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CAMISA 12

por André Kfouri em 27.fev.2015 às 10:41h

(publicada ontem, no Lance!)

TRANQUILO

1 – O público no Morumbi não era digno de jogo importante de Libertadores, porque a diretoria do São Paulo conseguiu sabotar a própria obrigação. Fez o possível para que o torcedor não fosse ao estádio. Coisa de profissionais.

2 – Mas o futebol de alto nível apareceu bem cedo, deixando quem não pôde ir ao jogo ainda mais irritado. Michel Bastos contribuiu com a inteligência, Reinaldo com o esforço e Alexandre Pato com a técnica que poucos têm. Até os uruguaios disseram: golazo.

3 – Um gol logo aos aos três minutos é como um drink antes do jantar. Relaxa e anima, ao mesmo tempo. Tudo o que o Danúbio planejou teve de ser apagado e reescrito. Um cenário interessante para o São Paulo.

 O segundo gol por pouco não saiu em jogada avícola, à altura da meia hora de jogo. Ganso para Pato, pelo alto. A finalização foi defeituosa como o domínio de Michel Bastos, mais tarde, ao receber de Luis Fabiano em condições de marcar.

 O incômodo da vantagem simples contra um time inferior não chegaria ao intervalo. Como se fosse invisível, Pato cabeceou sem marcação, no chão e no canto. O segundo tempo seria dedicado a construir saldo de gols, sempre conveniente na Libertadores.

 Os passes errados comprometeram qualquer chance de aumentar o placar (Ganso pouco envolvido, uma das razões), e convidaram o Danúbio a ter ideias no Morumbi. González coroou sua péssima noite com um gol de cabeça desperdiçado, diante de Rogério. Ao economizar o interesse no jogo, São Paulo testava a paciência da sorte. 

7 – Um gol em chute de Reinaldo, desviado, e um uruguaio expulso antes dos trinta minutos deixaram o São Paulo em situação ideal para um esforço final. Cafu garantiu o 4 x 0 e o saldo positivo de dois gols. Em números, uma noite completa.

8 – Os dias serão mais calmos a partir desta quinta-feira, com a recuperação no torneio sul-americano e Muricy reforçado pelo resultado e pela voz do torcedor. É mais fácil evoluir assim.

ZERADO

Complicou, e muito, a situação do Atlético Mineiro na Libertadores. Restam doze pontos disponíveis e o desempenho terá de ser espetacular para pensar em classificação. Este é um problema. Outro, ainda mais sério, é o nível de jogo do time que brilhou no segundo semestre do ano passado. Até o Independência, que joga tanto a favor, reclamou ontem.  

ILUMINADO

Sim, Messi perdeu cinco dos últimos dez pênaltis que bateu. Dar maior importância a esse número do que à partida esplêndida que o argentino fez contra o Mancheser City é uma forma triste de ver futebol. Messi jogou como um legítimo camisa 10, organizando seu time, como se ainda precisasse exibir novas qualidades. O Barcelona fez um primeiro tempo mágico.

SHOW SURPRESA

por André Kfouri em 24.fev.2015 às 21:05h

O primeiro tempo de Manchester City x Barcelona foi um suplício para quem gosta de futebol feio (o que, sempre é preciso lembrar, é pior do que não gostar de futebol).

As impressões digitais do grande Barcelona de Guardiola surgiram no gramado do Etihad Stadium, certamente uma surpresa, pois acreditava-se que, por diversas circunstâncias, tal maneira de jogar estava presa no passado.

Mas eis que o “Barcelona dos atacantes” se apoderou da bola e do jogo, com Messi atuando como um 10 legítimo na organização de movimentos. Preciso, bom passador e ameaçador como sempre foi.

O recuo cronológico do time catalão foi como uma apresentação brilhante de uma banda de sucesso que se imaginava aposentada, ou dissolvida. Você entra em um bar sem esperar nada especial e ali está ela, no palco. A pouca expectativa é substituída pela escolha de músicas que lhe fazem bem aos ouvidos e recuperam memórias. O som ainda empolga, a presença e o carisma ainda garantem a conexão com o público.

De repente, você se sente privilegiado por ter ido àquele bar, naquela noite, e assistir a um show que pensava não existir mais. Comenta com a pessoa ao lado, um desconhecido, sobre a sorte que os contemplou. E ele responde com a maior verdade de todas: é preciso seguir os grandes, pois nunca se sabe quando eles resolverão reaparecer.

O velho Barcelona se fez presente em Manchester, sim, mas não sem a ajuda de quem menos se poderia esperar: o Manchester City. 

