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COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 14.set.2014 às 9:02h

(publicada ontem, no Lance!)

RESTAURAÇÃO

A reprovação dos projetos de reforma e cobertura do Morumbi está na origem do rompimento de Carlos Miguel Aidar com Juvenal Juvêncio e o grupo que apoia o ex-presidente do São Paulo. Carlos Miguel não conseguiu digerir os vetos da oposição aos planos de modernização do estádio, um movimento político que ele considera danoso aos interesses do clube.

O ataque à figura responsável por sua eleição – ruptura considerada irreversível por pessoas de ambos os lados da história – tem o objetivo principal de fazer outra reforma no São Paulo: a do modo de gestão. De acordo com correligionários de Carlos Miguel, o fim do que chamam de “clientelismo” é a única maneira de instalar no clube o estilo vanguardista de administração que o atual presidente prometeu ao retornar.

Como sempre acontece, as finanças estão no centro da conversa. A situação econômica do São Paulo incomoda Aidar desde o início de seu mandato, a ponto de a nova diretoria ter submetido os departamentos do clube a um rigoroso corte de despesas. Diretores não foram autorizados a confeccionar cartões de apresentação, por exemplo. Outra mudança simbólica, porém percebida de maneira sensível por conselheiros, foi uma drástica redução do cardápio oferecido em dias de jogos nos camarotes do Morumbi.

A dívida bancária, real em números “absolutos”, mas objeto de diferentes leituras do ponto de vista contábil, também exerce influência significativa no efervescente ambiente do clube. É mais um problema de orçamento a ser solucionado, o que esteve a ponto de acontecer ao fechamento da janela de transferências para a Europa. Quando o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo de Rodrigo Caio se rompeu no empate com o Criciúma, em agosto, uma transferência muito bem encaminhada tornou-se impossível.

Não é verdade que o zagueiro/volante estava vendido para um grande clube europeu até a noite em que se machucou, mas o departamento de futebol do São Paulo tinha conseguido estabelecer o valor do negócio ao redor dos 20 milhões de euros para o principal mercado comprador do mundo. Não fosse a interrupção momentânea de sua carreira, Rodrigo Caio poderia, com uma assinatura, fazer evaporar uma parte substancial da dívida são-paulina.

Enquanto mobiliza seu grupo e contempla os próximos passos de sua estratégia, Carlos Miguel pretende manter o Centro de Treinamento do time profissional a salvo dos estilhaços do conflito que ele mesmo provocou. Está convencido de que o futebol deve ser uma unidade separada, em todos os aspectos, da sede social. Esse é um dos pilares da nova gestão que pretende implementar, para ânimo dos que estranharam o estilo espalhafatoso do começo do mandato.

O momento conturbado nos corredores coincide com a melhor fase do time, que produz de acordo com o potencial de seus jogadores e surge como ameaça ao bicampeonato do Cruzeiro. A cada exibição vistosa do São Paulo, a caracterização de Muricy Ramalho como um “treinador muito caro”, frequente nos gabinetes há pouco tempo, torna-se um ruído mais distante.

EVOLUÇÃO

Joseph Blatter declarou que pretende testar no próximo ano um sistema de uso de vídeo no futebol, em que técnicos possam desafiar decisões tomadas pelos árbitros. Cada treinador teria direito a um ou dois desafios por tempo de jogo, conferidos pelo replay da TV em um monitor à beira do gramado. O presidente da FIFA gostaria de ver o sistema funcionando na Copa do Mundo Sub-20, que será realizada no ano que vem, na Nova Zelândia, e também em um campeonato nacional. A MLS já se disponibilizou a ser a primeira liga a fazer a experiência com o recurso de vídeo. Don Garber, principal executivo da liga americana e canadense, disse à Sports Illustrated que “chegou a hora de termos um mecanismo para que jogos não sejam decididos por marcações erradas da arbitragem”. A ideia precisa ser aprovada pelo International Board.

CAMISA 12

por André Kfouri em 12.set.2014 às 7:50h

(publicada ontem, no Lance!)

VELCRO

“O gramado não estava bom. Vimos várias vezes que a bola não ganhou velocidade porque a grama impediu”, disse o técnico. “Tinha grama sobre grama, você pisava e sentia o pé afundar mais do que o normal”, declarou um jogador.

