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COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 22.jul.2014 às 10:17h

(publicada ontem, no Lance!)

PROCESSO DE SELEÇÃO

A oportunidade foi perdida. Seja qual for o nome apresentado amanhã pela CBF, a chance de iniciar o projeto de recuperação da Seleção Brasileira foi desperdiçada pelas pessoas que se consideram suas proprietárias. Não teremos nada a agradecer aos alemães pela exposição de nosso colossal atraso, pois continuamos a tomar decisões como se soubéssemos o que estamos fazendo.

O Brasil foi varrido da Copa do Mundo em seu próprio quintal no dia 8 de julho. O novo técnico será anunciado menos de duas semanas depois. É muito pouco tempo para fazer uma escolha de tamanha importância, que pede avaliação criteriosa das opções e elaboração minuciosa do que se pretende alcançar, quando, e como. Negligenciar as etapas obrigatórias de um processo de decisão bem informado é próprio de amadores, para usar um termo polido. Irresponsáveis, em português mais claro.

A eleição do próximo treinador da Seleção Brasileira deveria ser a conclusão de uma pesquisa feita com todo o capricho e nenhuma pressa. O momento era propício e os recursos estão à disposição. A CBF tinha o dever de reunir um grupo de ex-jogadores (três, para que houvesse votação em questões duvidosas) que estivessem antenados com o que se faz de mais moderno no futebol pelo mundo e determinar a eles o comando da operação.

Este grupo teria o tempo que considerasse necessário para fazer uma lista de candidatos, dentro e fora do Brasil. Os nomes escolhidos seriam consultados a respeito do interesse e disponibilidade para assumir o cargo. Aos que quisessem participar do processo, um plano de trabalho seria encomendado e uma entrevista agendada para que os treinadores apresentassem de que forma pretendem conduzir a Seleção Brasileira ao futebol de hoje. Enquanto isso, sem pressão, Gallo assumiria o time como interino.

Os candidatos seriam avaliados com base em critérios objetivos: filosofia de jogo, sistema, variações táticas, equipe de trabalho, aproveitamento e desenvolvimento de jogadores da base, métodos de treinamento, normas disciplinares, relacionamento com clubes e com a imprensa (porque é necessário representar a Seleção de maneira adequada). Aos estrangeiros, o nível de conhecimento do futebol brasileiro seria medido e levado em conta.

Aspectos subjetivos como “ele é linha-dura” ou “vai recuperar nossa auto-estima” e conceitos rudimentares como “precisamos privilegiar o coletivo para que o talento individual faça a diferença” não seriam abordados pois, afinal, estamos tratando do futuro técnico da Seleção Brasileira de futebol. E porque é exatamente esse patamar de primitivismo que proporcionou a fatídica tarde em que, por clemência do adversário, o Brasil não levou dez gols em uma semifinal de Copa do Mundo.

Ao final dos encontros e das deliberações, o melhor plano seria escolhido e um contrato oferecido ao técnico que possuísse as habilidades para executá-lo. E só aí uma entrevista coletiva seria marcada para apresentá-lo. É o tratamento que a Seleção Brasileira – e quem se importa com ela – merecia, negado pelo anacronismo de seus donos.

ARROTO

Um equívoco grave foi cometido na quinta-feira passada, no instante em que Gilmar Rinaldi declarou que não se pensava em técnico estrangeiro na Seleção. Em apenas uma resposta, os principais treinadores de futebol do mundo foram retirados do cenário. Isso não é trabalhar pelos melhores interesses da Seleção Brasileira. E é um triste sinal da soberba que reina na CBF.

SOBREVIVENTES

Não há técnicos de futebol no Brasil, mas técnicos de resultados. A culpa não é apenas deles, pois o calendário e o ambiente em que trabalham só lhes permitem sobreviver a cada rodada. Os técnicos brasileiros não treinam times, só preparam jogos. Também não desenvolvem jogadores, só os utilizam e os recuperam. Aí está uma das interseções entre a Seleção e o futebol no país. A Seleção Brasileira precisa de um técnico de futebol. Dunga, favorito aparente, está muito longe dessa qualificação.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 20.jul.2014 às 11:33h

(publicada ontem, no Lance!)

ANTIQUÁRIO

Um trecho da entrevista coletiva de anteontem na sede da CBF impressionou pelo potencial aflitivo. José Maria Marin, um dos presidentes da entidade, entrou em um loop de longos minutos para dizer apenas que seu respeito por Felipe Scolari (ele ignora o “Luiz”) tinha aumentado durante a Copa do Mundo. Até o ex-técnico da Seleção Brasileira deve ter se incomodado.

