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CAMISA 12

por André Kfouri em 22.ago.2014 às 7:32h

(publicada ontem, no Lance!)

SONHO RUIM

Com todo o respeito à opinião de Alexandre Gallo, existem, sim, sonhos maiores do que o ouro olímpico. E mesmo que o coordenador das categorias de base da CBF esteja falando apenas sobre seu objetivo como técnico do time que disputará os Jogos de 2016, a medalha de ouro não deveria ser elevada ao Santo Graal.

O exagero que se comete em relação ao “único título que a Seleção Brasileira não tem” é só mais um aspecto do materialismo que conduziu ao 1 x 7, reflexo do “sonho do hexa” frustrado, complexo de quem quer ter em vez de ser. A dois anos das Olimpíadas do Rio de Janeiro, busca-se uma conquista, não um time.

Jamais ter ganhado o torneio olímpico de futebol não faz falta à Seleção Brasileira. Nem ao currículo da camisa e nem à memória emocional de quem se importa com ela. E quanto maior o investimento de recursos e expectativas, como a convocação de jogadores acima da idade para aumentar a possibilidade de vitória, maior é a decepção com um evento que deve ser encarado como um meio.

Gallo foi o responsável pelo último exercício de supervalorização da medalha que os argentinos ganharam duas vezes nos últimos dez anos. Nos estádios da Copa, ninguém os ouviu cantar sobre os feitos alcançados em Atenas e Pequim. A Espanha venceu em Barcelona 92, conquista que não se compara ao período que teve início dezesseis anos depois.

O ouro no futebol em 2016 não terá significado em si. A não ser que seja conquistado por uma equipe que colabore para a recuperação dos conceitos que a Seleção Brasileira deve exibir, será apenas um objeto de metal. O grande sonho deve ser um time, e aqui estamos falando, claro, da Seleção principal.

Quanto aos conceitos, obviamente não se trata de retornar no tempo até 1970 ou 1982. Não é assim que o Brasil de 2014 deveria jogar. O Brasil de hoje deveria jogar como a Alemanha, mas melhor. Esse foi o sonho que os alemães tiveram quando perderam para a Espanha em 2008.

TOQUE

A ideia de jogo que se planeja é mais importante do que os nomes incluídos na primeira convocação de Dunga. Mas é necessário observar a ausência de passadores em um meio de campo repleto de condutores de bola. Qualquer ideia que deixe de priorizar a posse e o passe estará errada. E se não há jogadores disponíveis, a base precisa formá-los. Base serve para isso.

BRIGA

É deprimente que ainda se tenha de conviver com o conflito entre a Seleção e os clubes. A “regra” dos dois convocados de cada time não melhora o humor de ninguém. O Cruzeiro, por exemplo, ficará sem seus dois melhores jogadores. Fidelizar o torcedor é missão impossível quando os amistosos da CBF prejudicam os campeonatos dos clubes brasileiros.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 19.ago.2014 às 7:48h

(publicada ontem, no Lance!)

CRUEL

1 – Valdivia começou o clássico como se fosse seu primeiro jogo em três meses pelo Palmeiras. Incomodando o lado direito da defesa do São Paulo, com a disposição um ponto acima do que é seu normal. Quando o meia chileno chama a atenção pelo aspecto motivacional, cabe a pergunta sobre como sua atuação será afetada.

2 – Ganso, Kaká, Pato e Kardec juntos. Combinação que sugere movimentação constante, rodízio de posições e caos no sistema de marcação adversário. Precisa ser mais do que uma sugestão.

3 – Valdivia substituído antes dos vinte minutos. A mão na parte de trás da coxa direita e a reclamação de tontura configuraram um enigma. O depoimento do médico do Palmeiras não esclareceu o motivo da saída, ao contrário. Essa é a questão com Valdivia, seja quando o assunto é sua assiduidade em campo ou seu destino de férias: nunca se sabe.

4 – Passe virou artigo de luxo no Pacaembu, como se os dois times tivessem recebido ordens expressas de não dar sequência às próprias ideias. E como ambos carecem de ideias, o chamado futebol associativo não tem chances. Número de oportunidades de gol no primeiro tempo: zero. A maior parcela de culpa é do São Paulo, que tem mais a oferecer.

