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CAMISA 12

por André Kfouri em 31.jul.2015 às 10:58h

(publicada ontem, no Lance!)

EXECUÇÃO

1 – É tão frequente vermos times encolhidos quando jogam fora de casa que uma simples amostra de ofensividade soa ousada, como se o local do encontro devesse impor uma alteração de personalidade. Os minutos iniciais no Mineirão apresentaram o São Paulo como o São Paulo deve ser.

2 – Sinal de inteligência, além de ambição. Jogar a esperar o Atlético Mineiro é encomendar o arrependimento. Mas não é permitido testar a própria sorte, como o ataque são-paulino fez em duas ocasiões flagrantes: Pato, sem potência na finalização diante de Victor, e Reinaldo, sem precisão no cruzamento para Luis Fabiano.

3 – Mal deu tempo de pensar no pecado que é perder gols assim. Marcos Rocha fez Lucas Pratto surgir na área e o argentino, com reflexo para aproveitar o próprio rebote, tocou com o ombro esquerdo. Um gol para relembrar que o futebol, o mais caloroso de todos os esportes, é um jogo frio no balanço de acertos e erros.

4 – A boa execução é uma característica dos times mais maduros em termos de formação. O Atlético está onde está não apenas por saber o que quer, mas por saber como conseguir. A jogada do segundo gol foi um resumo: o cruzamento de Giovanni Augusto encontrou Pratto marcado por Lucão. “O urso” teve confiança para ousar com um leve toque em busca do canto esquerdo. Era a única opção e a realização não poderia ser melhor.

5 – Ganso e Pato combinaram para desperdiçar mais um gol, aos 42 minutos do primeiro tempo. Aos 43, um erro de Hudson criou o terceiro de Pratto. O Atlético não só puniu, como puniu com celeridade.

6 – O São Paulo aparenta ser um time introvertido, que se deprime facilmente.

7 – No recomeço, Ganso e Pato recuperaram um dos gols não concluídos. Um movimento tímido em relação ao placar, mas suficiente para dar competitividade ao segundo tempo. Houve jogo no Mineirão, e bom. A segunda parte poderia ter terminado com um resultado diferente em números, mas não em relação aos pontos.

CULTURA

Um museu da cidade de Las Vegas anuncia uma nova exposição, aberta a partir do dia primeiro de setembro. Na divulgação, a seguinte frase: “um poderoso exemplo dos diferentes modelos do crime organizado”. O tema da atração, chamada “O jogo bonito fica feio”, é a investigação dos casos de corrupção na Fifa. O nome do museu é sugestivo: o Museu da Máfia.

0 X 0 EM MONTERREY

O futebol mexicano, onde grupos empresariais – entre eles, redes de televisão que transmitem os campeonatos – podem ser proprietários de mais de um clube, pode conquistar a Copa Libertadores pela primeira vez. Como time, o Tigres nada deve ao River Plate. Vejamos como a arbitragem da Conmebol se comportará no segundo jogo da decisão, em Buenos Aires.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 28.jul.2015 às 8:01h

(publicada ontem, no Lance!)

ESCALAS

O caminho para a Rússia não seria simples, independentemente da tabela de jogos sorteada anteontem em São Petersburgo. Mas os eventos da última Copa América adicionaram emoção às primeiras escalas da viagem da Seleção Brasileira, o que pode tornar mais perigosa a aventura para chegar à próxima Copa do Mundo.

O Brasil estreia contra o Chile, recém-coroado campeão do continente, em tese o pior adversário possível para a largada das Eliminatórias Sul-Americanas. Para agregar dificuldades, o encontro será em Santiago, no mesmo estádio Nacional em que os chilenos jogaram todas as partidas da primeira conquista da história de sua seleção. A narrativa dos dias anteriores ao jogo se baseará no currículo negativo do Chile em confrontos com a Seleção Brasileira, e na chegada do dia em que, contrariando o que os números indicam, o favorito não será o Brasil.

Neymar, suspenso, não estará em campo em Santiago, assim como não poderá participar do segundo jogo do Brasil na tentativa de classificação para o Mundial de 2018, contra a Venezuela. Também em teoria, não deveria haver razão para temer os venezuelanos, especialmente em um estádio brasileiro. Mas o último encontro com a seleção vinho tinto, na Copa América, mostrou equilíbrio e sofrimento brasileiro – sem Neymar, já impedido de jogar – para sustentar o placar de 2 x 1. Lembrando que uma derrota para o Chile será um resultado normal, o jogo diante dos venezuelanos pode assumir um caráter urgente, o que não ajudará em termos de ambiente.