É compreensível que o técnico de uma equipe multimilionária sinta-se estimulado a dar as cartas em seu estádio. E sendo esse técnico o chileno Manuel Pellegrini, um “treinador do sim”, entende-se a intenção de debater a posse com o Barcelona e, efetivamente, jogar. Provou-se um erro, mais pela forma do que pelo conceito, mas entende-se.

A questão é que há um motivo pelo qual os times que enfrentam o Barcelona escolhem uma de duas formas de atuar: 1) recuar até a própria área, protegê-la com muitos jogadores e ver o que acontece; e 2) defesa compacta, pressão sobre a bola em setores pré-definidos do campo e contra-ataque.

Pellegrini quis inaugurar uma terceira maneira, com marcação adiantada e aposta na capacidade técnica de seu time para fazer com o Barcelona o que o Barcelona costuma(va) fazer com os oponentes. O resultado foi trágico para o time inglês, que novamente se vê diante da porta de saída da Liga dos Campeões.

A pior imagem possível para um técnico que enfrenta o Barcelona é ver os meias adversários navegando com liberdade pela faixa central do campo. Foi o que Pellegrini observou durante praticamente todo o primeiro tempo, com um agravante: a bola chegou sem problemas até a área do City com assustadora frequência. 

Dois gols em meia hora (Suárez, terror do ingleses), várias ocasiões depois, sofrimento máximo no Etihad.

O cenário do segundo tempo foi mais compatível com o que o jogo deveria mostrar, com um bonito gol de Aguero (toque mágico de David Silva) e pressão dos ingleses até a expulsão de Clichy pelo segundo cartão amarelo. Mas não se pode dizer que a vitória dos visitantes esteve ameaçada. 

Messi ainda perdeu um pênalti nos acréscimos (perdeu também o gol de cabeça no rebote de Hart), que, se convertido, construiria um placar mais de acordo com o que se deu em campo, e muito provavelmente decidiria o confronto.

A derrota por 2 x 1 mantém o pulso do Manchester City, ainda que fraco. Mas pelo que sofreu, não é exagero dizer que o resultado foi bom. Ademais, no Camp Nou, não restará outra opção a Pellegrini a não ser marcar muito. Porque a questão não é quantos gols o City conseguirá fazer, mas quantos gols conseguirá evitar.

Não há como garantir que aquela banda surgirá novamente no palco. Talvez os 45 minutos em Manchester tenham sido um evento cósmico. Mas é justamente por isso que é preciso ver.

A não ser, claro, que você goste de futebol feio.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 24.fev.2015 às 8:00h

(publicada ontem, no Lance!)

BÁRBAROS – 2

O texto que ocupou este espaço, no sábado, terminou com a notícia da prisão de três criminosos que se passavam por “ultras” do Real Madrid. O material sobre o assunto não cabia em apenas uma coluna, por isso seguimos hoje com outro exemplo de atuação de autoridades espanholas no combate à violência no futebol.

Na Espanha há uma lei contra “a Violência, o Racismo, a Xenofobia e a Intolerância no Esporte”. Em cumprimento a esse regulamento, uma operação conseguiu punir um “torcedor” do Atlético de Madrid por ter comemorado a morte de um “rival”, do Deportivo La Coruña, em uma mensagem publicada no Twitter. O cretino em questão foi multado em 60 mil euros e proibido de entrar em recintos esportivos por cinco anos.

Em 30 de novembro do ano passado, antes de um jogo entre os dois clubes, em Madri, facções radicais de ambos os lados se envolveram em uma batalha nos arredores do estádio Vicente Calderón. Um torcedor do La Coruña morreu após ter sido atirado no Rio Manzanares. O episódio deflagrou a Operação Neptuno, que, por intermédio da análise de imagens, de escutas telefônicas e da geolocalização dos telefones celulares dos envolvidos, levou à prisão de mais de sessenta pessoas. Destas, quatro foram identificadas como os autores do assassinato.

O “ultra” punido na semana passada expressou em seu perfil no Twitter a “mais absoluta e sincera alegria pela morte do (torcedor) do Depor. Um filho da puta que não criará mais problemas. Tomara que morram mais”. Uma mensagem que lhe saiu cara não apenas no aspecto financeiro, e que certamente servirá como um recado preventivo aos que pretenderem publicar conteúdo “ofensivo e ameaçador, em meios de comunicação de caráter impresso, audiovisual ou por internet”.