5 – Uma triangulação entre Fábio, Ganso e Pato construiu o gol do São Paulo. Imprudência do goleiro palmeirense, inteligência e eficiência da dupla são-paulina. O toque de primeira de Ganso não só criou o gol para Pato como impediu que o atacante se colocasse em impedimento. O bom futebol é feito de coisas simples.

6 – O pênalti marcado para o Palmeiras será o assunto da semana. Chute na direção do gol, defensor de frente para o lance, braço descolado do corpo. As opiniões que formamos após as repetições e as imagens frisadas são questão de um segundo, ou menos, para o árbitro. Enquanto o recurso de vídeo servir apenas para criar polêmicas e esculachar a arbitragem, não avançaremos.

7 – Kaká encontrou uma marcha acima e o São Paulo se insinuou, mas pecou ao finalizar. O Palmeiras encontrou a coragem dos desesperados e foi à luta, com o pouco que tem. O jogo melhorou, justamente por deixar de ser uma sequência de frases interrompidas e passar a ser um debate.

8 – Valdivia deixou o Pacaembu antes do final do jogo. Perguntado sobre o que aconteceu, disse: “também não sei”. Volte ao item 3.

9 – O clássico, empatado, entrou no território em que a vitória depende da disposição de correr riscos e do irônico balanço entre sorte e azar. Não é exagero dizer que o segundo gol esteve em pés palmeirenses pelo menos duas vezes. Defeitos técnicos o impediram. Quando é assim, um time só pode reclamar das próprias falhas.

10 – E como se fosse uma punição, o Palmeiras perdeu com um gol marcado pelas costas de seu goleiro, no rebote da própria defesa e da trave, no final do jogo. Na súmula, Alan Kardec, o atacante que trocou de lado, aparecerá como autor. Cruel.

11 – A vitória do São Paulo acalmou as aquietações que ganharam volume desde a noite de quarta-feira, mas fez pouco mais do que isso. A distância entre poder e fazer continua grande.

SUPORTE

Gareca contratou estrangeiros para poder trabalhar e ter suporte no grupo que deve acreditar nele. O problema é que o time precisa de tempo e tranquilidade, mais escassos a cada rodada. A sorte do Palmeiras no ano de seu centenário depende de como o comando reagirá às pressões para demitir o técnico. Que outro treinador será melhor para dirigir a equipe que o argentino montou?

CONVENIÊNCIA

Em entrevista à revista Época, falando sobre Neymar, Dunga disse que “para ter carimbo de craque, tem de ter o carimbo de campeão do mundo nas costas”. Como se o futebol fosse um esporte individual ou se o resultado coletivo fosse o único critério para escolher o lugar de cada jogador na história. Por essa ótica, Lionel Messi não é craque. Cristiano Ronaldo não é craque. Zico, Sócrates e Falcão não foram craques. Mas Dunga foi, claro. Que conveniente.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 17.ago.2014 às 11:10h

(publicada ontem, no Lance!)

DEMOROU

Se as palavras não tivessem aparecido em uma publicação oficial, seria obrigatório investigar se Joseph Blatter foi sequestrado e substituído por um impostor. No caso, um impostor com uma visão muito mais moderna e benéfica para o futebol. Eis que a última edição da revista semanal da FIFA traz, em coluna assinada pelo presidente, uma chocante revelação: “(…) a ajuda tecnológica pode nos ajudar a avançar no futebol. Por isso eu gostaria de trazer outra ideia, conforme sugeri no Congresso em São Paulo, em 11 de junho: a opção de desafios de vídeo para técnicos no caso de decisões duvidosas”.

Blatter abriu seu texto com um comentário sobre o sucesso da utilização da tecnologia de linha de gol na Copa do Mundo. “Será introduzida nas principais ligas cedo ou tarde”, escreveu. Depois abordou o spray de espuma que desaparece após o árbitro marcar o local das infrações e a distância da barreira, que será adotado nesta temporada na Inglaterra, França, Espanha e Itália. Na esteira das inovações, o cartola-mor se manifestou a favor do recurso de vídeo durante jogos.

“O medo de que essa inovação pode alterar o caráter do jogo não tem fundamento, desde que essa ajuda técnica seja tratada com cuidado e com restrições adequadas”, opinou Blatter. “Estou falando de até dois desafios por jogo por técnico, com o máximo de quatro por jogo”, explicou.