Ambos se referiram ao amistoso contra o Equador, no MetLife Stadium, em Nova Jérsei. Mas não, não sobre o jogo de anteontem, que a Seleção Brasileira venceu por 1 x 0. Alejandro Sabella e Gonzalo Higuaín reclamaram da superfície em que a Argentina não passou de um zero a zero com os equatorianos, em novembro do ano passado.

As críticas dos argentinos provam que ninguém deveria ter se surpreendido com as condições do campo em que o Brasil atuou na terça-feira. Durante a temporada da NFL, a única forma de praticar futebol (o nosso) no MetLife é com um tapete de grama natural sobre a grama artificial em que os Giants e os Jets jogam futebol americano. O que implica em uma superfície prejudicial a qualquer time que pretenda trocar passes.

No caso do jogo do Brasil, o visual de carpete de quarto de hotel barato ainda agregou o aspecto varzeano a um amistoso que, apesar do horário, foi visto em outras partes do mundo. Em resumo: inadmissível. Só mesmo a CBF tem a capacidade de expor sua galinha dourada a um ambiente pouco aproveitável no aspecto técnico e absolutamente constrangedor em termos de imagem. Passa a impressão de que, se depositarem o cachê, a Seleção Brasileira jogará até em uma pista de motocross.

Percebeu-se, tanto na escalação quanto na maneira de jogar, a intenção de construir movimentos desde o campo de defesa. Mas a bola parecia ter uma camada de cola que atrapalhava suas viagens pelo gramado. Exatamente o que um time em formação, em sua segunda oportunidade sob nova direção, precisava para se conhecer e evoluir, certo? Além do pouco tempo de treino, a Seleção teve o campo do MetLife como adversário adicional. Um conceito de vanguarda.

OPÇÕES

Os interesses comerciais prevalecem, claro. Mas, após a Copa do Mundo, sobram razões para a Seleção Brasileira se apresentar em nosso país. Os estádios construídos onde não há futebol para aproveitá-los aparecem como locais óbvios para amistosos internacionais. A Arena da Amazônia, por exemplo, certamente ofereceria um gramado melhor do que o de Nova Jérsei.

OPÇÃO

Pelé está sempre disponível para falar sobre qualquer assunto e suas declarações são frequentemente descontextualizadas de maneira oportunista. Não é o caso, porém, do que ele disse a respeito do goleiro Aranha e do episódio na Arena do Grêmio. Pelé poderia ser um ativista na luta contra o racismo no futebol. Ou poderia não ter dito nada. Teria sido melhor.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 09.set.2014 às 7:59h

(publicada ontem, no Lance!)

CHATEADOS

A crise administrativa no futebol brasileiro chegou a tal ponto que um dirigente, devedor e sonegador confesso, não tem vergonha de repreender publicamente um jogador que criticou sua gestão. Aconteceu na edição de ontem no jornal Extra, em entrevista concedida por Maurício Assumpção à jornalista Marluci Martins.

Na conversa, o presidente – de saída – do Botafogo se disse “muito chateado” pelas declarações do goleiro Jefferson, que saudou a proximidade do fim do mandato do cartola que não paga salários e acha que seus funcionários devem trabalhar de graça e quietos. Os argumentos de Assumpção são hilários. Ele enxerga ingratidão na posição de Jefferson, pois “foi essa diretoria que o trouxe (da Turquia, em 2009). Foi essa diretoria que lhe deu oportunidade de ser duas vezes campeão carioca e que montou o time que o levou à Libertadores”.

Perceba o nível de alucinação: Assumpção quer que Jefferson lhe seja grato por exercer sua profissão, como se o Botafogo fosse o único clube do Brasil em que isso é possível. E ainda se apropria de conquistas dos jogadores, como se eles ficassem em casa enquanto clones se esforçam em campo. Esse tipo de devaneio só pode sair da mente de quem perdeu a capacidade de identificar o ridículo.

Para a desgraça do futebol no Brasil, ideias como essas estão disseminadas entre os pares de Assumpção. Há cartolas que as levam ao extremo da prática autoritária em seus feudos, perseguindo jogadores que ousam agir contra a falta de profissionalismo e o descumprimento de leis. O que houve no Grêmio Barueri na semana passada deveria chamar a atenção da Justiça do Trabalho, do Ministério Público e da CBF, como salientou o Bom Senso Futebol Clube em nota divulgada na última quinta-feira.

