifestando-se publicamente, de forma oficial, sobre o projeto de lei da Responsabilidade Fiscal do Esporte. A posição do clube, a favor da manutenção das contrapartidas sem as quais a gestão dos clubes de futebol do Brasil permanecerá como está, é um marco na discussão sobre a recuperação do futebol no país.

CAMISA 12

por André Kfouri em 19.jun.2015 às 8:45h

(publicada ontem, no Lance!)

LUTO

1 – Na Copa do Mundo, foi a Seleção Brasileira quem estabeleceu o clima bélico que culminou com a lesão de Neymar ao final do jogo contra a Colômbia. A arbitragem autorizou o expediente de rodízio de faltas violentas sobre James Rodríguez, no primeiro tempo.

2 – No reencontro, em Santiago, o Brasil se empenhou em marcar com lealdade. Um exagero de Teo Gutiérrez contra Daniel Alves logo foi retaliado por Fernandinho, e ambos os times se preocuparam em jogar.

3 – Só a Colômbia conseguiu. Para a surpresa de Dunga, Pekerman determinou a pressão sobre a bola próxima à área de Jefferson e se aproveitou da incapacidade da Seleção de levar o jogo ao ataque. Durante todo o primeiro tempo, o meio de campo do Brasil simplesmente inexistiu.

4 – Mais grave: ser pressionado no próprio campo é tudo o que deseja um time que se orgulha de sua transição. Mas os colombianos praticamente trancaram o Brasil na defesa. Apenas uma ocasião cedida, com Neymar, de cabeça.

5 – O controle foi tal que, no intervalo, era a Colômbia quem lamentava o placar parcial. Jogou para vencer por mais de 1 x 0.

6 – Firmino jogou por cima do travessão um empate embrulhado de presente para o Brasil, após um recuo defeituoso para o goleiro Ospina. Até então, era alarmante a dificuldade da Seleção para atuar coletivamente.

7 – O panorama não mudou, mesmo com a entrada de Philippe Coutinho e uma maior presença no campo ofensivo. Neymar, incomodado, pouco contribuiu para ao menos equilibrar um encontro em que o Brasil foi superado pela Colômbia em todos os aspectos do jogo, inclusive o técnico.

8 – A verdade inconveniente: o Brasil não conseguiu contragolpear quando não teve a bola. Quando teve, não soube o que fazer com ela.

9 – Na data de aniversário do título mundial de 1962, a Seleção Brasileira jogou de luto pela morte de Zito. Merecedor de todas as homenagens, onde estiver, “o gerente” deve ter ido dormir antes do jogo terminar.

EXPLOSIVO

A confusão após o apito final começou porque Neymar chutou a bola em Armero. Típica reação de quem não soube lidar com a frustração, compatível com o comportamento do astro brasileiro desde que levou um cartão amarelo por um toque de mão na bola aparentemente involuntário, no primeiro tempo. Irascível, Neymar pareceu farto, com a cabeça em outro lugar.

AUSENTE

Em campo, Neymar não estará tão breve. A suspensão da próxima rodada da Copa América, pelo amarelo, provavelmente será mais longa por causa do cartão vermelho recebido na saída do gramado. E o pesadelo da Copa do Mundo pode retornar um ano mais tarde, no primeiro torneio oficial de Dunga: um time desequilibrado, sem confiança e sem seu principal jogador.

RECAÍDA

por André Kfouri em 18.jun.2015 às 13:15h

Todos nós já vimos casos assim, em livros e filmes.

A maioria de nós já acompanhou, de perto ou de longe, o sofrimento de parentes e amigos.

Alguns de nós já sentiram na própria pele o que é ser um dependente.

É uma longa história de fraqueza, erros, arrependimentos e lágrimas, em que a esperança se encontra ao final de um caminho de sacrifícios.

É preciso ter coragem para trilhá-lo, mas antes de tudo é necessário ser humilde.

O primeiro passo para a recuperação é reconhecer a própria impotência diante de uma força irresistível. O segundo é aceitar ajuda. O terceiro é compreender que este é um pacto para a vida inteira, em que a queda está à espreita dos que se acreditam no controle da situação.