De acordo com o presidente da FIFA, os desafios só poderiam ser feitos quando o jogo estivesse paralisado por uma marcação da arbitragem, para não causar interrupções adicionais e não atrapalhar o fluxo da partida. Ele citou o exemplo das paradas técnicas para reidratação e descanso que aconteceram por causa do calor durante o Mundial do Brasil, sem impedir que o torneio fosse considerado “a melhor Copa do Mundo da história”.

Blatter parece ter se convencido da necessidade de evoluir. Suas posições estavam alinhadas com tolices sobre a proteção do “aspecto humano” do jogo ou, pior, com o argumento intelectualmente falso sobre o futebol ser igual em todas as partes do mundo, encanto que seria quebrado por recursos tecnológicos que não são financeiramente acessíveis a todos os campeonatos. “Eu mesmo rejeitei as ajudas tecnológicas no passado. Mas não há por que se apegar a posições ou princípios entrincheirados”, reconheceu.

O final do texto transmite a mensagem mais importante, do ponto de vista de quem deve estar preocupado com a imagem e a credibilidade do jogo. “Nosso objetivo tem de ser tornar o futebol mais transparente e digno de crédito, e auxiliar os árbitros em sua difícil tarefa”, concluiu Blatter, em frase que certamente será recebida com alívio por profissionais de arbitragem ao redor do mundo. Os homens de preto finalmente podem sonhar com o dia em que não serão mais os únicos bobos do futebol.

Claro que a opinião do presidente da FIFA não é uma garantia. Propostas como essa precisam da aprovação do International Board. Até quando os guardiões das regras do futebol se manterão contra a lisura do resultado de campo?

PARA TRÁS

Por aqui, o vício do retrocesso se mostra poderoso. Volta Dunga, volta mata-mata, volta lei do passe… As figuras que tomam decisões no futebol brasileiro são capazes de todo tipo de artimanhas para fugir das próprias responsabilidades e camuflar a péssima gestão que representam.

JOVEM

As duas primeiras atuações de Robinho pelo Santos, ainda aquém das melhores condições físicas, comprovam o que tantos se recusam a ver. É consideravelmente mais fácil jogar nas competições brasileiras, em comparação com os principais campeonatos da Europa. Além da distância técnica, o futebol no Brasil oferece um luxo que faz toda a diferença: o espaço. A generosidade local foi aliada até de quem retornou em clara curva descendente, o que não parece ser o caso de Robinho. O santista dá indícios de ser um desses jogadores para os quais a idade não importa.

CAMISA 12

por André Kfouri em 15.ago.2014 às 8:08h

(publicada ontem, no Lance!)

BORRACHA

Antes mesmo da apreciação da assembleia condominial chamada STJD, o caso de Petros já produziu um absurdo que tem tudo para expor o futebol brasileiro ao ridículo internacional. O adendo do árbitro Raphael Claus à súmula de Santos x Corinthians, após ver o lance pela televisão e mudar seu conceito sobre o que houve em campo, pode contribuir para a interrupção da carreira de um jogador por seis meses.

O precedente a ser aberto dependendo da decisão dos humoristas do tribunal é perigoso. Se o “comentário do dia seguinte” for aceito, todos os árbitros brasileiros estarão autorizados a retocar suas súmulas com ajuda do videotape. Faltas não marcadas podem gerar cartões amarelos, amarelos podem se converter em vermelhos, e empurrões que escaparam aos olhos da arbitragem podem se tornar motivos para suspensões de cento e oitenta dias. Calcule o que isso significa.

O noticiário informa que Claus foi orientado a “corrigir” o que escreveu na súmula para evitar que ele próprio fosse punido. Difícil compreender por quê. O árbitro estava de costas, foi abalroado por Petros sem ter ideia do que acontecia, razão pela qual não tinha como julgar se a ação foi proposital ou um acidente. As mesmas imagens que complicam o meia corintiano isentam Claus de qualquer falha. Ele comprovadamente não viu.

Usar o recurso de vídeo para suspender um jogador que deu uma cotovelada na boca de um adversário, em um gesto indiscutível de briga de rua, é uma coisa. Já aconteceu até em Copa do Mundo. Alterar o que está escrito na súmula, extraindo conclusões do replay para modificar decisões tomadas em campo, é uma barbaridade inaceitável.

A ironia desse episódio é a possibilidade de consagrar a tecnologia como auxílio ao árbitro, mas não em questões técnicas, muito mais importantes. Anular um gol de mão inicialmente validado, e mudar o resultado de um jogo, pode ser traumático. Mas ao menos seria justo.