A terceira rodada das Eliminatórias determina que o Brasil viajará à Argentina, onde, independentemente da época, das escalações e do retrospecto, todos os cenários possíveis devem ser considerados. Os argentinos estreiam em casa contra o Equador e visitam o Paraguai nas duas datas iniciais. Neymar estará de volta da suspensão para reencontrar Messi, se é que o argentino seguirá defendendo seu país após a neurótica campanha de difamação que sofreu pelo vice-campeonato no Chile.

O regulamento do torneio qualificatório prevê que todas as seleções se enfrentarão, de modo que as exigências tendem a se equilibrar ao longo da disputa. Mas encarar os dois melhores times do continente, em ambos os casos como visitante, nas três primeiras rodadas é um incômodo do qual não se pode escapar. A Seleção Brasileira ainda será uma equipe em formação por algum tempo, uma verdade que a comissão técnica esqueceu de salientar com a devida ênfase durante a Copa América, talvez por ter se deixado levar pelos resultados dos amistosos.

Otimistas inabaláveis farão questão de lembrar que vencer o Chile e a Argentina, em seus respectivos domínios, não foi um problema para o Brasil de Dunga nas Eliminatórias para a Copa de 2010. O contraponto a esse argumento é exatamente a diferença de estágio entre aquela Seleção e a atual. Dunga foi campeão continental em 2007, em sua primeira competição no cargo, goleando chilenos e argentinos no caminho. Não é necessário recordar o que aconteceu na segunda Copa América que ele disputou.

MERCADOR VENEZIANO

O próximo amistoso da Seleção Brasileira está marcado para o dia 8 de setembro, contra os Estados Unidos, nos arredores de Boston. Vejamos qual será a explicação do presidente da CBF para se ausentar de mais um compromisso obrigatório, se é que ele oferecerá alguma.

VERGONHA ALHEIA

Chuck Blazer, o cartola excêntrico que ligou o ventilador do escândalo de corrupção na FIFA, era secretário-geral da Concacaf. As barbaridades que aconteceram na Copa Ouro, encerrada ontem, mostram que a entidade que administra o futebol no Caribe e nas Américas Central e do Norte tem mais problemas do que se imaginava. Ou que não está preocupada em escondê-los. A força da arbitragem para conduzir o México à decisão do torneio lembrou o que se viu na Copa do Mundo de 2002, quando os anfitriões coreanos precisavam estar nas semifinais.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 26.jul.2015 às 11:56h

(publicada ontem, no Lance!)

A REVOLTA DAS MARCAS

A mensagem de um dos patrocinadores mais importantes do futebol não poderia ser mais clara. Em carta endereçada à Confederação Sindical Internacional, correspondência que se tornou pública na semana passada, a Coca-Cola confirmou que procurou a Fifa no início do mês para exigir reformas na entidade mergulhada na corrupção.

A demanda da empresa de refrigerantes conhecida em todo o planeta, cuja marca está associada à Copa do Mundo desde 1978, é por uma comissão independente, liderada por um ou mais líderes imparciais e notáveis, para ajudar a Fifa no processo de reconstrução de sua governança. A Coca-Cola não enxerga outro caminho para que “a casa do futebol” – expressão difundida por Joseph Blatter – possa recuperar a confiança que jogou na lixeira. Foi o primeiro ato de uma campanha aberta de pressão sobre a Fifa, à qual já se juntaram outros gigantes do mundo corporativo, como o McDonald’s, a Adidas e a Visa.

Durante uma conversa com jornalistas e analistas de mercado realizada ontem, o executivo-chefe da Visa foi ainda mais incisivo na cobrança a Blatter. Charlie Scharf utilizou sua posição na empresa que investe 30 milhões de dólares por ano em patrocínio à Fifa para pedir a saída das pessoas que dirigem a entidade. Além de apoiar a formação de uma comissão para transformar a Fifa de fora para dentro, a Visa quer a substituição do comando. “Acreditamos que nenhuma reforma significativa pode ser feita sob a liderança atual da Fifa”, disse o executivo.

Não surpreende que as prisões no Baur Au Lac e a opulência dos donos do futebol tenham incomodado as corporações que associam seus nomes à Fifa. Que a ingenuidade não nos faça crer que as práticas dos senhores dos anéis eram desconhecidas e a ação do FBI causou espanto em quem negocia com eles. O problema real é o dano à imagem, e não é complexo entender que ninguém está disposto a gastar milhões de dólares para aparecer de braços dados com figuras que exalam desonestidade e fedor de caviar. Quando quem assina o cheque perde a paciência, mudanças acontecem.

