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GUARDIOLA NO RIO

por André Kfouri em 03.set.2015 às 17:33h

Mais um evento para falar de um livro fenomenal, agora no Rio de Janeiro.

Convite digital_Guardiola_Travessa RJ

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 01.set.2015 às 8:49h

(publicada ontem, no Lance!)

CENÁRIOS

Ao final do domingo, a parte de cima da classificação do Campeonato Brasileiro confirmava a impressão sugerida pelo encerramento das oitavas de final da Copa do Brasil: Corinthians e Atlético Mineiro dividem o caminho menos complicado para o título, enquanto seus perseguidores, todos eles, têm a Copa do Brasil como objetivo mais realista.

Claro que é uma ideia que não corresponde aos fatos (mesmo porque, no caso do Atlético, a eliminação do torneio em mata-mata se materializou apenas nos últimos minutos do jogo contra o Figueirense), mas uma olhada nos seis primeiros lugares do BR-15 convencerá o observador menos atento de que os jogos do meio da semana passada deixaram os envolvidos satisfeitos. Até alguns dos eliminados.

Além do Corinthians e do Atlético, que almejam um troféu e não precisam mais dividir forças, o Cruzeiro e o Coritiba podem ser dedicar sem distrações ao que está realmente ao alcance de seus elencos no restante do ano: evitar o rebaixamento para a Série B. Nesta, o Ceará tem a mesma pretensão, enquanto o Paysandu pensa no acesso à primeira divisão. Ao Flamengo, de fato, não há consolo. A queda para o rival foi, em si, suficientemente constrangedora, e a perspectiva no BR-15 não empolga.

Para os classificados às quartas de final da Copa do Brasil, exceção feita ao Vasco e ao Figueirense, a possibilidade de uma conquista e de um fim de ano em alta mantém times e torcidas animados. Grêmio, Palmeiras, São Paulo e Fluminense – do terceiro ao sexto no Brasileirão, nesta ordem – podem, mesmo considerando evidentes diferenças de desempenho no momento, sonhar com o troféu da CB, enquanto estabelecem o G-4 do Campeonato Brasileiro como alvo.

O raciocínio não se aplica a Vasco e Figueirense porque pode-se afirmar, sem risco de levar uma – mais uma – lição do futebol, que nenhum deles será campeão da Copa do Brasil. Sobre o Vasco, especialmente, pesa o fato de que nem essa improbabilíssima alegria compensaria um 2016 na Série B, de modo que seria melhor se concentrar no que é mais importante. Ainda há cinquenta e um pontos a serem disputados.

Internacional e Santos provavelmente inverterão o eixo de suas temporadas. Situados do meio para baixo na classificação do Brasileirão, o bom senso indica que a Copa do Brasil será a prioridade. Aqui é preciso abrir parênteses para o time dirigido por Dorival Júnior, cuja posição não é compatível com o nível de jogo demonstrado nas últimas semanas. Nenhuma equipe deveria querer encontrar o Santos nas quartas de final da CB, pois isso significará ter de superar um adversário que domina os conceitos de competição em jogos de dupla eliminatória. O Santos adoraria não ser visto como um candidato, um equívoco que os demais classificados não podem cometer.

Quanto aos líderes do Campeonato Brasileiro, a corrida continua após vitórias cruciais como visitantes, na Arena Condá e no Maracanã. A manutenção deste cenário está nos pés de Corinthians e Atlético Mineiro, que nada mais têm a fazer.

P DA VIDA

O Chelsea, vigente campeão inglês, faz péssimo início de temporada, com quatro pontos após quatro rodadas. O mau momento vem acompanhado de uma dessas coincidências que parecem ser algo mais: as sete últimas derrotas do técnico José Mourinho na Liga Inglesa aconteceram para times dirigidos por técnicos cujo sobrenome começa com a letra P: Pullis, Poyet (duas vezes), Pardew (duas vezes), Pochettino e Pellegrini.

P DE “PARDAL”

Não é inédito, mas também não é comum. No sábado, um time dirigido por Pep Guardiola jogou sem nenhum zagueiro de ofício. A escalação inicial do Bayern de Munique na vitória por 3 x 0 sobre o Bayer Leverkusen, pelo Campeonato Alemão, tinha um goleiro, três laterais, três meio-campistas e quatro atacantes. Ok, Guardiola é um treinador reconhecidamente inventivo, mas não há motivo para rotular de “professor pardal” quem bebe da mesma fonte.