No dia anterior, o Grêmio Barueri havia expulsado os jogadores que, de acordo com dirigentes, lideraram o boicote ao jogo contra o Operário-MT, em 15 de agosto, pela Série D do Campeonato Brasileiro. O time matogrossense venceu a partida por W.O., porque o Barueri não entrou em campo. O motivo: atraso de dois meses de salário e quatro meses de direitos de imagem.

Dos cinco jogadores expulsos, um morava no próprio clube e três em apartamentos custeados pelo Grêmio Barueri, cujos aluguéis estão atrasados. A falta de pagamento afetou também as cozinheiras e outros funcionários. Não há material para treino, o que obriga os jogadores a usar equipamento próprio.

Em conversas sobre como solucionar o problema, a postura dos dirigentes do Barueri mudou após o boicote no jogo contra o Operário. Houve ameaça de não pagar os salários devidos caso os jogadores insistissem com os protestos. O presidente Alberto Ferrari deve estar “muito chateado” com os atletas.

Estamos falando de um clube da Série D, e de jogadores que (não) ganham cerca de R$ 2 mil por mês. Alguns estão sob risco de prisão por não pagamento de pensão, algo que a Justiça brasileira não perdoa. Os cartolas que não os remuneram, e sonegam impostos, estão por aí concedendo entrevistas, chateados.

DEMOROU

O trecho animador da entrevista de Maurício Assumpção ao Extra: “Não volto nunca mais. Não participo da vida política do Botafogo nunca mais”. Em breve, Jefferson e seus companheiros terão maiores chances de receber um tratamento profissional no clube em que trabalham.

HOLOFOTE

Ao dispensar Maicon sem explicar as circunstâncias do corte, a comissão técnica da Seleção Brasileira deixa claro que pretende “preservar” o jogador da repercussão de sua falha disciplinar. O que só aumenta a atenção e a curiosidade em relação ao episódio. Eventualmente, o que aconteceu chegará ao conhecimento público. Se a ideia é preservar Maicon, teria sido melhor abafar o problema e deixar de convocá-lo.

PASSO

Na Copa do Mundo de basquete, o Brasil venceu a Argentina, e bem. Não é mais a geração dourada que conquistou os Jogos Olímpicos, mas superar os argentinos é mais um sinal de que a seleção brasileira está a caminho de atingir seu potencial em um Mundial.

FATOR KAKÁ

por André Kfouri em 08.set.2014 às 11:30h

Um aspecto tem sido pouco valorizado na linda jogada do segundo gol do São Paulo, ontem no Morumbi: a importância dos passes de Kaká para o sucesso do contra-ataque.

Não há dúvida de que a jogada foi formidável. Oito passes, de uma área à outra, até a conclusão de Alexandre Pato.

Mas as duas intervenções de Kaká provavelmente determinaram o desfecho do lance.

A circulação rápida da bola é o conceito mais importante do futebol de hoje. Nã há sistema defensivo que consiga sobreviver a tramas com troca de posições e superação de linhas por intermédio de passes verticais.

Na construção do gol são-paulino, é Kaká quem faz os jogadores do Sport correrem de frente para o próprio gol, sinal claro de desorganização defensiva.

No momento em que Kaká mata a bola no peito, há cinco jogadores do Sport dentro da área, um praticamente sobre a linha, e mais o cobrador do escanteio, o mais adiantado de todos.

Ao identificar imediatamente a oportunidade, Kaká acelera na saída da área, aplica um drible da vaca no primeiro marcador, e não demora a fazer o primeiro passe. Quando Auro recebe a bola (aos 9 segundos do vídeo), os sete jogadores mencionados acima estão ATRÁS da linha da bola.

Auro devolve de primeira, enquanto o Sport tenta recompor a defesa e Kaká se aproxima da metade do campo.

Kaká não perde tempo. Dá apenas um toque na bola e aciona Pato, o atacante mais profundo. No instante em que Pato domina (15s), só UM jogador do Sport está adiante da bola.

A melhor chance que o Sport teve para interromper a jogada foi no momento em que Pato fintou seu marcador. É o único drible que acontece no campo de ataque em toda a jogada.