A Seleção Brasileira, como um alcoólatra que ainda não entendeu que precisa de tratamento, teve uma recaída ontem, em Santiago.

O período de sobriedade após o último episódio de descontrole e vergonha (Mineirão, 8/7/2014) foi efêmero e pouco significativo: dez vitórias em amistosos e uma em jogo oficial, contra o Peru, produto de um gol nos acréscimos. Mas pareceu ser suficiente para que um time doente se imaginasse novamente forte, respeitado, tal qual o bêbado que diz que bebe, e para de beber, quando quer.

O que se viu na derrota para a Colômbia é o reflexo em campo do comportamento delirante de quem diz que o 7 x 1 “foi um acidente”, que “ainda somos os pentacampeões”, que “voltamos a ser respeitados” e demais variações do nonsense repetido desde que o alcoólatra deu vexame em Belo Horizonte.

É exatamente o mesmo tipo de auto-engano cometido em loop por doentes que recusam as terapias que podem curá-los. Os intérpretes desse discurso de realidade paralela são os maiores responsáveis por uma equipe que continua inebriada pelos próprios defeitos.

O alcoólatra nunca assume a responsabilidade por tomar o primeiro gole. Os culpados são as injustiças da vida, as más companhias, a solidão. Ou as pequenas alegrias convertidas em grandes decepções. A Seleção Brasileira não assume a responsabilidade pela derrota. O culpado é o árbitro, “um complô”, a truculência do adversário.

Aí está o principal sintoma da doença.

Seria até aceitável reclamar de uma arbitragem permissiva se o Brasil fosse um time virtuoso, que não desce de seu pedestal técnico e se nega a práticas mundanas de contenção do adversário.

Ocorre que esse retrato é simplesmente fictício, e sua utilização desavergonhada beira a farsa.

O jogo contra a Colômbia teve 39 faltas. A Seleção Brasileira cometeu 20.

No encontro anterior entre as equipes, na Copa do Mundo, foi o Brasil quem estabeleceu o domínio autoritário no primeiro tempo, por intermédio de um violento rodízio de faltas sobre James Rodríguez. A falta de pulso do árbitro em um jogo em que foram marcadas 54 faltas (31 do time da casa) contribuiu para a lesão de Neymar ao final.

A partida de ontem não teve exageros, além de uma grosseria de Teo Gutiérrez contra Dani Alves, imediatamente retaliada por Fernandinho.

De modo que é preciso parar com essa conversa de que a Seleção Brasileira é a candidata mais bela e comportada de um concurso de miss, constantemente prejudicada por barangas que dormem com os jurados.

O futebol que o Brasil pratica há tempos é equivalente ao da grande maioria das seleções de bom nível. As ideias também. Marcação forte, transição rápida, opção por provocar o erro do adversário em detrimento do protagonismo. A questão é que enquanto este pacote é o máximo que muitas equipes podem alcançar, para a Seleção Brasileira tem sido uma escolha. É como se prefere jogar.

E quem opta por jogar assim assume os mesmos conceitos dos outros. Entende que ser faltoso é uma virtude, que é necessário se impor por intimidação (não confundir com imposição física, uma qualidade), que futebol bonito é coisa do passado e que jogar bem é ganhar.

Se esta é a sua visão, não reclame de quem a compartilha. Pois não é inteligente, ou até mesmo respeitável, jogar como (quase) todo mundo joga e querer ser tratado como alguém especial.

A Seleção Brasileira foi superada pela Colômbia em todos os ângulos do jogo: técnico, tático, físico e emocional. Não chega a ser um choque, porque, nesse ambiente nivelado, o trabalho de José Pekerman está adiante do de Dunga. Mas foi preocupante ver um time que se orgulha de sua transição não conseguir contragolpear quando não teve a bola, no primeiro tempo. E não conseguir jogar quando a teve, no segundo.

Está claro que os oponentes perceberam que anular Neymar automaticamente faz da Seleção Brasileira um time estéril. E que essa percepção provoca um desarranjo psicológico capaz de tirar o astro do Barcelona do sério e travar seus companheiros, uma pane que traz de volta os fantasmas da Copa do Mundo.