Aqui no Brasil, casos semelhantes são frequentes nas mídias antissociais ou nos espaços para comentários de portais eletrônicos de notícias, especialmente quando o assunto é política ou futebol. Os perfis virtuais oferecem não só a segurança do anonimato, mas a coragem que resulta da dificuldade de identificação. Os valentes da internet não se incomodam com a propagação da própria miséria. Ao contrário, a consideram um troféu a ser exibido entre aqueles com quem dividem um mundo carregado de ódio, intolerância e desrespeito.

São conhecidas as gravações de telefonemas ou mensagens trocadas por “torcedores organizados” de clubes rivais, marcando batalhas em dias de jogos ou festejando o saldo de encontros violentos. Mas um exercício bem mais simples revela como é vasto o campo para uma atuação inspirada na Justiça da Espanha, mesmo que o alvo não seja os “ultras” brasileiros. Eis um exemplo: no campo de busca do Twitter, escreva as palavras “morra juvenal juvêncio” e torça para que haja um banheiro nas proximidades.

A falta de humanidade demonstrada por são-paulinos com o ex-presidente que enfrenta uma doença cruel é enojante. Mas não estão sozinhos. Faça a busca usando os nomes de outros dirigentes e os resultados também provocarão náusea. A oferta de imbecilidade continuará generosa enquanto não for tratada com a medicação adequada.

AGENDA

O meio de semana trará uma rodada crucial para três clubes brasileiros na Copa Libertadores. São Paulo, Atlético Mineiro e Internacional estão na mesma situação: perderam na estreia como visitantes e receberão, em casa, os times que foram derrotados como mandantes na primeira rodada. Qualquer projeção de classificação na fase de grupos considera obrigatória uma vitória nesta semana, em jogos que - ao contrário do que se vê nos Estaduais – certamente mobilizarão as torcidas em direção ao Morumbi, ao Independência e ao Beira-Rio.

POSSE

Os raros leitores desta coluna são testemunhas de quantas vezes Paulo Henrique Ganso recebeu elogios aqui. Mesmo em épocas em que as críticas a ele eram mais numerosas. A balança pende para os dois lados: livre de lesões e reestabelecido como jogador diferente que é, Ganso precisa se estabelecer em seu time como referência.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 22.fev.2015 às 9:41h

(publicada ontem, no Lance!)

BÁRBAROS

As imagens sugeriram uma invasão selvagem em pleno Século XXI. O centro de Roma, região do planeta que deveria ser protegida por todos os seus habitantes, transformado em um gigante banheiro biológico após dias de uso despreocupado. Seria um pouco menos alarmante se fosse apenas sujeira, um rastro de lixo capaz de converter cartões postais (se eles ainda existissem) em aterros sanitários. Mas foi muito pior: a horda que assaltou a Cidade Eterna também usou violência e provocou destruição.

A “Gazzetta dello Sport” os chamou de bárbaros. Outros meios europeus preferiram “hooligans”, termo consagrado pelos ingleses. De modo geral, eles pertenciam a essa excrescência à qual por lá se dá o nome de “ultras”, patamar de imbecilidade que nossos piores “torcedores organizados” ainda – ênfase no ainda – não alcançaram. Muitos se enquadravam na descrição padrão do neonazista que pode ser encontrado em várias partes do mundo: cabeça raspada, roupas de couro, botas militares. Babavam raiva. Eram holandeses, torcedores do Feyenoord.

Chegaram à Itália aos milhares, por causa do jogo de anteontem contra a Roma, pela Liga Europa. A enorme maioria não tinha ingresso e decidiu passar o tempo vandalizando a cidade. Terminaram por conseguir um feito, desses que enchem mentes perturbadas de orgulho: ao barbarizar a mundialmente admirada Piazza di Spagna, causaram danos que talvez não possam ser recuperados à Fontana della Barcaccia, monumento de quase quatrocentos anos de história. A fonte, restaurada no ano passado, sobreviveu a duas Guerras Mundiais, mas não aos ultras do Feyenoord em 2015.

O futebol está no pano de fundo de barbaridades como essa por ser o ambiente em que tantas carências se reúnem. Razões sócio-econômicas ajudam a explicar o problema, seja em sociedades atrasadas ou em locais onde a civilização parece ter caminhado mais adiante, como a Holanda. Hooligans laranjas têm vasto currículo de boletins de ocorrência pelo continente. Os do Feyenoord, em particular, protagonizaram um espetáculo semelhante nove anos atrás, antes de um jogo em Nancy, episódio que resultou na eliminação do clube holandês da Copa da Uefa. A punição talvez tenha mantido dormentes por algum tempo os planos de selvagerias, mas não impediu os fatos ocorridos na capital italiana nesta semana.