A sequência de passes de primeira volta a desorganizar a retaguarda do Sport, pouco antes da entrada em diagonal de Pato na área, que, somada à falha de marcação que o deixou à vontade para dominar e concluir, finaliza o lance de maneira impecável.

Kaká não é um armador clássico, mas sempre possuiu a capacidade de manejar os tempos com aceleração ou pausa. Foi o que ele fez nas duas vezes em que teve a bola, em ambas levando seu time a superar as linhas de um adversário já em posição precária em campo.

Creio que o gol não teria saído se outro jogador estivesse no lugar dele.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 07.set.2014 às 10:34h

(publicada ontem, no Lance!)

JANELA PARA GUARDIOLA

Foi lançado nesta semana na Espanha um livro desses que, de tão interessantes, duram pouco tempo em nossas mãos. “Herr Pep”, do escritor catalão Martí Perarnau, é um diário do primeiro ano de Pep Guardiola no Bayern de Munique, resultado de um acesso sem precedentes ao reservado treinador.

Guardiola, como se sabe, não concede entrevistas exclusivas e não expõe seu ambiente de trabalho a pessoas estranhas ao círculo formado a seu redor. O relacionamento de confiança com Perarnau (59 anos, ex-atleta olímpico de salto em altura, jornalista e publicitário), no entanto, permitiu um acordo no qual a única exigência do técnico era que nada fosse publicado durante a temporada 2013/14.

Perarnau passou duzentos dias na Alemanha, conversando com Guardiola e com as pessoas que fazem parte de seu dia a dia dentro e fora do Bayern. O livro – sem lançamento previsto no Brasil, mas disponível em versão eletrônica em espanhol – é uma visita ao cérebro de um técnico obcecado por seus conceitos de futebol e uma pessoa constantemente preocupada com a própria evolução.

O primeiro capítulo já revela um Guardiola em busca das respostas para o processo que o obrigou a deixar o Barcelona, após quatro anos de conquistas seriais e a exibição de um tipo de futebol que provavelmente não será repetido. Em um jantar com Garry Kasparov em Nova York, Guardiola ouviu o lendário enxadrista russo fazer um comentário sobre um jovem norueguês que surgia como um fenômeno do xadrez: “Eu poderia vencê-lo, mas é impossível”, disse. A imediata relação com a impossibilidade de seguir vencendo com o Barcelona fascinou o catalão, que não descansou enquanto não interrogou Kasparov sobre o enigma.

“Herr Pep” também é uma aula sobre o funcionamento de um time como o Bayern e as exigências que se apresentam a quem precisa alimentá-lo com vitórias. A mente tática de Guardiola oferece diversas lições sobre o jogo, como por exemplo a concepção da ideia de utilizar os laterais avançados em uma linha de quatro jogadores no meio de campo, uma das inovações que marcaram o jeito de jogar do Bayern na temporada passada. A possibilidade estava arquivada por Guardiola desde seus dias no Barcelona, quando cogitou formar, em caso de necessidade, uma dupla de volantes com o lateral esquerdo próximo a Busquets.

No Bayern, o avanço de Rafinha e Alaba até o meio de campo foi um mecanismo para aumentar a objetividade da circulação da bola. Guardiola percebeu que o time trabalhava de Robben a Ribéry, passando pelos laterais e zagueiros, sem necessariamente agredir o rival. A ideia se concretizou não apenas com o lateral esquerdo, mas também com o direito, em linha com dois meio-campistas à frente do volante. De acordo com um membro da comissão técnica, a formação transformou o brasileiro Rafinha no jogador “mais importante” do time, por permitir que Lahm jogasse como organizador.

“Herr Pep” só tem uma falha: inevitavelmente chega ao fim. Ainda não inventaram uma solução para esse problema.

EM MIAMI…

Brasil e Colômbia fizeram um jogo bruto na Copa do Mundo, com domínio autoritário brasileiro no primeiro tempo via rodízio de faltas em James Rodríguez. No segundo, a temperatura aumentou ainda mais por causa do crescimento colombiano na busca do empate. A arbitragem permissiva foi responsável pelo ambiente que culminou com o lance que tirou Neymar do Mundial. Eis que, no reencontro das duas seleções, os organizadores do amistoso entregaram a situação a um árbitro incapaz de comandá-lo. Neymar apanhou desde o início, por vezes com níveis de violência que assustariam os executivos do Barcelona se o jogo acontecesse em um horário razoável na Europa. Ramires, Willian e Oscar, colegas no Chelsea, deram volume ao time no primeiro tempo. Mas o Brasil não conseguiu envolver a Colômbia nem depois que Cuadrado foi expulso. Linda cobrança de falta de Neymar, no gol da vitória.