NÃO HOUVE, NÃO HÁ, NÃO HAVERÁ

por André Kfouri em 31.ago.2015 às 19:34h

O torcedor são-paulino que passou os últimos dias preocupado com a possibilidade de Alexandre Pato deixar o clube, perdeu seu tempo. Não porque Pato ficou, mas porque não houve nenhuma proposta por ele, de modo que não era necessário sequer pensar no assunto.

O que houve foi uma tentativa, bem sucedida, de desviar a narrativa da cobertura do clube, retirando atenção do que era verdadeiramente importante (a discussão do plano de reestruturação da gestão) para o que não tinha valor algum (a “saída” de Pato).

O ambiente político de clubes de futebol, independentemente do tamanho, é baseado na manutenção e na perspectiva de poder. Este é o contexto que prevalece na tomada de decisões, em todos os níveis e sobre todos os assuntos. Você pode levar Lionel Messi a qualquer clube brasileiro e dizer que o gênio argentino não custará um centavo e permanecerá por três anos, e mesmo assim não o deixarão trocar de roupa antes de uma análise sobre como a novidade influenciará o balanço de forças nos gabinetes.

Por isso, certamente haveria quem dissesse não à oportunidade de ter o melhor jogador do mundo por três temporadas, sem custo. Porque nos movimentos do jogo político que domina mentes, mãos e canetas, nem sempre conta o que é melhor para o clube. Há lugares em que o “nem sempre” pode ser substituído por “quase nunca”.

A falsa expectativa sobre um negócio iminente envolvendo Alexandre Pato serviu àqueles que não pretendem discutir, com a profundidade que o tema merece, as mudanças de governança sugeridas pelo executivo Alexandre Bourgeois. O plano deveria ter sido analisado em uma reunião do Conselho Consultivo do São Paulo, na última sexta-feira, de forma a resultar em um cronograma de medidas práticas.

A reunião protelou o assunto, como se não fosse suficientemente urgente.

E sob o argumento de que tal conselho é formado apenas por ex-presidentes, o empresário Abílio Diniz – que indicou a contratação de Bourgeois e há tempos alerta os conselheiros do São Paulo a respeito da necessidade de mudar a forma como o clube é administrado – não foi convidado para a reunião.

O plano de reestruturação de gestão obviamente altera a forma como o poder é dividido no São Paulo, um cenário que não interessa a muitas figuras que se agarram às suas cotas e/ou pretendem aumentá-las. Em momentos como esse, até adversários que não se falam há décadas formam alianças repentinas contra um “inimigo comum”.

A reação ao envolvimento de Diniz demonstra o mesmo receio, o que é revelador sobre a mentalidade que impera. A aproximação de um empresário desta estatura foi bem vista, inicialmente, como possível solução para os problemas financeiros do São Paulo. Mas quando ficou evidente que a intenção de Diniz é ser uma influência transformadora na maneira como o clube é dirigido, e não um saldador de dívidas, o interesse arrefeceu.

Veja: a experiência administrativa e as ideias de alguém como Abílio Diniz, oferecidas de graça e com a boa vontade que caracteriza um torcedor como ele, não são valorizadas pelo comando do São Paulo. A simples menção ao nome do empresário faz gelar certas espinhas intranquilas, temerosas de que o real objetivo de Diniz seja se tornar presidente do clube.

Como se fosse possível evitar tal realidade, se Abílio Diniz realmente desejasse o posto.

O fato é que essa discussão “não interessa”. Assim, uma história precisava se apoderar da ordem do dia no São Paulo, e, apesar de tudo se resumir a apenas uma sondagem do Olympique de Marselha (descartada quando os franceses informaram quanto estariam dispostos a desembolsar), uma invenção denominada “Pato pode sair até o final da janela europeia” ganhou asas.

Não voou, claro, mas cumpriu seu papel.

Enquanto isso, o clube tem recursos para honrar seus compromissos até, no máximo, o final do mês de setembro. Para o restante do ano, conta com as luvas do contrato de televisão do Campeonato Paulista de 2016, que, de acordo com fontes bem informadas, não chegarão tão cedo.

Mas este cenário tenebroso é tratado com desdém pelas pessoas que deveriam estar empenhadas em não apenas evitá-lo momentaneamente, mas garantir que não voltará a se apresentar. Nos corredores, prefere-se fofocar sobre a mensagem de WhatsApp enviada para o celular de Juan Carlos Osorio, após a derrota para o Ceará. O autor e o teor do recado levaram o técnico colombiano e decidir pedir demissão. Milton Cruz e Ataíde Gil Guerreiro o convenceram a ficar.