É cada vez mais urgente a atuação da Justiça contra criminosos fantasiados de torcedores, especialmente no que diz respeito ao trabalho de inteligência que permite a construção de acusações consistentes. Um exemplo desse tipo de investigação se deu recentemente na Espanha, sob o nome de Operação Aríete. A coleta de provas sobre atividades ilícitas que nada tinham a ver com o futebol levou à prisão de três “ultras” do Real Madrid, fechando, de fato, uma das mais violentas facções de torcedores do clube. Os três já tinham sido proibidos de frequentar o estádio Santiago Bernabéu, primeiro passo para proteger o futebol de quem o utiliza como disfarce.

TÁTICO

Um último comentário sobre o clássico paulista da Libertadores: entre tantas boas atuações individuais no Corinthians, não se pode deixar de registrar a partida de Renato Augusto. Além de oferecer técnica e neurônios, Renato também é capaz de ser um jogador tático. Seu grande problema sempre foi de confiabilidade no aspecto físico, por causa da repetição de lesões. Em campo com regularidade, como tem sido o caso, ele é valioso.

NOVO?

E eis que o português Luis Figo, cara nova da política do futebol, apresenta-se como candidato à presidência da FIFA com a velha proposta de aumentar o número de participantes da Copa do Mundo. Ele cogita até quarenta e oito países, obviamente como forma de conseguir apoio. A estratégia não é apenas antiga. Foi o expediente adotado por Michel Platini na UEFA e, bem antes, por João Havelange. Digamos que não pega bem.

CAMISA 12

por André Kfouri em 20.fev.2015 às 7:16h

(publicada ontem, no Lance!)

PREPARADO

1 – O São Paulo iniciou o jogo convicto de que a oferta de espaço era questão de tempo e, por consequência, de espera. Os primeiros quinze minutos de encontros entre iguais – período clássico de observações – normalmente são marcados pela cautela, postura padrão dos times que optam por analisar o cardápio sem pressa.

2 – Do outro lado, no entanto, o Corinthians já tinha escolhido seu prato: jogar com Danilo nas proximidades da área, como isca para os zagueiros adversários. Dória mordeu aos onze minutos. Na jogada em que Elias deixou a bola passar no início, e a recebeu de Jádson no fim, foi a saída do defensor são-paulino (para incomodar Danilo) que abriu a porta para o avanço do volante definidor.

3 – A liberdade de Jádson para servir Elias está na origem do gol. Uma das finalidades da troca de passes é provocar a falha defensiva.

4 – À medida que a posse de bola do São Paulo aumentou, o mesmo aconteceu com as possibilidades de contra-ataque do Corinthians. O time de Tite foi mais competente na vigilância a Ganso do que na procura do segundo gol.

5 – Ao fazer Reinaldo entrar, Muricy pareceu confessar um equívoco. A mudança retornou Michel Bastos à função em que produz melhor, a partir dos oito minutos do segundo tempo. O bom chute de Michel passou a ser uma opção.

6 – O contragolpe do Corinthians já tinha dado dois avisos quando Emerson Sheik tomou a bola de Bruno, ainda no campo de defesa. Bom passe para Jádson fazer um gol que saboreará por vários dias. A diferença no placar era absolutamente justa, mas…

7- … Sheik fez falta no desarme. Erro do árbitro.

8 – Voltando a Jádson: um gol e passe para o outro, no primeiro jogo contra o clube que lhe trocou por Pato. Doce.

9 – O jogo não era decisivo, mas era importante. Especialmente para o Corinthians, que sairá do Brasil nas duas próximas rodadas. Serviu para confirmar algumas impressões a respeito da proposta de jogo de Tite, baseada na circulação rápida da bola.

CLAREZA

O Corinthians foi superior na escalação, no jogo e no resultado. Mas a interferência da arbitragem no segundo gol terá mais peso em certos debates. Parece claro que os jogos contra o Once Caldas contribuíram para preparar o time de Tite para este momento. Parece também que o Corinthians, hoje, tem uma ideia mais clara do que pretende e de como alcançá-lo.

DÍNAMO

Elias foi o nome da noite. Disposição para marcar, apoiar e concluir. Vitalidade para desempenhar tantos papéis na maior parte do tempo. Categoria para finalizar, de primeira e com precisão, um lançamento como o que originou o primeiro gol. Se o combustível foi a temporada marcada por críticas em 2014, funcionou. O começo de 2015 tem sido formidável.