Mas tudo depende do nível de indignação e da capacidade de conviver com o constrangimento. Enquanto pesos pesados internacionais enquadram a Fifa, a crise de imagem da CBF ainda é uma marolinha. Na mesma época em que a entidade brasileira anunciou um acordo de trinta anos com a Ultrafarma, um de seus patrocinadores mais visíveis acusou incômodo semelhante ao que levou a Coca-Cola e a Visa a agir. Em vez de se manifestar publicamente, a empresa em questão aproveitou a ocasião para renegociar seu contrato e conseguiu reduzir o investimento sem perder exposição. Os próximos capítulos da investigação que corre nos Estados Unidos e os potenciais desdobramentos no Brasil podem alterar as posturas, mas não parece que quem se sentou com Teixeira e Marin tenha problemas para sorrir ao lado de Del Nero, o Marco Polo que não viaja.

Em todo caso, aproxima-se, ainda que longe da velocidade ideal, o dia em que marcas brasileiras de alta visibilidade perceberão que podem mudar o futebol no país, e que isso faz todo o sentido não apenas no ponto de vista da imagem, mas no aspecto do investimento. Quem enxerga bem já se convenceu.

DE NOVO

E o futebol brasileiro não chegou à final da Copa Libertadores pelo segundo ano seguido. No caso da eliminação do Internacional pelo Tigres, sim, ficou a impressão de que faltou ambição em Porto Alegre e futebol em Monterrey. Mas prevaleceu a certeza de que o time mexicano é superior e se classificou por isso. Estamos falando de uma equipe que está em início de temporada e, mesmo assim, revelou-se mais entrosada do que o Inter, na metade do ano.

DESPERTAR

Flamengo e Fluminense querem disputar a Copa Sul-Minas. Os clubes começam a notar que não precisam de cartórios. Algum dia notarão que não precisam de ninguém?

ADAPTAÇÃO

Rubén Magnano não ganhou três campeonatos brasileiros. E nem a Copa do Brasil.

CAMISA 12

por André Kfouri em 24.jul.2015 às 9:37h

(publicada ontem, no Lance!)

LETRAS DA BOLA

“Guardiola Confidencial”, edição brasileira do livro que relata a primeira temporada do técnico catalão no Bayern de Munique, foi lançado na semana passada em um evento em São Paulo. Cerca de duzentas pessoas lotaram o auditório do Museu do Futebol, para um bate-papo sobre temas relacionados ao livro e seu personagem.

Durante a conversa, o estimado Paulo Calçade, comentarista e estudioso do jogo, revelou sua pouca esperança de que a obra de autoria do espanhol Martí Perarnau (escrevemos a respeito em uma coluna de setembro do ano passado, quando o livro foi lançado na Europa) fosse lida por dirigentes, técnicos e jogadores brasileiros. A aversão ao método e a prepotência que impera, especialmente no andar de cima, impediriam o nascimento de simples curiosidade sobre um conteúdo valioso.

Mas veio da ex-sede José Maria Marin, local em que certamente não faltam problemas e preocupações, uma surpreendente demonstração de interesse. A CBF encomendou dois exemplares do livro no dia seguinte ao lançamento, e, mais tarde, um terceiro, com um detalhe singular: o endereço de entrega não era o pomposo edifício na Barra da Tijuca. Teria sido um presente? Para quem?

Uma das mais recompensadoras repercussões do evento no Pacaembu foi o que ocorreu a um advogado palmeirense, estimulado pelo comentário de Calçade. As pessoas que comandam o futebol no Brasil subestimam a existência de gente com paixão, indignação e visão suficientes para iniciativas que eles – os dirigentes – deveriam promover, ou, no mínimo, apoiar. Infelizmente não tem sido o caso.

O advogado em questão decidiu fazer o que está ao alcance dele para interferir positivamente no futuro do time para o qual torce. A ideia foi comprar vários exemplares e enviar para os jogadores das categorias de base do Palmeiras, aqueles cujos caminhos podem ser beneficiados por esse tipo de leitura. Até o momento, os contatos com o clube foram infrutíferos. Vejamos se algo acontece.

MUNDO PARALELO

As explicações de Del Nero para não sair do Brasil provocam risos; a Conmebol desmente que houve conversa prévia com o presidente da CBF para alinhar posições sobre a eleição na Fifa; e Marin se defende dizendo que a gravação sobre propinas era uma “pegadinha” em seu interlocutor. Nota-se o apreço pela ficção, apesar da curta vida de cada história.