É preciso respeitar Marin e reconhecer um inegável feito: jamais um dirigente personificou tão perfeitamente o futebol de seu país. Ver Marin remete ao alemão Cornelius Gurlitt, o colecionador que mantinha em seu apartamento em Munique um tesouro secreto de obras de arte adquiridas durante a Segunda Guerra Mundial. Gurlitt nunca trabalhou, se comunicava por cartas escritas com canetas-tinteiro e foi ao cinema pela última vez nos anos setenta. Além da nacionalidade, há uma diferença clara entre eles: Gurlitt morreu em maio passado, aos 81 anos.

O futebol brasileiro precisa ser recuperado e a Seleção, atualizada. São processos diferentes, interligados por decisões políticas, mudanças estruturais e um planejamento de longo prazo que exige novos métodos e ideias. É obrigação da CBF estar à frente dessa reforma. Um cenário absolutamente impossível enquanto a tomada de decisões estiver nas mãos de Marin. Ou nas de Marco Polo Del Nero, cuja postura taciturna se assemelha à da aranha que usa a sombra de sua vítima para se proteger do calor.

A única preocupação deles é manter a caixa registradora faturando. Enquanto a Seleção Brasileira for tratada como garota de programas da CBF, nenhuma goleada será suficientemente humilhante (lembre-se que a eleição na confederação foi antecipada, para que a Copa não atrapalhasse o projeto de poder). Mais botox, implantes maiores, saias menores e, lógico, celular sempre ligado. A revolução que poderia fazer com que nos recordássemos do dia 8 de julho de 2014 como um início não lhes passa pela cabeça. Steve Jobs não conseguiria marcar uma reunião com essas figuras, se fosse vivo.

A apresentação de Gilmar Rinaldi simula eficiência e exime os dirigentes de suas responsabilidades. A posição de coordenador de seleções demanda proximidade do jogo, do campo, para diferenciar o que é moderno do que já passou. Noção que não se adquire com turnês pelos melhores CTs de clubes europeus ou assistindo a treinos de técnicos de vanguarda. Todos os treinadores da Seleção Brasileira viajam, vão a jogos, conversam. Nem o discurso é novo.

Mas como seria novo, com quem está no comando? O doloroso loop de Marin para falar de seu respeito por Scolari preocupou pela repetição e provocou alívio quando terminou. Mais ou menos como a surra que a Seleção Brasileira levou da Alemanha em Belo Horizonte. Entre os que não entram em campo, todos os envolvidos na eterna tragédia já não estão mais por perto. Mas Marin continua decidindo e falando nas “cinco estrelas da nossa camisa”, enquanto vê as horas em um relógio de bolso e pede uma ligação para a telefonista.

RISCO

É ruim, sim, o fato de Gilmar Rinaldi passar de agente de jogadores a coordenador de seleções. O anúncio de que a carreira anterior se encerrou no momento em que ele aceitou o convite da CBF não é nada mais do que uma obrigação. Mas ao mesmo tempo em que não há razões para suspeitar da idoneidade de Rinaldi, há que se ponderar que o risco do conflito evidente deveria ser evitado. Se Rinaldi fosse o único profissional no Brasil capacitado para exercer a função, com trabalhos conhecidos e aplaudidos na área, seu currículo talvez justificasse a escolha. Mas o ex-agente é uma interrogação como coordenador, e ainda carregará a bagagem dos negócios do futebol para uma posição que exige credibilidade.

CONTRA

A porta fechada a um treinador estrangeiro, logo de saída, já é um gol contra de Gilmar Rinaldi. Na pesquisa sobre nova metodologia, técnicos de fora deveriam ser considerados.

CAMISA 12

por André Kfouri em 18.jul.2014 às 9:48h

(publicada ontem, no Lance!)

SILÊNCIO. MENOTTI FALANDO.

Abaixo, a tradução de quatro parágrafos da coluna escrita por César Luis Menotti para o diário argentino “Página/12” (o texto está aqui, na íntegra). É uma aula:

“Para o futebol alemão, é uma honra ter conseguido este título, porque é o produto de uma ideia que foi desenvolvida com o tempo. Uma ideia que se fez forte em sua concepção e suas convicções, apesar de não ter ido bem em algumas instâncias anteriores, porque o futebol é um jogo e às vezes não ganha o melhor.”