A FALTA E O JOGO

por André Kfouri em 19.fev.2015 às 7:58h

Foi Rogério Ceni, símbolo, rosto e voz do escudo tricolor, quem melhor analisou o erro de arbitragem no início da jogada do segundo gol do Corinthians (2 x 0 no São Paulo: Elias e Jádson).

Em uma entrevista longa e sóbria na zona mista de Itaquera, o capitão são-paulino chamou a atenção para o principal problema da falta não marcada de Emerson Sheik em Bruno: a discrepância de critérios.

“Era uma falta fácil de marcar”, disse Rogério, em uma frase que carrega um pouco mais do que seu óbvio sentido.

Não era fácil apenas porque o empurrão por trás foi claro, mas, e principalmente, porque Ricardo Marques Ribeiro parou o jogo em lances semelhantes desde os primeiros movimentos do clássico.

O trabalho de arbitragem é uma conversa entre o homem de meias pretas e os jogadores. Um árbitro fala com seu apito, com suas expressões, com seus gestos e propriamente com palavras. Mas uma das maneiras mais eficientes de estabelecer essa comunicação é com as decisões que toma. São elas que evidenciam que tipo de mediação uma partida terá.

A identificação de faltas é o aspecto mais importante no “estilo” de um apitador. Por intermédio do que considera ou não uma infração, o árbitro informa aos jogadores até onde podem ir nas disputas de bola. Quanto mais consistente for o uso do critério escolhido, mais franca será a “conversa” em campo, e menos espaço haverá para incompreensões e reclamações.

A maior falha de Ricardo Marques Ribeiro não foi deixar de apitar a falta em Bruno, mas ter permitido o nascer de uma jogada de gol em um lance que ele havia caracterizado como falta até então.

Isto dito, quero voltar à entrevista de Rogério para salientar uma outra opinião com a qual concordo. Ceni foi exato quando disse que o São Paulo não pode reclamar por ter perdido um jogo em que o goleiro adversário foi um observador. O fato de alguém como ele, que possui uma notável capacidade de falar sobre uma partida – da qual participou – logo após seu término, não lembrar se seu time havia chutado uma vez sequer ao gol diz muito sobre o que o São Paulo não fez no clássico.

O número e o tipo de ocasiões criadas pelo Corinthians demonstram um encontro claramente desequilibrado a seu favor, lembrando – como também salientou o capitão são-paulino – que o jogo estava 1 x 0 quando o apito cometeu um erro importante.

A falha comprometeu a chance de uma reação do São Paulo? É uma pergunta válida e a resposta é sim. Outra pergunta que cabe: que chance era essa até o momento do segundo gol?

Como escrevo em minha coluna no Lance! desta quinta-feira, o Corinthians é hoje um time que tem uma ideia mais clara do que pretende e de como aplicá-la. A jogada do primeiro gol é um exemplo cristalino da diferença de estágio em relação ao São Paulo.

Está tudo ali: movimento ofensivo desde o campo de defesa; rápida circulação da bola (nada é mais importante) para se organizar e desorganizar o oponente; Danilo como armadilha para atrair um defensor e criar o espaço para o aparecimento de um homem de trás, Elias, servido pelo passe de Jádson.

Tite mencionou essa construção na terça-feira e os jogadores do São Paulo lembraram dela após o jogo. Um time executou o que se propôs, o outro não.

O defeito de critério de Ricardo Marques Ribeiro tem pouquíssimo a ver com isso.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 17.fev.2015 às 8:52h

(publicada ontem, no Lance!)

CINZAS

A queima dos ramos abençoados trará as cinzas da quarta-feira e a lembrança do dever da conversão. Molhadas pela água benta, as cinzas representam a fragilidade da vida, a mortalidade. Do pó ao pó, destino de todos. Para os que creem, o dia do calendário gregoriano que marca o início da Quaresma deve ser dedicado ao jejum e ao sacrifício.

Quando os sinos centenários do Mosteiro de São Bento informarem a cidade de que são dez horas da noite, um outro tipo de religião anunciará a chegada de uma quarta-feira diferente de todas as que a antecederam no calendário futebolístico. Para os fiéis corintianos e os devotos de São Paulo, o primeiro encontro entre seus clubes pela Copa Libertadores também poderia ser caracterizado pela necessidade de reflexão.