NOSSO MUNDO

O time que pratica o futebol mais competitivo do país é o Atlético Mineiro. O futebol mais coletivo quem joga é o Sport. Falamos de um campeonato em que prevalecem a exploração do erro do adversário e a transição, expediente que resulta da dificuldade de montar equipes que elaborem o jogo. O Sport tenta atuar com protagonismo, o que é sempre saudável.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 21.jul.2015 às 8:51h

(Publicada ontem, no Lance!)

INSTAGRAM

Aaron Davidson pode ser considerado peixe pequeno no escândalo de corrupção na FIFA. O executivo americano de 44 anos, presidente da Traffic Sports USA, foi o primeiro indiciado no episódio – após as prisões em Zurique – a se entregar às autoridades americanas. Davidson depositou fiança de 5 milhões de dólares no final de maio, valor garantido pelo apartamento onde vive em Miami, além de bens em nome de seus pais na Flórida e no Texas.

A rotina atual do executivo habituado a constantes viagens em jatos particulares está restrita ao endereço onde mora, do qual só pode sair com autorização prévia do FBI, para suas obrigações com a lei, consultas médicas e atividades religiosas. Davidson não pode nem mesmo frequentar a academia de ginástica de seu condomínio se a tornozeleira eletrônica que monitora sua localização não funcionar no local.

Pessoas como Aaron Davidson – e como o brasileiro José Hawilla, posicionado bem acima do americano na cadeia alimentar – estão de um lado do esquema de pagamento de propina que assegurou direitos de exploração e transmissão de eventos esportivos por décadas. Do outro lado aparecem os dirigentes que agiam como catracas remuneradas para selecionar os acessos e os privilégios. Se para cada ato de corrupção é preciso haver corruptores e corrompidos, neste caso os papeis estão bem definidos e evidentes.

Os valores impressionam, especialmente entre os que traficaram influência apoderando-se de algo que não lhes pertence. Os abnegados cartolas do futebol mundial, esses benfeitores que por gerações abdicaram da vida familiar e dos próprios negócios em nome do desenvolvimento do esporte, foram forçados pela polícia federal dos Estados Unidos a revelar um estilo de vida que faz inveja a herdeiros que jamais trabalharam e passam o tempo exibindo-se no Instagram.

Tomemos o caso de Jeffrey Webb, presidente da CONCACAF e vice-presidente da FIFA até ser banido de suas posições por causa do escândalo. O cartola das Ilhas Cayman foi o primeiro, e até o momento, o único, dos sete presos no Baur Au Lac a concordar em ser extraditado para os Estados Unidos. Em uma corte nova-iorquina, anteontem, Webb pagou fiança de 10 milhões de dólares para ter o direito de aguardar o processo em prisão domiciliar. Seu “pacote de soltura” consiste em dez imóveis em seu nome e de familiares, três carros, jóias e relógios de alto valor.

Além de entregar seu passaporte às autoridades, Webb foi obrigado a vestir as tornozeleiras da realidade e está proibido de residir a mais de vinte milhas de distância de uma corte no Brooklyn, em Nova York. Ele não pode manter qualquer tipo de contato com uma relação de pessoas investigadas no caso, enquanto aguarda sua próxima aparição diante do juiz, em agosto. Repentinamente, o Instagram perdeu a graça e os resorts caribenhos à beira-mar parecem distantes.

O mesmo vale para a estonteante coleção de arte de um conhecido político do esporte brasileiro, que por enquanto prefere sua cela nos arredores de Zurique a um voo escoltado aos Estados Unidos, onde a vida sob as regras da Justiça seria um pouco mais confortável, mas certamente mais humilhante.

RAÇA?

Quando deixaremos de analisar atuações com base na quantidade de “vontade” demonstrada por uma equipe ou um jogador? Passa pela cabeça de alguém que um profissional do futebol não queira vencer, que opte pelo resultado que não lhe interessa? Ao nos concentrarmos no esforço aparente, supervalorizamos uma demonstração e ignoramos os aspectos verdadeiramente importantes. Além de criarmos “modelos de desempenho” baseados em premissas erradas. Quem reclama de falta de vontade não pode reclamar de falta de futebol.

HIERARQUIA

Nielson Nogueira Dias trabalhou como quarto-árbitro na merecida vitória do Sport sobre o São Paulo. Pouco depois da expulsão de Juan Carlos Osorio, Dias se esquivou para evitar ser tocado pelo técnico colombiano, que tentava lhe dizer algo. Um gesto antipático ao extremo, típico de quem se considera superior. Dias é capitão da Polícia Militar de Pernambuco.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 19.jul.2015 às 11:18h

(publicada ontem, no Lance!)