A autoria da mensagem é conhecida por todos no departamento de futebol. A caracterização oferecida por Osorio, durante entrevista coletiva naquela noite de quinta-feira, sugere um raciocínio direto que se afasta da verdade. A verdade é surpreendente.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 30.ago.2015 às 10:46h

(publicada ontem, no Lance!)

MAL ESTAR

Horas após as prisões de maio no hotel Baur Au Lac, Marco Polo Del Nero arrumou as malas e foi para o aeroporto de Zurique. O presidente da CBF lidava com a urgência de voltar para casa, sensação que se sobrepôs às responsabilidades como membro do comitê executivo da Fifa. Del Nero também era movido por um repentino surto de sinceridade, um desejo irresistível de oferecer satisfações públicas em nome da confederação, uma das protagonistas do escândalo revelado pela polícia federal dos Estados Unidos.

Essa caracterização não é uma impressão. Foi o próprio Del Nero – apesar da expressão tensa e do tom pouco convincente – quem explicou o motivo pelo qual retornou ao Brasil, durante uma entrevista coletiva na ex-sede José Maria Marin, no dia 29 de maio: “É um momento difícil para a CBF. Uma vez que nós estivemos envolvidos com um ex-presidente e o atual vice-presidente. Face a (sic) esse momento difícil, resolvi partir da Suíça para o Rio de Janeiro para poder de forma positiva, de forma correta, cumprir e dar as explicações necessárias não só às autoridades, mas à imprensa do Brasil”. Mais adiante, o cartola repetiu sua intenção, de maneira mais elaborada: “Conversei com o presidente da Conmebol e outros dirigentes sobre a necessidade de voltar ao país para comandar as explicações seja onde for. No Ministério da Justiça, na Polícia Federal, na procuradoria, enfim, em todos os setores que necessitarem de explicações, vamos lá. Por isso, estamos presentes”.

Exatos três meses depois, a diferença entre o discurso e a postura de Del Nero é maior, bem maior, do que a distância que separa Zurique do Rio de Janeiro. Os trabalhos da CPI do Futebol chamaram o dirigente (e a CBF) a honrar as declarações que deu, mas, estranhamente, sua conduta indica uma reversão de rumo tão radical que parece que a ideia é voltar ao aeroporto e embarcar em um avião sem destino. Ocorre que, como sabemos, essa possibilidade está fora de questão. A fobia de voar é uma condição séria e assim deve ser tratada.

Del Nero resolveu ir à Justiça contra a decisão da CPI de quebrar seus sigilos bancário e fiscal. Em um país que produz corruptos em maior escala do que jogadores de futebol – a relação é cruel com o futebol nos últimos anos, é verdade -, a abertura de sigilos é uma ocorrência quase banal. É comum vermos pilantras certificados, diante de evidências mais do que suficientes para que se dirijam voluntariamente à delegacia mais próxima, declararem que suas informações estão à disposição das autoridades. O rastro, obviamente, não está documentado. Mas Del Nero, que sustenta nada dever, pretendia que o Supremo Tribunal Federal impedisse a CPI do Futebol de verificar seus dados. Não deu certo. Em decisão divulgada ontem, o Supremo indeferiu o pedido dos advogados do cartola.

A CBF acompanhou a postura de transparência zero de seu presidente. A entidade também quer que o STF não permita que a CPI conheça a distribuição de dinheiro para as federações estaduais, assim como os contratos de direitos de televisão e de exploração da Seleção Brasileira. O surto de sinceridade do comando do futebol brasileiro foi um mal estar passageiro. Ou um “posicionamento” sugerido pelos sábios que habitam os gabinetes e se consideram estrategistas de comunicação. O FBI está próximo, a batalha pela opinião pública está perdida, resta apelar às conexões políticas que transformaram o Brasil no paraíso dos malandros.

À FORÇA

Os cortes de Oscar e Ramires levaram Rafinha Alcântara e Philippe Coutinho à Seleção Brasileira, para os próximos amistosos. O futebol às vezes opera em condições de emergência, mas opera. Uma Seleção sem Coutinho, com as carências flagrantes dos tempos atuais, é uma provocação deliberada ao jogo.

ERA DE OURO

Lionel Messi, Roger Federer, Michael Phelps, Usain Bolt… que época privilegiada para quem gosta de esportes.