CAMISA 12

por André Kfouri em 05.set.2014 às 7:45h

(publicada ontem, no Lance!)

ASQUEROSO

Não esqueçamos que o Grêmio perdeu em casa por 2 x 0, em um torneio disputado em dupla eliminatória com saldo de gols. A sequência na Copa do Brasil dependia de um resultado improvável na Vila Belmiro, de modo que dizer que o STJD “tirou o Grêmio” da competição com sua mão pesada é um pouco de exagero.

Jamais saberemos qual seria a decisão do tribunal se o placar do jogo de ida tivesse sido o inverso, mas esse é um aspecto menor agora. Se a pena imposta pelos auditores servir para alterar o ambiente nos jogos em casa do time gaúcho, teremos avançado. Outros jogadores negros não sofrerão abuso semelhante ao imposto a Aranha, e os iluminados – julgam-se “dirigentes” – que falaram em encenação do goleiro santista vociferarão nos camarotes. Que tomem cuidado.

A responsabilização do clube por objetos atirados no campo por “torcedores” irresponsáveis cabe como exemplo. Os casos diminuíram justamente porque a coletividade vigia o tolo que não se comporta. Voltará a acontecer? Claro que sim. Não há lei ou pena que impeçam a recorrência de uma infração. Os clubes aprenderam a se mobilizar para identificar os infratores, medida que deve ser tomada com relação a quem chama jogadores adversários de macaco. Se o clube agir, no ato, terá argumentos para não ser punido.

O problema é que o currículo do STJD é tão controverso que até quem se sente representado por uma decisão revisita os próprios conceitos. Mas no caso em questão, é importante lembrar que as manifestações que vimos na última quinta-feira são frequentes em setores da torcida do Grêmio. As tentativas despudoradas de descaracterizar a ofensa racista evidente não fazem deste um episódio isolado ou sem importância. Não aconteceu onde aconteceu por acaso.

Que seja punido dessa maneira, para que as regras de convivência sejam respeitadas. Que diminua até se tornar raro. Que não seja aceito em lugar nenhum. Porque é asqueroso.

ENTENDIDOS

Não se deve subestimar as redes antissociais. Nunca. Ontem tivemos mais um exemplo de sabedoria. Houve quem quisesse “reler” o 1 x 7 à luz de um amistoso pós-Copa entre Alemanha e Argentina. A goleada dos vice-campeões do mundo foi a senha para a exposição de sentimentos reprimidos dos defensores do “foi apenas um apagão”. E eles juram que estavam falando sério.

ESCONDIDOS

Enderson Moreira no Santos, Dorival Júnior no Palmeiras. E a ciranda continua. Enderson, estudioso e da nova geração, pode extrair o melhor do elenco santista. Dorival, no clube que está em seu DNA, pode evitar uma tragédia no centenário. Mas no carrossel das contratações não existe plano, ideia ou visão. Existe apenas torcida e esperança. Dirigentes de arquibancada.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 02.set.2014 às 7:56h

(publicada ontem, no Lance!)

PEDALADA

Ok, são apenas dois amistosos. E a convocação só aconteceu por causa da lesão de Hulk. Mas o retorno de Robinho à Seleção Brasileira tem de significar algo. Certamente não é a renovação que se espera de um trabalho que começa após uma Copa do Mundo trágica. Não seria assim com um jogador de 30 anos (o segundo mais velho do grupo que estará nos EUA, atrás de Maicon), veterano de dois Mundiais, mas que não esteve no último.

O que une Robinho a Dunga é uma dessas relações especiais que se formam entre um jogador e um técnico. Uma ligação que ignora o tempo, encurta as distâncias e se mantém forte. No dicionário de Dunga, Robinho é sinônimo de comprometimento, um dos termos prediletos do treinador da Seleção. Não há nada que Dunga tenha pedido que Robinho não tenha feito enquanto estiveram juntos. A começar pelo primeiro torneio.