NEGLIGENTE

Sérgio Rangel, repórter da Folha de S. Paulo, revelou ontem à tarde que Marco Polo Del Nero não irá à reunião extraordinária da FIFA, na segunda-feira, em Zurique. A decisão do presidente da CBF já foi informada aos dirigentes da entidade envolvida em um escândalo de corrupção, graças ao trabalho da polícia federal dos Estados Unidos.

Del Nero explicou à FIFA que assuntos domésticos exigem sua presença no Brasil: a CPI do Futebol, cujo foco é exatamente a CBF, e a Medida Provisória que trata do financiamento das dívidas dos clubes com a União. Prova de que os tempos realmente mudaram. O hotel Baur Au Lac, refúgio da cartolagem internacional do futebol na cidade suíça, subitamente deixou de ser um destino sedutor para se transformar em local a ser evitado. Como se o imponente cinco estrelas, com vista para o lago e para os Alpes, fosse um albergue caracterizado pelo mau cheiro.

Os motivos alegados por Del Nero para ficar no Brasil não inspiram credibilidade. Ao contrário, deveriam estimulá-lo a entrar no avião e se manter distante, de preferência oferecendo um passeio pela Europa a cartolas nacionais cujo apoio ele preza. É praticamente uma tradição para presidentes da CBF sacar o passaporte e viajar para longe de assuntos desagradáveis, como são a CPI e a MP. Os chiantis e os risotos servidos pelos restaurantes próximos ao hotel sempre foram companhias fiéis dos donos do futebol.

Del Nero não vai a Zurique assim como não foi ao Chile para ver a Copa América. O cargo de presidente da CBF é tão dinâmico que elimina da agenda de quem o ocupa essas atividades esdrúxulas, como participar de decisões sobre o futuro do futebol e acompanhar a seleção nacional em uma competição oficial. A FIFA definirá como se dará a substituição de Joseph Blatter sem a presença de um representante do futebol brasileiro, o mesmo que abandonou a Seleção durante a infeliz passagem pelos estádios chilenos. Em níveis distintos, os dois últimos mandatários da CBF vivem com restrição de liberdade, mas a entidade deseja que você acredite que está se modernizando.

Lembre-se de que Del Nero deixou o último congresso da FIFA, no final de maio, logo após as prisões no Baur Au Lac. Avisou que o escândalo o obrigava a retornar ao Brasil para dar explicações. Quando o fez, negou textualmente que é um dos co-conspiradores numerados que aparecem no documento do Departamento de Justiça dos EUA, como receptores de suborno. Ao não viajar para o exterior para cumprir suas óbvias obrigações, o presidente da CBF se comporta tal e qual um fugitivo, e justifica as desconfianças que o acompanham. Somente uma sociedade que perdeu a capacidade de se indignar tolera tal nível de cinismo.

Além do comportamento contraditório e suspeito, que não se ignore a lamentável falta de solidariedade demonstrada por Marco Polo Del Nero. Em Zurique, entre reuniões e compras, ele certamente encontraria tempo para visitar José Maria Marin na prisão.

VOZ

A Coca-Cola solicitou à FIFA que forme uma comissão independente para liderar o processo de reforma da entidade. A empresa de refrigerantes, que patrocina a Copa do Mundo desde 1974, fez a mais clara intervenção desde que a corrupção na FIFA foi exposta. Já os patrocinadores da CBF permanecem em silêncio.

POESIA

Dizem que só os deuses têm direito a escolher como morrerão. Em dezesseis de julho, aniversário da conquista do Uruguai no Maracanã, Alcides Ghiggia fez sua escolha. Um ataque cardíaco enquanto via um jogo de futebol pela televisão, e Ghiggia se foi. O último sobrevivente do “Maracanazo” morreu no dia em que o nascimento de sua lenda completou sessenta e cinco anos. A estes episódios que desafiam a lógica costumamos dar o nome de coincidências. Mas evidentemente estamos equivocados.

CAMISA 12

por André Kfouri em 17.jul.2015 às 9:58h

(publicada ontem, no Lance!)

CLEMÊNCIA

1 – Após dez minutos de jogo no Beira-Rio, os jogadores do Tigres não saberiam dizer qual era a cor da bola que rolava no gramado do estádio gaúcho. D’Alessandro puniu um erro na tentativa de saída dos mexicanos do campo de defesa, e Valdívia teve sorte em um chute desviado. Antes que Gignac decorasse os nomes de seus companheiros, o Internacional vencia por 2 x 0.