“Mas a Alemanha é uma equipe muito generosa em seu jogo, uma equipe que baseia seu potencial na manutenção da bola. A posse não é uma estratégia, mas o lugar desde onde se geram situações na zona de definição. A Alemanha entende o futebol como um compromisso com seu público, com o cenário, com o espetáculo, com a bola como base cultural de seus movimentos, e isso é o que é preciso destacar. Algo que tínhamos nós, os sul-americanos. Isto é algo que eles seguramente estão herdando, daquele Brasil de 70, daqueles futebolistas argentinos que passearam pelo mundo com qualidade, técnica e manejo da bola. Tudo isso está neste novo cenário para o futebol alemão.”

“(…) quero dizer umas palavras sobre o que aconteceu com a seleção brasileira. Eu venho insistindo há muitos anos que o Brasil estava ‘desculturizando’ seu jogo. No dia em que o Brasil não encontrou os resultados que sua grande equipe merecia, como aconteceu em 82 e 86, começou a jogar para outra coisa. Me dói muito, porque o futebol brasileiro nos deleitou historicamente com seus grandes jogadores.”

“Felizmente, a equipe alemã campeã do mundo deixou profundos e sérios ensinamentos para o mundo do futebol. Não é verdade que somente ganham os que defendem ou os que lutam ou os que goleiam. Cada um joga como quer, mas também são campeões do mundo os que sabem jogar muito bem o futebol como equipe.”

Nada a acrescentar. Apenas a agradecer.

SOFÁ

É um equívoco tratar a escolha do próximo técnico da Seleção Brasileira como a solução para o problema simbolizado pelo “epitáfio do Mineirão”. Independentemente do nome e do passaporte do novo treinador, ou do novo coordenador técnico, nada mudará enquanto a Seleção for apenas uma máquina de fazer dinheiro para a CBF. Simulação de eficiência, nada mais.

AGENDA

O comando da CBF deveria investir tempo e dinheiro – ambos abundantemente disponíveis – na elaboração de um plano de recuperação do futebol no Brasil. A edição de ontem deste diário levantou pontos importantes a serem considerados. Há gente técnica com preparo, conhecimento e disposição para ajudar. Os dinossauros sabem quem são essas pessoas.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 15.jul.2014 às 11:17h

(publicada ontem, no Lance!)

GOLtze

1 – O pré-jogo indicava o encontro de um exército de arquitetos com a orquestra desafinada de um solista extraordinário. O futebol associado, em que se ataca e defende como um corpo único, contra o jogo de compactação na defesa e ilusão no ataque.

2 – O plano alemão: controlar, envolver, superar. O argentino: suportar, surpreender, machucar. Ter a bola na maior parte do tempo é arriscado e exige excelência técnica. Não tê-la é perigoso e demanda concentração permanente. Em ambas as propostas, uma falha pode significar o fim.

3 – Kroos, jogador fabuloso pelo vício de tomar decisões corretas, nega a própria natureza e oferece a Higuaín o instante da imortalização. O chute é defeituoso, a bola sai pela linha de fundo, marcada pelo tipo de ocasião que não costuma aparecer duas vezes.

4 – Messi flutua pelo gramado, alheio ao que se passa quando a bola é alemã. Ele tem licença para se comportar assim porque se chama Messi e porque é capaz de criar problemas a cada vez que é acionado. E é exatamente o que ele faz na final da Copa do Mundo, motivo pelo qual um país inteiro assiste e crê.

5 – Um cabeceio na trave de Howedes mostra como jogos assim vivem no limite. Um gol não apenas mexe no placar como altera totalmente o comportamento de quem se defende. O zero a zero é a manutenção das posturas e da dinâmica.

6 – Messi lançado na área, encontro com o destino. O cérebro do gênio ordena o pé esquerdo a procurar a rede lateral do canto oposto, como já vimos um milhão de vezes. Os mesmos centímetros que costumam ser aliados decidem tratá-lo com ironia. A sensação é de ter visto um pedaço da história que não foi escrito.

7 – É incalculável o impacto da ausência de Dí Maria no momento do jogo em que a Argentina precisa se soltar. Messi pede por um parceiro que não está em campo.

8 – Os alemães, como se sabe, são diferentes. Parece que o empate os incomoda e o passar do tempo os aflige, mas eles operam de outra maneira. Podem perder, mas não negociam suas convicções. Continuam controlando, criando e correndo riscos. O que mantém a decisão interessante e aberta até os minutos finais.