SURTO

Petros cometeu um erro. Encostar no árbitro é um pedido para ser punido. Mas condená-lo como quem agarrou o apitador pelo pescoço e lhe quebrou o nariz com uma cabeçada é brigar com a realidade. Tanto quanto dizer que o encontrão em Claus foi sem querer. Que as excelências estejam em um bom dia e o suspendam por três jogos. E que ele se comporte.

GÊNIOS

O Botafogo é tão bem administrado que, quando apareceu um dinheiro para honrar os salários de jogadores, a diretoria rachou o time entre os que receberam e os que não. Não é espetacular? Sabe-se lá como, os jogadores vinham mantendo um bom ambiente de trabalho, mesmo de graça. Mas a genialidade da cartolagem conseguiu acabar com isso também.

GANHAMOS

por André Kfouri em 14.ago.2014 às 9:51h

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Essa foto parece ter sido retirada da cena de um filme. De certo modo, foi.

O filme da conquista da primeira Copa Libertadores pelo San Lorenzo.

Na imagem, o técnico Edgardo Bauza e o vice-presidente Marcelo Tinelli compartilham o troféu, um instante carregado de simbolismo.

Não me aprofundei sobre o conceito de Tinelli – famosíssimo apresentador de televisão na Argentina – como dirigente. Não sei se ele trouxe práticas oxigenadas para o futebol ou se é uma embalagem diferente para o mesmo produto de sempre.

Esta é uma conversa para outro dia.

Hoje o momento é de celebração para um torcedor do San Lorenzo que se envolveu na vida do clube, se tornou dirigente em 2012 e pôde “tocar a Copa”.

A Copa que seu clube esperou por décadas, finalmente entregue pelo técnico que a conquistou, na festa que comemorou a noite inesquecível.

Troféus como o da Libertadores preservam o amadorismo que o futebol perdeu, carregam os sonhos que o futebol continua a proporcionar, armazenam os sentimentos que são mais importantes do que as forças que tentam sufocá-los.

Apesar de tantos pesares, há algo puro e nobre no gesto de erguê-los, na expressão dos privilegiados para os quais esses objetos representam trabalho, sacrifício e ilusão. Não duvide que essas pessoas existem.

A foto acima capta todas as metáforas que fazem o futebol valer a pena.

“Aqui está. É nossa”.

AS TRANSPARÊNCIAS NÃO ENGANAM

por André Kfouri em 13.ago.2014 às 16:39h

De dentro para fora do Morumbi, circulam há algum tempo comentários de que Mariana, uma das filhas de Carlos Miguel Aidar, tem participado de negociações de jogadores para o São Paulo.

Mariana trabalhava como agente Fifa até Carlos Miguel se apresentar como candidato à presidência do clube, no final do ano passado.

O blog entrou em contato por telefone com o presidente do São Paulo para saber o que ele tinha a dizer sobre o assunto.

Eis o posicionamento de Carlos Miguel Aidar:

“Muita gente no São Paulo não gostou da minha eleição ou gostaria de estar em meu lugar. Essas pessoas não conseguem me atingir porque não sou desonesto e não sou louco, então tentam atingir minha filha, que é minha assessora desde quando eu estava em campanha. Mariana deixou de ser agente Fifa quando me tornei candidato, e não participa de negociações de jogadores no São Paulo. Ela trabalha comigo. Não é funcionária do São Paulo e não ganha nada do São Paulo. Eu já tinha ouvido esses comentários e acho que até sei de quem isso vem, mas não citarei nomes. Essas pessoas não se identificam, porque sabem que serão interpeladas e terão de provar o que falam. Mas não me atinge, estou acostumado com isso. Lamento que tentem atingir minha filha e que não seja uma coisa de quem pensa no bem do clube, são motivações pessoais”.

Da mesma forma que não é apropriado que um ex-agente assuma a coordenação de seleções da CBF, o presidente de um clube como o São Paulo não deveria ter uma ex-agente como assessora, especialmente uma filha.

Evitar a possibilidade de conflitos faria o mesmo com o surgimento de suspeitas e comentários.

Ao fim e ao cabo, tudo é uma questão de transparência, pois se é necessário ser agente para participar de negociações representando atletas, é possível lucrar com negociações de diferentes formas.

Dunga, por exemplo, não é agente e ganhou mais de R$ 400 mil para aproximar as partes que trataram da venda de um jogador em 2004.