2 – No primeiro tiro de meta após o segundo gol, o sinal claro de um time amedrontado: bola direto para o campo de ataque, sobrevoando tudo o que o novo-rico do futebol do México pensou em fazer.

3 – Um gol estranho ao que o jogo exibia foi como um cilindro de oxigênio para o Tigres. Ayala testou para a rede na primeira trama ofensiva dos visitantes, e o jogo passou a ser disputado por duas equipes. É notável o impacto do chamado “gol qualificado”.

4 – O Tigres não só levantou a cabeça como passou a olhar feio para o Inter. Alisson impediu um gol de Sóbis e outro de Gignac, este em lance individual que incluiu um rolinho cruel em Alan Costa.

5 – A acertada expulsão do zagueiro Ayala, aos 12 minutos do segundo tempo, foi a pior notícia para um time em início de temporada. Garantiu ao Internacional o tempo mais do que suficiente para buscar o terceiro gol, sem pressa e sem correr riscos, e expôs os mexicanos ao máximo esforço.

6 – O Inter falhou ao não pressionar com urgência no meio do campo e não elaborar com paciência no ataque. Não se percebeu no comportamento dos visitantes a vontade de fazer o tempo passar, indício de um time confortável em inferioridade numérica.

7 – Voltando aos dez minutos iniciais, era difícil imaginar que o Tigres sairía de Porto Alegre com um resultado recuperável. A dificuldade dos gaúchos para utilizar o jogador a mais levou o time mexicano a apreciar a possibilidade de se classificar com uma vitória simples em casa.

8 – Quando é necessário ressaltar que o Inter venceu o jogo, é porque deveria ter sido melhor.

BOA LEITURA

A CBF encomendou dois exemplares de “Guardiola Confidencial”, livro que relata a primeira temporada do técnico catalão no Bayern de Munique, que chegou ao mercado brasileiro nesta semana. Bom investimento, especialmente se o conteúdo da obra servir para balancear os conceitos do “conselho de notáveis” formado pela entidade, carentes de atualização.

LEITURA RUIM

As pessoas que comandam o futebol do Botafogo – quando não estão chamando técnicos adversários para a briga, claro – entendem que o time deveria jogar mais? É difícil explicar a demissão de Renê Simões após a eliminação na Copa do Brasil (achavam que o time brigaria pelo título?), quando o objetivo da temporada é terminar o ano com um lugar na Série A.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 14.jul.2015 às 9:02h

(publicada ontem, no Lance!)

FREIO

1 – Fossem adversários em uma corrida eleitoral, Sport e Palmeiras apresentariam curvas inversas chegando ao encontro deste domingo. O Sport, pela primeira vez fora do grupo dos quatro melhores do Campeonato Brasileiro; o Palmeiras, em clara ascensão rumo aos primeiros lugares.

2 – Mas a campanha do time dirigido por Eduardo Baptista não é feita de resultados ocasionais, assim como a longa invencibilidade em seu estádio não deve ser subestimada

3 – A marcação agressiva do Palmeiras no início aparentemente surpreendeu os mandantes na Arena Pernambuco. Uma postura que não só provocou desconforto como evitou que o time de Marcelo Oliveira se sentisse pressionado, como costuma ocorrer com os adversários que visitam o Sport. Um gol desperdiçado por Leandro Almeida (estava adiantado), após cruzamento de Dudu, simbolizou os primeiros movimentos.

4 – O Sport logo recuperou sua personalidade habitual, ofensiva, levando o jogo para as proximidades da área de Fernando Prass. Um desarme de Diego Souza na lateral permitiu que ele acionasse Marlone, já em condições de finalizar. Com o pé, Prass impediu o primeiro gol.

5 – O goleiro palmeirense também desviou para escanteio um chute de longe de Diego Souza, em cobrança de falta cheia de efeito. Na sequência, Matheus Ferraz se aproveitou da falha de marcação na primeira trave e testou no canto. O gol premiou o comportamento dos pernambucanos até aquele instante, o que torna mais difícil de entender o recuo que se percebeu depois.

6 – O Sport deu campo para um time que, nas últimas rodadas, vem se notabilizando pela boa articulação no ataque. A jogada do empate comprovou este bom momento. O cruzamento de Gabriel foi preciso na procura por Leandro Pereira na segunda trave, e expôs a diferença de altura entre o atacante do Palmeiras e seu marcador, Renê. Danilo Fernandes tocou na bola cabeceada, mas com força insuficiente para fazer a defesa.