9 – Prorrogação na final (pela terceira Copa seguida). Tensão prolongada para duas nações. Mais trinta minutos de futebol para o resto de nós. E ainda assim será pouco.

10 – Haveria um palácio à espera de Rodrigo em todas as cidades argentinas. Mas ele falha diante de Neuer.

11 – A FIFA autoriza a arbitragem a abolir o cartão vermelho, sob o insustentável argumento de não interferir em decisões. Método que faz pior, ao estabelecer um ambiente em que a violência é tolerada e quem quer jogar é punido. A Argentina bate como lhe convém.

12 – Gotze! Vinte e dois anos e um golaço na final da Copa, no Maracanã. Talvez um dia, quando voltar a sentir o chão sob seus pés, ele consiga compreender o que fez.

13 – Venceu a melhor seleção do mundo. A que mais jogou e mais aproveitou esta Copa. É ótimo quando o futebol é justo, quando o trabalho mais competente prevalece, quando uma ideia de jogo produz um título.

PASSAR É PRECISO

A vitória da Alemanha também é a vitória do passe, o fundamento-pai do futebol. Este jogo foi feito para ser jogado de alguma forma, e os alemães decidiram jogá-lo por intermédio da rápida circulação da bola e da elaboração. Todos os homens de meio de campo constroem. Há aí uma clara mensagem para os que pretendem ganhar sem jogar. Especialmente os que o fazem por opção.

CICLO ENCERRADO

A Seleção Brasileira ganhou apenas três jogos na Copa do Mundo. Um deles, a estreia, com decisiva influência da arbitragem. Outro contra o bizarro time de Camarões, já desclassificado. E outro contra a Colômbia, em que, apesar da postura competitiva no primeiro tempo, mostrou mais brutalidade do que futebol e sofreu muito para conservar o resultado. Em sete jogos, o time que se orgulhava de sua defesa sofreu quatorze gols. Não há qualquer argumento aceitável para a manutenção da comissão técnica.

 

GOLtze

por André Kfouri em 14.jul.2014 às 14:12h

(o texto abaixo encerrou as edições de ontem e hoje do SportsCenter, da ESPN Brasil)

Há algo marcante sobre estar presente a uma final de Copa do Mundo: a impressão de que o resto do planeta simplesmente não existe.

Tudo se resume àquele estádio, àquele gramado, e o que se vê, se ouve, se sente.

É o que nos relembra por que amamos este jogo e não somos capazes de abandoná-lo nem quando ele nos maltrata.

A maravilha do futebol não está na vitória ou na celebração. O que nos conecta e nos aprisiona é a sensação quase palpável de que estamos vivos.

Não existe nada tão poderoso.

O eterno Maracanã nos ofereceu mais uma tarde de vida. O encontro de um divertido exército de arquitetos com uma orquestra ruidosa a serviço de um solista magnífico.

A inflexível organização alemã foi prejudicada por imprevistos. Os europeus tiveram de recorrer ao improviso que serviu bem aos argentinos, menos organizados e alimentados pelo instinto e pela ilusão que tem o nome de Messi.

Ele teve seu encontro com o destino dentro da área, quando o pé esquerdo procurou a rede lateral, como já vimos um milhão de vezes.

Os centímetros que costumam ser seus aliados decidiram tratá-lo com sarcasmo. E o gênio sentiu o mesmo que nós: um pedaço da história que se apagou antes de ser escrito.

Um pensamento que vai persegui-lo, pois jogos como esse não terminam nunca. Mas Messi não será o único.

A Argentina esteve dolorosamente próxima de um paraíso improvável.

Um lugar que estava reservado a um garoto levado ao campo para ser o escolhido. Para experimentar um segundo que vale uma existência. Para ser imortal aos vinte e dois anos.

Talvez um dia, quando conseguir sentir o chão sob seus pés, Mario Gotze compreenda o que fez. Talvez ele seja capaz de se recordar do que saboreou em uma fração de tempo que não dura quase nada, mas significa tudo.

E Gotze se lembrará que no dia em que esteve no centro do mundo, quando nenhum outro lugar existia e nada mais importava, ele se sentiu vivo.

Mario Gotze viverá para sempre.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 13.jul.2014 às 8:52h

(publicada ontem, no Lance!)

NEO

“É o mundo que foi colocado

diante dos teus olhos, para cegá-lo

da verdade.”