Há dez dias, mais um espetáculo de intolerância e violência aconteceu na estação Carrão do metrô paulistano. Enquanto aguardavam o trem que os levaria na direção Corinthians-Itaquera, dezenas de torcedores corintianos viram são-paulinos em uma composição que viajava no sentido oposto. Os quatro “inimigos” que iam a um jogo do São Paulo no Pacaembu foram espancados por alguns dos quarenta e quatro justiceiros que entraram no vagão para agredi-los. Um exemplo a mais, apenas, igual a tantos outros, independentemente dos envolvidos.

A guerra entre os que vestem camisas de determinadas cores e não aceitam a existência de outras é alimentada pelos planos de vingança, sejam eles emboscadas de contornos medievais ou confrontos modernos, agendados pela internet. Seu combustível é um ódio artificial, produzido por aspectos que transcendem o esporte e revelam até onde pode chegar a estupidez. Uma briga é motivo para outra, uma morte justifica outra, olho por olho, do pó ao pó. A fragilidade da vida, pensamento cristão na quarta-feira de cinzas, adquire um significado mundano e repugnante graças ao comportamento animalesco de cretinos fantasiados de torcedores.

O jogo desta quarta impõe um problema de segurança dos mais sérios: o retorno da torcida visitante que for à Arena Corinthians. O período em que ficará retida no estádio após o jogo, enquanto a maioria de corintianos deixa o local, certamente superará o horário de funcionamento dos serviços de metrô e trens. Caso não se encontre uma solução, as ruas e avenidas da região receberão cerca de dois mil são-paulinos. É impossível escoltar todos eles e, consequentemente, inimaginável que tal cenário seja considerado.

Não podemos apenas celebrar o encontro inédito de dois campeões mundiais em um jogo de Libertadores, ou lembrar despreocupadamente que a temporada promete nos trazer várias repetições deste clássico. A nobreza do enfrentamento esportivo não consegue se afastar do acirramento da rivalidade e de suas consequências violentas, quase sempre distantes dos estádios. Que o futebol prevaleça e a data comum aos calendários seja só uma coincidência.

ROTA

A lógica – que o futebol respeita na grande maioria das ocasiões – é que ambos os clubes brasileiros se classifiquem no grupo 2. A dificuldade da chave foi calculada com certo exagero, à época do sorteio, pela presença do atual campeão do continente e pela possibilidade de classificação do Corinthians. O San Lorenzo deve ser tratado com o merecido respeito, mas não visto como um time superior. E o uruguaio Danúbio é, com distância, a quarta força. Em uma projeção natural, é considerável a probabilidade de um novo cruzamento após a fase de grupos, o que seria verdadeiramente épico.

PROVA

Após a crise entre Luis Enrique e Messi, o Barcelona “dos atacantes” coleciona vitórias em sequência e se comporta como um time. Neymar contribui com sua formidável qualidade para o trio sul-americano capaz de assustar qualquer adversário, mas o teste verdadeiro se verá na Liga dos Campeões.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 15.fev.2015 às 10:32h

(publicada ontem, no Lance!)

OS MELHORES

Os políticos do esporte brasileiro são incorrigíveis. Assim como nossos políticos profissionais, vivem em um planeta longínquo em que não devem explicações a ninguém, despreocupados com o julgamento da sociedade. Sabem que estão seguros em suas cadeiras, mesmo que a exposição ao escárnio aumente a cada contato com o mundo real. Confiam na benevolência da opinião pública, atenta a temas mais urgentes.

Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, arriscou-se anteontem a falar sobre uma modalidade esportiva que lhe é estranha. O comandante do CoRio-2016 juntou-se à campanha de divulgação da quimera do “sonho da medalha de ouro olímpica” no futebol, esse Santo Graal que tanta falta faz ao currículo da Seleção Brasileira. Nuzman pressionou as teclas de sempre, apelando a um desejo “de todo torcedor”, soando como alguém que ouve súplicas incessantes da população a cada vez que põe os pés na calçada. O rosto de nosso esporte olímpico também disse que o futebol brasileiro “ainda é o maior do mundo”, o que claramente agrega credibilidade ao discurso.

Nuzman falou após o COB anunciar a cidade de Manaus como candidata a sede do torneio olímpico de futebol em 2016. No mesmo evento, outro político de carreira no esporte nacional reapareceu para conduzir uma espetacular cocção de Alexandre Gallo, técnico (por ora) da Seleção Brasileira Sub-20. José Maria Marin, quase ex-presidente da CBF, não gostou do desempenho do time de Gallo no Campeonato Sul-Americano disputado no Uruguai. O Brasil ficou em quarto lugar por causa do excesso de individualismo dos jogadores, de acordo com o diagnóstico do cartola. Marin lembrou que “o que garante técnico é resultado”, mesmo que se trate de um trabalho em categoria de base, declaração que evidencia a profundidade do “projeto” da seleção olímpica. Como não aplaudir?

