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Blog dos Colunistas
  1. 03.nov.2009

    Vasco da Gama e da gente está voltando da longa viagem

    por Mauro Beting

    “O Vasco é vasto porque é o mar que o inspira”. Aldir Blanc é dos mais geniais brasileiros. E um dos tantos geniais vascaínos que, no sábado, deverão celebrar o acesso de quem não se rebaixou em 2008. Diferentemente de alguns Vascos que ganharam muito com o antigo dono do clube, mas fizeram o Clube de Regatas afundar num mar de tormentas, torturas, traumas e tramoias. A nau vascaína quase soçobrou sem sobras ao dobrar o cabo de águas e lamas soluçantes e sem solução nem para Nossa Senhora das Vitórias.

    O Vasco volta para o lugar dele. Que aprenda o que outros gigantes ainda não aprenderam. Que ensine outros enormes a não viverem apenas do nome. A celebração pelo retorno é praxe dessa praga que assola e que desola torcedores tradicionais com o fantasma real do rebaixamento no Brasileirão. Palmas ao elenco, comissão técnica. E até para a direção do clube. Mesmo que parte dela tenha contribuído desgraçadamente para a queda em 2008. Mesmo que alguns deles não possam expiar todos os males e malas do passado recente em outras mãos grandes e desastradas.

    O Vasco voltou. Que não retorne a tudo de errado que fez nos anos em que parecia que fazia certo e apenas rasgara os buracos que afundaram a nau do almirante. A base para 2010 já está em São Januário. Precisa ser reforçada. Mas não radicalmente mudada. O caminho das pedras é sabido. As pedreiras, idem. É só não desviar da rota. É só não arrotar prepotência. É só fazer do jeito certo, sem jeitinho. É só honrar a tradição trabalhadora do clube.

    O Vasco que vai encher o Maracanã e de alegria os vascaínos pelo Brasil honrará a tradição plural e democrática que havia sido sucateada e sacaneada num passado recente terrível e temível. O Vasco pioneiro entre os grandes do Rio ao escalar negros no time campeão carioca de 1923. O Vasco “que é o símbolo da nacionalidade. É a mistura do português com o negro, caracterizando uma generosidade típica do brasileiro”, nas palavras bem desenhadas do craque dos cartuns Chico Caruso. O Vasco que, para o campeoníssimo Nelson Piquet, tem a sina e a sanha necessárias para um gigante da Colina: “Vestir uma camisa que já vem até com faixa de campeão é coisa de predestinado”. O Vasco que, para nosso grande Sérgio Cabral, é tudo: “Amar o Vasco é ter o amor correspondido. É receber de volta o orgulho pela sua história, a alegria pelas suas façanhas esportivas e a certeza de que ele amanhã será maior e melhor do que é hoje”. Amém.

    Os vascaínos sabem muito bem falar de sua paixão. Até porque precisam defender o que muitas vezes é atacado sem dó. Muita gente quis ver o Vasco caído – até alguns vascaínos. Muitos temem a volta por cima vascaína. Exatamente por ser o almirante capaz de singrar mares e desamores sangrando e suando.

    O Vasco da Gama português inspirou Luís de Camões a compor “Os Lusíadas”. Poema épico que poderia ser adaptado às proezas não menos heróicas do capitão-mor da frota de épicas esquadras brasileiras no exterior (o pioneiro campeão sul-americano de 1948, por exemplo). Até na Lua tem uma cratera de nome Vasco da Gama. Para quem olha e não enxerga, é apenas mais um buraco no céu. Para quem vê e crê, sabe que é amor cheio como a Lua.

    Não importa onde esteja essa paixão, na segunda dos infernos, no espaço, ou numa quinta portuguesa. Importa é que, no sábado, no Maracanã, o time da virada vai virar mais uma vez o jogo. Contra o Velho do Restelo de Camões. Contra os jovens que se refestelaram com tantos erros em São Januário. O santo do sangue que borbulha. Do milagre que renasce a cada ano. Dos navegantes que viajam. Que vão e que voltam. Que Vasco!

    Adendo – Obrigado a todos que se manifestaram. Na edição desta sexta-feira, no LANCE!, esta coluna será reroduzida com uma bela charge. Para quem quiser guardar, muito grato, mais uma vez.

    Categorias: BRASILEIRÃO

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