Era 2007 e a Seleção estava reunida em Teresópolis, na antiga Granja Comary. Dunga começava a preparar o time que conquistaria a Copa América da Venezuela, gênese do grupo que acompanhou o técnico até a Copa do Mundo da África do Sul. Nos primeiros dias de concentração, a notícia era a ausência do jogador que seria a referência da principal característica do time. Robinho ajudaria a converter a Seleção em uma equipe letal no contra-ataque.

Mas enquanto o time treinava na serra fluminense, Robinho permanecia na Espanha, com os braços atados a um cabo de guerra entre o Real Madrid, e a CBF. O clube pretendia que Robinho jogasse na última rodada do Campeonato Espanhol, a confederação o queria do outro lado do Atlântico. Robinho chegou a dizer publicamente que sua vontade era estar em campo no jogo que poderia dar – como deu – o título aos blancos. Mas seu agente, Wagner Ribeiro, lembrou que, diferentemente da opção de Kaká e Ronaldinho Gaúcho, Robinho gostaria de disputar a Copa América.

Após bravatas de lado a lado, a CBF capitulou e o atacante foi o último jogador a se apresentar em Teresópolis. O agradecimento pela espera veio no segundo jogo da Copa América, quando Robinho marcou os três gols da vitória sobre o Chile. O resultado restaurou as chances de classificação do Brasil no grupo e aliviou a pressão sobre Dunga, fruto da derrota para o México na estreia.

Não foi a única vez. Pouco mais de um ano depois, em um reencontro com a seleção chilena pelas Eliminatórias para a Copa de 2010, Robinho voltou a resgatar o técnico em situação delicada. Todos os sinais indicavam para a demissão de Dunga caso o Brasil não vencesse em Santiago. Luis Fabiano, com dois gols, foi o grande nome do placar de 3 x 0. Mas Robinho marcou o segundo, no final do primeiro tempo, depois que Ronaldinho perdeu um pênalti.

Nada mais apropriado, portanto, que a segunda passagem de Dunga pela Seleção Brasileira comece com a presença do autor do último gol do time sob seu comando. Naquela fatídica tarde em Port Elizabeth, Robinho encaminhava o Brasil para as semifinais da Copa até a bola parada holandesa fundir os nervos da Seleção. Para o técnico, é como se quatro anos não tivessem existido. Uma pedalada no calendário.

FALAM MUITO

A cada rodada do Campeonato Brasileiro fica mais evidente: fala-se demais com o trio de arbitragem em nossos jogos. Os jogadores precisam entender que esse tipo de pressão pode até desequilibrar decisões a favor de seus times, o que não significa que seja bom. Bom é um campeonato em que árbitros e assistentes fiquem em segundo plano, como prova de trabalho correto e, por isso, discreto. A variação de critérios em um mesmo jogo não é apenas sinal de uma arbitragem tecnicamente fraca. É sinal, também, de intranquilidade. A postura dos jogadores tem muita coisa a ver com o problema.

MAIS

Bonita e bem concebida a faixa em solidariedade a Aranha, antes de Botafogo x Santos: “Somos preto. Somos branco. Somos um só”. Mas mensagens, por mais sensíveis, infelizmente não são suficientes. O ataque ao racismo depende de ação.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 31.ago.2014 às 11:10h

(publicada ontem, no Lance!)

AMBIENTE

Se a distinta que ofendeu Aranha na noite de quinta-feira o encontrasse na fila do cinema, certamente não o chamaria de macaco. Nem se ele tomasse o lugar dela na hora de entrar na sala. Racista que é, a moça morderia os lábios pela vontade contida de compará-lo a um primata, talvez até dissesse a palavra em baixo tom, mas não se permitiria ser ouvida.

Ela sabe que esse tipo de manifestação é errado, odioso, criminoso. Sabe que se portar dessa maneira pode garantir uma visita ao delegado mais próximo. Basta que alguém tome providências, como aconteceu com o aposentado que, em junho, fez com a atendente de um supermercado carioca exatamente a mesma coisa que a torcedora gremista fez com o goleiro do Santos. Diferentemente do que se viu na Arena do Grêmio, clientes do supermercado chamaram a polícia e o racista foi preso em flagrante.

Não há diferença entre os casos, assim como não há como relativizá-los. A funcionária do supermercado se enganou com um produto, Aranha era o adversário da noite. Ambos foram vítimas da mais abjeta falta de educação. O que separa os eventos é a forma como são vistos ou aceitos. O que produz indignação suficiente para discar 190 – um exemplo de cidadania – nas ruas ou em estabelecimentos, converte-se em cena corriqueira em estádios de futebol.