Carlos Miguel Aidar retornou ao São Paulo trazendo o perfil de dirigente de vanguarda, algo de que o futebol brasileiro carece desesperadamente. Sua experiência e sua visão podem ser muito importantes na criação de uma liga de clubes, se é que algum dia chegaremos a isso.

Esta é uma clássica questão da mulher de César.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 12.ago.2014 às 7:45h

(publicada ontem, no Lance!)

MAIS E MENOS

1 – Os movimentos iniciais foram todos do Santos, com um homem a menos no meio de campo mas, aparentemente, com um homem a mais em campo. Uma, duas, três ocasiões de gol, reflexos da projeção de Arouca e da postura agressiva de quem está em casa.

2 – É incorreto dizer que os times que esperam e saem não têm proposta de jogo. Mas quando só executam metade do plano, cabe perguntar o que pretendem. Durante todo o primeiro tempo, o Corinthians apenas esperou e especulou. O Santos jogou sem risco e sem a preocupação de ver seus erros punidos pelo adversário.

3 – Se Petros fosse expulso por um encontrão proposital no árbitro Raphael Claus, não teria sido um exagero do apitador. Atitude negligente do meia corintiano, prato cheio para os salivantes auditores do tribunal.

4 – Um clássico recordista em tempo de bola parada, por causa da sequência de faltas e da disposição dos jogadores em se horrorizar com qualquer coisa. Pedir cartão ao árbitro se tornou uma função, tal qual marcar o lateral oponente. Os empecilhos desnecessários à arbitragem e os danos ao jogo são evidentes, o que deveria ser motivo de mobilização dos atletas por um produto mais agradável. Eles não parecem preocupados com essa questão.

5 – A reação de tristeza de Alison, ao ver o segundo cartão amarelo por falta por trás em Elias, é perfeitamente crível. O lance não deixou a impressão de ter sido intencional. Mas não foi uma jogada fácil para o árbitro e Alison, já advertido, poderia ter sido mais cuidadoso.

6 – Apesar de inferioridade numérica, Oswaldo de Oliveira não mexeu em seu time para o segundo tempo. Disse aos repórteres que queria “esperar para ver como o Corinthians vem”. Para a surpresa do técnico santista, o Corinthians não foi.

7 – O Santos, sim, foi. Com Robinho e com a coragem que deveria ser item obrigatório para todos os times que se prezam. No cômputo das oportunidades criadas até a metade da etapa final, o Santos faz mais com menos.

8 – Quando o Corinthians finalmente despertou e gerou perigo (uma jogada só, porém: Ferrugem para Elias e defesa de Aranha) ofereceu o contra-ataque a uma equipe que deveria estar controlada em seu campo e resignada com o empate. O que diz muito sobre as atuações de ambos.

9 – O futebol é um jogo de imposição de ideias. Mesmo entre times nivelados, espera-se que o desequilíbrio numérico seja determinante para o que se vê em campo. Quando não é assim, ou algo extraordinário se passou ou o time que tinha onze jogadores falhou.

10 – Boa reentrada de Robinho. Ele será capaz de fazer diferença no futebol brasileiro, como outros jogadores talentosos repatriados da Europa. O desnível técnico e de repertório é gritante.

11 – O gol de Gil, após cobrança de escanteio, encaminhou um resultado excelente pelo adversário, o local do jogo e o impacto na tabela. Mas não coroou uma atuação que permita ao Corinthians dizer que encontrou sua melhor postura como visitante. Tanto pelo que o Santos produziu com um a menos, quanto o que o Corinthians deveria ter produzido com um a mais.

VÁRZEA

Gandulas atrapalharam a arbitragem e o jogo durante o Gre-Nal. Estádio de Copa, clássico da maior importância e essa bobagem típica de futebol de quinto mundo. A organizadora do campeonato não vê?

SEM TELA

Interessantes declarações de Leonardo ao jornal “O Globo”. O fato de um dirigente como ele, que trabalha na Europa há tanto tempo, dizer que o Campeonato Brasileiro praticamente não existe por lá deveria erguer algumas sobrancelhas. Especialmente as de quem é contra os avanços propostos em termos de calendário, com efeito direto na qualidade do futebol que se pratica no Brasil. Os clubes seriam os maiores beneficiados com a comercialização internacional do campeonato. O debate é apropriado no momento em que a CBF divulga a programação de competições para 2015, sem levar em conta as observações do Bom Senso Futebol Clube.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 10.ago.2014 às 11:07h

(publicada ontem, no Lance!)