CAMISA 12

por André Kfouri em 28.ago.2015 às 8:01h

(publicada ontem, no Lance!)

IMPECÁVEL

1 – O Santos tentou marcar no campo de ataque, mas a saída do Corinthians conseguia fazer a bola chegar ao outro lado, e a dinâmica do clássico, no início, era compatível com o que se esperava.

2 – O que fugiu um pouco ao roteiro foi a preferência do Corinthians por chutes de fora da área, como se acreditasse que poderia vencer Vanderlei pela insistência. Ocasião, de fato, apenas uma: com Renato Augusto, à esquerda do gol.

3 – O Corinthians dominava a bola e era dedicado, também por não ter outra alternativa. Esse era provavelmente o jogo que o Santos desejava, pois resultava em generoso espaço para seus atacantes correrem. E o placar construído na ida indicava que os visitantes na Arena não precisavam de volume, mas de uma estocada bem sucedida.

4 – Só uma. Começou com quem jogadas perfeitas sempre começam: com aquele que sabe mais. Lucas Lima encontrou uma janela entre Edílson e Felipe. O passe para Geuvânio acelerar foi impecável, assim como a assistência para Gabriel, assim como o toque no contra-pé de Cássio.

5 – Lucas Lima recebeu a bola em seu campo, de costas para o gol corintiano. Deu seis toques enquanto se movia da direita para a esquerda, observado por quem deveria temê-lo. Punição encomendada e recebida.

6 – O gol santista anestesiou o público e converteu o restante do jogo em desgaste desnecessário. O Santos passou a jogar pensando na próxima fase, e o Corinthians, no Campeonato Brasileiro. No intervalo, ambos nutriam um desejo comum: que o segundo tempo não demorasse a passar.

7 – O Santos de Dorival Júnior é um time atualizado e absolutamente ciente do que deve fazer. Também possui uma característica que o torna ainda mais perigoso: não para de correr. Cuidado.

8 – O gol de Ricardo Oliveira, em jogada que foi uma cópia invertida da abertura do placar, encerrou a competição definitivamente, aos dezenove minutos. Romero ainda marcou, mas o Santos foi o senhor deste confronto.

PARABÉNS

De vez em quando, o futebol aplica uma lição exemplar em dirigentes viciados em “fatos novos”. Quem tomou a decisão de dispensar do Cruzeiro o técnico bicampeão brasileiro, atualmente não só amarga uma temporada repleta de enxaquecas, como foi dispensado por Marcelo Oliveira e pelo Palmeiras da Copa do Brasil. E mais um “fato novo” está a caminho…

UM PALMO

Quem achou que a derrota do São Paulo para o lanterna da Série B, na semana passada, foi uma atrocidade de tal ordem que o técnico tinha de pagar com seu emprego, deve estar lidando com sensações contraditórias nesta quinta-feira. Mesmo que argumente que os 3 x 0 na casa do Ceará “não foram mais do que obrigação”. É preciso enxergar além de um jogo.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 25.ago.2015 às 8:11h

(publicada ontem, no Lance!)

A CEGUEIRA VOLUNTÁRIA

Quando o Bayern de Munique decidiu fazer um cheque de 30 milhões de euros para contratar Douglas Costa, o atacante brasileiro estava a serviço da Seleção, na Copa América do Chile. Os especialistas que não compreenderam a convocação do ex-jogador do Grêmio raciocinaram rápido: marcaram a transferência com o carimbo das negociações intrigantes que costumam envolver atletas brasileiros menos conhecidos, logo após – ou, como vimos, durante – passagens pelo time nacional.

Durante a pré-temporada do Bayern, Pep Guardiola comentou a colaboração que esperava de Douglas, com uma declaração que mencionava sua capacidade de causar danos pelos dois lados do campo. Guardiola – que deve saber uma coisa ou outra sobre futebol ofensivo – também argumentou que as características do brasileiro fariam de seus companheiros de ataque jogadores ainda melhores. Os elogios caíram em certos estômagos como essas bistecas de 600 gramas, brutas para digerir.

Nas ondas matinais de uma emissora de rádio paulistana, as palavras do técnico catalão soaram como um insulto ao orgulho do país pentacampeão do mundo, ainda que a eliminação nos gramados chilenos por obra da potente seleção paraguaia estivesse morna. A voz de um expert em futebol internacional carregou-se de tom jocoso ao perguntar a colegas de estúdio, e ouvintes, se Guardiola se referia a Garrincha ou Pelé. Risos se seguiram em concordância, acompanhados de murmúrios sobre o estado de saúde do futebol brasileiro.