É obrigatório frisar que o time de Pekerman foi além desse protocolo, porque a atuação de Carlos Sánchez merece bem mais do que um registro. O meio-campista do Aston Villa foi um dínamo em campo, ocupando-se do trabalho pesado de marcação e, também, apresentando-se no ataque.

Cabe a pergunta: há um jogador como Sánchez na Seleção Brasileira?

As declarações após a derrota pretenderam negar os fatos, um expediente que assusta, mesmo que não tenha sido utilizado pela primeira vez. Já seria ruim o bastante se foram tentativas de desviar as atenções do real problema. Se refletiram as convicções que prevalecem no grupo, a inexistência da Seleção no sentido coletivo continuará a provocar noites como a de ontem.

No Mineirão, o doente terminou a noite em coma, largado na calçada todo sujo e sem documentos. Até hoje não sabe como chegou ao hospital.

Em Santiago não foi tão feio. Ele achou que podia tomar apenas um copo, perdeu o controle e quis arrumar confusão. Foi levado para casa xingando quem aparecia, reclamando que colocaram algo em sua bebida.

Ao acordar, hoje pela manhã, o doente olhou-se no espelho e se convenceu de que pode resolver tudo sozinho. Não pode. Outras recaídas estarão no caminho se o primeiro passo não for dado.

Mas é preciso ter coragem. E humildade.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 16.jun.2015 às 7:53h

(publicada ontem, no Lance!)

O DIFERENTE

1 – Em uma sádica rodada de abertura para os favoritos teóricos na Copa América, a Seleção Brasileira não demorou a sofrer no Chile. David Luiz e Jefferson tomaram decisões erradas na primeira oportunidade que tiveram, acossados por Guerrero na área. Cueva marcou para o Peru e o conhecido “peso da estreia” ganhou outra dimensão.

2 – Por pouco tempo. Um gol do Barcelona logo igualou as coisas em Temuco, quando a zaga peruana ignorou a presença de um dos melhores jogadores do mundo no meio da área. Ótimo cruzamento de Daniel Alves para o cabeceio de Neymar.

3 – Menos de cinco minutos e dois gols que contradizem tudo o que foi treinado e conversado na preparação para o jogo. O futebol tem vontades próprias e uma saudável resistência a ser dominado.

4 – Jogo bruto entre Guerrero e os defensores brasileiros, especialmente Miranda. Contato adicional de ambos os lados, do tipo que fica dentro do campo quando o jogo acaba. O temperamento discreto de Miranda esconde um zagueiro que não admite bullying, seja de quem for.

5 – Formidável Neymar, exercendo protagonismo e iludindo marcadores com superioridade técnica. Mas um pouco exagerado na irritação com a arbitragem. O problema é que árbitros hoje em dia tendem a perder a razão com toda a sorte de bobagens. Neymar levou um cartão amarelo por limpar a espuma usada para marcar a posição de bola nas cobranças de falta.

6 – Comandantes da arbitragem nacional, entusiastas do juiz-estrela, já estudam a importação do mexicano Roberto García para apitar no Campeonato Brasileiro. Na espuma dele ninguém toca.

7 – O Peru teve sucesso na tentativa de dificultar a saída da Seleção desde trás, mas falhou repetidas vezes na marcação em seu próprio campo. O Brasil não deveria perdoar esse nível de liberdade.

8 – O segundo tempo trouxe sérias dificuldades do Brasil para controlar a posse, o que gerou no Peru a certeza de que poderia vencer o jogo. O tímido número de ocasiões criadas foi tão preocupante quanto os defeitos de finalização, até mesmo com Neymar, que falhou em um chute de pé esquerdo já nos minutos finais.

9 – Mas o astro do Barcelona não precisa fazer gols para desequilibrar partidas. O que se percebe nesta Seleção é a falta de outros jogadores que tenham visão para construir lances como o que determinou a vitória do Brasil. O passe para Douglas Costa, desmarcado e beneficiado pela atenção defensiva que Neymar provoca, simplesmente decidiu o jogo.