7 – Quando o Sport começava a se estabelecer como o time mais contundente em campo, uma blitz em sua área gerou o gol da virada. Leandro Pereira aproveitou o segundo rebote (chutes de Lucas e Arouca) para marcar pela segunda vez na noite.

8 – Tão importante quanto a contribuição dele foi a de Fernando Prass. Duas defesas negaram gols a André, quando a pressão do Sport começou a dar o tom do encontro em sua parte final.

9 – Atualização: Prass, incrível. Mais duas intervenções milagrosas, no puro reflexo, converteram o goleiro do Palmeiras no principal jogador em campo. O sistema defensivo perdeu a capacidade de conter o Sport, mas Prass, a última linha, manteve o placar com uma sequência impressionante.

10 – Até que os últimos segundos do tempo regulamentar apresentaram mais uma chance para o Sport sustentar sua invencibilidade como mandante. Conexão de Diego Souza com André, e Prass foi finalmente superado: 2 x 2. A derrota seria mesmo um castigo exagerado.

11- As palavras de Marcelo Oliveira, ainda em São Paulo, foram confirmadas pelo jogo. A subida do Palmeiras depende de um acerto defensivo que o time ainda não encontrou.

APETITE

As boas atuações de Jadson e Elias e a forma como o Flamengo sucumbiu ao plano de jogo do Corinthians ajudam a explicar o resultado do jogo no Maracanã. Perder bolas e oferecer espaço é um expediente suicida, especialmente diante de um adversário que foi para o gramado configurado para punir essas falhas. Os números que melhor traduzem o 3 x 0 (primeira vez que o Corinthians faz três gols em um jogo do Brasileirão 2015) são os de desarmes, em que os visitantes foram mais de quatro vezes superiores. Tamanha disparidade fez da vitória um objetivo impossível para o Flamengo.

BIRRA

O São Paulo conseguiu a segunda vitória seguida, em manhã de Morumbi cheio. A reação de Ganso ao ser substituído destoou no domingo de afirmação, em que as sensações deveriam ser todas positivas.

MÉRITO

Em termos de padrão de atuação, Atlético Mineiro e Fluminense são realmente os dois melhores.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 12.jul.2015 às 10:07h

(publicada ontem, no Lance!)

YODA

Solicitação de licença para tratar de tênis, por algumas linhas, aqui. O que Roger Federer está fazendo nestes dias em Wimbledon é algo tão extraordinário que suplanta a dinâmica competitiva do esporte. É provável que alguém que jamais gostou de tênis tenha se enfeitiçado por esse jogo apenas por ter, sem intenção, se deparado com o suíço em ação na televisão, em sua campanha até mais uma final em Londres.

Federer não tem apenas vencido seus oponentes sem lhes dar chances. Não. A frase nem se aproxima de sugerir o nível de dominação, a forma como os controla sem exibir qualquer evidência de esforço ou desgaste. Uma coisa é dizer que há atletas que nos fazem crer que o esporte que praticam é fácil. Outra é testemunhar um mestre de seu ofício, um artista que nos apresenta uma casta elevada do jogo que julgamos conhecer. Federer é fluente em um idioma tão complicado que são poucos os que conseguem dialogar com ele.

Há tenistas que vencem de forma impiedosa e nos provocam a estranha sensação de torcer para que o jogo termine o quanto antes. Sentimos compaixão por quem é obrigado a absorver a punição diante das pessoas e das câmeras. Quase sempre é uma questão de diferenças técnicas ou de força bruta. O resultado é a mais pura ausência de competição. Federer criou uma terceira experiência: ele leciona. Estimula o adversário a oferecer seu melhor, questiona-o com golpes cada vez mais rigorosos, exige que se supere em um aprendizado, por repetição, de que há patamares acima. E termina por dispensá-lo, quando fica evidente que o diálogo se tornou impossível.

A compreensão do que aconteceu talvez seja difícil para seus oponentes, logo ao final do jogo. Com o passar do tempo, a impressão de que jogaram mal se converte em outra leitura, bem mais otimista: é a convicção de que saíram da quadra melhores do que quando entraram, mais bem informados a respeito de quem são. Todos os tenistas de elite são capazes de vencer jogos entre si, em qualquer semana do ano. Roger Federer é o único que os convence de que há coisas que eles não sabem. Perder para Federer é uma derrota apenas do ponto de vista factual.