A fase ucraniana da carreira de Douglas Costa não teve exposição semelhante à dos nomes mais comentados de jogadores brasileiros na Europa. Ele disputou cinco temporadas em uma liga escondida, mas jogou em um time que tem sido destino de muitos compatriotas nos anos recentes. O Shakhtar Donestk também é uma presença constante na Liga dos Campeões da Uefa, um torneio que pode ser encontrado na televisão sem muito esforço. Sem dizer que, no mundo que conhecemos hoje, a internet é capaz de nos levar a absolutamente todos os lugares aonde desejamos ir. De modo que, se Douglas não tinha a visibilidade de Neymar, é um flagrante exagero compará-lo ao Pé Grande. Em trinta e oito atuações por competiçõs europeias, ele marcou seis gols.

Pecado mais grave, ao que parece, é desconsiderar um comentário técnico de um treinador como Pep Guardiola. Como se ele tivesse obrigação de satisfazer a curiosidade nacional a respeito do investimento que o Bayern fez. Em duas partidas pelo Campeonato Alemão, Douglas manteve o nível que mostrou na pré-temporada, revelando-se – como Guardiola sugeriu – um perigo nos extremos do gramado e um assistente dos atacantes do Bayern. Os dois gols da vitória de sábado sobre o Hoffenheim foram criados por ele em jogadas pelas pontas, uma pela esquerda e outra pela direita.

Há quem diga, talvez com exagero, que em breve a torcida do Bayern não sentirá a falta de Arjen Robben e Franck Ribéry. Incensar um jogador promissor é tão errado quanto dispensá-lo. A diferença é que aqueles que o elogiam ao menos o veem jogar.

TRATAMENTO

Jogadores como Douglas Costa, bem utilizados em clubes da Europa, desafiam a falácia de que o maior problema da Seleção Brasileira é a falta de talento disponível. Defensores dessa tese jogam o jogo dos dirigentes que permitiram que o símbolo do futebol brasileiro chegasse ao ponto em que se encontra. O que falta é tratar a Seleção como um time, e não como um outdoor ambulante.

“NO ECZISTE”

Outra falácia é que diz que existem jogadores que só têm bom desempenho em clubes, mas não na seleção. Uma fantasia equivalente à crença na existência do lobisomem. Quem acredita nessa diferenciação faz pouca ideia do funcionamento do jogo de futebol, e deve procurar o Padre Quevedo.

FAÇANHA

Juan Carlos Osorio revelou que recebeu uma mensagem de um diretor do São Paulo, após a derrota para o Ceará, que o deixou “muito surpreso”. A gestão são-paulina tem conseguido feitos incríveis.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 23.ago.2015 às 10:16h

(publicada ontem, no Lance!)

RASCUNHOS

Do ponto de vista estritamente esportivo, demitir um técnico após dezoito jogos nada mais é do que uma confissão de incompetência generalizada. Todas as maquiagens geralmente expostas por quem tomou a decisão – “fato novo”, “correção de rumo” e especialmente expressões que comprovam a falta de nível da classe dirigente do futebol brasileiro, como “não deu liga” – devem ser tomadas pelo valor que têm: nenhum. Zero.

Aqueles que acreditam ser capazes de avaliar o trabalho (repetindo: o trabalho) de um treinador em um período que não alcançou três meses completos não deveriam estar em posições tão importantes, pois não dominam o processo que deveriam proteger. Se menos de noventa dias são suficientes para concluir que um técnico de futebol não serve, o que dizer sobre quem o procurou, o ouviu, o analisou, ponderou sobre a contratação e a concretizou? Tudo isso em tese, claro, porque não se pode garantir que o equívoco foi cometido com esse grau de diligência.

A decisão da diretoria do Flamengo de dispensar Cristóvão Borges confirmou a sensação de que ele não era a escolha certa para substituir Vanderlei Luxemburgo, que não era a escolha certa para substituir Ney Franco, que não era a escolha certa para substituir Mano Menezes. Mano deixou o clube por conta própria, mas seu sucessor foi demitido de forma desrespeitosa, um erro assumido pelo presidente Eduardo Bandeira de Mello. Quem entendeu como correta a troca de Jayme de Almeida por Ney, em maio do ano passado, hoje contabiliza a terceira mudança de comando desde então. É absolutamente impossível montar um time nessas condições.