O futebol brasileiro precisa tomar uma decisão. É uma escolha semelhante à que Morpheus ofereceu a Neo, em “Matrix”: um copo d’água e duas pílulas de cores diferentes. A pílula azul, que mantém tudo como está, um mundo sintetizado em que nada é real e cada um acredita no que lhe convém. E a pílula vermelha, que desvenda o que existe de fato, por mais incômodo que seja.

A pílula azul é a falácia dos minutos de apagão, da ausência de Neymar e Thiago Silva, da entrada de Bernard como opção treinada, da goleada circunstancial, das coisas que não têm explicação, do caminho certo, da motivação como única mensagem, do hexa que está chegando, do com brasileiro não há quem possa, da mão na taça, da mística da amarelinha.

A pílula vermelha é o diagnóstico dos anos de atraso, da ausência de um time, da necessidade de variações de sistema, da goleada que se explica porque tudo o que acontece em um jogo de futebol tem um motivo, da perda total de rumo, da urgência do trabalho de formação de jogadores e técnicos, da importância de jogar este jogo, da noção de que não só não somos os melhores como estamos distantes deles, da mão na consciência, do zelo pela amarelinha.

O argumento de que o que houve no Mineirão foi um acidente é o recurso dos preguiçosos e desprovidos de vergonha. Um discurso que cai bem aos ouvidos do pachequismo ignorante disseminado pelas redes antissociais. Única forma de desviar o constrangimento e proteger os privilégios, os acessos, a cara de tolo e as orelhas grandes. Último refúgio de quem não entendeu absolutamente nada do que viu, porque já não tinha compreendido o que o Barcelona impôs ao Santos em dezembro de 2011.

Mas há remédio para quase todos os males, não há? A esta altura, já circulam pela internet várias análises táticas sobre a absoluta demolição que o Brasil sofreu em pés alemães na terça-feira. São verdadeiras necropsias, que expõem a indigência coletiva e os equívocos individuais que caracterizaram uma atuação fantasmagórica.

Algo que precisa ficar explicitamente claro: os 7 x 1 não representam apenas a pior derrota da história da Seleção Brasileira, mas o resultado mais trágico da história do futebol no Brasil. Nada tão devastador se passou neste país (que os pachecóides ainda imaginam que seja “o do futebol”) desde que Charles William Miller nos fez a cortesia de desembarcar por aqui com uma bola de futebol na bagagem, há exatos cento e vinte anos.

Em agosto de 2011, a Alemanha venceu o Brasil por 3 x 2 em um amistoso em Stuttgart. O segundo gol alemão, produto de uma triangulação entre Kroos, Klose e Goetze, exibiu o abismo cronológico dos trabalhos em curso nas duas seleções. Pois pelo menos três dos sete gols em Belo Horizonte foram ainda mais cruéis. O abismo se transformou em um buraco negro.

É hora de escolher a pílula vermelha, arregaçar as mangas e ir ao trabalho. Mas antes é preciso encontrar Neo.

PENSE

Perguntas a quem compra a conversa do apagão: se em vez de autorizar clemência no segundo tempo, Joachim Low tivesse ordenado mais cinco gols, o que teria acontecido? Seria outro apagão? Então, por favor, pare.

TIRANOSSAURO

Para que o dia 8 de julho de 2014 ficasse ainda mais tenebroso, Cafu foi convidado a se retirar do vestiário que é sua casa por um dinossauro egresso da ditadura brasileira. Cafu, três finais de Copa do Mundo no peito, é “pessoa estranha” ao ambiente da Seleção. O dinossauro, não. O futebol brasileiro é isso e continuará assim enquanto sua estrutura não for eviscerada da mesma forma que os alemães fizeram com o time em campo.

RISCO

E não, o assunto não morrerá. Não, os 7 x 1 não serão apagados pelo tempo. Não, a alegria não voltará. A depressão pós-Copa, um fato comprovado, desta vez será mais grave. A indústria do futebol no Brasil está ameaçada.

CAMISA 12

por André Kfouri em 10.jul.2014 às 14:31h

(publicada hoje, no Lance!)

SETE PALMOS

O instante simbólico do epitáfio do mineirão não foi um gol, ou sete. Não foi um drible humilhante, uma atuação vergonhosa ou mesmo os contornos catastróficos de uma tarde que durará para sempre. Foi um lance aparentemente sem importância, quando o primeiro tempo marcava dezoito minutos e o placar mostrava um respeitável um a zero para os alemães.

Um desarme na lateral do campo, seguido por nove passes que levaram a Alemanha da defesa ao ataque. Uma série de associações que fizeram a Seleção Brasileira parecer um time primitivo.