SEMÂNTICA DO CALOTE

Na semana em que o Bom Senso Futebol Clube venceu o jogo em Brasília, ao impedir a votação apressada da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, descobrimos coisas interessantes a respeito de dois dirigentes que moldam o estereótipo do cartola brasileiro.

Pouco tempo após a Câmara dos Deputados decidir que a matéria será apreciada em outubro, Maurício Assumpção revelou, despreocupado, que optou por não pagar os impostos devidos pelo clube que preside, o Botafogo. A infâmia só não foi maior do que a de Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians, réu de ação penal por sonegação de cerca de R$ 100 milhões em tributos.

Assumpção confessou que, em nome do Botafogo, se apropriou do dinheiro dos funcionários do clube. Sanchez – junto com outros três dirigentes do Corinthians – está sendo processado por ter feito o mesmo. Ambos, naturalmente, são favoráveis ao refinanciamento das dívidas que ajudaram a fermentar em troca de mecanismos frouxos de fiscalização, como constava do texto que poderia ter sido aprovado na última terça-feira. A derrota parcial da desvergonha também atingiu o ministro do esporte, Aldo Rebelo, que trabalhou nos telefones pela votação.

É obrigatório lembrar que Andrés Sanchez e Maurício Assumpção foram personagens centrais na demolição do Clube dos 13, durante a discussão dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, em 2011. Sanchez sabotou a ideia de negociação em bloco por identificar a influência do São Paulo no processo conduzido por Ataíde Gil Guerreiro, então diretor-executivo da associação dos clubes. Assumpção formou uma espécie de grupo dissidente com os comandos dos outros três grandes do Rio de Janeiro.

O que poderia ser um marco na valorização do produto do qual os clubes são proprietários transformou-se em cada um por si para uns, salve-se quem puder para outros. Corinthians e Flamengo se distanciaram ainda mais em orçamento em relação aos concorrentes, fato que, para Assumpção, deveria ser tão importante quanto o aumento obtido em negociação individual com a televisão. A situação miserável do Botafogo não pode se dissociar da oportunidade que foi desperdiçada por seu presidente, que hoje lacrimeja em ameaças vazias de retirar o clube do Campeonato Brasileiro. Para Assumpção, o único alívio é, por enquanto, não ter a Justiça em seu encalço.

Sanchez e Assumpção qualificam como “opção administrativa” o ato criminoso de sonegar impostos, certos de que a União virá ao resgate com as benesses que garantem as práticas que deixaram os clubes com o pires na mão. A tarde de terça-feira serviu para colocar um pouco de dúvida na agenda da cartolagem, graças aos músculos de uma força que não existia em 2011: os jogadores mais atuantes e organizados da história do futebol no Brasil.

Tem dirigente dizendo que a televisão precisa salvar os clubes, como se ela já não fosse o aparelho que permite que eles respirem. É possível que, agora, ajoelhados, estejam todos dispostos a ficar do mesmo lado da mesa. É tarde.

ATÉ TU?

A crise administrativa é tamanha que até o São Paulo, visto como exemplo de gestão, deve salários e direitos de imagens a seu elenco. É evidente que o fato tem influência no desempenho do time, que joga menos do que pode e demonstra, por vezes, não se importar com isso. Nesse tipo de ambiente, geralmente quem paga é quem tem menos culpa.

SOFÁ

Nada pode ser mais apropriado do que o comando anacrônico da CBF falar na volta da lei do passe. Marco Polo Marin, o ex, atual e futuro presidente da confederação, redefine o significado da palavra “retrógrado” ao enxergar o mecanismo como medida para diminuir o poder dos empresários. Demagogia para desviar o debate sobre a incompetência de quem toma decisões. No aniversário de um mês do armageddon dos 7 x 1, a CBF dá mostras de que a terra continuará arrasada.

CAMISA 12

por André Kfouri em 08.ago.2014 às 7:56h

(publicada ontem, no Lance!)

O SEGUNDO IMPACTO

A liga esportiva que mais lida com choques de cabeça no mundo, a NFL, estima que o tempo mínimo necessário para identificar um caso de concussão é de oito a doze minutos. Esse é o intervalo para que um especialista submeta um atleta ao teste que pode significar a diferença entre vida e morte.