O futebol brasileiro trata treinadores como provisórios, o que significa tratar times como rascunhos. É um comportamento infantil, como pegar um caderno com a ideia de fazer um desenho e rasgar as páginas ao menor sinal de descontentamento com os próprios rabiscos. Cada espaço em branco é um novo começo, mas o resultado não será diferente enquanto a criança não aprender a desenhar. Nesse contexto, Oswaldo de Oliveira é a próxima página a ser rasgada. Que chance ele tem?

A história da demissão de Cristóvão fica ainda mais feia quando lembramos do abuso que ele recebeu não só por ser negro, mas por não sofrer em silêncio. Os exemplos de preconceito que inundaram as redes antissociais não carecem de interpretação: são provas de “pensamento” primitivo estimulado pela valentia que se apodera de mentes irrecuperáveis. O problema não é a crítica, é o tom, o ataque, o veneno que ele carrega por levar em conta um aspecto que não faz parte do debate. E ainda há quem não compreenda. Repugnante.

A repercussão, especialmente online, da entrevista (à ESPN Brasil) em que Cristóvão tocou no assunto foi marcada por preciosidaes do tipo “que hipocrisia! O fato de ser negro não pode impedir alguém de ser criticado”. Como se a sinceridade do ex-técnico do Flamengo fosse uma estratégia para ser poupado pela compaixão de quem lhe detesta. Como se as ofensas lhe prestassem um serviço de imagem. Que bom seria se o principal problema de Cristóvão fosse ter perdido o emprego por decisão de quem não compreende seu trabalho.

ESPERANDO A VOLTA

O líder do Campeonato Brasileiro (que não ganha clássicos) perdeu na Vila Belmiro por um placar difícil de recuperar. O lanterna do Campeonato Brasileiro (que não perde clássicos) ganhou do maior rival no Maracanã. E o lanterna do Campeonato Brasileiro da Série B – com um time todo alterado – venceu o São Paulo no Morumbi. Sabemos que o mata-mata tem dessas coisas e que a Copa do Brasil é interessante por isso, mas os jogos de ida das oitavas de final já apresentaram um cartão de visitas que é um convite a continuar acompanhando.

VER E HAVER

Frases entre as quais só há palavra de diferença, mas uma enorme distância: “não há nada de novo no trabalho desse técnico” e “não vi nada de novo no trabalho desse técnico”.

CAMISA 12

por André Kfouri em 21.ago.2015 às 8:15h

(publicada ontem, no Lance!)

DISTÂNCIA

1 – A blitz santista começou no primeiro apito e revelou ter energia para longa duração. Baseou-se na ocupação do campo de ataque e na notável capacidade de movimentação dos três atacantes, constantemente trocando de posição para confundir a vigilância corintiana.

2 – O Corinthians se sentiu preso na Vila. Não conseguia sair, tampouco marcar. Um defeito de encaixe no meio de campo provocou aflitivos – para Tite – encontros entre Ricardo Oliveira e Felipe e Geuvânio e Fágner. A bola rondava a área de Cássio com o volume que oferece perigo mesmo sem ocasiões claras.

3 – Na primeira jogada precisa, gol. Os zagueiros corintianos provavelmente ficaram maravilhados com o passe de Lucas Lima, pelo alto, à procura de Gabriel. Enquanto admiravam a trajetória da bola, permitiram que o jovem atacante se erguesse para cabecear sem ser incomodado.

4 – O domínio do Santos era tal que dava a impressão de que o Corinthians tinha um jogador a menos, ou que estava proibido de ficar com a bola.

5 – Lucas Lima criou outro gol para o Santos, no terceiro minuto do segundo tempo. Para Ricardo Oliveira, que não costuma perdê-los e, de fato, não perdeu. Foi Cássio quem evitou que a vantagem santista dobrasse de tamanho.

6 – Como é o normal em jogos deste tipo, o Corinthians se adiantou e passou a conservar a bola. Era a única maneira de realmente disputar um clássico até então desequilibrado. Faltava ser competente na região do campo em que o Santos era absoluto.

7 – Mas falhar atrás não era uma opção. A tabela entre Marquinhos Gabriel e Lucas Lima ficou óbvia a partir do momento em que Lucas foi esquecido pela marcação próxima à área. O Corinthians deu espaço e tempo a um jogador que faz muito com pouco: 2 x 0, placar merecido.