10 – A estreia deixou impressões conhecidas: Neymar é, hoje, a distância entre o Brasil e adversários historicamente inferiores. Também é um jogador que não encontra similares em sua própria seleção. Solução e, indiretamente, problema. Dar a ele a companhia que merece e que o time necessita é uma questão de oferta e escolha. Na Copa do Mundo, ficou evidente que quem precisava de ajuda para ativar Neymar era Oscar. No torneio que começou ontem para o Brasil, nem Oscar está disponível.

11 – Na frieza dos números: todos os candidatos sofreram, nem todos venceram.

ACIDENTE

O primeiro tempo de Argentina x Paraguai poderia ter terminado com vantagem de 4 x 0 para os vice-campeões mundiais, e não seria nenhum exagero. Técnicos que recuam suas equipes para proteger um placar favorável, e pagam o preço pela postura medrosa, são criticados merecidamente por falta de ambição. Não foi o que fez Gerardo Martino, que mandou Tevez e Higuaín a um jogo que vencia por 2 x 0. O empate em 2 x 2 se explica porque a Argentina jogou mal no segundo tempo, e porque o futebol é um raro esporte em que o resultado nem sempre condiz com o desempenho. Em termos de jogo, o encontro teve um claro vencedor. Essa é uma das situações em que um placar decepcionante desafia as convicções de um técnico, provocando-o a supervalorizar um acidente. Aqueles que deixam de aplicar os conceitos nos quais acreditam costumam se arrepender.

NOTINHAS PÓS-RODADA

por André Kfouri em 15.jun.2015 às 9:31h

Os jogos da rodada 7 do BR-15:

* Em dois jogos seguidos em casa, o Atlético Mineiro (2 x 2 com o Santos: Ricardo Oliveira, Werley-contra, Dátolo e Gabriel – 10.536 pagantes no Independência) fez apenas um ponto.

* O Santos terminou a rodada no U-4.

* O São Paulo (1 x 0 na Chapecoense: Souza – 8.712 presentes na Arena Condá) lidera, e com a melhor defesa do campeonato.

* Lindo gol de Souza.

* Para conseguir a segunda vitória seguida, o Flamengo (1 x 0 no Coritiba: Eduardo da Silva – 12.043 pagantes no Couto Pereira) sustentou o placar com um jogador a menos durante todo o segundo tempo.

* O que dá a medida da debilidade do time do Coritiba.

* Um golaço de falta de Jadson abriu o caminho para a virada do Corinthians (2 x 1 no Internacional: Nilmar, Jadson e Vagner Love – 27.572 pagantes na Arena Corinthians ).

* O Internacional, único time brasileiro na Copa Libertadores, está oficialmente no pelotão de trás do campeonato.

* O Sport (2 x 1 no Joinville: Maikon Leite-2 e Marcelinho Paraíba – 11.020 pagantes na Ilha do Retiro) é um dos dois únicos times invictos.

* E o Joinville, um dos dois únicos times sem vitória.

* O outro time zerado no campeonato é o Vasco, derrotado em casa pelo Cruzeiro (3 x 1: Leandro Damião-2, Charles e Rodrigo – 5.072 pagantes em São Januário).

* Leandro Damião voltou a marcar após cinco jogos em branco.

* Pouco a dizer sobre o 0 x 0 entre Ponte Preta e Goiás (9.846 pagantes no Moisés Lucarelli), além da chance perdida pela Ponte de se colocar entre os quatro primeiros.

* O gramado encharcado prejudicou muito o clássico catarinense (Avaí 1 x 1 Figueirense: Anderson Lopes e Marquinhos – 8.041 presentes na Ressacada), que não acontecia desde 2011 na Série A.

* Nenhuma ocorrência de violência entre torcedores registrada, algo a se comemorar.

* O Palmeiras finalmente venceu (2 x 1 no Fluminense: Jean, Rafael Marques e Cristaldo – 26.181 pagantes no Allianz Parque) em casa.

* Cristaldo perdeu e reencontrou o gol da virada, no mesmo lance.

* O Grêmio subiu seis posições com a vitória (2 x 1: Giuliano, Hernani e Rhodolfo – 17.781 pagantes na Arena do Grêmio) sobre o ex-líder Atlético Paranaense.

* O Atlético não perdia desde a segunda rodada.