Belo Horizonte viu um choque entre eras no futebol. Passado e futuro no mesmo gramado. Um telefone celular inteligente de última geração contra um pombo-correio, velho, cansado, doente.

O jogo foi uma versão futebolística do filme “A Origem”, em que sonhos se avolumam dentro de outros sonhos, e só é possível acordar com a sensação de cair para trás. A diferença é que cada gol alemão foi um pesadelo mais assustador, e, apesar de tantas quedas, ninguém acordou.

A maior derrota da história centenária da Seleção Brasileira não poderia ser pior. Sete gols, em uma semifinal de Copa do Mundo, em casa.

Mas há, sim, algo ainda mais grave do que ser feito de bobo diante de uma plateia mundial. É virar as costas para a própria identidade e perder querendo ser como os outros.

Faz tempo que a Seleção Brasileira olha para a bola com desdém e enxerga o passe como um acessório supérfluo. Faz tempo que a Seleção Brasileira nega o que lhe valeu a admiração do mundo.

O epitáfio do Mineirão não seria tão infame se não fosse escrito por alguém que parece querer homenagear o futebol que um dia a Seleção Brasileira praticou. Um futebol que o Brasil decidiu deixar de jogar.

Que fim levou o futebol brasileiro? O que aconteceu com o DNA que leva crianças a sonhar com uma bola, trocar tudo por ela, até o travesseiro? Como fomos estúpidos a ponto de acreditar que deixar de jogar era a opção “inteligente”?

Sete gols. Sete palmos. Descanse em paz.

FIM

Não existe recuperação possível de uma tragédia dessa magnitude. Em termos históricos, é mais significativo do que o que se passou em 1950. O único caminho a tomar é recomeçar do zero. E a única utilidade de tamanha vergonha é convertê-la no ponto de partida para a reconstrução. Só que para isso é necessário entender o que aconteceu.

FINAL

Argentina e Alemanha na final da Copa do Mundo, pela terceira vez. Vinte e quatro anos depois da última decisão que disputaram, os argentinos reencontrarão o mesmo adversário que os derrotou na Itália e os eliminou das Copas de 2006 e 2010. A Alemanha tem mais nomes, mais time e mais gás. A Argentina tem Lionel Messi e o destino. Grande domingo no Maracanã.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 08.jul.2014 às 9:45h

(publicada ontem, no Lance!)

PERNAS

A revelação de que Neymar não sentia as pernas após ser atingido por Zúñiga – o inimigo número 1 da nação, pior do que os políticos corruptos e os engenheiros de viadutos que caem – nos relembra o aspecto mais sério, e menos comentado, da lesão do jovem craque.

Entre todos os acidentes que podem acontecer a um jogador de futebol durante uma partida, e aqui estamos falando de ocorrências que encerram carreiras, é difícil encontrar algo mais assustador do que não perceber os membros. E mesmo que Neymar estivesse impressionado pela dor ou por suas próprias emoções, não há como subestimar o drama que ele passou.

Também não há como deixar de contemplar o que poderia ter acontecido, por menos provável que fosse. O que nos obriga a entreter o pensamento, positivo, de que Neymar está e estará bem. Essa é a conclusão que encolhe os impactos de sua ausência momentânea na Seleção Brasileira, na Copa do Mundo, nos dois próximos jogos.

Impactos que não são tímidos, é óbvio. Desde há muito tempo se sabe que Neymar poderia ser a diferença entre conquistar e perder esta Copa em casa, algo que saberemos até o próximo domingo. Ou descobriremos que o time que depende tanto de Neymar é capaz de ser campeão do mundo com ou sem ele. Esse é o trabalho que se apresenta a Scolari e aos jogadores. Um trabalho certamente mais complexo do que era até Zúñiga abalroar o camisa 10 pelas costas.

Não se trata de encontrar o Amarildo de 2014, referência ao substituto de Pelé na Copa de 1962. Seja quem for o jogador que ocupará o lugar de Neymar, ele não terá a necessidade – porque não tem a capacidade – de atuar como um genérico do produto original. Seria uma cobrança injusta e inútil. A obrigação de cada um é contribuir com o melhor de suas habilidades.

Tampouco estamos diante de um fato imprevisível e com potencial de comoção para transformar o caráter da Seleção Brasileira e produzir um novo comportamento. De novo, Neymar está e estará bem. Por mais que se tente criar um ambiente de “renascimento”, este time não precisa de um motivo extra para se unir, superar problemas internos e vencer. Seus defeitos não passam por essas questões.