O que é notável é o fato de este Federer – há tempos não mais um assassino serial na quadra, mas não menos admirável na pele de um Yoda das raquetes – estar às portas dos 34 anos, com quatro filhos para ver crescer e obrigado a lidar com todos os obstáculos que a idade impõe, até mesmo para os mais cuidadosos e privilegiados. Ele tem se provado um mestre, também, na arte de se conservar em um estado em que suas habilidades estão preservadas e à disposição com menos frequência, mas com o mesmo impacto. A possibilidade de estarmos diante de seu declínio deu lugar a exibições imperdíveis não pelo risco de se tornarem raras, mas justamente pela regularidade de sua grandeza.

É provável que a última oportunidade para levantar um troféu cobiçado tenha chegado. A sabedoria do tênis de Federer pode não ser suficiente para derrotar Novak Djokovic, este sim um vencedor insaciável dos dias atuais. Mas nada tem tanto significado quanto as lições de reinvenção oferecidas por um gênio do esporte.

LEMBRANÇA

Ninguém em sã consciência comemora um acontecimento infeliz. O que merece celebração é o que nos traz boas sensações. Saudar o 7 x 1 é prova de ignorância e mau gosto. Esquecê-lo ou fingir que não aconteceu é fazer o jogo dos responsáveis por ele, pela inexistência da Seleção Brasileira como time e pelos dramas estruturais do futebol no Brasil. O 7 x 1 deveria ter sido o marco zero de uma época caracterizada por práticas responsáveis de gestão, concepções avançadas de jogo e, por óbvio, novas pessoas. Um ano depois, a CBF prossegue com a arrogância das cinco estrelas e com a simulação de trabalho. Compreender um vexame é o único caminho para evitá-lo e, com o tempo, condená-lo definitivamente ao passado. Ignorá-lo ou diminui-lo são garantias de que ele permanecerá entre nós. Os defeitos que conduziram ao 7 x 1 são incrivelmente atuais.

CAMISA 12

por André Kfouri em 10.jul.2015 às 8:53h

(publicada ontem, no Lance!)

FICHADO

José Maria Marin tem gastado bastante dinheiro com advogados (não os que estão na Suíça, que cobram ainda mais) para distanciar um de seus discursos na Assembleia Legislativa de São Paulo da prisão, tortura e morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975. Quarenta anos depois, em decorrência de diferentes acusações, o octogenário aproveitador profissional encontra-se encarcerado em outro país.

Contam os bem informados sobre a rotina de Marin em uma prisão nos arredores de Zurique que o ex-presidente da CBF está inconformado com o fato de “isso” ter acontecido nesta altura de sua vida. Talvez a diligência dos agentes federais americanos tenha surpreendido alguém habituado a práticas menos rigorosas de fiscalização. Mas está longe de ser um exagero afirmar que “isso” até demorou a acontecer.

Na semana do aniversário de um ano do epitáfio do Mineirão, a confirmação de que CBF poderia ter contratado Pep Guardiola antes da Copa do Mundo, e PREFERIU NÃO FAZÊ-LO, é uma notícia que agrava a desabonadora ficha de Marin. Daniel Alves revelou à ESPN que o técnico catalão “já tinha o time em sua cabeça” e não só estava disposto a dirigir o Brasil no Mundial como aceitaria um humilde contrato de produtividade. O depoimento de Daniel avaliza a notícia que este diário publicou em 2012 sobre as intenções de Pep.

Guardiola estava descansando em Nova York após revolucionar o futebol com o Barcelona. Clubes como o Milan, o Chelsea, o Manchester City e o Bayern competiam para fazer chegar a ele a proposta mais indecente. Euros, tempo de contrato, nível de autonomia, idioma… nada seria problemático. Eles só não queriam perder a janela de oportunidade para colocar o destino nas mãos e na mente do profissional que Marin e seus minions simplesmente dispensaram.

A concepção de futebol de Pep Guardiola influenciou um dos maiores times da história e as duas últimas seleções campeãs do mundo. O cartola que não quis contratá-lo está preso. O crime não compensa.

PENSAR…

“E quem garante que com Guardiola o Brasil ganharia a Copa?”, questiona o astigmático incapaz de identificar qual é o ponto central da questão. Talvez ganhasse, talvez não. Talvez até mesmo levasse sete dos alemães. O ponto é em que estágio de jogo, que é o que de fato importa, a Seleção Brasileira estaria hoje sob o comando de Guardiola. Um mínimo de raciocínio.

… É BOM

Um exemplo da maravilha da liberdade de expressão é jornalistas argentinos responsabilizarem Messi pelo “fracasso” da seleção e não serem detidos imediatamente. São os mesmos que o elevariam ao posto de maior argentino da história se Higuaín não tivesse perdido um gol no Rio de Janeiro e em Santiago, em duas finais que a Argentina alcançou por causa de Messi.