Antes de Nuzman recuperar a falácia da pátria que sonha com a medalha dourada no futebol, Gallo tinha sido o último a supervalorizar a conquista que não tem nada a ver com Jogos Olímpicos. Tampouco preencheria uma lacuna na história da Seleção Brasileira, um time que não precisa de troféus, mas de jogo. Sem falar que cobrar resultado de uma seleção de base é contrariar o caráter formador que deveria ser seu objetivo principal. Mas nada será capaz de convencer os políticos do esporte em nosso país de que os conceitos estão equivocados, e de que sem as ideias certas o sucesso – quando acontece – é efêmero. Agora Gallo está a um Carnaval de perder seu cargo e não se passará nem perto do propósito de desenvolver jogadores. É bem mais fácil chamar Neymar.

Marin e Marco Polo del Nero pensarão no que fazer com Gallo durante a folia de Momo. É possível que convoquem Dunga para acumular funções e levar a amarelinha ao lugar mais alto do pódio no Rio, plano que falhou em Pequim 2008. Gilmar Rinaldi, que não dorme desde a prata em Los Angeles 1984, estará de acordo. Como Nuzman lembrou, ainda somos os melhores.

PRÓXIMO…

Marin negou que o destino de Gallo já esteja resolvido, mas de que maneira ele poderia seguir como técnico após ter sido dispensado da função de coordenador das categorias de base? Como poderia trabalhar sob as ordens de seu substituto? Deve ser uma experiência e tanto sentar-se à mesa para dar explicações à cúpula da CBF, sabendo que a fila já andou.

LINHA DO TEMPO

A Série A italiana aprovou a utilização da tecnologia na linha do gol na próxima temporada. Os sistemas usados no Campeonato Inglês e na Copa do Mundo do Brasil, além de um novo equipamento recentemente desenvolvido, concorrem para a escolha final. Haverá testes na decisão da Copa da Itália, em junho, ou na Super Copa do país, em agosto. E já se fala em uso de vídeo por lá, como um experimento a ser avaliado pela FIFA. O futebol evolui.

CAMISA 12

por André Kfouri em 13.fev.2015 às 10:00h

(publicada ontem, no Lance!)

CONTROLE

1 – É longa a lista de eventos bizarros que devem acontecer para que um time perca uma vantagem de quatro gols, diante de um adversário inferior e em um ambiente cômodo. O primeiro deles é uma preparação inadequada, baseada na crença de que tais eventos jamais acontecerão.

2 – O Corinthians não correu esse risco ao encarar o jogo em Manizales com a responsabilidade que uma vaga na Copa Libertadores exige. Não só pelo gol marcado antes dos quinze minutos, mas pela maneira como atuou até encontrar o 5 x 0 no placar agregado.

3 – Encontrar, não. Construir. E repetindo o que treinou. A jogada do gol, que começou com uma tabela de Sheik com Danilo, passou por Jádson no lado direito do ataque e voltou ao meio para a entrada de Elias, foi trabalhada por Tite. Elias levou sorte na passagem pelo zagueiro, mas esbanjou categoria no toque final.

4 – As circunstâncias converteram o Once Caldas em uma equipe despreocupada, condição que o Corinthians poderia ter aproveitado. Ao contrário, deixou de pressionar e imediatamente passou a sofrer. O empate que se materializou no segundo tempo já era merecido pelos colombianos quando o encontro chegou ao intervalo.

5 – O Corinthians de Tite quer ter a bola e jogar, o que por si só já é elogiável. Os dois confrontos com o Once Caldas – cuja fragilidade precisa ser considerada – mostraram como o time pode ser perigoso na articulação ofensiva. A partida de ontem também revelou que será preciso evoluir para utilizar a posse como ferramenta de controle do jogo.

6 – Até as equipes que se defendem bem estão sujeitas a apuros que o controle do jogo pode evitar. As características das competições sul-americanas favorecem os que possuem essa capacidade.

7 – O Corinthians assegurou sua vaga na fase de grupos da Libertadores com evidente superioridade. Já na próxima quarta-feira, o clássico com o São Paulo é o tipo de jogo que promete compensar o que temos de suportar nesta época do ano.