O que pode ser um fator, que talvez nem precise ser dito, é o sentimento do próprio time de mostrar que sabe ganhar sem o jogador que o mundo vê como seu único diferencial. O desejo de provar que a opinião alheia está equivocada, de alcançar o que se dizia inatingível, tem sido utilizado como catapulta desde que os esportes existem. E é um combustível real, palpável, diferentemente da intenção de oferecer um desempenho superior a alguém que não estará em campo.

Nenhum time pode ser considerado favorito contra a Seleção Brasileira, em um jogo de Copa do Mundo no Brasil. O conjunto das circunstâncias simplesmente não concebe tal hipótese. Mas não é exagero dizer que a Alemanha carrega uma dose a mais de responsabilidade para o encontro de amanhã. O Brasil não tem jogado bem e não terá seu astro. Uma posição um pouco mais confortável para os jogadores brasileiros, que precisam fazer o que Neymar, por alguns terríveis instantes, não pôde: sentir as próprias pernas.

NO MARACANÃ…

Brasil, Alemanha, Argentina e Holanda nas semifinais. Confrontos à altura de uma Copa memorável, que será decidida por um jogaço independentemente de quem chegue à final. Mas uma das possibilidades fala mais alto. Você sabe qual.

MAGISTRAL

Tem sido diariamente interessante cobrir a Holanda neste Mundial, por causa de Louis Van Gaal. O controverso treinador já tirou diversas cartas da manga na caminhada holandesa até as semifinais. Todas funcionaram. As decisões de Van Gaal têm interferido no destino dos jogos de seu time, sempre no sentido favorável. A substituição do goleiro titular pelo reserva, para a decisão por pênaltis contra a Costa Rica, foi apenas o último movimento de um técnico que não tem medo de falhar. É evidente que o resultado foi decisivo para o julgamento de uma escolha surpreendente como essa, mas Van Gaal não está preocupado com isso.

DIAS 21 a 24 – SALVADOR, RIO e SP

por André Kfouri em 07.jul.2014 às 23:22h

Uma pausa no cotidiano da Holanda para algumas linhas sobre o jogo de amanhã, no Mineirão.

Nem o mais otimista dos pensamentos seria capaz de convencer alguém de que a ausência de Neymar melhora a Seleção Brasileira.

E se por algum motivo incompreensível o time pudesse ser melhor sem Neymar, ele jamais seria melhor sem Neymar e também sem Thiago Silva.

De modo que não há por que ignorar os fatos: a montanha a ser conquistada nesta terça-feira ficou mais alta, mais traiçoeira, mais perigosa.

Mas o futebol não seria o que é se os fins fossem explicados pelos meios. Se fosse uma pessoa, este jogo seria alguém que quanto mais fala, menos revela. Quanto mais mostra, mais esconde. Seria aquela pessoa que, mesmo ao nos olhar nos olhos, transmite a sensação de estar em outro lugar.

Cada jogo de futebol é uma folha em branco.

E enquanto a perda de Neymar (e de Thiago) impõe dificuldades que dramatizam a semifinal contra a Alemanha, o fato de não ter Neymar (e Thiago) não precisa, necessariamente, significar que o jogo já foi perdido antes de ser jogado.

Mesmo com o Brasil completo, a comparação jogador por jogador é favorável à Alemanha. A análise dos desempenhos dos dois times até agora, também. Mas este será um jogo especial pelo que representa, pelo local onde acontecerá e pelo ambiente que será criado.

Tudo leva a crer que o público no Mineirão se comportará de maneira diferente do que vimos nos jogos do Brasil nesta Copa, incluindo a partida contra o Chile, no mesmo estádio.

No lugar de “estamos aqui com vocês, agora corram e vençam”, a torcida adotará um comportamento mais parecido com “estamos aqui com vocês, agora vamos, juntos, dar um calor nesses alemães”.

Mais parceria e solidariedade, menos exigência e cobrança.

Porque é evidente que os desfalques colocaram a Seleção Brasileira em uma posição de aparente inferioridade, como o herói dos filmes que, ferido e desarmado, encontra o vilão em um galpão abandonado com um lança-mísseis apontado para ele.

Assim como acontece nos cinemas, a plateia no Mineirão já escolheu seu lado.

Será uma atmosfera nova para a Alemanha, que nos últimos anos mostrou certos bloqueios nas fases mais agudas de torneios importantes. Sem falar no acréscimo de responsabilidade ao enfrentar um Brasil desfalcado de seus dois jogadores mais significativos.