8 – O Corinthians se recusou a jogar por muito tempo. Quando tentou, não foi capaz. O Santos fez tudo certo para construir uma vantagem larga entre equipes de potencial semelhante.

APITANDO COM…

A crise do apito no futebol brasileiro chegou ao ponto em que os árbitros se voltaram contra a televisão. Cansados de ser expostos pela tecnologia de transmissão, que mostra o jogo com um nível de realismo inatingível para olhos humanos em campo, eles protestam contra as análises feitas a cada rodada. De fato, uma covardia flagrante, mas a TV não é o problema.

… O INIMIGO

O problema é quem teima em não colocar a tecnologia a serviço da arbitragem, para supervisionar o trabalho dos apitadores e assistentes, e corrigi-lo quando necessário. É a única maneira de garantir a lisura do resultado do campo e eliminar a indignação seletiva alimentada pelas teses conspiratórias. O futebol é, há muito tempo, um jogo diferente daquele que o árbitro vê.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 18.ago.2015 às 8:04h

(publicada ontem, no Lance!)

JOGAR E GANHAR

Doze pontos separam São Paulo e Goiás na classificação do Campeonato Brasileiro. Há dez times no espaço entre eles, uma prova inescapável da distância de desempenho que os posiciona em setores opostos da tabela. Se as mais de 25 mil pessoas que foram ao Morumbi na noite de sábado ouvissem um paranormal prever que o resultado do jogo seria 3 x 0, jamais imaginariam que fosse a favor do Goiás. Jamais. Nem os torcedores do Goiás.

A explicação para a vitória do time goiano reside na imprevisibilidade do futebol, mas encerrarmos a conversa aqui seria simplista demais. O São Paulo perdeu, e feio, para um time consideravelmente inferior porque, no futebol, existem várias formas de ganhar, mas só uma forma de jogar. O São Paulo quer jogar, porque é assim que seu técnico entende que deve ser, conforme conceitos que fazem todo o sentido, mas que demoram a ser convertidos em um conjunto confiável.

Há poucos times no mundo que se propõem a controlar partidas por intermédio da posse. Tal ideia não se limita a ter a bola por mais tempo do que o adversário, ainda que os percentuais sejam bons indicativos da intenção de uma equipe. A circulação da bola não é uma filosofia, mas uma ferramenta, e como tal, não levará ninguém a lugar algum se não for bem utilizada. O plano é trocar passes para se posicionar em campo, provocar situações de superioridade, induzir o oponente ao erro e criar ocasiões ofensivas. O processo para executá-lo de forma produtiva é longo, e, como o torcedor são-paulino pode atestar, arriscado.

Ainda é um exagero falar sobre “times de posse” no Brasil. Os líderes das medições no Campeonato Brasileiro estão abaixo dos 55% de controle da bola, em média. Um número insuficiente para estabelecer um caráter a ser exibido a cada rodada. Mas o São Paulo rondou os 60% de posse em sete das dezenove partidas do primeiro turno, o que sem dúvida revela uma estratégia. Adiantar linhas e levar o jogo a ser disputado no campo do adversário é uma proposta ousada. Quando bem aplicada, desequilibra encontros pela forma mais bela de domínio técnico que o futebol oferece. Quando falha, gera derrotas constrangedoras como a que o São Paulo sofreu no sábado.

É muito menos complexo preparar um time para se aproveitar dos equívocos de quem tenta jogar mas não é competente, ou ainda não está pronto. São os proponentes da tese de que quem tem a bola comete mais erros e que a disputa favorece a quem erra menos. Usando números da temporada passada na Premier League inglesa, equipes que tiveram mais posse de bola venceram 41% das partidas, um indício favorável ao plano de jogo “oportunista” de quem se considera tecnicamente inferior. E que confirma que tempo de posse não equivale a sucesso.

Jogar é mais difícil do que ganhar. Contra o Goiás, o São Paulo ficou com a bola por 63,3% do tempo e trocou 544 passes, mais do que o dobro do rival (números da Footstats). Perdeu por 3 x 0. Um dia antes, um time europeu teve quase 75% de posse, com 711 passes, quase o triplo do adversário. Perdeu por 4 x 0. Foi o Barcelona.

SORRISO​

Permanece a impressão de que há mais times dispostos a encarar os jogos do Campeonato Brasileiro com uma postura mais aberta, menos preocupada. A vitória do Palmeiras sobre o Flamengo, ontem pela manhã, confirmou a sensação que deu o ar de sua graça há algumas rodadas. Se essa propensão a correr mais riscos é uma herança da Copa do Mundo, só os técnicos podem dizer. O fato, claro, é mais significativo do que as razões. Além de partidas equilibradas e disputadas, o campeonato tem apresentado jogos realmente bons.