É o ambiente que permite o abuso, uma vez que imbecis não selecionam onde e quando se comportarão como tais. Imbecis se comportam como imbecis onde e quando esse comportamento é tolerado. Há motivos pelos quais pessoas agem como bestas em estádios. Um deles, provavelmente o principal, é a noção de que nada lhes acontecerá. A indústria do futebol precisa se mobilizar para que se entenda que um estádio não é diferente de uma sala de cinema ou um supermercado.

É preciso conter os imbecis utilizando todos os mecanismos existentes. As leis que regem nossa sociedade e as regras esportivas que preveem punições a clubes. Quando pessoas e instituições forem penalizadas, medidas eficientes serão tomadas para evitar que aconteça de novo. Campanhas no Facebook, camisetas e pulseirinhas podem render boas sensações e algum dinheiro, mas têm o efeito prático de placas de velocidade máxima em estradas sem radares.

Se a moça que chamou Aranha de macaco for responsabilizada pelo crime que cometeu, e a coletividade que frequenta a Arena do Grêmio se sentir prejudicada pelo episódio, comportamentos doentios – e frequentes – como os que vimos na noite de quinta-feira começarão a diminuir. O processo passa pela postura das pessoas que testemunharem esses abusos e pela atitude do clube no sentido de identificar os racistas e impedir que eles retornem. Só o exercício da indignação é capaz de transformar um ambiente permissivo.

O que você faria se, em um restaurante, um idiota na mesa ao lado chamasse o garçom de macaco? Você agiria de outra forma se o mesmo acontecesse com um jogador adversário no estádio em que você vai ver seu time?

AÇÃO

O jogo tem de ser paralisado, o episódio tem de constar na súmula, um boletim de ocorrência tem de ser feito, os meios de comunicação têm de divulgar, repercutir, investigar. Quem realmente quer mudanças não pode economizar em atitudes. E quem pode tomar as providências não tem o direito de fugir das responsabilidades.

OI?

Casos como o de Aranha se avolumam no futebol brasileiro, com os picos e as quedas de repercussão até o esquecimento conveniente. O que a CBF e o Ministério do Esporte fazem a respeito? A inércia revela total ausência de preocupação. Como se nada tivessem a ver com o problema.

UNIÃO

Os jogadores, mais organizados e mobilizados do que nunca em relação a vários temas, também poderiam tratar dessa questão de maneira mais atuante. Tanto no momento em que as ofensas acontecem quanto depois, na hora das declarações e dos repúdios.

CAMISA 12

por André Kfouri em 29.ago.2014 às 7:51h

(publicada ontem, no Lance!)

O TORCEDOR DE TORCIDA

Depois do torcedor de dirigente, aquele sujeito desprovido de capacidade crítica que idolatra e defende com a própria vida alguém que ele julga – sem saber – fazer o bem por seu time, eis que devemos receber com carinho o “torcedor de torcida”.

Ele aparece nas redes antissociais a cada pesquisa de quantidade de fãs, como a divulgada ontem por este diário, em parceria com o Ibope. Vibra por milhares de semelhantes, chora por pontos percentuais, não dorme por margens de erro. Se os números mostram queda entre aqueles com quem compartilha sentimentos, o torcedor de torcida navega entre a revolta e a depressão que resultam das piores derrotas. Se mostram crescimento, a celebração é comparável a um título inédito.

O torcedor de torcida não faz a mais pálida ideia de como as pesquisas funcionam. Não conhece o conceito de amostragem, não considera as regiões em que o trabalho foi realizado, os grupos etários, nada. Por isso não percebe como é complicado desenhar um retrato fiel do número de torcedores de cada time em um país colossal como o Brasil. Ele só se importa com o resultado final, como se aqueles algarismos fizessem alguma diferença em sua vida.

Há um tipo de torcedor de torcida, exigente e esperto, que se considera entendido no assunto e não, não senhor, não acredita em tudo o que lê. É uma classe vip de torcedor de torcida, que só aceita as pesquisas que mostram o que ele necessita desesperadamente que seja verdade. Se o resultado o satisfaz, os métodos são perfeitos e o instituto responsável é exemplar. Se não, trata-se de trabalho mal feito, mentiroso, desprezível.