Além de óbvios sintomas como perda de consciência, amnésia, letargia e confusão, o teste aplicado em jogadores de futebol americano procura alertas relativos a memória, concentração e equilíbrio. O exercício vai desde perguntas banais como “que dia é hoje?” e “onde estamos?” até sequências de palavras que o atleta tem de repetir sem erros ou tempo para pensar, e sequências de números que devem ser repetidos em ordem inversa.

A importância do diagnóstico é vital para evitar o que se chama de “segundo impacto”. Quando uma pessoa sofre uma concussão, o cérebro balança e pode se chocar com a estrutura óssea do crânio, danificando fibras nervosas. Em um período que vai de minutos a dias após o trauma, o cérebro fica vulnerável não em termos de estrutura, mas de funcionamento. É nessa janela de tempo que um segundo choque pode ter consequências gravíssimas.

O problema se torna ainda mais sério quando o acidente ocorre durante um jogo, como se viu em cinco ocasiões na Copa do Mundo de futebol. Na NFL, as regras de substituições de jogadores permitem o atendimento médico sem que equipes sejam prejudicadas numericamente. No futebol, times não podem perder um homem por oito minutos.

Os casos da Copa e o exemplo do são-paulino Álvaro Pereira, em partida do Campeonato Brasileiro no último sábado, indicam que jogadores de futebol não são avaliados corretamente após choques de cabeça em campo. É possível que todos tenham sido autorizados a retornar ao jogo vulneráveis ao perigoso “segundo impacto”, situação que se aproxima de uma roleta russa. Algo tem de ser feito.

CUIDADO

A NFL deverá gastar quase um bilhão de dólares em um acordo judicial com ex-jogadores que sofreram danos cerebrais em suas carreiras. O processo obrigou a liga a rever seu protocolo de concussões. Hoje, há um neurologista independente em cada lateral do campo, responsável pela aplicação do teste e pela decisão de permitir ou não o retorno do atleta ao jogo.

CAMINHO

Um atleta diagnosticado com uma concussão precisa completar um programa de recuperação composto de seis etapas, entre repouso total e retorno às competições. Cada etapa dura pelo menos um dia e, na ausência de sintomas, passa-se à fase seguinte. Se qualquer sintoma reaparecer, é obrigatório reiniciar o processo. Há casos de atletas que não se recuperam.

MAURO SILVA ESCLARECE

por André Kfouri em 05.ago.2014 às 19:34h

No Lance! desta quarta-feira, 06/8/2014:

A propósito da coluna (post abaixo) que publiquei na edição de segunda-feira deste diário, estive com Mauro Silva no final da tarde de ontem. O tetracampeão do mundo em 1994 quis esclarecer o aparente conflito entre seus negócios e o convite de Dunga para um trabalho temporário nos próximos amistosos da Seleção Brasileira.

“Não faço representação de jogadores e nunca participei de negociações desse tipo”, disse Mauro, ao exibir a documentação das empresas das quais é sócio, uma no Brasil e outra na Espanha, ambas com atuação no mercado imobiliário. “Além dessas empresas, faço palestras e sou membro da associação Atletas Pelo Brasil. Não quero deixar dúvidas sobre as minhas atividades”, concluiu.

Perguntei a respeito da Mauro Silva Sport & Business Plan, que se apresenta em seu site, entre outras atuações, como prestadora de assessoria em “intermediação de direitos federativos” de jogadores de futebol. Mauro explicou que o objetivo neste caso é assessorar jogadores que estejam sendo negociados, com aconselhamento financeiro e fiscal. Uma área na qual cogitou atuar logo após encerrar a carreira, ideia que até hoje não se concretizou. Ele admite que o texto disponibilizado no site que leva seu nome sugere outra interpretação.

Mauro Silva concorda com a posição deste colunista, que entende que o trabalho – legítimo, frise-se – de agente de jogadores é incompatível com qualquer outra função ligada ao futebol. Este colunista concorda com a posição de Mauro, que entende que as atividades que ele afirma manter não o impedem de colaborar com a comissão técnica da Seleção Brasileira nos amistosos de setembro. “Vou atender o chamado do Gilmar (Rinaldi, coordenador da CBF) e do Dunga”, disse Mauro.

Como está escrito na coluna que motivou nossa conversa, Mauro Silva é dono de uma trajetória profissional honrada. Não há motivo para duvidar de sua palavra.


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