AGILIDADE

Rogério Ceni foi decisivo para o zero a zero na Vila Belmiro. Em alguns de seus melhores momentos no jogo contra o Santos, ficou claro como Ceni mantém os reflexos em dia e exibe um tempo de reação que muitos goleiros jovens não têm. É impossível conter os prejuízos do tempo, mas, ao final de sua carreira, Rogério preserva várias de suas qualidades.

RESPIRO

Boa vitória do Palmeiras em casa, mais por seu produto do que pelos pontos somados. Muito pior do que não vencer o Rio Claro teria sido permitir que o resultado pressionasse um trabalho que mal começou. Não se pode aceitar que o conceito sobre um time que engatinha – pense no número de contratações – seja formado após quatro rodadas de um campeonato estadual.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 10.fev.2015 às 6:52h

(publicada ontem, no Lance!)

CARTÓRIOS

Em nenhum ambiente profissional respeitável, seja qual for o campo de atuação, aceita-se um comportamento semelhante ao que Rubens Lopes exibiu no dia 30 de janeiro. Não estivéssemos tratando dos bastidores do futebol brasileiro, as ofensas pessoais dirigidas pelo presidente da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro ao dirigente de um de seus clubes filiados teriam sido o penúltimo ato do cartola em sua cadeira. O último seria motivado pelos poderes que emanam da vergonha: um pedido público de desculpas, com a imediata entrega do cargo.

O fato de o dirigente ofendido ser Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo, é ao mesmo tempo um agravante e um exemplo do ponto a que chegou a inversão de valores no modelo de gestão do futebol no país. Não que devêssemos relevar o episódio se nele estivesse envolvido o representante de um clube pequeno. Claro que não. Mas a ausência de preocupação de um dirigente de federação diante da ruptura com um clube das dimensões do Flamengo revela o quanto o futebol brasileiro já caminhou no sentido oposto ao que deveria. A primeira medida a tomar é parar no acostamento e substituir o motorista.

O nível rastejante de conduta de Lopes é absolutamente constrangedor, mas não consegue camuflar o que de fato importa nos desentendimentos entre o clube e a FERJ. Em uma disputa de braço de ferro em que de um lado está o Flamengo e no outro a federação, não há possibilidade de derrota para a maior torcida do país. É evidente que o mesmo raciocínio vale para os demais clubes brasileiros de grande representatividade, desde que, é claro, todos entendam como devem se portar para defender o produto do qual são proprietários.

Um caso parecido se deu em São Paulo, na sexta-feira passada. Em suas últimas horas como presidente do Corinthians, Mário Gobbi derrotou a ideia de torcida única no clássico no Allianz Parque com uma entrevista devastadora no conteúdo, ainda que folclórica na forma. Além das objeções do presidente do Corinthians quanto à maneira arbitrária com que se tentou impedir a realização de um jogo de futebol como se deve, foi o peso do clube que ele representa o fator decisivo para o passo atrás da Federação Paulista de Futebol. Aguarda-se a explicação da FPF sobre sua postura estranhamente apressada e unilateral em uma questão que deveria ser debatida com maior amplitude.

O ponto mais importante externado por Gobbi, no entanto, foi a incapacidade dos clubes de trabalhar como parceiros. Enquanto não descobrirem que são adversários apenas dentro do campo e que necessitam formar um bloco para impor suas condições no aspecto comercial, os clubes permitirão a existência e a influência de figuras como Rubens Lopes. E enquanto não tomarem para si a organização das competições que disputam, terão de enfrentar episódios como o que se viu às vésperas do clássico paulista.

Federações nada mais são do que cartórios dos quais os clubes não precisam. Que os eventos recentes no Rio de Janeiro em São Paulo abram os olhos de dirigentes subservientes.

IDADE

É natural que o Corinthians tenha sido superior ao Palmeiras, em jogo, no primeiro encontro dos rivais no ano. Há mais sentido coletivo em uma escalação alternativa de Tite do que em qualquer formação que Oswaldo de Oliveira possa escolher neste momento. É uma questão de construção de equipe que é simples de compreender e não deveria gerar impaciência entre torcedores palmeirenses. Um dos aspectos em que ela se manifesta é justamente a organização defensiva que o Corinthians mostrou a partir do instante em que ficou com um jogador a menos. Quanto à partida, talvez Cássio não tenha merecido o primeiro cartão amarelo por retardar o jogo, mas, uma vez advertido, não deveria testar a paciência do árbitro em uma situação idêntica. A expulsão que transformou o encontro era evitável, assim como a de Paolo Guerrero na quarta-feira.