O que o torcedor de torcida – vip ou não – precisa saber é que tamanho não é representatividade. Os índices que interessam são os de presença em estádio, audiência de televisão e consumo de marca. O resto é vírgula, casa decimal, sexo dos anjos e pouco senso de ridículo.

ARMADOR

A contratação não concretizada de Ronaldinho Gaúcho expõe o problema de armação no meio de campo que o Palmeiras precisa resolver. O clube estava disposto a uma operação arriscada: esticar seus limites financeiros por um aluguel de quatro meses, porque sabe que não pode contar com a assiduidade de Valdivia e não tem solução interna disponível.

PASSADOR?

A intrigante ida de Douglas para o Barcelona continua a produzir questões. O que o gigante europeu enxergou em um jogador de 24 anos que não chamou a atenção em seu país? As categorias de base do clube não oferecem nenhuma alternativa? Os constantes erros de passe do ex-lateral são-paulino não são uma preocupação para um time que joga como o Barcelona?

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 26.ago.2014 às 0:19h

(publicada ontem, no Lance!)

AUGURI!

Na saída do Morumbi, ele sentiu o ar frio do início da madrugada bater em seu rosto. O desejo de estar em outro lugar, qualquer outro, desde que fosse longe dali, encontrou-se com a necessidade de descobrir como. O plano desenhado para aquela terça-feira era vê-la se transformar em quarta, reviver sem pressa as sensações que o jogo lhe havia proporcionado e, com a ajuda de alguma bebiba que pudesse acalmá-lo, comemorar a classificação inédita de seu time para a final da Copa Libertadores.

O que se colocou entre o sonho e a realidade foi uma força que ele não podia explicar. Ela havia se manifestado por intermédio de jogadores que, durante toda a noite, simplesmente se recusaram a aceitar um desfecho que não lhes servisse. Como se nada pudesse detê-los, vencê-los ou mesmo entendê-los. Se mil gols fossem necessários em apenas um minuto, eles fariam mil e um. E se houvesse um pênalti a ser defendido, no último instante, em cem noites seguidas, a mão direita de um goleiro enorme estaria sempre no lugar preciso. No canto direito baixo, fazendo a bola subir e desaparecer pela linha de fundo. Uma defesa eterna.

Ele era exatamente o passageiro que o taxista oportunista esperava. Alguém disposto a gastar o que fosse para sair dali. Disse para onde ia, não negociou o valor proposto, apenas entrou no banco de trás e torceu para as ruas estarem desertas. Não estavam. Torcedores do outro time preenchiam, a pé, os caminhos ao redor do estádio. Alimentados pelo orgulho que o futebol nos faz experimentar quando a camisa pela qual torcemos é vestida com honra. Energizados pela superação de um rival com os requintes mais saborosos.

Lembrou-se do lateral que correu o campo inteiro, não só o lado esquerdo que deveria ocupar, desarmando, criando, atormentando. Aplaudiu, ainda que lhe fosse doloroso, o meia de pé mágico e cérebro superior, arquiteto da virada que conduziu o jogo aos malditos pênaltis. O terceiro gol, marcado pelo volante que surgiu do nada e por pouco não se chocou perigosamente com a trave, talvez fosse a prova de que o destino é mesmo inevitável. Por isso o goleiro invencível saltou para o lado certo na última cobrança. Ele sabia. O futebol também é feito de vitórias que jamais se concretizam, por mais próximas que pareçam.

Lentamente, o táxi se afastou do Morumbi. Lances se repetiam em sua mente como um videotape sem fim. Procurou culpados em seu time, sem sucesso. Os culpados, entre aspas, estavam todos do outro lado. Culpados por excesso de determinação, de obstinação, de suor. Apesar das cicatrizes, até as derrotas mais marcantes podem ser compreendidas quando o adversário tem valores inegáveis, invejáveis. Ele sabia que chegaria ao dia em que poderia arquivar aquela noite e viver em paz. Poderia até perdoar os jogadores que lhe impuseram tristezas profundas.

Quatorze anos depois, as lembranças de uma noite fria de junho continuam intactas. Decoradas pela admiração sem a qual nenhuma rivalidade faz sentido. Longa vida, Palmeiras.


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