O QUE VEM AÍ

Ao final do primeiro turno do BR-15, a diferença do líder para o quarto colocado é de seis pontos. Do terceiro para o sétimo, apenas dois. A proximidade entre os times na classificação, e, mais importante, entre suas capacidades, é um prenúncio de boa disputa na segunda metade do campeonato.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 16.ago.2015 às 10:54h

(publicada ontem, no Lance!)

ONZE PASSES

O primeiro gol do Grêmio no Mineirão, anteontem, não foi apenas uma preciosidade do futebol brasileiro em 2015. Foi uma maravilha do futebol mundial. Tivesse sido construído por um dos times mais famosos da Europa, seria assunto por dias, e merecidamente. Fosse mais uma obra do Barcelona, de um extremo ao outro do campo em onze passes, e a escola catalã seria novamente glorificada ao redor do mundo.

Mas é ótimo que a jogada – mais até do que o gol – tenha acontecido no Campeonato Brasileiro, competição disputada com notável equilíbrio, em que não se pode prever o campeão, mas considerada uma espécie de Série C do futebol do planeta. O fato de um time doméstico ser capaz de se mover com a bola dessa maneira, reunindo os conceitos de jogo coletivo que estamos mais acostumados a ver pela televisão, comprova que não é necessário ter craques internacionais para trocar passes hipnotizantes e, usando uma expressão muitas vezes mal compreendida, jogar bem.

O Grêmio fez tudo certo em vinte e cinco segundos de esplendor coletivo. Do início ao fim, o movimento obedeceu aos mandamentos estabelecidos por holandeses e catalães, professores de evolução com a bola dominada: associações em dois toques, trocas de posições, quem recebe a bola de frente para o gol adversário toca sempre para frente, quem a recebe de costas a entrega a quem está de frente. Organizar-se para desorganizar. Não houve um drible sequer desde o primeiro passe, de Rafael Galhardo, até a conclusão de Douglas. O Grêmio se transportou como uma unidade, com jogadores próximos e toques rápidos. Um espetáculo.

O conformismo que se disseminou pelo futebol no Brasil gerou a falsa verdade de que “técnicos trabalham com o que têm”. Os problemas do calendário e as dificuldades que se apresentam para a montagem de equipes colaboram para que se aceite que tenhamos times que não jogam, apenas competem. Técnicos que se satisfazem com este cenário ficam confortáveis para fazer mais do mesmo, e a roda segue girando sem sair do lugar. Roger Machado aparentemente quer algo mais, pois, se não quisesse, o Grêmio continuaria a entregar a bola ao adversário quando pressionado em seu campo. O time gaúcho não subiu na classificação por acaso, sequência de jogos fáceis ou o infame “fato novo”. O nível de jogo apresentado é evidentemente superior.

O desfile gremista no Mineirão sorriu para os acomodados, mostrando a eles o que acontece quando se trabalha com ambição e outro padrão de exigência. Para tanto não basta querer, é preciso dominar ideias e ter a intenção de ensiná-las. É preciso aplicá-las e repeti-las até que se automatizem. Nem que seja como resultado da frustração por ver times incapazes de levar a bola de um campo a outro, no país que sempre se orgulhou da qualidade técnica de seus jogadores. A jogada do gol de Douglas é uma síntese da convicção de que a vitória deve ser produto de coisas bem feitas. Que seja um objetivo dos indignados.

AULA

Conversar sobre futebol com Juan Carlos Osorio é uma experiência impactante. A falta de fluência em português não prejudica a clareza dos raciocínios, que sempre revelam o alcance da formação pessoal e profissional do técnico do São Paulo. É muito interessante ouvi-lo discorrer sobre métodos de treinamento, maneiras de dialogar com jogadores e como convencê-los a fazer o que nem sempre enxergam como necessário. A troca de conhecimento é o maior benefício que um ambiente pode almejar quando recebe alguém de fora. Ser refratário a compreender e aprender é uma das formas mais dramáticas de ignorância. Osorio fará muito bem ao futebol no Brasil se tiver suporte para trabalhar.

IDA E…

Marco Polo Del Nero disse a verdade na entrevista após a convocação da Seleção Brasileira. Ele pode mesmo ir a qualquer lugar do mundo. O problema é voltar.