Encontros de camisas de grandeza similar tendem a se equilibrar e nivelar virtudes e defeitos de cada lado. A Seleção Brasileira, prejudicada pelos jogadores que não terá, pode se fortalecer exatamente por não tê-los.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 06.jul.2014 às 8:03h

(publicada ontem, no Lance!)

TRANCO

1 – Postura diferente dos jogadores brasileiros na execução do hino nacional. Mais contida em relação às partidas anteriores, em que se percebeu uma devoção quase religiosa ao momento. Mais de acordo com quem tem de estar concentrado e inspirado, diante de um trabalho a ser feito.

2 – Minuto 7: “Isso aqui é Brasil, p…!!”. Silva, Thiago.

3 – A pressão inicial e o gol precoce lembraram o que se deu no jogo contra o Chile. Então, a Seleção Brasileira falhou e convidou o adversário de volta ao encontro. Obrigação era não repetir o favor aos colombianos. Não fosse uma crucial ação de Thiago Silva, cortando um passe de Cuadrado em um contra-ataque construído por James Rodríguez, a gentileza teria sido feita novamente.

4 – O Castelão via um time grande contra um pequeno. Em atitude e em futebol. O Brasil levava o jogo a ser disputado no campo colombiano, colecionando desarmes próximos à área contrária. O caminho mais indicado era o lado direito da defesa da Colômbia, onde Hulk jogava sem ser incomodado. Zuniga batizava o segundo gol brasileiro.

5 – Claro rodízio de faltas para conter James Rodríguez. Um árbitro não precisa ser experiente para detectar a estratégia. Mas pode se esconder atrás do “padrão” desta Copa, em que a relação de cartões amarelos exibidos do primeiro para o segundo tempo é quase um para dois.

6 – A única marca negativa do primeiro tempo: o gol que não saiu.

7 – Manter a intensidade dos primeiros quarenta e cinco minutos não era um objetivo realista, especialmente no calor de Fortaleza. Natural, também, o aparecimento da Colômbia como equipe no Castelão. A combinação desses aspectos poderia ameaçar o Brasil. Por isso o segundo gol, criado e não marcado, era tão importante.

8 – David Luiz, oferecendo a Juninho Pernambucano o sabor de marcar um gol de falta em um jogo de Copa do Mundo. E que gol. No momento em que a Seleção Brasileira começava a sofrer e a Colômbia vislumbrava o empate. Neymar é o jogador especial, mas este time pertence a seus dois zagueiros.

9 – Julio César poderia ter sido expulso no lance do pênalti. Sexto gol de James Rodríguez, 22, na Copa. Que jogador esse rapaz promete ser.

10 – Sofrimento exagerado no final. A Colômbia, com talento e ilusão. O Brasil, cansado e pressionado. Substituições emergenciais, para suportar os últimos minutos e defender o resultado. Sensação de que a Seleção Brasileira não deveria ter permitido que o jogo se complicasse de tal forma. Contraste com a autoridade demonstrada na primeira metade.

11 – O lance de Zuniga com Neymar resumiu a atuação do espanhol Carlos Velasco Carballo, provavelmente o pior trabalho de um árbitro nesta Copa. Permissivo, duvidoso, danoso ao jogo e aos dois times. Não soube conter a brutalidade de ambos os lados, tardou a usar o cartão amarelo e colaborou para a elevação da temperatura do jogo. Um dos astros do Mundial está no hospital, com uma vértebra fraturada.

12 – Com base no futebol que se propõe a jogar, a Seleção evoluiu. Se será o bastante para ganhar a Copa, a semifinal mostrará.

TRISTE

Terrível a lesão de Neymar. Para ele, pelo que representa uma Copa do Mundo em casa, e como o protagonista que ele vinha sendo. E para a Seleção Brasileira, que perde seu brilho a um passo da grande final. A única observação positiva que se pode fazer é que a data de nascimento de Neymar lhe permitirá jogar outras Copas. Mas isso não serve como consolo agora.

FELIZES

A seleção da Alemanha é, com notável distância, o time que mais aproveita a Copa do Mundo no Brasil. Dentro dos limites necessários e das obrigações de jogadores de futebol durante o torneio, os alemães têm se aproximado do comportamento de turistas em viagens de férias. Abertos ao que a oportunidade proporciona, bem humorados, sociáveis e exibindo um nível de despreocupação que raramente se vê. Um estado de espírito que só pode ser benéfico, pois atletas, bom lembrar, são pessoas.


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